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Entrevista. Priscilla Chan, a mulher por trás do fundador do Facebook, quebra o silêncio

Priscilla Chan e o marido, o fundador do Facebook Mark Zuckerberg, valem milhares de milhões de dólares – e ela está a doar praticamente toda a sua fortuna para obras de caridade. Kirsty Lang encontra-se com Chan para descobrir o que faz mexer a primeira família da Big Tech.

Priscilla Chan, a mulher por trás do fundador do Facebook
Priscilla Chan, a mulher por trás do fundador do Facebook Foto: Jessica Chou/The Times/Atlântico Press
05 de novembro de 2021 Máxima

A minha entrevista com Priscilla Chan chega em mais uma semana péssima para a empresa do seu marido. O Facebook, a rede social que Mark Zuckerberg fundou quando ele e Chan ainda estudavam juntos em Harvard, tem estado nas notícias – e não de uma forma positiva. Vou ficando à espera de que Chan cancele tudo, mas não o faz. Em vez disso, do escritório dela pedem-me que evite fazer perguntas acerca do Facebook, porque ela não pode responder em representação do negócio do marido. Isso não vai ser fácil numa altura em que grassa uma autêntica tempestade de fogo e o Facebook está a merecer comparações com as Grandes Tabaqueiras devido a alegações de que pôs os lucros à frente da saúde e segurança dos seus clientes e utiliza algoritmos que amplificam conteúdos de dissensão e potencialmente perigosos.

Vou encontrar-me com Chan no coração de Silicon Valley – não muito longe da casa do casal, em Palo Alto –, na nova e resplandecente sede, em Redwood City, da Iniciativa Chan-Zuckerberg (CZI, na sigla inglesa). Através da CZI, Chan e o marido planeiam doar 99% da sua fortuna. Tendo em conta que eles são os maiores acionistas de uma empresa que vale um bilião de dólares, trata-se de muito dinheiro. Eles têm grandes ambições: "Ajudar a curar, prevenir ou controlar todas as doenças até ao final do século" e criar uma sociedade mais equitativa, em que todas as crianças tenham oportunidades iguais. Até ao momento, eles já doaram mais de 3000 milhões de dólares.

Decorados com murais de cores garridas, quadros de artistas locais e ecrãs que vão exibindo histórias de mulheres inspiradoras, os escritórios são reminiscentes de uma escola primária com bons apoios financeiros. Há uma cafetaria que oferece comida saudável e salas de reuniões temáticas com nomes como Pizza e Falafel. Encontro Chan lá em cima, no jardim do terraço, posando para o fotógrafo. Está descontraída e sorridente, é uma daquelas pessoas por quem é impossível não sentirmos logo simpatia – um contraste evidente com o seu marido, que muitas vezes transmite a impressão de ser frio e robótico. Ela brinca com o facto de esta ser a primeira vez que usa saltos altos desde que começou a pandemia. "Por favor, escreva que eu subi dois lanços de escadas com estes saltos-agulha", diz ela, antes de trocar os seus Manolo Blahniks por um par de ténis brancos.

Depois saca de uma T-shirt e calções da sua volumosa bolsa para me mostrar o que mais costuma usar normalmente. Apesar de ser uma das mulheres mais ricas do mundo (o valor líquido do património do marido calculado à altura em que escrevia este artigo era de 115,9 mil milhões de dólares [cerca de 100,2 mil milhões de euros]), não há nada de exteriormente aparatoso em Chan, de 36 anos, uma ex-professora que se requalificou como médica. Ela não está a usar qualquer joia, à exceção de uma simples aliança de ouro, e a sua maquilhagem mal se nota.

