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Alexandra Moura: "Quis afirmar-me sem nunca ter cedido à pressão do sistema, e ser a única completamente diferente no meio de tanta coisa igual"

Passaram 20 anos desde que Alexandra Moura desfilou a sua primeira coleção na ModaLisboa para a primavera/verão de 2002. O olhar rebelde e romântico continua intacto, mas agora chega ao futuro e ao outro lado do mundo.

Foto: Rui Aguiar
18 de outubro de 2021 Patrícia Barnabé

A sua natureza punk e livre, sonhadora e experimental levou-a à Moda naturalmente, como uma inevitabilidade. Estudou no IADE, em Lisboa, palmilhou muita passerelle, também noutras cidades europeias, está representada em showrooms nas semanas de Londres e Paris. Hoje é uma referência incontornável na Moda portuguesa, já mencionada em várias publicações internacionais e merecedora do prémio Mulheres Criadoras de Cultura, atribuído pelas secretarias de estado da Cultura e dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade pela "relevância e coerência da obra, inovação e caráter pioneiro da atividade artística e impacto social e cultural". A designer também dá aulas, desenha para espetáculos de dança ou para artistas como Joana Vasconcelos, a fadista Gisela João ou o DJ e produtor Branko, como para os palcos das nossas vidas. É das mais interessantes e intrigantes criadoras portuguesas e a sua relevância não parece esbater-se no tempo.

Alexandra Moura
Alexandra Moura Foto: Rui Aguiar

A Máxima apanhou Alexandra Moura numa manhã solarenga de sexta feira, depois do desfile dos seus 20 anos da semana de moda de Milão, onde é convidada desde 2019 pela Camera de la Moda Italiana, e ainda nas preparações para o do Portugal Fashion. No seu atelier em Xabregas, onde se senta todos os dias de frente para a sua jovem equipa, a mesa de corte e uma janela iluminada, sentámo-nos rodeadas de charriots.

Como correu o desfile em Milão? Marca os 20 anos da tua marca, por isso imagino que tenha sido pensado com ainda mais amor.

Adorei! Apesar de não poder ter o espaço e as coisas como quis, porque isso implica budgets e estamos dependentes das salas da Camera della Moda, dentro do que foi possivel gostei muito do desfile. A coleção diz-me muito, se calhar é muito diferente do que têm sido os volumes e o romântico, mas que são apenas uma parte do processo da minha vida criativa. Tem subtilmente um pouco de tudo: o lado conceptual, o romântico, o lado mais roqueiro e underground, a desconstrução do clássico, tem o sport e o urbano, que tem vindo a crescer, e tem peças de autor para vires para a rua, apanhares o autocarro, ires para as aulas. Quis também trazer para a coleção alguém de quem admiro imenso o trabalho. Sempre colaborámos juntos, e somos grandes amigos ao longo destes 20 anos, temos uma química intelectual, um abre o olho e o outro levanta o dedo e cada um sabe o que o outro quer e as referências onde está – e que é o Rui Aguiar. Esta coleção acabou por ser embelezada com fotos dele, que foram inspirações e fizeram parte de um momento da minha vida. Algumas delas com a Elin, que foi a cara da marca durante muito tempo, e que foram usadas no convite para a abertura do primeiro atelier, um grande passo de qualquer designer (antes trabalhávamos em casa). É uma coleção para a qual olho e transporto-me muito rapidamente para qualquer momento destes 20 anos, foi uma coleção muito especial.

Já sabias o que querias, foste aos arquivos inspirar-te ou seguiste a intuição e o instinto?

Eu já tinha ido aos arquivos para a coleção de verão de 2021, por causa da pandemia, não havia tecidos e fomos ao espólio de matérias-primas da marca. E isso fez com que me virasse para dentro, descobrisse os pontos fortes que foram sendo a assinatura ou o ADN da marca. A coleção anterior, de inverno, foi ainda mais atrás, foi ao meu momento de escola, às minhas influências, ao que me fez vir para a Moda, as referências que eu tinha, ao meu lado estético, ao que eu gostava, ao momento em que comecei a ser disruptiva. E como já tinha esse background de andar a pesquisar há um ano o interior de tudo isto, esta coleção levou-me a pensar no que é que quero assinalar. Claro que tive a necessidade de adaptar isto tudo ao momento em que estou, àquilo que estou a sentir, o que me apetece ver vestido na passerelle ou na rua, e foi tentar encontrar um balanço entre várias dicotomias: o romântico e o underground, o trash ou o chunga e o clássico e o sport; o extremamente bem acabado com a desconstrução total… Tentar encontrar aqui pontos de equilíbrio para que ficasse coerente e homogénea, e não fosse cada coordenado um momento diferente, estar tudo interligado e contar a sua própria estória.

