Moda

Miguel Flor, a moda como fonte da juventude

Miguel Flor é pivot central na moda portuguesa. Designer e diretor criativo, renova estéticas na revista Prinçipal e lança novos talentos, inspirado pela frescura da juventude. A ela dedica o seu primeiro livro de fotografia, Boys Appetite.

Miguel Flor
Miguel Flor Foto: D.R
05 de fevereiro de 2021 | Patrícia Barnabé

Raramente o vemos sob holofotes. Ora nos bastidores, ora na linha da frente, é uma personagem diáfana que gosta de estar em movimento, como o tempo, sempre a caminho de coisas novas. É, por isso, muito seguido pelas novas gerações, que são hoje "mega atentas", e não têm "medo em investir e apostar em quem está a começar, até me dá muito prazer", diz.

Miguel nasceu em Trás-os-Montes, na vila donde retirou o petit non Flor. Estudou design na Academia de Moda do Porto e arrebatou o primeiro prémio no concurso Sangue Novo da ModaLisboa, em 1996. Hoje é seu júri residente. Até finais de 1999 trabalhou na mirabolante Maison Margiela, em Paris, e no regresso criou a sua marca. Já nos anos zero, começou a desenhar para outras marcas, como a Vicri, e a dar aulas na Escola de Moda do Porto e na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. É nesta altura que começa a cruzar designers jovens e estabelecidos "para que possam comunicar, trocar aprendizagem". Em 2010 cria no Portugal Fashion a plataforma Bloom para jovens criadores. Hoje dirige a Prinçipal - Moda Portugal, uma revista de moda apoiada pelo Cenit, Centro de Inteligência Textil, bilingue, moderna, onde exercita o seu olho de curador e a fotografia mais arty. Deste último nasce Boys Appetite, editado pela Stolen Books, o ponto de partida para uma conversa de sofá, em frente a um chá de gengibre, na sua casa no Chiado, onde nos recebem chariots de roupa e uma selva de plantas.

Uma das últimas capas da Prinçipal
Uma das últimas capas da Prinçipal

Falas sempre na linguagem dos mais jovens, é uma vontade de abrir caminho?

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No meu trabalho tenho muito esta coisa da fonte da juventude. É uma forma de me manter alimentado, uma base para a criatividade. Repara, o Karl Lagerfeld nunca foi datado. Estou sempre de olho aberto sobre tudo o que se está a gerar e vou sem grande medo ter com as pessoas encomendar-lhes trabalho. Por exemplo, para a Prinçipal, fizémos em tempos um calendário só com fotógrafos emergentes (exceto o Rui Aguiar, mas que tem já uma emergência dentro dele, e também se rodeia de miúdos), foi das primeiras vezes do Moura Simão, do Rui Palma, do José Pedro Cortes, que inspirou muito o meu trabalho. Gosto de não ter fronteiras. Da mesma forma que para o livro da Prinçipal fui buscar fotografias do Pedro Cláudio e da Inês Gonsalves [pioneiros da fotografia de moda portuguesa]. Uma vontade de saber, perceber e consumir imagem fez com que ganhasse esta cultura. A Prinçipal é a caixa de Pandora que me deixa fazer tudo isto, dão-me uma liberdade criativa muito grande, confiam no meu know-how. Muitas vezes perguntam-me: "Esta é a linguagem dos industriais?" Não, mas se a Prinçipal tem o objetivo muito claro de promover a moda nacional, tens de promovê-la numa montra internacional. Acabas por educar no bom sentido, não de uma forma pretenciosa. Quantas pessoas compram a i-D, a Hunter, a Muse e tantas outras revistas? Uma revista é muito diferente do Pinterest ou de uma pesquisa no Google, é um objeto com princípio, meio e fim, é um espaço, um contentor que percorres e percebes de outra forma, gosto muito disso.

É claro que a cultura visual e a fotografia cresceram contigo.

Entram na minha vida com a revista Bravo, a única que comprava em miúdo, vivia em Trás-os-Montes, não havia mais nada. Não percebia nada de alemão, mas descobria bandas como os Depeche Mode: "Deixa ver quem são estes que se vestem assim" E gravava cassettes, fazia playlists, esperava horas para que a música tocasse na radio para gravar, às vezes ainda se ouvia o locutor (risos). Eram os meus diários, o visual, o musical, nunca escrevi porque nunca tive jeito, e a música foi o clique para tudo, os vídeos, e o cinema, em geral. Depois quando comecei a estudar moda, obviamente que a minhas bíblias eram a i-D e a The Face, e dividi casa com o Fernando Bastos Ferreira [stylist] que comprava imensas revistas, e a Nana [Benjamim, maquilhadora]. Dividir casa com pessoas criativas é super importante. Tudo começou ali. E depois, obviamente, toda essa ideia do que é um autor. Apesar de gostar imenso do digital, não uso Pinterest, vou ao site dos próprios autores ou descubro-os em publicações, porque recebes aquilo que queres e não o que o motor de busca te quer dar. Gosto de ir à profundidade das coisas, os livros e o papel fazem-me mais sentido.