Chan e Zuckerberg casaram-se em 2012 – um dia apenas depois de o Facebook ter passado a ser uma empresa cotada na Bolsa de Valores e na mesma semana em que Chan se licenciou na Faculdade de Medicina. Quatro anos mais tarde, ela deixou o seu emprego como pediatra para se tornar copresidente executiva a tempo inteiro da CZI, gerindo o seu orçamento de vários milhares de milhões de dólares. Deve ter sido um salto bastante grande? "Foi o pânico total, no início", diz ela, "mas sabe o que é simultaneamente encantador e enfurecedor no Mark? Ele sempre teve mais confiança em mim do que aquilo que eu própria fui capaz. Ele diz sempre: ‘Tu consegues’". O casal tem duas filhas – a Maxima (Max), de 5 anos, e a August, com 4 – e Zuckerberg anunciou que eles iam montar a fundação sob a forma de uma carta aberta dirigida a Max no dia em que ela nasceu. Zuckerberg ainda estava a tentar consultar Chan sobre a melhor forma de expressar o que dizer na carta quando ela entrou em trabalho de parto. Ela acabou eventualmente por lhe dizer que terminasse a carta sozinho: "Eu estou ocupada com outra coisa neste momento".

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Críticos do Facebook – que são muitos – poderão especular sobre até que ponto a fundação funciona como uma lavandaria de reputação para Zuckerberg, mas para a mulher dele a motivação para ajudar as pessoas parece ser genuína e sincera. Pergunto-lhe de quem foi a idea de a criar: dela ou de Mark? "Sabe, o Mark e eu conhecemo-nos há 18 anos, isso é metade da minha vida", responde ela. "Ele sempre soube que restituir é a missão da minha vida. E bastante cedo – logo em 2005, quando se tornou claro que nós, ele ia tirar algum dinheiro do Facebook – nós decidimos que tínhamos de restituir algo [à sociedade]."

Saliento que a Chan surge primeiro que Zuckerberg na designação da fundação. Foi um gesto feminista? "Não", responde ela. "Ambos temos um profundo sentido de organização e a ordem alfabética é uma forma de impor ordem."

A relação de Chan e Zuckerberg começou durante o primeiro semestre dela em Harvard. Ela era uma estudante bolsista, que estava com dificuldades em integrar-se. Filha de refugiados da Guerra do Vietname, ela tinha crescido em Quincy, um subúrbio da classe operária irlandesa em Boston. Os pais dela mal falavam inglês, trabalhavam em vários empregos e tinham dificuldades em fazer face às despesas. O pai, Dennis, por fim acabou por juntar dinheiro suficiente para abrir um restaurante chinês em Boston, onde ele e a mãe de Chan, Yvonne, trabalhavam 18 horas por dia. Consequentemente, Chan foi sobretudo criada pela avó.

Chan andou na Escola Secundária de Quincy – uma instituição profissional que preparava os seus alunos para serem canalizadores e eletricistas –, onde ela diz que se sentiu como uma intrusa e foi horrivelmente vítima de bullying. Costumava comer o seu almoço escondida na casa de banho das raparigas para evitar o recreio. As ciências, no entanto, eram bem ensinadas – incluindo a robótica – e Chan teve notas excelentes. Um dos seus professores, o sr. Swanson, ajudou-a a candidatar-se ao curso de Biologia em Harvard. Também a encorajou a prender a jogar ténis, que ele ensinava, porque sabia que a universidade preferiria um CV bem-composto. Os pais dela encorajaram-na? Ela ri-se e diz que, para eles, Harvard era apenas uma paragem na linha do metro de Boston.

Entrar para uma universidade tão prestigiada foi um dos melhores momentos da vida de Chan, mas ela detestou Harvard. Mais uma vez, sentia que não se encaixava ali bem. "Toda a gente falava da mesma maneira", diz ela. "Vestiam-se da mesma forma, sabiam como estudar." – Ela recorda como as raparigas mais abastadas andavam todas com malas Longchamp made in Paris. – "Eu nem sequer as tinha visto antes e não conseguia compreender por que razão algo feito de plástico, com um pedacinho de cabedal, custava tanto dinheiro."

Chan tinha um acordo de trabalhador-estudante e isso significava que ela tinha de ganhar o seu sustento. Um dos seus empregos envolvia servir chá uma vez por semana aos seus colegas estudantes. "Harvard é moldado com base em Cambridge e Oxford – é assim tipo o Harry Potter", diz ela. Todos nós vivíamos em casas durante três anos e um das tradições da nossa casa era, às quintas-feiras, todos os estudantes serem convidados para tomar chá. O meu emprego de trabalhador-estudante era cozinhar barrinhas doces de arroz crocante e fazer chai para os alunos."

