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Liz Truss, a mulher que pode derrubar Boris Johnson

Se nos tempos mais próximos houver uma corrida à liderança do partido, há uma candidata em que os Conservadores britânicos mais lealistas não param de falar. Entra em cena a mais recente ministra dos Negócios Estrangeiros de Boris Johnson – por vezes, a cavalo num tanque de guerra (qualquer semelhança com Thatcher, absolutamente intencional). Charlotte Edwardes fala com elementos de Westminster acerca de Liz Truss, de momento a mais poderosa mulher na política britânica.

Liz Truss, 2020
Liz Truss, 2020 Foto: Getty Images
25 de janeiro de 2022 Máxima

Antes de Liz Truss, ministra dos Negócios Estrangeiros, subir a um pódio para fazer um discurso, ela engole um duplo café expresso, o primeiro de vários que irá tomar ao longo do dia, e dedica alguns momentos a uma conversa interior positiva. Por vezes, mete nos ouvidos uns fones sem fios para uma rajada de enérgica música pop. Quaisquer falhas ocorridas em quase uma década de vida no governo deram-se, crê ela, quando não agiu por instinto, quando pôs em causa a sua primeira decisão, como fez quando foi ministra da Justiça, um papel em que ela se espalhou por completo, ou quando permitiu que os seus colegas do Gabinete do Governo a tratassem com falta de consideração. Crê em ti própria, é o seu mantra agora.

"Acreditem em vocês próprios, acreditem na Grã-Bretanha, este provavelmente seria o seu mote de campanha", diz um antigo assessor. Ela mencionará liberdade, mencionará livre-arbítrio, mencionará comércio livre. Mencionará todas estas coisas diversas vezes, marcando o ritmo das palavras com os saltos-agulha dos seus sapatos. Ela é uma libertária, uma fundamentalista do comércio livre. A sua ideologia é o Thatcherismo na fase tardia: impostos baixos, trabalho e não assistência social, cortar a burocracia, reduzir o setor público, atalhar os direitos dos trabalhadores. Usa chamativos vestidos de cor única: vermelho cabine telefónica, azul forte, mostarda garrida. Não são tanto cores, antes uma declaração de intenções: olhem para mim, a próxima Sra. T, a Dama de Ferro 2.0.

E faz isto porque, se houver uma corrida à liderança do partido nos tempos mais próximos, Liz Truss está na linha da frente. Ao longo do último ano, tem sido a favorita entre os membros do partido e contabiliza uma taxa líquida de satisfação de 82%, de acordo com o site Conservative Home. Rishi Sunak, ministro das Finanças e generalizadamente considerado como o seu mais direto rival para o cargo supremo, definha nuns meros 53%. Eles dão-se bem? "Ela considera Rishi mais como um Philip Hammond, do que como um George Osborne", diz um ex-funcionário governativo. "E, pela sua cartilha, isto é provavelmente o pior insulto."

Liz Truss dirige-se aos delegados no segundo dia da conferência anual do Partido Conservador no dia 5 de Outubro de 2015 em Manchester, Inglaterra.
Liz Truss dirige-se aos delegados no segundo dia da conferência anual do Partido Conservador no dia 5 de Outubro de 2015 em Manchester, Inglaterra. Foto: Getty Images

Com a demissão de Matt Hancock em junho, Truss, de 46 anos, detém agora o recorde do membro do governo com o mais longo mandato contínuo. Com a exoneração de Dominic Raab do Ministério dos Negócios Estrangeiros em setembro, ela foi elevada a um dos quatro maiores cargos do Estado. Isto faz dela "resiliente", "persistente", "uma sobrevivente", de acordo com outros ministros, pese embora seja uma ministra marcada por cicatrizes de guerra. Além de existir uma "genuína tensão" com Sunak, "ela tem uma relação complicada com muitos protagonistas do sexo masculino do partido. Há uma certa atitude um pouco intratável", explica alguém próximo dela. Porquê? "O Saj[id Javid], o Raab, o Hancock: durante muito tempo ela foi tratada [por eles] com tanta falta de consideração. Havia um desequilíbrio de poder. Agora é ela quem está por cima. É a vez dela."

Na política, o timing é tudo. A ascensão de Truss parece ganhar ainda maior evidência à medida que os deputados Conservadores começam a esquadrinhar o horizonte em busca de alternativas, tendo passado da idolatria do PM à fase de se questionarem se ele estará apto a liderar após aquilo que parecem ser sucessivos encobrimentos de festas em Downing Street que violaram as regras aplicáveis ao coronavírus, alegações de que mentiu ao seu consultor de idoneidade sobre quem pagou o seu papel de parede de ouro, de se ter apoiado no Partido Trabalhista para fazer aprovar o seu Plano B e perder as eleições parciais em North Shropshire para os Liberais Democratas.