"Os Boys Appetite são, na sua maior percentagem, fotografias roubadas de pessoas que não conheço", Miguel Flor Foto: Miguel Flor
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Como nasceu a vontade de fotografar?

Sou um autodidata e há skills técnicos que me faltam, mas o que me interessa é a imagem e eu resolvo-a. Sempre tive a coisa da fotografia, a minha irmã também e os meus pais tiravam-nos imensas fotografias. Quando comecei a fazer roupa, queria documentar aquilo que estava a fazer à minha maneira, em polairoids. Na altura havia um estilo mais autoral, e eu estava sempre atrás dos fotógrafos a dizer "faz assim", o que é horrível. Fotograva roupa e já fotografava rapazes, porque na altura as agências não tinham rapazes com um fit para a minha roupa, os manequins eram mais velhos e encorpados, eu tinha um casting mais à Raf Simons, havia mais youthness  na roupa e uma certa androginia, que não havia muito nas agências. Hoje até faz falta o contrário, há muitos miúdos e os miúdos têm menos estereótipos, são mais diversos. E fazia casting de rua, via um miúdo giro: "Queres ser manequim? Eu sou designer." Vinha ao atelier, tirava medidas e fotografava; se fosse fixe, desfilava e se fosse fixe a desfilar entrava para uma agência, como entraram os gémeos Guedes, o primeiro desfile que fizeram foi para mim. No outro dia estava a ver uns slides e pensei: "Que giro, já fazia Boys Appetite aqui. Tem a ver com o corpo e a moda, foi aí que começou.

"Para mim, todas essas coisas [sinais e cicatrizes] são chamadas de atenção, são os plus"

Hoje fotografas os editoriais de moda da tua revista, a Prinçipal e tens uma costela autoral, que parece muito espontânea.

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O digital é muito mais fácil, clicas mais, experimentas mais, é alive and kicking, a surpresa da revelação tem piada para quem tem dinheiro e tempo para errar, ou quer outro tipo de coisa. Já fiz backstage da ModaLisboa para fazer Boys Appetite e levo uma polairoid, mas interessa-me menos o meio em si e mais o que sai e qual o objetivo das imagens. Como o meu trabalho é extremamente espontâneo, não posso arriscar. Os Boys Appetite são, na sua maioria fotografias roubadas de pessoas que não conheço, vejo uma parte do corpo, uma atitude, etc, e faço uma imagem desse momento, e para captá-lo não posso estar a regular imagens. Também não tenho a minha digital em automático, mas quero errar menos, há ali um momento que não quero perder.

O relance, no fundo, tem muito a ver com o desejo, andas na rua, as pessoas atraem-te, é um universo pessoal, íntimo, tão animal como contemplativo.

Tenho esta coisa de contemplar, mas é um desejo e por isso é que se chama apetite, porque não é consumado, não chega aí.

É mais poético.

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É extremamente poético, tem muito a ver com a forma de captar esse momento que é profundamente erótico, esta pessoa que passou, está parada ou a avançar à minha frente, é isso que me interessa.

Exposição Boys Appetite na Via Aberta, Porto, junho 2019
Exposição Boys Appetite na Via Aberta, Porto, junho 2019 Foto: Miguel Flor

E às vezes sacas do telemóvel na rua.

Claramente saco do telemóvel. Mas depois, quando preciso de ampliar, de imprimir, etc, tens de ter mais qualidade. É todo um processo, não sei onde vai parar, nem interessa, é um projeto que, para já, não tem fim e não tem de ter. A ideia de captar as pessoas e não mostrar a identidade é uma contraposição ao meu próprio trabalho enquanto fotógrafo de moda. Na moda, vendes um produto ou vários, a roupa, o modelo e o lifestyle, há essa pretensão, trabalhas para um cliente ou uma revista. Neste trabalho, eu não quero vender nada, a não ser essa sensação, esse apetite, esse perfume. 

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Nem há o mise en scène de um editorial de moda.

O meu trabalho em moda também é muito pouco artificial, mas a partir do momento em que vestes alguém, estás a construir. Aqui é o contrário. Há muitas pessoas no meu livro que conheço ou são modelos, mas não vou buscar a pose, antes um momento de relaxe.

Nota-se essa intimidade, o que é muito bonito.