Priscilla Chan na 'Breakthrough Prize Ceremony 2020' no Centro de Pesquisa Ames da NASA
Priscilla Chan na 'Breakthrough Prize Ceremony 2020' no Centro de Pesquisa Ames da NASA Foto: Getty Images

Mark Zuckerberg estava um ano à frente dela – um génio-totó da matemática que escrevia código informático desde a sua pré-adolescência. Ele tornara-se famigeradamente célebre por ter criado um site chamado Facemash, que avaliava as universitárias de Harvard como "Brasas ou não". Zuckerberg enfrentava naquele momento um processo disciplinar por violação das regras de privacidade da universidade e estava plenamente à espera de ser expulso quando conheceu Chan.

Esta, diz ela, foi uma das razões por que ele foi tão rápido a convidar-me para sair – ele achou que não lhe restava muito tempo. "Tinha acontecido o Facemash", recorda ela, "e foi organizada uma festa pelos amigos dele que estavam tipo ‘Vais definitivamente levar um chuto daqui p’ra fora’. Era para se despedirem." Eles encontraram-se e puseram-se à conversa enquanto estavam à espera numa fila para a casa de banho. Depois da festa, ele convidou-a, a ela e algumas amigas, para irem até ao dormitório dele. Houve ali um clique logo à primeira?

"Tínhamos um sentido de humor muito semelhante", diz Chan, e ele ficou impressionado pelo facto de ela perceber as anedotas dele sobre código informático. "Lembro-me de que ele tinha uns copos de cerveja que diziam ‘Libra esterlina inclui cerveja ponto H’. É uma tag [etiqueta eletrónica] para C++. É tipo humor universitário, mas com um encanto totó e informático." Soube de fonte fidedigna que C++ é código de programação, mas confesso que ao chegar àquele ponto não faço ideia do que ela está a falar. Aquilo que percebo é que dois jovens que se sentiam socialmente desajustados no meio da juventude dourada de Harvard encontraram-se um ao outro.

Tiveram lugar uns quantos encontros românticos em rápida sucessão. Ela gostava dele, mas estava horrorizada pela falta de respeito dele pelas regras e regulamentações. "Eu não violo as regras – eu tinha literalmente esgravatado o meu caminho com unhas e dentes até Harvard e ali estava aquele miúdo prestes a ser expulso." Ele também a tinha deixado chocada logo no segundo encontro ao anunciar que deveria estar a estudar para um teste no dia seguinte, mas preferia passar esse tempo com ela. "Para a Priscilla certinha, ele era um bocadinho rebelde", diz ela, rindo-se de si própria. No fim, Zuckerberg não foi expulso de Harvard, mas mais tarde abandonou a universidade para criar a sua rede social que viria a tornar-se o Facebook.

Priscilla, entretanto, usou o seu tempo livre na universidade para fazer voluntariado. Ela ensinou crianças de meios desfavorecidos, num bairro social não muito longe do sítio onde ela cresceu. O seu primeiro emprego depois de Harvard foi como professora de ciências em escolas do 2º ciclo.

Os antecedentes de ambos não podiam ser mais diferentes. Zuckerberg cresceu no seio de uma família judia instruída, da classe média no estado de Nova Iorque. Os pais de Chan tinham fugido do Vietname nos anos 1970 em barcos precários. "Sou chinesa por herança, mas ambos os lados dos meus avós, maternos e paternos, viviam em Saigão e ambos tinham vários filhos que queriam contrabandear para fora do país", conta. "Mas o medo era que, se se pusessem todos num só barco e este se afundasse, perdiam-se os filhos todos. Então eles dividiam-nos. Imagina o que é fazer essas contas? Enviar os seus filhos, muitas vezes a meio da noite, sozinhos, em barcos raquíticos, durante uma guerra, para o Mar do Sul da China?" Ela estremece.

A mãe dela, Yvonne, tinha 12 anos na altura e foi posta no mesmo barco que a filha de uma família amiga. As raparigas foram eventualmente recolhidas e colocadas num campo de refugiados na Tailândia. Alguns anos mais tarde, Yvonne conheceu e casou-se com um amigo do irmão – Dennis –, mas seriam necessários 10 anos até que os diversos membros das duas famílias se reunissem na América. Chan nasceu na América, em fevereiro de 1985.