Quando antes Sunak era considerado como um sucessor natural, agora é visto como "a máquina de dinheiro de Boris", diz um ex-ministro do governo. A acrescer a isto, "se Boris cair com sangue a jorrar para todo o lado, aqueles que lhe são mais chegados vão ficar manchados. Liz tem sorte de estar à distância."

Então, quem é Liz Truss?

Amber Rudd, ex-ministra do Interior, diz: "Eu nunca entendi o que é que as pessoas queriam dizer quando afirmavam que isto e aquilo é muito político e isto e aquilo não é nada político até ter olhado para a Liz. Ela tem sido extraordinariamente política e conseguiu estar ao serviço de três primeiros-ministros diferentes, todos eles muito distintos, e encontrou forma de ser muito bem-sucedida com os três, especialmente com este."

Como ministra dos Negócios Estrangeiros, ela senta-se apenas um lugar desviado da frente de Boris Johnson na mesa do Gabinete Governativo. Em tempos, ela foi cética quanto à ética de trabalho dele (descrevendo Theresa May como "trabalhando que nem uma mula", ao passo que Johnson só "observava as mulas"). Agora ele é, de todos os primeiros-ministros cujo Executivo ela integrou, aquele de quem está "mais próxima ideologicamente". Assim, será que o Reino Unido de Liz Truss teria o mesmo aspeto de um Reino Unido de Johnson? "Sim, mas com impostos mais baixos e menos despesa", insiste um ex-conselheiro. "Seria um país ferozmente otimista."

Mas também há isto: durante a sua campanha para se tornar a mais derradeira e autêntica Conservadora, aliados seus fizeram saber que só ela argumentou contra o aumento de 14 mil milhões de libras em contribuições para a Segurança Nacional violando o Manifesto Tory de 2019. É melhor recorrer ao crédito e depois confiar no crescimento para saldar a dívida, do que aumentar a carga dos impostos para um valor recorde em tempos de paz. Ou pelo menos assim ela argumenta.

E isto: ao longo dos últimos meses, Truss foi fotografada num tanque de guerra Challenger 2, na Estónia ("literalmente em manobras", brinca um colega dela), numa mota Triumph, na Tailândia, e a abraçar um bezerro em Ripon, em Yorkshire. Os críticos acusam-na de estar a vestir a pele de Margaret Thatcher. O Daily Mail apresentou três imagens da ex-primeira-ministra a fazer o mesmo. Truss encolheu os ombros e minimizou o caso como "uma coincidência". Mas sendo ou não um "vestir de pele" a mensagem é forte. "Mulheres em cargos superiores no Partido Conservador são sempre comparadas a Thatcher", diz um ex-ministro. "Ela fá-lo bem. E isso funciona junto dos membros do partido."

Margaret Thatcher e o marido Denis examinam um novo motociclo na Fábrica L.F Harris, onde as motas Triumph são fabricadas, 1987
Margaret Thatcher e o marido Denis examinam um novo motociclo na Fábrica L.F Harris, onde as motas Triumph são fabricadas, 1987 Foto: Getty Images
 Margaret Thatcher a bordo de um tanque de guerra durante uma visita a Alemanha, setembro de 1986
Margaret Thatcher a bordo de um tanque de guerra durante uma visita a Alemanha, setembro de 1986 Foto: Getty Images

Outras imagens que fazem disparar as amígdalas das bases Tories são as da bandeira do Reino Unido, a Union Jack. Truss tem uma em sua casa, em Greenwich, Londres, pronta a ser arrastada como pano de fundo para qualquer reunião por Zoom. Mas é no Instagram que ela tem sido verdadeiramente hábil. Como secretária de Estado do Comércio, deu a volta ao mundo a assinar acordos que amplificaram o seu papel "desta forma simples, mas eficaz", de acordo com um colega do Executivo. "Por cada acordo feito, ela era fotografada apertando a mão do seu congénere, à frente da Union Jack. Os acordos tinham sido negociados pelo seu antecessor [Liam Fox] – tudo o que ela teve de fazer foi assiná-los."

Alguns Conservadores sénior viram isto como "tremendamente implacável" – "Ela comportava-se como um pónei de feira" –, mas Truss não quer saber se eles acham que ela capitalizou com as vitórias de outros ou não. "Não são eles a sua audiência." Para vencer a liderança da corrida, ela precisa de conquistar os membros do partido.