Alexandra Moura
Alexandra Moura Foto: Rui Aguiar

Referiste o teu lado punk e disruptivo, como era a Alexandra que um dia quis ser designer de moda?

Vivi o pico da minha adolescência quando saí de Lisboa, porque a minha mãe resolveu ir viver para a Figueira da Foz, uma terra onde não havia qualquer informação de Moda, ainda não havia computadores nem internet, foi só através das revistas, felizmente, que comecei a viajar muito cedo. Tinha 14, 15 anos, aquela idade em que te queres afirmar, e sofri imenso porque era uma terra completamente fechada, cinzenta, quadrada e resistente, quase tirana para a mudança. Comecei a vestir-me toda de preto – coisa que não mudou muito até hoje – e com as viagens a Londres a trazer as Doc Martens, a rapar o cabelo e a pintá-lo, a fazer maquilhagem mais assim ou asssado, a misturar peças que eram da minha avó, anos 50, com um lado mais punk e óculos de massa preta… Sofri muito para me afirmar, era muito ostracizada, no liceu, na rua, mas ao mesmo tempo que me fez sofrer também me fez afirmar-me ainda mais e decidir: é isto que eu quero ser e não quero saber de mais nada nem de ninguém. E neste gosto pela estética e pelas misturas, eu não tinha um guia para saber se estava ou não na Moda, era intuitivo. Já cortava a roupa, já desfiava, já deixava inacabado, mas para aquelas pessoas era uma pelintra. E as viagens vieram dizer-me que, afinal, eu tinha um lugar no mundo, porque fora daquela terra havia muito mundo de gente.

Viajavas só para Londres?

Nessa fase foi Londres, depois tive a fase de ir a Praga e à Grécia, mas, teve piada, em cada País eu percebia as influências das pessoas na forma como se comportavam, como se vestiam, qual era o ADN de cada sítio. E, se calhar, isso fez-me ser tão eclética na Música, na Moda, na Arte, consigo encaixar-me e sentir Beleza em coisas completamente opostas. Naquela altura, final dos 80 e 90, era tudo muito circunscrito às tribozinhas, e não podias sair daquilo se não eras posta de parte, mas para mim não me fazia sentido nenhum, eu gostava de misturar várias coisas de mundos diferentes, até do beto, como a calça curtinha a ver-se a meia…  

Lá fora havia muito mais gente diferente, claro.

Lá fora via muita gente a fazer o mesmo que eu, a misturar sem qualquer pudor e sem qualquer preconceito. Nos anos 90, quando tirei o curso, comecei logo a fazer coleções e a fazer coisas. E numa das idas a Londres fui a uma loja de tecidos e nunca mais me esqueço de ver - fiz logo a comparação com as lojas de tecidos cá onde os senhores estão de gravata, muito sérios - ali o empregado tinha o cabelo completamente rapado, todo tatuado, cheio de piercings na cara, a atender uma deliciosa velhinha inglesa cheia de cachuchos nos dedos, super arranjada, à imagem da rainha, a ver um tecido delicado. E ela completamente deliciada com ele e ele completamente deliciado com ela, e isso bateu-me como não podes imaginar. Aqui entravas numa loja e olhavam para ti de cima a baixo, porque tinhas o cabelo às cores, ou rapado muito comprido ou um eyeliner até não sei onde. Lá entrei na Louis Vuitton ou na Gucci, já não me lembro, porque pensei: "estou a estudar Moda, tenho de sentir o que é isto, mas não me vão deixar entrar." E perceber que o porteiro te esboça um sorriso do tamanho do mundo e te faz uma daquelas vénias para entrares e chego lá dentro e vejo gente igual a mim, e asiáticos ainda piores cheios de sacos de compras, e percebes: ok, realmente não avalies pela encadernação. E todas estas coisas me fizeram despertar e querer sempre afirmar-me sem nunca ter cedido à pressão do sistema, e ser a única completamente diferente no meio de tanta coisa igual.