Os seus olhos enchem-se de lágrimas quando me conta esta história – ela diz que chora facilmente desde que teve as filhas. Pergunto-me como se terá sentido quando o Presidente Trump postou milhares de anúncios na plataforma do seu marido caracterizando a imigração como "uma invasão". Trago à conversa a escolha de palavras de Trump e o facto de este ter a certa altura dito acerca dos membros de um grupo de imigrantes: "Isto não são pessoas, isto são animais".

Pela primeira vez, ela parece ficar desconfortável, depois diz: "Foi chocante ouvir isso – ouvir um Presidente proferir palavras como essas". Como é que ela se sentiu quando foi à Casa Branca jantar com a família Trump? Isso deve ter sido constrangedor? "Eu… eu acredito que… se houver uma hipótese de partilhar um trabalho que é importante para nós, devemos fazê-lo. Eu encontrei-me com o Presidente Trump e encontrei-me com o Presidente Obama, porque estas são pessoas importantes, que conseguem influenciar o rumo do nosso país."

Não posso deixar de sentir que Chan é o yin para o yang de Zuckerberg. Quando o par eventualmente se casou em 2012, na casa dele de Palo Alto, com menos de 100 convidados presentes, as pessoas ficaram surpreendidas ao descobrir que o fundador do Facebook tinha sequer uma namorada de longa data, quanto mais que ela estava preparada para dar o nó com ele. Na consciência pública, ele era o protagonista do filme de Aaron Sorkin A Rede Social – um tipo meio génio, meio totó que montou um site na faculdade para avaliar estudantes universitárias como forma de vingança por não poder ir para a cama com elas.

Só recentemente é que Chan saltou para as luzes da ribalta – e única e exclusivamente para promover a sua fundação. A RP dela diz-me que esta entrevista é a mais longa e mais aprofundada que já deu.

Depois do nosso encontro, ela tem de ir ter com o marido para uma reunião a sós agendada semanalmente, que tem sempre lugar à quinta-feira à tarde. "Somos muito organizados", diz ela, rindo-se de uma forma ligeiramente embaraçada. "A reunião a sós é para tomarmos decisões técnicas de trabalho que têm de ser tomadas. E na verdade mantenho uma agenda corrente que nós percorremos. O grande tópico em discussão hoje vai ser orçamentos para a CZI." Eles também têm uma noite semanal marcada para um encontro, em que poderão sair para irem a um restaurante. Um antigo colega de Zuckerberg certa vez contou que o fundador do Facebook é tão picuinhas com a sua noite semanal de saída que certa vez abandonou um retiro empresarial da News Corp, explicando a Rupert Murdoch que ia levar a Chan ao cinema.

Pergunto-me o quanto Zuckerberg usará a mulher como caixa de ressonância, especialmente quando o Facebook está a ser objeto de escrutínio apertado. A resposta dela é vaga. "Nós falamos sobre tudo. E… sim, nós conversamos sobre as coisas e eu posso ver o quão atencioso ele é. Eu adoro que ele me dê a opinião dele." Suspeito que isso possa ser uma rua de um só sentido. Num pequeno-almoço-entrevista televisivo na CBS, que o casal fez em conjunto na sua casa de Palo Alto, ela disse a brincar que, no tocava a aprender mandarim, "o Mark era melhor a falar do que a escutar". O meu palpite é que tal poderá aplicar-se também ao seu inglês.

Resulta claro que eles são ambos pessoas muito viradas para a família. Naquela mesma entrevista, Chan está a fazer bolinhos com as filhas numa cozinha em open-plan, com uma ilha enorme. A casa deles é uma mansão tradicional revestida em madeira, com um alpendre que tem uma cadeira de baloiço, paredes brancas e chão de madeira, grandes sofás cinzentos e uma lareira na sala de estar, ladeada por estantes de livros. Zuckerberg pagou 7 milhões de dólares por ela em 2011 – e mais tarde comprou as quatro casas vizinhas e os respetivos lotes de terreno por 44 milhões, para usar como acomodações para convidados e instalações recreativas.