Liz Truss na Tailândia
Liz Truss na Tailândia Foto: @elizabeth.truss.mp
Liz Truss com um bezerro
Liz Truss com um bezerro Foto: @elizabeth.truss.mp

Seguindo a mesma linha, ela usa abundantemente chavões em voga: "brigadas woke"; Winston Churchill. Declara: "Vamos deixar de pedir desculpa por quem somos". Critica a autoidentificação de género e alerta para a "polícia do pensamento politicamente correta que parece ser dominante na sociedade britânica hoje em dia". Em dezembro, num discurso capaz de marcar futuras agendas, que fez perante o instituto de política externa de Chatham House, ela atirou uma bomba incendiária contra a guerra votada à herança cultural. "Nos círculos sofisticados, as pessoas falam em como devemos ter vergonha da nossa história e dúvidas quanto ao nosso futuro", disse ela. "Está na altura de termos orgulho de quem somos e daquilo que representamos. Está na altura de deixarmos para trás a bagagem que nos está a impedir de avançar. A nossa história – com verrugas e tudo – faz de nós aquilo que somos hoje. O Reino Unido é o maior país do mundo. Sejam quem forem, venham de onde vierem, vocês podem alcançar os vossos sonhos."

Embora Truss não quisesse ter de ouvir as instruções sobre mulheres e igualdade quando primeiro as recebeu, segundo outra ministra da altura, ela autodescreve-se como uma feminista ao estilo das Destiny’s Child (citando a letra da canção que diz: "All the honeys who are making money" e diz: "Adoro ser mulher". E: "Gosto do tom de ser confiante e assertiva".

Não mais voltará ela a tolerar a condescendência masculina, que tudo explica como se ela tivesse menos faculdades. Paul Dacre, chefe de redação do Daily Mail, que ficou sentado a seu lado num jantar, disse que ela tinha "um desarmante hábito de fazer perguntas abruptas e descartar a resposta como ‘Tretas’".

Nos bastidores, ela é marrona. Lê relatórios, pesquisas, estudos e "livros, muitos livros". Entre os seus favoritos: Arriscar a Pele, de Nassim Nicholas Taleb, What It Takes, de Richard Ben Cramer, "anything", de Rick Perlstein (sobre Richard Nixon e Ronald Reagan). O livro de Nigel Lawson, The View from No. 11: Memoirs of a Tory Radical ela leu "muitas" vezes. "Lawson e Reagan são as suas estrelas-guias políticas", diz um aliado seu, acrescentando que Truss é fortemente influenciada pelo republicanismo americano. Alguns até acreditam que "ela vai tentar apresentar-se como uma espécie de candidata de um Tea Party britânico".

Desta forma, ela não tem quaisquer problemas em aliciar sub-repticiamente aqueles que estão céticos quanto ao compromisso do governo quanto às emissões líquidas zero. Os seus aliados referem-se aos protecionistas da agricultura, tais como Michael Gove, George Eustice e Zac Goldsmith como o "eixo do mal". Em síntese, diz um ex-assistente, "a Liz é a típica família Ford Mondeo".

Ao Brittania Unchained, o trato político que ela escreveu juntamente com os colegas Kwazi Kwarteng, Dominic Raab, Priti Patel e Chris Skidmore em 2012, este aliado chama um "esquema detalhado" para o seu governo. Portanto, quem seria o seu ministro das Finanças? "Se ela viesse a ser primeira-ministra, eu não excluiria o Kwazi. Ela quereria alguém muitíssimo dinâmico."

Menos óbvio é quem a irá apoiar financeiramente. O seu registo de interesses está impressionantemente desprovido de doadores, tão pouco contém qualquer revelação digna de relevo. Fonte interna sugere que ela poderá estar a angariar financiamento coletivo (crowdsource) entre os membros do partidos – retirando esta ideia, mais uma vez, da cartilha americana.

As bases partidárias Conservadoras adoram a ideia de que Liz Truss seja uma rapariga nortenha, aluna da escola pública generalista, que descobriu à custa do trabalho árduo que podia alcançar os seus sonhos de conquistar uma vaga no Merton College, em Oxford, para estudar Filosofia, Política e Economia. A sua história não é tanto uma passagem dos trapos aos ricos brocados, como uma fuga das correntes ideológicas do que ela já apresentou como a sua família "à esquerda dos Trabalhistas". "Ela acredita que qualquer pessoa que seja de extrema-esquerda tem de ter levado uma lavagem ao cérebro", diz um contemporâneo seu da faculdade. E é através deste prisma que ela fixa a sua política.

Esse seu colega oferece-nos a perspetiva de Truss: "Todos os miúdos devem ter as mesmas oportunidades e o que eles fazem com elas só a eles diz respeito. O Estado deve construir as estruturas necessárias e depois sair da frente e deixar o indivíduo prosperar. A Liz acredita que todas as pessoas poderão fazer aquilo que querem, desde que tenham a oportunidade para isso".