É um projeto super íntimo, mas ao mesmo tempo não é. Existe uma distância muito grande entre mim e o objeto, é interessante no sentido em que não é palpavel, tu não estás lá, tu tens a câmara, mas… E é engraçado porque quando fui para os Açores com ideia de fazer este Boys Appetite comprei uma teleobjetiva, a primeira vez que saí com ela até me sentia ridículo, parecia um paparazzi, as pessoas olham todas para ti. Mas, de repente, ao longe, com essa distância, consegues chegar. E há uma espécie de gozo naquele momento, um salivar.

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O proibido, o voyeur, o pirata.

Sim, de roubar uma imagem. E é óbvio que é importante que não seja descoberta a identidade destas pessoas. Quando há pessoas que conheço, como no caso de manequins, ponho o nome, mas nunca o de família.

Em janeiro passado, Boys Appetite esteve exposto na galeria Nuno Centeno, no Porto
Em janeiro passado, Boys Appetite esteve exposto na galeria Nuno Centeno, no Porto Foto: Miguel Flor

Agora que se fotografa tudo e toda a gente é fotógrafo no Instagram, fazes o contrário: mostras o detalhe, uma verdade contrária ao consumo artificial e compulsivo.

É completamente isso, uma oposição total às selfies. Não é que não as faça. Dei uma entrevista à Metal Magazine, eles pediram-me um retrato e fiz um, mas não gosto que me tirem fotografias, já gostei, já desfilei para o Nuno Gama, para a Gambina, para tantos designers quando era miúdo, eles gostam da minha attitude. Mas hoje os miúdos têm muito esta coisa da selfie, eles, eles, eles, quando chego a Instagrams que são só fotografias dessas pessoas, eu não sigo, não quero.

O problema é levarem-se demasiado a sério, não tem piada nenhuma.

Nenhuma. Essa exposição faz-me espécie e isto também é um contrariar de tudo isto. E é muito anatomia, vem muito da minha formação de moda, anatomia, corpo.

E pele, vêem-se sinais e cicatrizes…

Para mim, todas essas coisas são chamadas de atenção, são os plus. Há pessoas que não gostam de um pelinho que têm aqui, eu gosto desse pelinho.

O trabalho de Miguel Flor nas ruas de Lisboa
O trabalho de Miguel Flor nas ruas de Lisboa

Quando chegaste à moda era tudo diferente, cortaste mato, trilhaste caminho sem medo de ser alternativo, e numa indústria cada vez mais popular.

Nem sei como te responder… É tão intrínseco, não sei ser de outra maneira. Também tem muito a ver com a educação que tive, com a liberdade que os meus pais me deram em tudo, de expressão, de seres quem és e do que queres ser, de me ouvirem, isso foi fundamental. E nunca me quis impôr, tudo decorreu com a maior naturalidade, por isso não há aqui artifícios. Obviamente que me vejo ao espelho e tenho dúvidas, tenho muitas, e felizmente porque me fazem querer fazer mais. E conto muito com as pessoas, partilho muito essas dúvidas. Não fiz o livro sozinho, chamei pessoas para virem comigo, gosto muito de partilhar as coisas, constróis-te. É claro que o Instagram é fundamental neste trabalho, fui passar férias a Berlim e comecei o Boys Appetite, fiz lá as primeiras fotografias que taguei #boysapettite, porque vi "apetite" escrito num poste.

É curioso dizeres isso, porque tens uma estética muito Wolfgang Tillmans, muito alemã. Suponho que será uma referência.

O Wolfang Tillmans é provavelmente o fotógrafo da nossa era. É um tipo da mesma geração que eu, do clubbing e da rave como eu, o melhor amigo dele é o Lütz, um super designer de moda, trabalhei com ele no Margiela, e apresentou-mo uma vez. Também é gay, há aqui coisas que se tocam. Há coisas nele que são mais duras, nos rapazes, noutras é mais poético, nos objetos, nos retratos. Eu sou mais duro, mais fálico, um objecto que é mais sexual [folheia o livro e mostra um pilarete, um assento de mota gasto, uma casa de banho pública em Israel], são sugestões. Também tem uma coisa com os amigos, as pessoas que o rodeiam, a comunidade.

Que também existe no Hedi Slimane [fotógrafo e diretor criativo na Celine].

Sim, muito. Há um curador ótimo que viu o meu trabalho e disse: "Faz-me lembrar a primeira série do Hedi Slimane, a Costa da Caparica". Mas voltando à estória da comunidade. Por exemplo, neste trabalho, tenho um ou dois [rapazes] black, não tenho mais e não vou forçar. Viajei pelo mundo inteiro, mas não me cruzei tanto com eles. Não quer dizer nada, nem sequer sobre o meu gosto. Agora tenho mais, mas também começaram a fazer-se notar. Tem a ver com a comunidade que te rodeia. E apesar de ter links com o trabalho de outros artistas, é impossivel não os ter, nunca penso neles quando estou a trabalhar. Começaram a chegar-me pessoas que têm um trabalho até mais próximo do meu: o Gerardo Vizmanos ou o Winter Vandenbrink. Como designer, fiz curadoria de designers, agora como fotógrafo, apetece-me muito fazer uma exposição com estes tipos todos.