Alexandra Moura
Alexandra Moura Foto: Rui Aguiar

Já havia uma grande vontade de experimentar e de quebrar regras que, no fundo, são a mesma coisa. Lembras-te bem da primeira coleção?

Isso mesmo, quebrar regras, meter na roupa aquilo que eu sabia, à partida, que era recriminado, olhado de lado e visto como pobre. Na minha primeira coleção tive malhas completamente destruídas por falhas de agulhas e buracos, pareciam que tinham traça, nos cotovelos, nos colarinhos, tudo desfiado, já muito desconstruído, fiz uma manipulação de tecidos que ficaram praticamente destruídos, casacos de fazenda preta já sem bainha e com os forros à mostra… Eu sabia que as pessoas olhavam para mim como para um mendigo, só faltava estar rotinha e suja. E foi isso, precisamente, que trouxe para a primeira coleção. Foi engraçado quando vi agora a coleção da Miu Miu, com os forros a sair, nós já fazemos isso há muito tempo. Isto está mesmo naqueles anos em que as pessoas começaram a querer ser disruptivas e a intervir, a cortar e a fazer elas próprias, a dar o mote e o seu cunho às peças.

A atitude punk é das mais românticas, tens de te preocupar para te chateares e querer mudar. Por isso, havia em ti uma vontade de mudar aqui, se não pegavas nas tuas coisinhas e ias para Londres.

Sempre a querer mudar. Aliás, nessa primeira coleção, em 2002, um jornalista que veio com a Diane Pernet, o Robbie Young, foi jantar connosco ao Bairro Alto e perguntou-me para onde é que eu queria ir desenhar que ele arranjava forma de eu ir. Mas porquê? Lembro-me do sítio do restaurante, do que ele tinha vestido, do que eu tinha vestido, está tão presente na minha cabeça e às vezes vem ao de cima. Essa coleção não teve feedback da imprensa nacional, mas houve um boom da imprensa internacional, do Robbie e da Diane, e na estação seguinte eu já estava a ser convidada para ir a Barcelona fazer a semana alternativa à Gaudi, que era o circuito. Depois já era muito bem vista, é o costume, mas ele insistia que eu tinha de me ir embora. E havia uma grega, como é que ela se chamava? Sofia Kokosalaki, que tinha acabado de surgir e ele achou que podia ser um atelier fixe para eu ir, nem a conhecia na altura. Mas não quis, "então estou a começar agora!" E ele dizia: "Mas tens de ir!" Perguntei-lhe porquê e ele respondeu: "Porque nunca vais ser entendida aqui, vai demorar muito tempo e vais arrepender-te muitas vezes." 

"Nunca vais ser entendida" não é verdade, mas é difícil. E ficaste, mesmo assim. Resistente.

Mesmo assim, eu estava com aquele romantismo de começar e pensei: "Ok, não tenho agora tomates, nem força anímica, para, de repente, largar tudo. Foi o que teve de ser, mas não me esqueço destas palavras do Robbie Young. Foi um bocado aquela coisa: vou-te mostrar que vou conseguir, mas muitas das vezes vacilei e pensei que ele tinha razão, porque têm sido 20 anos de resiliência pura e dura.

Poderias ser a número dois ou três de uma marca a vida inteira e ver as tuas peças desfilar com crédito alheios.