Liz Truss cumprimenta o secretário de Estado norte-americano Antony Blinken na Cimeira dos Ministros dos Negócios Estrangeiros e do Desenvolvimento do G7, no Museu de Liverpool a 11 de Dezembro de 2021 em Inglaterra.
Liz Truss cumprimenta o secretário de Estado norte-americano Antony Blinken na Cimeira dos Ministros dos Negócios Estrangeiros e do Desenvolvimento do G7, no Museu de Liverpool a 11 de Dezembro de 2021 em Inglaterra. Foto: Getty Images

Mas Liz Truss tem mais sorte do que a maioria das pessoas. Ela é oriunda de um confortável meio académico privilegiado. Não foi só o árduo trabalho individual e o seu esforço que a catapultaram para o poder político. A excelência educativa foi encorajada em casa. A política era discutida; a Radio 4 estava sempre sintonizada. O pai dela, John Truss, é professor de Matemática na Universidade de Leeds; a mãe, Priscilla, tem um doutoramento em História Social vitoriana.

Liz Truss nasceu, não no norte granítico, mas em Oxford, no pino do verão, em 1975. Foi o segundo de cinco filhos – o seu irmão mais velho, Matthew, morreu pouco antes de ela ser concebida. Três mais se lhe seguiram: Christopher (1978), Patrick (1980) e Francis (1983).

Quando ela tinha 7 anos, a família mudou-se para Paisley, na Escócia, onde o pai dava aulas na faculdade de tecnologia. Ela marchou pelas ruas gritando, com sotaque escocês, "Maggie, Maggie, Maggie, fora, fora, fora" e fez de Thatcher numa tribuna eleitoral de deputados da sua escola, West Primary, em 1983, onde não ganhou um voto sequer. A mãe dela levou-a a um acampamento de luta pela paz, na Escócia, e em marchas pelo desarmamento nuclear. Elas fizeram um adereço, uma "espécie de bomba meia louca" a partir de uma carpete velha e de rolos de papel de parede, que visto em retrospetiva "não funcionou lá muito bem, porque era um papel de parede com uns motivos florais e que, por isso, as flores viam-se através da tinta que [tinham] passado por cima". Ela chegou a relevar que a mãe, que já fez campanha pela filha e muitas vezes é vista na fila da frente a assistir aos seus discursos, "ainda está envolvida naquele tipo de coisas".

De Paisley, a família mudou-se para a Polónia, depois para o Canadá, entre 1987/88, onde Truss frequentou a Escola Primária Parkcrest, na província de Colúmbia Britânica. Mas se ela tivesse de se descrever como sendo de algum lado, como tendo uma identidade regional, seria de Leeds, disse certa vez.

Há um denso cinto de pobreza e imigração em Leeds, mas a família Truss vivia longe disso, a cerca de cinco quilómetros, mais ou menos, do centro da cidade, no abastado subúrbio de Roundhay. Ingledew Crescent é uma elegante rua vitoriana com casas grandiosas. No exterior, ao longo do passeio, há Range Rovers e BMW estacionados. Enormes janelas de sacada hexagonais mostram paredes forradas de estantes com livros no interior.

Os colegas de escola dos rapazes Truss lembram-se deles jogarem críquete e comerem barras de alfarroba em vez de chocolates. "Era o tipo de bairro onde a ITV estava proibida", diz um amigo da família, onde as crianças estavam inscritas nos Woodcraft Folk ("pequenos escuteiros de esquerda"). "Era muito, muito classe média", diz alguém. "Muito Posy Simmonds."

A família Truss recebia o Guardian e o Independent. Os seus vizinhos eram pessoas de carreira: académicos, advogados, contabilistas.

Na sua adolescência. Liz praticava os verbos de alemão e fazia as equações de matemática com o pai, que lhe chamava Elizabeth. Ela usava jeans desbotados e bebia cidra com as amigas perto da Mansion House, em Roundhay Park, e jogava ténis (a um nível próximo dos distritais) nos courts, perto de sua casa. Em outubro de 2011, ela escreveu um tributo a Jimmy Savile, uma figura local em Roundhay, no Twitter. "Costumava ver o Jimmy Savile no Flying Pizza, na Street Lane, em Roundhay. Sempre bem-disposto. Descanse em paz."

Truss tem sublinhado que andou numa "genuína escola pública generalista", talvez para se distinguir dos seus colegas, que andaram em genuínas ‘escolas públicas’ [que no Reino Unido são privadas]. Na tarde em que visito a Escola de Roundhay, em tempos uma escola primária, o parque está cheio de filas e filas de crianças a caminho de casa, uniformes negros contra a luz fusca, tão impactantes como uma tela de Lowry.

É difícil conjugar isto com o sítio que Truss invoca: uma instituição ao estilo da série Grange Hill, em que Oxbridge [combinação entre as universidades de Oxford e Cambridge] era inalcançável para a maioria das crianças, que era também um viveiro de wokes, onde o Inglês e a Matemática eram abandonados em troca de lições em discriminação sexual e racismo.