Priscilla Chan com o marido e as filhas
Priscilla Chan com o marido e as filhas Foto: @zuck

Zuckerberg tirou dois meses de licença de paternidade quando August nasceu, em 2017, e, segundo Chan, ele é um pai muito interventivo. Os dois dividem entre si os cuidados a prestar aos bebés: ela trata das manhãs e ele da hora de deitar. Ambas as crianças estão na pré-primária enquanto eles estão no trabalho. O que envolve para Mark a rotina de pôr as meninas na cama? "Às vezes leem livros juntos. Outras fazem código de programação juntos." Quando expresso a minha surpresa face a este ritual noturno específico, Chan explica como hoje em dia há formas fantásticas de ensinar os miúdos a programar e que é tudo muito visual. "O Mark faz isso com a August desde que ela fez 3 anos."

Eles estão a educar a meninas na fé judaica, por isso Zuckerberg faz umas quantas orações à hora de deitar, mas em mandarim. Como Chan foi criada a falar tanto cantonês como mandarim, pergunto-lhe se as filhas são bilingues. Ela suspira. Sabe, nós tentámos sem que tenhamos sido terrivelmente bem-sucedidos, mas dedicamos tempo a garantir que elas são… multiculturais." Todas as sextas-feiras eles têm amigos e família lá em casa para o jantar do Sabat, mas ela serve comida chinesa a par da kosher. Pergunto se Nick e Miriam Clegg fazem parte do seu grupo de amizades e a sua resposta é apropriadamente diplomática. Ela já se encontrou com ambos e "eles são muito simpáticos".

Durante o primeiro confinamento eles aninharam-se em Palo Alto, aí trabalhando e dando aulas em casa às miúdas. Ela diz que, tal como toda a gente, tiveram dificuldades em conseguir entregas de alimentos, embora eu tenha de me esforçar para imaginar os Zuckerbergs a ficarem sem papel higiénico. Ela adora cozinhar e é uma fã incondicional do programa The Great British Bake Off. "Adoro porque eles são todos tão simpáticos uns com os outros. Todos se ajudam uns aos outros. No episódio que acabou de dar cá, há duas senhoras que estão ambas a fazer esculturas de um cavalinho de baloiço com bolachas e elas estão a ajudar-se uma à outra. E eu ponho-me tipo… ‘É disto que eu preciso’. Precisamos que haja mais disto no mundo!"

Tendo em conta que dois dos outros casais Big Tech multimilionários que lançaram fundações de caridade – Bill e Melinda Gates e Jeff Bezos e MacKenzie Scott – estão agora divorciados, pergunto-me qual é o segredo para um casamento bem-sucedido no mundo deles. A resposta, aparentemente, é imenso tempo dedicado à família, praticando desportos juntos, e um gosto partilhado por jogos de tabuleiro. "Gosto do Catan, estou mesmo fã do Cidadelas, e do Monopólio – Jogo de Cartas. Portanto, basta jogar seja o que for que os alemães tiverem decidido que é bom este ano."

Eles não jogam juntos jogos de computador, mas para alguém que dedicou a sua carreira, até agora, à saúde e educação nos primeiros anos, Chan parece extremamente descontraída quanto ao tempo que as filhas passam agarradas a dispositivos eletrónicos. A Max tem o seu próprio iPad onde joga jogos e resolve problemas de matemática e ambas as meninas têm acesso supervisionado a computadores no infantário.

Priscilla Chan com o marido e as filhas no Halloweeen (2019)
Priscilla Chan com o marido e as filhas no Halloweeen (2019) Foto: @zuck

Menciono as acusações de que o Instagram – também propriedade do seu marido – está a prejudicar raparigas adolescentes e que, de acordo com as próprias investigações internas do Facebook, uma em cada três adolescentes do sexo feminino relataram sentir-se mal em relação aos seus corpos depois de estarem expostas na rede de partilhas de fotografias. Qual é a sua política no que toca às suas próprias filhas aderirem a redes sociais? "Bem, não antes dos 13 anos, porque é essa a regra."