Claro que sim, mas bateu-me porque fez-me sentir que eu estava no tempo errado no País errado. Mas pronto escolhi sempre o caminho mais difícil! Mesmo quando abrimos a loja, em 2012, desenhada por um amigo arquiteto, foi no momento em que o mundo estava a desabar. Chegámos a ter o The New York Times a fazer um artigo sobre a loja, e a dizer que a loja se encontrava em Lisboa, mas parecia que estávamos em Nova Iorque, e tive uma turma de arquitetos que vieram com a diretora sueca do IKEA visitar a loja, ver como estava concebida, o tipo de artigos e como estavam expostos. A verdade é que há muita gente em Lisboa que diz que apoia os criativos portugueses, mas nunca lá pôs os pés. Por isso é que quando houve a primeira Fashion’s Night Out da Vogue, nós esvaziámos a loja toda e enchemo-la de papel celofane a dizer sold out por todo o lado. A entrada da loja eram plásticos grossos, como se fosse a peixaria do Continente, e lá dentro pusemos a instalação de uns urinóis com umas baratas do Sebastião Lobo, um joalheiro que estava a entrar para a loja… Se queres ver a loja tens 365 dias por ano, não vens agora só para beber um copo, as pessoas entravam e perguntavam onde é que eram as bebidas! E no sítio das bebidas tínhamos um amigo tatuador a tatuar. No ano a seguir foi do mesmo género, mas os acepipes que oferecíamos às pessoas eram insetos, uma amiga bióloga sabe tornar um inseto comestível: o grilo, a minhoca, a larva… é uma iguaria! E montámos a frente da loja como se fosse um supermercado chinês e haviam montinhos de insectos para as pessoas se servirem, e serviram-se, eu fartei-me de comer!

Isso parece de artista plástico, vens da linhagens dos Yohjis Yamamoto, quando a Moda era uma performance.

Sim, descobri a moda com a Comme des Garçons, a Margiela e com o Yohji, foram os três grandes. Depois lembro-me de começar a apreciar a fase anos 90 muito disruptiva do Gaultier, cheguei a fazer um trabalho sobre ele na escola, não havia internet, nem grande livros, então escrevi para o atelier de Paris a pedir informações e recebi-as todas e uma carta dele, que ainda tenho guardada, foi tipo: uau!

Alexandra Moura
Alexandra Moura Foto: Rui Aguiar

E outros criadores que admires?

Gosto do lado mais sofisticado, mais couture, da Balenciaga, e a viragem sport do Demna [Gvasalia] que foi sempre aquilo que gosto, a experimentação; do Christian Lacroix, que era um mestre a misturar cor e texturas. E há uma marca que eu acho muita piada que é a Martin Rose, adoro a maneira como ela põe na Moda as suas vivências e as da família, e tem um lado de clube noturno londrinho, este lado kitsch, feio, nonsense, mas polido e artístico, e fez uma parceria com a Nike com umas sapatilhas que eu amo (já consegui arranjar umas) parece que tens tortomelos, que tens os pés todos inchados (risos), tem a ver com aquela malta que põe os piercings dentro da pele para criar volumes… Quando os uso, as pessoas pensam: "Oh, coitadinha, deve ter um problema nos pés, tem uns joanetes horríveis…" Posso ser muito discreta, mas quando é para arriscar é para arriscar. A Comme des Garçons continua a inspirar-me imenso, a Margiela com o Galliano… tem coisas com graça, ele tem conseguido momentos e peças fortes e muito bonitas. Mas, é como tudo, depende das coleções e das ondas, e eu consigo ser fiel às marcas que passam por isso tudo, mas têm sempre aquela assinatura.

A chegada do teu bebé mudou a tua vida, claro, mas mudou o teu trabalho?

Acho que sim, que acabou por mudar. Eu sou muito emocional, e muito intuitiva, e esse lado romantizado, mais terra a terra, mais responsável, mais maduro, mais organizado, mais atinado, isso teve influência no meu trabalho. Não na criação pura e dura, ele deu-me ainda mais força para fazer o que me apetece e o que quero fazer, um dia até conto aos meus netos que fiz esta loucura, sabes? Tive mais pica para, mas fiquei mais realista e com os pés mais assentes na terra, também com alguns medos, porque há o peso da responsabilidade. Ainda no outro dia falava com a Cristina, uma assistente que agora está grávida: as pessoas têm muita tendência a achar que um filho lhes vem mudar a vida, fisicamente e nas coisas mais logísticas muda, como é óbvio, mas dentro da minha cabeça não mudou, passei foi a ter um parceiro com o qual me sinto super feliz. Já não me sinto sozinha, já posso partilhar. Às vezes pergunto: "O que achas, Rodrigo, gostas?" E ele diz: "Devias era fazer assim, e porque não experimentas isso?" Tem 13 anos e já tem um sentido estético muito curioso, já quis descolorar o cabelo, veste o que quer e vai para um escola pública onde tem todo o tipo de amigos e não cede, é curioso. No estampado dos tags do inverno do ano passado estão lá máscaras tribais desenhadas pelo Rodrigo. Nunca senti que ele seria um peso ou um problema, incorporei-o em tudo e passou a fazer parte da nossa vida; não passei a viver para o filho, ele passou a fazer coisas connosco, sempre.  