Ela já tem dito: "Eu insurgi-me contra muito do palavreado que se ouvia na escola acerca de – como é que hei de dizer isto? – da ideia de que, por exemplo, ir para a Universidade de Oxford era uma coisa demasiado snobe para se fazer ou que, de certo modo, abrir um negócio era algo um pouco corrupto… Eu estava cética quanto ao tipo de conversa politicamente correta que ouvia e o facto de dar a sensação de que nenhumas outras opiniões eram permitidas".

E continuou: "Fui [para Oxford] porque as pessoas me disseram que era algo muito snobe para se fazer. Não gosto que me digam [o que fazer] e no instante em que disseram que aquilo era um pouco finório, quis ir para lá". Esta ideia é ridicularizada pelos seus colegas ex-alunos. Diz um deles: "Para usar a expressão de Liz Truss: isso são tretas". Na verdade, uma dúzia de alunos [da sua escola] tentaram entrar em Oxbridge; outros foram para universidades do Grupo Russell, como Durham e Manchester, e depois entraram para a função pública ou nas vertiginosas correntes da diplomacia.

Colegas políticos admitem que Truss tem tendência para "reenquadrar" as coisas, expressão que, penso eu, na verdade significa que ela por vezes dirá coisas que não são inteiramente verdade. Naquela altura, os pais dela posicionaram-se mesmo "à esquerda dos Trabalhistas"? Amigos da família resmungam: "Não". Numa descrição mais rigorosa, dizem eles, estariam à esquerda do centro – Blairistas ou liberais democratas. Sim, Priscilla Truss fazia parte do movimento pacifista. Mas também era membro do Clube Literário de Leeds do Norte ("um clube de leitura que surgiu 40 anos antes dos clubes de leitura"). A casa estava sempre cheia de ruído e de gente. Priscilla era afetuosa e acolhedora. Quando o John e a Priscilla iam à ópera ou ao teatro, os amigos juntavam-se lá em casa para beber cerveja. Era onde se assistia aos eventos desportivos e onde as Passagens de Ano eram celebradas.

Embora não partilhe a política de Liz, a família sempre foi intensamente chegada, digamos que são bastante amigos, e alguns deles até fizeram campanha com ela durante as eleições (embora o pai tenha ficado em casa para "aparar a relva"). Truss disse acerca deles: "Os meus pais são pessoas bem-intencionadas, [mas], olhando agora para trás, penso que tinham a noção errada". Os filhos ficaram devastados quando John e Priscilla se divorciaram, em 2003, depois de John ter declarado o seu amor por outra mulher, uma relação que não correu bem. Priscilla vive agora em Chapel Allerton, outro subúrbio chique de Leeds, dizem os amigos de Truss, e tem um novo companheiro, que vive em Bolton.

Liz Trus em Downing Street, Inglaterra (2021)
Liz Trus em Downing Street, Inglaterra (2021) Foto: Getty Images

Liz Truss iniciou a sua vida em Merton como liberal democrata, lançando-se na política estudantil. Em 1994, apresentou-se como antimonárquica, dizendo num discurso: "Nós, liberais democratas, acreditamos nas oportunidades para todos. Não acreditamos que as pessoas nascem para governar".

"Penso que é justo afirmar que quando eu era jovem, era uma polemista profissional e gostava de explorar ideias e de atirar achas para a fogueira", disse ela no mês passado no podcast de Nick Robinson. Merton é uma das mais velhas universidades de Oxford, fundada em 1264, e tem uma reputação de extrema cromice e rituais cultistas, tais como a "cerimónia do tempo" (para aqueles que têm estômago para tradições estranhas envolvendo vinho do Porto e togas, vão investigar).

Um contemporâneo da ministra lembra-se de achar tudo aquilo "muito desfasado da realidade". O meio ambiente de Truss, diz ele, era composto de jovens botas-de-elástico, que tendiam a preferir blazers com botões dourados, enquanto o resto da sua geração adotava o estilo Cool Britannia. "Eles aceitavam de bom grado serem não-fixes." Truss ele recorda como tendo cabelo em tom pelo-de-rato, e de vestir longas saias e écharpes compridas. Um protótipo de Hermione Granger? "Mais ou menos".

Em Merton, Truss sofreu a sua conversão radical para o Conservadorismo de direita. Foi enquanto estudava Economia que "se fez luz", disse ela. "Eu tinha sido um grande adepta de termos a liberdade de fazermos o que quiséssemos. Apercebi-me de que, para controlarmos a nossa própria vida, é preciso controlarmos o nosso próprio dinheiro… Além disso, conheci Conservadores e [descobri] que estas pessoas não têm duas cabeças e não comem bebés [ao pequeno-almoço]."

Aqueles que testemunharam isto sentiram que ela estava a revoltar-se, de algum modo, contra uns antecedentes que ela achava que a tinham rejeitado. Segundo aqueles que agora a conhecem bem, ela não tem amigos nas bancadas Trabalhistas e a sua rejeição fundamental da esquerda parece estar profundamente enraizada e ser quase pessoal. Dito isto, uma pessoa próxima dela descreve-a como "a pessoa menos propensa a tecer juízos de valor que já [conheceu], mesmo apesar de ter opiniões incrivelmente fortes".

