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Surma: "É um privilégio para os artistas poderem dar voz a temas como a homofobia ou o racismo"

Cinco anos depois do aclamado álbum de estreia Antwerpen, a alter-ego musical de Débora Umbelino está de regresso com Alla, “um trabalho autobiográfico”, como assume nesta entrevista, na qual aborda questões como o bullying, a androgenia ou a identidade de género.

Foto: Rui Palma
30 de janeiro de 2023 Miguel Judas

"É um álbum um bocado freak", avisa, ainda antes da entrevista começar. Mas esse é talvez o maior elogio que se pode fazer a Surma, a alter-ego musical de Débora Umbelino, uma artista "meio fora" (de novo, palavras da própria), tanto no modo de fazer como de apresentar a sua música. Compositora, intérprete, produtora e performer, Débora ou Surma, a personagem que criou para poder ser ela própria, é uma das mais profícuas e desalinhadas artistas nacionais da atualidade, com centenas de concertos em quase 20 países e um sem fim de projetos paralelos que vão de bandas-sonoras para cinema e teatro, música para bebés, peças para dança ou colaborações com outros músicos. Só isso explica que os cinco anos passados entre o álbum de estreia Antwerpen e este Alla pareçam bastante menos. Uma longa espera finalmente saciada, com um álbum complexo, de diversas camadas sonoras e uma fonética própria, feito na companhia de muitos amigos, como Ana Deus, Selma Uamusse, Angelica Salvi, Joana Guerra, Noiserv, Cabrita, Victor Torpedo e Pedro Melo Alves, cuja presença apenas confirma quão especial, afinal, Surma é...

Surma é o a alter-ego musical de Débora Umbelino.
Surma é o a alter-ego musical de Débora Umbelino. Foto: Rui Palma

Apesar de a Surma não ser propriamente a artista mais mainstream, porquê esta opção, usando as suas próprias palavras, por um disco assim "tão fora"?

Na verdade não sei, acabou por acontecer assim. Se pensarmos bem, foram cinco anos sem lançar nada e depois houve aquela paragem forçada de alguns meses, por causa da covid-19, que interrompeu a rotina mega caótica em que a minha vida se havia transformado (risos), sempre a trabalhar em diversas áreas, com muitos concertos um pouco por todo o lado. Esse período permitiu-me usufruir do tempo de uma forma como já não fazia há imensos anos, permitindo-me explorar novos territórios musicais e outras temáticas e atmosferas sonoras. Depois, quando fui para estúdio, foi uma experimentação louca, porque estava sedenta de lançar todas essas coisas novas. Ao longo destes últimos anos também trabalhei em teatro, cinema, moda, artes plásticas, até com crianças e toda essa atividade paralela à Surma acabou por influenciar muito o resultado final deste álbum. Mas também de uma forma muito fluída, sem nunca estar a pensar no caminho a seguir e se calhar foi por isso que acabei por cair nesta parafernália sonora (risos).

A verdade é que este é só o segundo álbum de Surma, apesar de parecer que já fez muito mais coisas, talvez devido a toda essa atividade, sempre a disparar para vários alvos...

Lá está, tenho sido uma sortuda, porque apesar de me ter focado na música a cem por cento, também sempre quis trazê-la ao encontro das outras artes, porque é isso que me desperta a curiosidade e a vontade de experimentar coisas novas. E este é um disco muito influenciado pelo cinema, pelo teatro e até pela literatura, mas isso foi algo que percebi em estúdio, com a ajuda do Rui Gaspar, o produtor do álbum, num processo parecido ao montar de um puzzle, pois todas as minhas demos eram ainda bastante cruas.

E foi nesse processo de montagem do puzzle que o luxuoso naipe de convidados deste disco foi surgindo?

Tenho de confessar que são pessoas com quem já tinha o desejo de trabalhar há bastante tempo e nem teria necessariamente de ser num álbum. Mas mais uma vez o tal período de pausa da pandemia fez-me ver que já estava farta de trabalhar sempre sozinha e que este álbum poderia ser uma boa oportunidade para concretizar esse desejo. Antes de entrar em estúdio já tinha (os artistas) todos fechados, mas sem saber o que iríamos fazer, pois não tinha nada previamente definido para cada um deles. Também nesse caso foi todo um processo de experimentação, em que fomos para estúdio ver o que saía dali. Foi cada um no seu dia e acabou por correr tudo muito bem, de uma forma natural, com os temas a serem feitos no momento com a participação de cada um deles. Foi incrível.