O que é que te chama a atenção e te leva depois a fazer coleções?

Tudo. Muitas coisas que vejo me remetem para uma textura, mas posso olhar para qualquer coisa e me lembrar de fazer qualquer coisa, sim.

Mas como te surgem as ideias? A manipular os tecidos ou a modelá-los no manequim? Vais para a rua, viajas? Falas com as pessoas? Lês livros? 

É isso tudo, já me aconteceu de tudo: olhar para pessoas ou passar por um trecho de um livro e aquilo suscitar uma personagem, uma roupa ou uma maneira de vestir. Já me aconteceu ir ao Japão e ficar tão fascinada, não só com o País a cores, mas com o tipo de luz que fazia com que as sombras fossem altamente definidas. Então tinhas um Tóquio e um Quioto a cores e em silhueta e isso fez sair uma coleção, a das sombras, manequins todos pintados de preto que eram sombras de outros manequins a cores. Já fiz uma coleção inspirada em coisas que estudei, já fiz uma inspirada no Cosmos, outra na flora, vivências minhas, de memórias minhas, de avós ou de pessoas que se vestiam de uma determinada forma e que eram o oposto do que eu sentia na cidade, e aquele corte era uma coisa tão romântica, tão imaculada, ao mesmo tempo suja e gasta porque andavam todo o dia no campo, mas depois vestiam-se para a festa ou para o domingo ou para a procissão. Já me vieram coisas mais espirituais como o quadrado, o quatro, tanta coisa, tudo pode vir de qualquer lado.

O teu olhar particular sobre a sociedade sempre foi evidente nas coleções que desenhas, desfilas homens de saias, a representação do corpo feminino, a diversidade, etc., esta era de causas é o teu momento?

Só tenho pena que estas causas não tenham começado mais cedo, porque somos diferentes seres humanos, de diferentes raças e diferentes países, todos na mesma bola. Todos gostamos de coisas, temos o nosso sentido estético, tudo pode fazer parte de tudo, e faz todo o sentido que assim seja. O género não me faz qualquer sentido e quando vamos estudar história da Moda, aquilo que é considerado demasiado feminino começou no vestuário masculino: as rendas, os laços, as fitinhas, os saiotes, os casacos grandes, a cintura. E na altura em que os homens os usavam até era uma demonstração de virilidade. Porque é que a sociedade resolveu ir castrando? E a mesma coisa para as mulheres. A roupa e o teu corpo, podes interpretá-los e vesti-los como bem entenderes, um homem de saia não deixa de ser masculino, não deixa de ser hetero, se esse é o grande problema. Basta ir à história dos clãs escoceses, homens com a masculinidade a transbordar do tartan. Há coisas que nunca me fizeram sentido e a Moda tem de transmitir essa liberdade e cultivá-la junto do público. Claro que ser disruptivo é, mais uma vez, seguir o caminho mais difícil, e levar todos os rótulos, agora já é bem aceite, porque já há mais marcas a fazê-lo, mas eu acho que vale a pena. E vejo estas coisas a acontecer de uma forma muito natural.

Muitas miúdas mais assertivas sempre foram vistas como rapazes, mesmo que sejam super doces…

Sim, sim, eu sempre fui chamada de maria-rapaz. Esta doçura também foi uma coisa que tive de aprender, porque levei tanta pancada e tive de me defender tanto, eu era um bicho do mato! Então pensei: "Tenho de me integrar, vou experimentar". Foi a minha defesa e também uma forma do outro não fugir logo (risos).

A primeira vez que fiz uma reportagem na ModaLisboa, estava a começar e não conhecia ninguém, tiveste uma candura e uma generosidade que sobressaiu entre os outros designers.

Por ter recebido tanta pancada, resolvi dar à vida aquilo que não tinha recebido. Ainda hoje dou por mim, no dia a dia, a entrar num táxi e a meio da viagem desmancho o taxista e ponho-o a falar da vida dele. Ou respondo com doçura a uma rudeza qualquer. Foi perceber que, independemente do que recebeste, dá amor, porque vais recebê-lo de volta mais cedo ou mais tarde. E eu tenho este lado muito espiritual, nunca me deitei sem ir ver o céu. Em criança às vezes olhava para o céu e dizia à minha mãe que tinha saudades de ir ver a minha família porque não era daqui. Ela andou uns anos preocupada comigo, mas toda a vida o senti, tenho a plena consciência de que estou aqui para cumprir o que tenho para cumprir, mas não pertenço a nada disto. 