Ela adora argumentar, é certo. Um amigo da família recorda ter feito a Passagem do Ano para a entrada do novo milénio travando um debate acérrimo com ela numa festa lá em casa, em Greenwich. Um seu contemporâneo de faculdade lembra-se de, certa vez, ter sido intimidado com um: "Estás errado, estás errado, estás errado".

Os orientadores universitários, pelo seu lado, consideravam-na exuberante e entusiástica. "Ela era, definitivamente, uma aluna inesquecível – cheia de ideias originais e energia", diz um deles. "Com grande abertura de espírito e criativa, nada dada a aceitar simplesmente as ortodoxias."

Depois de se licenciar, Truss começou a trabalhar de imediato. Obteve as qualificações como contabilista e trabalhou por uns tempos como gestora comercial na Shell, como economista e diretora de contas na Cable & Wireless, bem como diretora-adjunta do laboratório de ideias Reform.

Foi durante este período que ela conheceu Hugh O’Leary, um licenciado pela London School of Economics. Os dois casaram-se em 2000, enquanto O’Leary estudava e se preparava para ser contabilista. Agora ele "trabalha em finanças" sedeado predominantemente em casa, de modo a poder sustentar a carreira de Truss e cuidando das duas filhas adolescentes de ambos, Frances e Liberty, que frequentam seletivas escolas do Estado.

Um amigo chegado diz que quando alguém troça de Truss dizendo que não tem muitos amigos, ela responde: "Mas as minhas filhas são as minhas amigas. É esse o objetivo de os ter. Eles tornam-se os nossos amigos". E que, apesar das suas elegantes aparições públicas, o seu lar é uma casa de doidos, com miúdas a correrem com frigideiras de panquecas na mão, roupas por todo o lado. "Parece que explodiu uma bomba." Ela é uma excelente cozinheira (faz os seus próprios croissants e pãezinhos de canela), mas é uma péssima condutora, dizem os amigos. É um erro alguma vez olhar para dentro da sua carteira: "É um buraco negro". Em contrapartida, ela possui um foco-laser para o trabalho e está em contacto constante com a sua equipa, seja ao telefone ou por meio de mensagens cheias de emojis. "A mais perigosa época para se trabalhar para Liz é quando ela está de férias", diz um ex-assessor. "Ela tem demasiado tempo para pensar. Após cerca de dois dias, é certinho que nem um relógio, ela está de volta. Ela simplesmente não para de ler. Não para de pensar."

Para descontrair, ela vê programas de lixo na TV, tais como Drivers, Dive-Ins and Dives, bem como a série Veep, e já se comparou a si própria a Arya Stark, a adolescente assassina da Guerra dos Tronos. Ela gosta de dançar ao som da música de Taylor Swift e de Little Mix e corre num parque que fica por perto. ("Ela gosta de correr com uma amiga, porque eu penso que assim ela sabe que não vai desistir da ideia").

Hugh O’Leary, dizem os funcionários que trabalham com ela, está a preparar-se para assumir um papel mais visível na vida dela, à medida que a sua proeminência aumenta. Ela tem revelado pouco da sua relação, para além de ter dito que os dois têm uma conta bancária conjunta e de ter brincado dizendo que o amor partilhado de ambos pela economia "significa que, sempre que [quer] ter uma discussão acerca da reforma pelo lado da oferta, há sempre alguém à mão".

O enfoque na sua relação foi intenso depois daquilo que foi talvez a pior experiência da sua carreira política: um caso romântico de 18 meses com o deputado Mark Field, entre 2003 e 2005. O casamento de Truss sobreviveu. O de Mark Field não e o nome Truss foi chamado ao processo de divórcio. Os seus potenciais eleitores do sudoeste de Norfolk, que não tinham reparado na história então estampada no The Mail on Sunday, ficaram furiosos. O vereador Cliff Jordan declarou-a como "mercadoria demasiado danificada". Sir Jeremy Bagge, antigo supremo-xerife de Norfolk, disse: "Votei em Miss Truss, mas o facto é que nós fomos totalmente enganados pelo facto de nunca nos terem dito que havia esqueletos no armário. Fez o Executivo de parvo e de mim também, eu não estou preparado para ser tratado como parvo".

Apesar disto, Truss foi eleita por 13.140 votos em 2010. David Cameron tornou-a subsecretária de Estado para a Educação e a Assistência à Criança em 2012, seguindo-se o cargo de secretária de Estado do Ambiente, em 2014. Foi nomeada ministra da Justiça no primeiro Executivo de Theresa May em 2016, mas ela "meteu água", de acordo com um funcionário superior do Nº 10 daquela altura, o que quase lhe custou a carreira no governo. Truss deu uma quantidade de passos em falso, incluindo ter sido incapaz de apoiar os juízes quando foram acusados de serem "inimigos do povo" pelo Daily Mail, o que levou a que perdesse a confiança da magistratura.