Um dos posters de Boys Appetite
Um dos posters de Boys Appetite Foto: Miguel Flor

O Boys Appetite foi exposto no Porto o ano passado.

E em fevereiro vou expor na Sputnik, também no Porto, um espaço virado para a rua e com a janela sempre aberta – é a minha janela também, eu gosto de espreitar, é muito fixe que alguém vá espreitar!

De onde vem a ideia de espalhares posters destas tuas fotografias por Lisboa?

Foi uma forma de devolver à rua aquilo que lhe tirei, e tem a ver com o tempo que vivemos. Fui para os Açores fazer este projeto, o festival [Walk & Talk] é que me abriu a porta, (faço lá a curadoria da residência de artesanato). Todos os projetos iam confluir no online, então propus imprimirmos posters e espalhá-los. As pessoas viram-me a fotografar e o resultado estaria espalhado em Ponta Delgada. Hoje continuam lá colados, descolorados, há imensa gente que faz stories e posts, é tão fixe e tão interessante. E agora com o frio, o confinamento, estás fechado, os museus e as galerias também, a rua e o Instagram são os sítios melhores para mostrares tudo.

Boys Appetite durante o festival Walk&Talk nos Açores, julho de 2020
Boys Appetite durante o festival Walk&Talk nos Açores, julho de 2020 Foto: Miguel Flor

No confinamento reparamos mais nos pormenores da cidade quando saímos à rua.

Há menos confusão, olhas para o essencial. Fazia sentido mostrar este trabalho aqui, assim, nesta altura, e as pessoas poderem encomendar os posters através da Stolen books. É giro porque há miúdos em todo o mundo que se identificam com este livro, mandam mensagens, começam a seguir-te, algumas pessoas importantes no meu mundo, para mim é super importante comunicar e conhecer pessoas.

"Há uma zona erógena gigante nesta zona do pescoço" Foto: Miguel Flor

E num livro só de rapazes, de repente aparece uma rapariga.

Ela própria teve essa reacção: "Que honra estar no teu livro de rapazes." Fui de férias para uma ilha grega muito pequena e começas a con

hecer pessoas, vais à praia, sais à noite. Este rapaz, o Dimitri, foi das primeiras pessoas em que reparei, porque quando cheguei à praia estava todo nú com um turbante. Uma vez fotografei-o, ele reparou e começámos a falar e a conhecer-nos. Ela era amiga dele, super gira, e diz, eu com a máquina na mão: "Sei que fotografaste o meu amigo, toda a gente lhe acha piada." De repente, toda a ilha quer dormir com aquele rapaz, sabes? É quase cinema. E ele diz: "Mas a ti também, todos os rapazes e raparigas se sentem atraídos por ti." E pensei: esta rapariga é um Boys Appetite! Porque este apetite não é o meu apetite por eles, é o apetite de todos em geral. Ela fazia sentido neste livro.

Ainda nos Açores...
Ainda nos Açores... Foto: Miguel Flor

Fotografas muitos pescoços e nucas, são pontos de elegância e erotismo.

Sem dúvida, há uma zona erógena gigante nesta zona do pescoço. Nas fantasias do vampiro, onde é que ele morde e suga? Sinto-me uma espécie de vampiro porque ao captar estas imagens, o meu olhar tão preciso sobre estes rapazes, sobre a juventudo e sobre a energia, estou, de alguma forma a alimentar-me.

E voltaremos a ter roupa Miguel Flor?

Continuo a gostar imenso de roupa, mas hoje tenho uma leitura um bocadinho diferente. Consumo imensas revistas, a maior parte de moda, que são hoje as revistas de arte, mas estou mais focado na fotografia, no ambiente, nas sensações que me dão. Mas não sei, continuo a ter vontade de fazer roupa. A dimensão industrial foi o que me afastou da moda e sinto que o momento que estamos a atravessar pode abrir portas, janelas, varandas para as pequenas produções. Se isso acontecer... Sabes, quando trabalhei para certas marcas portuguesas fui muito incompreendido, estava sempre à frente e eles não souberam aproveitar. Eu também rasgava um bocado, admito, mas se falares com qualquer autor... Há uma entrevista do Galliano onde ele diz: moda é rasgar. Ou fazes ou não fazes! Havia muita dependência das marcas, e o meu trabalho é muito mais livre, sinto-me um privilegiado por ter conseguido essa independência.

As fotografias de Miguel Flor expostas em plena Capital, em Novembro do ano passado
As fotografias de Miguel Flor expostas em plena Capital, em Novembro do ano passado
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