E como olhas para a Moda hoje?

Está um meio muito hipócrita e muito ingrato, parece que já não compensa escolher um tecido de melhor qualidade, as pessoas falam todas de sustentabilidade e do meio ambiente, porque é giro falar, mas não querem saber se estão a comprar sustentável ou uma confeção ética. Às vezes pensas que levas horrores a penar num conceito, a criar uma história, a fazer pesquisa exaustiva, a trabalhar uma modelação que te leva horas, semanas, meses, com muita experimentação e muitos gastos de matérias primas, tentas fazer uma apresentação e uma comunicação cuidada, e depois aquilo que funciona são t-shirts estampadas ou um post com os ditos hypes e influencers, que eu acho uma onda cada vez mais decadente, enfim… E parece que aquilo que começou por ser a verdadeira magia da Moda, nos anos 90, quando víamos Margiela, Gaultier, Comme des Garçons a fazer quase Arte, e havia aquele tipo de pessoas que apreciava e sentia, que não ia comprar coisas baratas por isso investia numa coisa mais especial, vai por água abaixo.

A internet também é maravilhosa leva-nos a todo o lado, levou-te ao outro lado do mundo, tens imensos clientes na Ásia, mas também nivelou por baixo. Além de que cada macaquinho em cada galho quer fazer coleções e se o sentido crítico já não era muito…

Está muito tóxica… Mas eu sempre tive consciência de que escolhi o caminho mais difícil, o mais conceptual, mais artistico, que comunica uma história, nunca escolhi fazer peças do hype e chuta-las para venda sem interessar a qualidade e basta um bom marketing. Escolhi o caminho difícil, chega a ser revoltante porque às vezes é pérolas a porcos.

Também não há dinheiro

Sim, mas também é mais fácil dizer isso do que mudar. Porque vejo pessoas de gerações muito novas a usar marcas e a comprar sweats a 200 ou a 300 euros.

O teu desfile chama-se Trust your Vision, quando olhas para estes 20 anos, apesar de tudo, sentes que seguiste a visão certa?

Não sei se é a certa, mas foi sempre a minha, foi sempre aquilo que sentia e queria fazer genuinamente que tinha de fazer. Provavelmente errei muitas vezes, ou não, ou fui acertando, não sei.

Na verdade não sabemos nada e controlamos muito pouco as nossas vidas, mas há momentos em que sabemos.

Todas a etapas que fui fazendo, de todas as coleções e trabalhos, fui sempre tendo sinais da vida de que era isso: "Segue, é isso, segue!" Às vezes tão simples quanto isto: quando começava a pensar num conceito, ou ouvia pessoas que me diziam qualquer coisa que ia de encontro ao que estava a pensar ou recebia uma mensagem que me levava àquilo, ou parecia que estava sempre a ver a cor que quero usar… É como se fosse recebendo sinais para confiar na tal visão, e daí nunca ter seguido tendências, nem o que o mercado está a fazer. Claro que quando cresces tens de pensar um pouco sobre o que o mercado quer, por questões de vendas, mas nunca cedo a 100%. Até posso fazer aquela peça, mas vai ter sempre de ter ali qualquer coisa que… (risos).

Tens alguma ideia de como vai ser para a frente?

Eu quero acreditar que vou continuar o trabalho que tenho feito, como é que hei-de dizer? Mas que as coisas sejam mais fáceis e fluídas, que eu consiga conquistar pontinhos do Atlas do mundo, porque não me sinto portuguesa ou lisboeta, sinto-me terráquea, a cidadão do mundo, sinto-me bem em muitas partes. Mas gostava de ter uma solidez mais tranquila e gostava muito de poder chegar mais consistentemente a esses sítios e a muitos outros. 

Saiba mais
Alexandra Moura, Designer, Criadora, Moda, Estilo, Entrevista, Xabregas, Primavera Verão, ModaLisboa, Portugal Fashion, 2002, 2021
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