Eu insisto, explicando como a minha sobrinha de 14 anos sentia a pressão social para estar no Instagram, mesmo apesar de isso a tornar infeliz e a fazer sentir que precisava de perder peso. Ela acena a cabeça compassivamente e diz que o importante é conversarmos com os nossos filhos acerca destas questões, encorajá-los a partilhar os seus sentimentos e ajudá-los a gerir as pressões sociais.

"As redes socias são uma comunidade online, mas as crianças participam em muitas comunidades que elas não controlam – nós não controlamos – completamente e há muitas variáveis que nós podemos seguir para os manter felizes, saudáveis e seguros." Ela faz estas declarações não de uma forma evasiva, mas de uma maneira que indica acreditar realmente que isto é verdade.

E tem uma resposta semelhante para a questão de o movimento anti-vacina usar o Facebook para espalhar informações erradas acerca das vacinas contra a Covid-19. Não considera ela isto perturbador, especialmente tendo em conta que a CZI doou dinheiro para a investigação, realização de testes e desenvolvimento de novos tratamentos para a doença?

"O principal é falar-se com as pessoas acerca da informação que elas encontram e ouvir, realmente, o que elas têm a dizer. Porque existe provavelmente um núcleo de razão em todo o lado onde as pessoas andam à procura de um certo resultado ou de certa informação. E se as descartarmos é difícil chegarmos ao cerne daquilo que está a deixá-las preocupadas."

A atitude de Chan no que toca a integrar-se na sociedade americana enquanto filha de imigrantes sino-vietnamitas foi "baixa a cabeça e trabalha arduamente". Ela cresceu pensando que o racismo era algo sentido pelas populações negras e hispânicas, historicamente desprivilegiadas, mas os ataques aos asiáticos no rescaldo do Covid-19 (que Trump rotulou de "vírus chinês") alterou essa noção.

Quando ela fala acerca de "loucura", eu decido mencionar o elefante na sala: a acusação de que o Facebook está a ganhar dinheiro ao amplificar o discurso de ódio e desinformação; que os fundos que suportam todos os projetos da CZI, incluindo o financiamento de uma série de grupos antirracismo, advêm de uma plataforma que prospera com, e só aumenta, a discórdia. Que resposta tem ela para isto?

"Que eu estaria a fazer este trabalho independentemente disso", responde ela. "É pessoal e relevante e estou grata por poder fazê-lo a esta escala. É nisto que está o empenhado do nosso coração. E é aqui que está o coração do Mark."

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Mas será mesmo? Uns quantos dias antes eu tinha ouvido um relato muito diferente acerca das motivações de Zuckerberg da parte de Frances Haugen, a delatora do Facebook. Ela contou perante uma audiência do Senado, em Washington, como a empresa ignorou avisos das suas próprias equipas de investigação sobre a forma como os seus próprios algoritmos incitam as pessoas a conteúdos nocivos. Haugen disse que o Facebook está habituado a "agravar fossos, desestabilizar democracias e fazer miúdas novas e mulheres sentirem-se mal acerca dos seus corpos". Numa invulgar demonstração de unidade, tanto republicanos como democratas na comissão do Senado dos EUA pareceram unir-se a ela nos apelos por mais regulação.

No seu testemunho, Haugen disse que o Facebook está "a otimizar-se para conteúdos que obtenham participação ou reação". A empresa apercebeu-se, disse ela, "de que se alterar o algoritmo de modo a ser mais segura, as pessoas irão passar menos tempo no site, irão clicar menos em anúncios e eles farão menos dinheiro". Ela também salientou que, à medida que o Facebook se foi continuando a expandir globalmente, simplesmente deixou de ter os recursos necessários para monitorizar conteúdos de ódio em milhares de línguas e dialetos.

Num comunicado de resposta às alegações de Haugen, o Facebook disse: "Todos os dias as nossas equipas têm de equilibrar a proteção do direito de milhares de milhões de pessoas de se exprimirem abertamente face à necessidade de manter a nossa plataforma um sítio seguro e positivo (…). Sugerir que nós encorajamos conteúdos nocivos e nada fazemos é simplesmente falso."