Um assessor descreve a sua subsequente exoneração como "brutal", mas também como um ponto de viragem. "Ela sentiu que o seu maior erro foi não ter dado ouvidos aos seus próprios juízos. A partir daquele momento ela desenvolveu uma mentalidade de "que se f**a". Foi tipo: ‘Eu vou ser eu própria. E vou acreditar em mim própria’". Ela movimentou-se para se tornar secretária-geral do Tesouro em 2017, um cargo que desempenhou bem, diz um colega do Executivo, porque, basicamente, ela é uma contabilista".

 Liz Truss fala com a gerente de custódia Wendy-Fisher Mcfarlane enquanto é escoltada pela prisão HMP Brixton a 1 de Novembro de 2016 em Londres, Inglaterra
Liz Truss fala com a gerente de custódia Wendy-Fisher Mcfarlane enquanto é escoltada pela prisão HMP Brixton a 1 de Novembro de 2016 em Londres, Inglaterra Foto: Getty Images

O elemento do Nº 10 acrescenta: "A forma como ela deu a volta por cima [depois dos seus tempos como ministra da Justiça] demonstra três coisas. Primeiro, que ela navega num campo menos competitivo. Segundo, que defensores do Brexit têm mais vidas do que maioria dos outros. Por enquanto. E terceiro, que ela pode renascer do fracasso".

Truss é também muito divertida, de acordo com aqueles que já trabalharam com ela. "Ela é incrivelmente afetuosa, amável e cómica", diz um ex-assessor. Quando lhe pergunto acerca da sua aparente interminável energia, outro assessor deita as mãos à cabeça e diz: "Ó meu Deus, ela não é normal. Não é normal. Desde as seis da manhã, até às dez e meia da noite, ela continua, continua, continua". Ele recorda estar num avião, a vários lugares de distância e, assim que tocou o sinal avisando o fim da obrigação de manter os cintos de segurança apertados, ela estava levantada, qual sempre-em-pé, a cutucá-lo, a arrancar-lhe os auscultadores. "Mas ela motiva-me", continua ele. "Lembro-me de termos ido jantar. Ela disse-me: ‘Tornaste-te um molenga. Onde está a tua garra? Onde está a tua gana?’ E é isso que ela tem o tempo inteiro. Ela tem uma gana absoluta e tenaz e muita determinação. Ela é simplesmente incansável. Não sei onde acaba a pessoa e começa a política, mas ela é simplesmente assim. É uma chefe muito boa. É uma boa pessoa, que inspira imensa fidelidade. Mas ela nunca para."

Um sinal da sua louca ética de trabalho? Romperam-se-lhe as águas para o parto da primeira filha durante uma reunião de trabalho. Outro ministro descreve-a como "prestável", alguém que dará conselhos valiosos sobre como lidar com o Executivo.

Também não é segredo que ela é um ser energicamente social, que gosta de um bom copo de vinho (ou de um balão de whisky), ou que organizou festas conjuntas de karaoke com Thérèse Coffey, cujo cargo em Westminster era o oposto ao dela. Estas eram festas lendárias – um sítio para os deputados descontraírem por completo. Era onde George Osborne podia ser encontrado a cantar rap, onde Jeremy Hunt berrava a Suspicious Mind, de Elvis, e onde Truss podia ser vista na sua melhor imitação de Madonna, por vez com uma peruca cor-de-rosa. Numa viagem para Israel, em finais de junho, os funcionários em Telavive foram avisados antes da sua chegada. "A Liz quer sair depois do trabalho. Por favor, incluam isso na agenda." Na conferência do Partido ela pôs-se "a namorar com uma Smirnoff Ice" e, à meia-noite estava a dançar ao som de Simply the Best, de Tina Turner, num evento LGBT+ no clube Cruz 101, em Manchester.

Outros dizem que a sua personagem "divertida" atinge os limites do "palhaço" e do "excêntrico", com "ideias loucas que por vezes têm de ser traduzidas para inglês". Um veterano do Nº 10 diz: "Ela é uma pessoa difícil de compreender, uma vez que tem um forma estranha de interagir. A conversa dela não flui livremente". Também nos discursos a sua oratória pode ser hesitante.

Aqueles que a conhecem há anos dizem que ela "esforça-se muito" na interação social, "às vezes demasiado – a experiência é um pouco ao estilo do extraterrestre da série Mork & Mindy", as suas piadas podem parecer ensaiadas e acertar ligeiramente ao lado do alvo e, por uma qualquer avaria da sua proprioceção, ela põe-se demasiado perto das pessoas de uma forma que é desconcertante. "Vemo-la no átrio quase encostada às pessoas", diz um ex-colega. "Os homens às vezes pensam que ela está a atirar-se a eles."

