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Lis Nave. Concertos e festas para descentralizar a música eletrónica

A iniciativa está de volta este sábado, 11, a São Pedro do Sul e reúne bons argumentos para fugir da cidade. Conversa com a DJ Vanessa Kokeshi, uma das fundadoras.

Vanessa Kokeshi, DJ e cofundadora da Lis Nave
Vanessa Kokeshi, DJ e cofundadora da Lis Nave Foto: Austėja Ščiavinskaitė
08 de junho de 2022 Máxima

De Lisboa para o resto do país, a Lis Nave volta a transformar um recanto inesperado do país em pista de dança. Pensada pelos DJ's Vanessa Kokeshi e HNRQ (Nuno Henrique), residente no Lux Frágil, a iniciativa quer levar a música de artistas nacionais para zonas menos exploradas ou óbvias e aterra já este sábado, 11, em São Pedro do Sul.

Festas, festivais e clubes noturnos não são palavras estranhas para Vanessa Kokeshi, DJ há cerca de duas décadas e parte da editora Flow Records, como contou em entrevista à Máxima. "Aprendi a misturar em 2002 e em 2003, com 20 anos, toquei pela primeira vez num clube, no Paradise Garage, para a produtora de um amigo meu." Estava acendido o rastilho de um percurso que continua até hoje. No duo Heartbreakerz, ao lado da também DJ Analodjica, passou pelos palcos do Meo Sudoeste, integrou a agência Madame, de Mariana Duarte Silva, e atuou de Londres a Oslo.

Nuno Henrique e Vanessa Kokeshi
Nuno Henrique e Vanessa Kokeshi Foto: Thyra Dragseth

"Passou num fechar de olhos, nunca planei nada, nunca decidi ser DJ, que era isto que queria ser, mas comecei a ir a festas", nomeadamente as da Goodmood, responsável pela produção do Boom Festival, começa por dizer. "Foi uma grande viragem, porque de repente tinhas festas no meio da natureza, com música trance-psicadélico, completamente diferente. As pessoas eram todas recetivas, calorosas, queridas, amigas. Quando pensas em música eletrónica, pensas em clubes noturnos, se calhar em coisas sujas e escuras, num ambiente pesado, e aquilo é completamente o oposto", continua. Lisboeta de gema, a artista explorou e atravessou os diferentes estilos e estéticas da música eletrónica. "Do house minimal ao house progressivo, a um techno mais étnico. Gosto muito de melodias, mas que não sejam mainstream. Gosto de tocar para uma pista cheia, um main floor, e tocar de forma mais forte, em prime time. Hoje em dia estou a ir beber muito aos anos 90: house, breakbeat (batida mais quebrada) e trance europeu", mas sempre com um toque contemporâneo. A novidade faz parte da sua assinatura

Vanessa Kokeshi, DJ e cofundadora da Lis Nave
Vanessa Kokeshi, DJ e cofundadora da Lis Nave Foto: Austėja Ščiavinskaitė

E eis que nasceu esta grande nave lisboeta, conta em tom de brincadeira, referindo-se à sua mais recente aventura musical."A Lis Nave surge com uma residência no clube Pérola Negra, no Porto", recorda. "Eu e o Henrique queríamos levar um bocadinho da nossa estética para fora de Lisboa, levar o nosso som para fora", e com convidados de várias pontas de Portugal. Como tal, a próxima festa da nave, que acontece a 11 de junho em São Pedro do Sul, terá a participação de Zen Baboon, natural do Alentejo, João Azevedo, que vive no Porto, e Jorge Martins, do Underground Meco, contando ainda com a parceria da Goat Community, um grupo de amigos que se comprometeram em dinamizar o turismo na zona. Nada foi deixado ao acaso, conta-nos, visto que a ideia já estava "em andanças" ainda antes da pandemia rebentar. "Escolhi esta data porque é uma altura em que os lisboetas preferem sair da cidade" devido às festas de Santo António. Além disso, a zona de São Pedro do Sul tem um turismo muito envelhecido, uma pena pois é uma área com imenso potencial. Termas, montanhas lindas, lagoas, cascatas – é o "primo" do Gerês que ninguém conhece. A festa será na Casa do Condado de Beirós, com vista para o Vale do Vouga e onde a música se ouve e se dança entre passeios pelo jardim ou à beira da piscina.

O timing da Lis Nave não poderia ter sido melhor. Ainda na ressaca da pandemia, o turismo é de extrema importância para a economia de localidades rurais e, para Vanessa Kokeshi, esta é uma oportunidade de sair fora da caixa das festas na cidade. Nesta profissão, "existe muito mais trabalho ao fim-de-semana. A semana é passada a organizares a agenda, a procurares música, a partilhá-la com os teus colegas. Este é o teu trabalho das nove às cinco", a par das 'tarefas de agente' – responder a emails, negociar bookings – caso não se tenha um. "Ao fim-de-semana chego a ter três trabalhos, o que é exaustivo". Até porque a independência tem um preço. "Seres o teu próprio chefe é maravilhoso, mas depois também há o reverso da medalha – tenho ataques de ansiedade, não consigo lidar com tanto trabalho e a rotina tem de ser bem definida."

É mais uma profissão que sofre com a precaridade que é trabalhar em Cultura em Portugal. " Acho que as pessoas têm uma ideia de DJ-ing muito romantizada e no fundo esta profissão é dura, na medida em que muitas vezes ficas sem dormir ou tens de tocar a altas horas da noite. Não te apetece sair, por alguma razão estás cansado ou não estás no mood de festa, e tens de estar com um sorriso na cara", desabafa Vanessa.

"Tenho um espetro muito alargado de possibilidades, também como rapariga, e porque musicalmente gosto tanto de disco ou indie dance como de techno, enquanto que os meus colegas que estão muito focados só num género se calhar têm muito menos oferta."

Vanessa Kokeshi, DJ e cofundadora da Lis Nave
Vanessa Kokeshi, DJ e cofundadora da Lis Nave Foto: @_luisaismyname

Como é ser mulher num mundo de homens?, questionamos. "Acredito plenamente na igualdade de direitos em todas as profissões e em todo o mundo, embora isso não seja algo real. Quando eu e a Ana trabalhávamos como duo Heartbreakerz chamavam-nos miúdas. Quando alguma coisa corria mal ouvíamos ‘ah, foram as miúdas’, como se fosse já expectável. Hoje, acho que as mulheres DJ têm cada vez mais protagonismo. Quando tens alguém que é bom profissional, é atrativo, veste-se bem, tem presença, isso tudo vende. Embora não concorde com esta mentalidade, há mais facilidade, em quase todas as profissões, principalmente aquelas em que contactas com o público, quando tens uma aparência agradável. Mas sempre lutei muito contra isso", conclui. "Tanto eu como a Ana começámos (a tocar) muito novinhas e nunca quis usar isso como uma arma."

Onde? Condado de Beirós, São Pedro do Sul. Quando? Das 14h às 22h, com after party acontece das 22h às 4h da manhã. Bilhetes: €20 a €25, limitados a cerca de 300 pessoas. Bilhetes e outras informações disponíveis aqui.

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