É claro que Priscilla Chan considera aquelas afirmações profundamente perturbadoras, especialmente a alegação de que o Facebook amplifica o ódio étnico. "Nós crescemos falando acerca destes problemas durante muito tempo", diz ela. "Não há uma cura simples para o racismo. Isto é algo complexo e temos de lutar contra isto coletivamente. Eu sei que do lado do Facebook, para o Mark, eles estão a trabalhar nisso. E eu sei que, a cada dia que passa, eles estão a lidar com questões difíceis e substanciais."

E continua: "Sabe, nós lançámos a CZI quando eu tinha – meu Deus! – 30 anos. Não por que pensássemos que tínhamos as respostas todas, mas porque sabíamos que íamos precisar do resto das nossas vidas para descobrir como fazer isto corretamente."

E o que diria ela àquelas pessoas que argumentariam que em vez de darem todo o seu dinheiro através de fundações de caridade, os titãs de Big Tech deviam era simplesmente pagar a justa proporção de impostos.

"Para ser bem clara, ninguém escapa aos serviços da Autoridade Tributária. Mas concordo, de facto, que precisamos de uma reforma – garantir que toda a gente está a pagar a sua quota parte e contribuir para sociedade de uma forma que ajude a erguer toda a gente. E esse é o caminho para o avanço do nosso país."

Ela quase chora pela segunda vez quando lhe pergunto por que razão a sua fundação fez recentemente um donativo de 350 milhões de dólares [302,7 milhões de euros] para The Just Trust, um que a CZI afirma ser o maior donativo único alguma vez feito para reformar o sistema de justiça americano, que é extremamente punitivo e encarcera mais pessoas do que o de qualquer outro país do mundo. "Nos Estados Unidos, uma em cada duas pessoas são ou foram afetadas ou têm membros da família direta ou próxima afetada pelo sistema de justiça penal. Isto é pessoa sim, pessoa não. A perda de todo o potencial das pessoas que encarceramos – a falta de redenção. É desolador."

Chan explica por que razão este assunto é tão pessoal para ela.

Ao crescer, ela conheceu miúdos na escola que acabaram na prisão. Pouco depois de se licenciar como pediatra, trabalhou naquilo que ela descreve como um "hospital de recurso" de São Francisco – um daqueles para onde se ia quando não se podia pagar seguros de saúde. Um dos seus primeiros doentes foi uma menina com doença crónica cujo pai estava preso. "Passei muito tempo com a mãe e a menina, enquanto se preparavam para o seu regresso a casa, discutindo o modo como ele se poderia envolver nos cuidados dela. Estávamos todas tão entusiasmadas quando chegou o dia marcado e depois, duas consultas mais tarde, ele estava de volta à prisão. Isso doeu muito."

Terminámos a nossa entrevista a discutir Chamem a Parteira. Ela expressa uma admiração pela TV britânica e eu sugiro que ela poderá gostar da série porque é inspiradora, mas ao mesmo tempo comovente, e Chan quase se deita a chorar mais um pouco. Ela pergunta se me pode dar um abraço, algo que me deixa bastante sensibilizada.

Não consigo deixar de sentir que Chan é o compasso moral que os críticos do Facebook acusam Zuckerberg de não ter. Mas há aqui uma questão muito mais complexa em causa. É admirável que um casal opte por dar 99% da sua fortuna. Mas isso levanta questões acerca de como é que essa fortuna foi acumulada e à custa de quê? Da saúde mental de raparigas adolescentes? Da propagação de desinformação? Maria Ressa, a destemida jornalista filipina que ganhou este ano o Prémio Nobel da Paz, apelidou o Facebook de "ameaça à democracia".

Dar os lucros do Facebook para combater doenças, reformar a educação e o sistema de justiça criminal americano limpa os seus pecados? É esse o dilema moral que enfrentam dois millennials americanos que se tornaram num dos mais poderosos casais do mundo. Eu submeto à consideração de Chan que com grande riqueza vem grande responsabilidade. "Absolutamente", responde ela, "e nós sentimos uma enormíssima responsabilidade de devolver à sociedade, fazermos a nossa parte". Eu só espero que o marido dela aprenda a escutar mais.

Kirsty Lang/The Times/Atlântico Press

Tradução: Adelaide Cabral

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