No seu discurso-maratona-de-caretas na conferência do partido de 2014, as suas expressões faciais saltaram violentamente de uma emoção para a seguinte: "Nós importamos dois terços do nosso queijo". Cara séria. "Isto. É. Um. Escândalo." Cara zangada. "Em dezembro estarei em Pequim inaugurando novos mercados." Cara encantada.

Truss não se importou com o gozo que se seguiu. Pelo contrário, ela desativou as configurações de privacidade do seu Instagram e começou a publicar prolificamente: pizza, pratos de fritadas, a porta de Downing Street com as cores sufragistas, selfies dentro da Câmara dos Comuns. Ela trata as hashtags como notas de rodapé com a dimensão de várias linhas. "Sou inteiramente autodidata", declarou ela, e escreveu um artigo para um jornal com o título "Como recuperei o controlo do Instagram depois de me ter tornado um meme piroso".

Embora ainda esteja atrás de Sunak nas guerras do Instagram, com 21.000 seguidores contra os 154.000 dele, o seu entusiasmo já no passado tem "causado dificuldades ao partido". Em 2019, Truss publicou uma fotografia de seis ministras do Executivo britânico e da PM Theresa May com Lubov Chernukhin, mulher de um oligarca russo, que tinha pago 135 mil libras [mais de 161,3 mil euros] pelo prazer da sua companhia num leilão num evento Conservador para angariação de fundos. O momento foi descrito como uma ébria "noite de saída de garinas". "Aquilo irritou toda a gente", diz um colega. "Ela não demonstrou qualquer arrependimento."

"Para ela", suspira um ex-elemento do Nº 10, "não existe qualquer outra realidade que não a das redes sociais".

Ainda assim, há muito quem não veja isto como uma obstrução ao progresso. Paul Dacre decidiu, tendo ficado sentado a seu lado, que gostava dela e "[suspeita] que Truss há de ir longe. Espero que ela não se importe que eu sugira que talvez beneficie de uma remodelação para um estilo Maggie, de modo a suavizar aquela voz metálica e o riso rouco e irritante". (A sua gargalhada é de facto uma rajada de metralhadora. Também é capaz de soluçar e guinchar, tipo blocos de esferovite em fricção).

Embora seja pouco provável que ela mude, dizem os colegas (e não goste que lhe seja dito o que fazer, especialmente por um homem), todos os olhos estão postos sob a forma como Truss está a dirigir o Ministério dos Negócios Estrangeiros. A sua flagrante ambição e pureza ideológica pode ser um êxito junto das bases do partido, mas terão também tradução no palco mundial? Estar aos comandos de tanque de guerra britânico na fronteira russa, por exemplo, pode ser lido de diferentes maneiras. Ela foi gozada na TV estatal russa e houve um apresentador que a apelidou de bipolar (o que ela não é).

O maior golpe, claro, seria garantir a libertação de Nazanin Zaghari-Ratcliffe da prisão no Irão, aproveitando-se do esmerado trabalho diplomático desenvolvido pelos anteriores ministros dos Negócios Estrangeiros Dominic Raab e Jeremy Hunt e alcançando algo que Boris Johnson quer desesperadamente. Truss já manifestou o seu empenho nisto ao referir, no seu discurso em Chatham House, uma "dívida legítima" de 400 milhões de libras [perto de 478 milhões de euros] que o Reino Unido deve ao Irão.

Na eventualidade de uma campanha para a liderança, será que Truss tem um calcanhar de Aquiles? Os colegas preocupam-se com a sua capacidade para debater "e não declamar apenas". Diz um observador: "Eu só acho que há nela uma espécie de rigidez cognitiva que penso que ficaria realmente sujeita a um teste de esforço e constituiria um problema se alguma vez ela desse consigo a ter de fazer debates. Temo que ela viesse a tornar-se um meme ainda antes de a corrida ter chegado ao fim".

Até agora, a maior mancha no seu caderno foi perdoada e esquecida pelos membros do partido: Liz Truss votou pela permanência na EU. A maioria dos deputados não teve tanta sorte. Há quem se lembre de ter feito campanha com ela e de ficar impressionado pela sua sinceridade. "A sua defesa da Permanência era incrível. Era tão credível e apaixonada".

Seria genuína? Um ministro do Executivo duvida. Eles têm uma nítida recordação de Truss num corredor de Westminster preocupada com o seu sentido do voto. Perguntava ela: "‘Que lado é que achas que vai ganhar?’ Ela só queria estar na equipa vencedora".

Créditos: Charlotte Edwardes/The Times/Atlântico Press

Tradução: Adelaide Cabral

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