Passaram cinco anos entre o álbum de estreia Antwerpen e Alla, o novo.
Passaram cinco anos entre o álbum de estreia Antwerpen e Alla, o novo. Foto: Rui Palma

Este é um álbum tem sido apresentado como autobiográfico. Em que sentido, por ser tão diferente?

Em vários sentidos e nem tanto por esse. O single Islet, por exemplo, fala de uma situação que vivi enquanto criança, pela qual muitos de nós passámos e que infelizmente ainda acontece, que tem a ver com bullying. A androgenia, e por consequência a identidade de género, é outro tema que sempre quis explorar na Surma e como tal também está presente no álbum. E nesse sentido, sim, é um trabalho autobiográfico porque aborda temas que me são muito próximos e situações específicas muito pessoais, que nunca tinha trazido para a Surma, mas agora fez sentido trazer.

Como é que isso aconteceu?

Não sei, talvez por o Islet ter sido o primeiro tema a ficar fechado e isso tenha aberto este caminho, que acabou por se tornar num processo muito terapêutico, tanto para mim como para o Rui. Houve momentos em que chorámos os dois e percebemos que tínhamos mesmo de seguir este caminho e assumir um álbum muito autobiográfico, revelando de certa forma uma parte mais reservada e vulnerável da minha pessoa que nunca tinha pensado tornar pública. E como consequência disso vejo hoje a palavra vulnerabilidade como sinónimo de força e de persistência, enquanto antes a associava mais a uma espécie de fraqueza e de inferioridade.

Surma.
Surma. Foto: Rui Palma

Como foi crescer a desejar ser uma artista assim tão fora da caixa numa aldeia do concelho de Leiria, como Vale do Horto?

Isso já está a mudar um bocadinho, mas de facto trata-se de uma realidade um pouco mais fechada, em que à partida não teremos tantas oportunidades de nos mostrarmos como acontece numa cidade grande. Já vivo em Lisboa há dez anos e se não estivesse cá possivelmente não seria o que sou hoje. Mas desde há alguns anos que a descentralização, pelo menos ao nível artístico, se está a tornar uma realidade e isso deixa-me muito feliz, porque eu própria quero fazer coisas no Vale do Horto.

Na verdade estava a tentar levar a questão para o tal lado autobiográfico, do bullying e de uma eventual incompreensão da sua sensibilidade artística, num meio tão rural e fechado...

Creio que sempre fui uma miúda um pouco estranha, pelas roupas que vestia, pela música que ouvia ou pelo simples modo de estar. E isso não ajudou, porque ser diferente nem sempre é muito bem aceite pelos outros miúdos. Mas isso até acontecia mais em Leiria, quando lá estudava, porque em Vale do Horto sempre fui muito bem tratada, ainda hoje é o meu refúgio e sinto um grande apoio por parte de toda a gente naquilo que faço. Olhando para trás, a esta distância, até agradeço aos bullys, porque se não fossem eles não seria o que sou hoje e se calhar não teria tantas ferramentas para me defender. Algumas dessas pessoas até já falaram comigo sobre isso e está tudo bem, já passou, não guardo qualquer rancor.

Num tempo em questões que como a identidade de género ainda polarizam bastante a sociedade, considera importante que os artistas tomem uma posição?

É muito importante, como se vê pelas Fado Bicha, por exemplo, que têm feito um trabalho muito importante para falar de temas que já nem deviam ser polémicos. São para mim uma inspiração no que toca a ter um papel ativo na música e embora não pretenda ser tão assumida nesse ativismo, também não quero deixar de ter a minha voz. É uma sorte e um privilégio para os artistas poderem desempenhar esse papel, de dar voz a temas como a homofobia ou o racismo, que são assuntos de mera justiça social e têm mesmo de ser muito falados hoje em dia.

Há também um lado muito estético neste álbum, ao nível do visual da banda, nas apresentações ao vivo, porquê essa opção?

Isso foi algo que surgiu para os concertos do disco, nos quais estou pela primeira vez acompanhada de uma banda. Além de ser muito complicado tocar este álbum sozinha, neste momento fazia-me mais sentido puxar por um lado mais orgânico ao vivo, até porque já tinha saudades de tocar com banda. Antes, as minhas apresentações eram muito minimalistas, comigo sempre sozinha em palco, escondida atrás de uma série de máquinas e instrumentos, mas agora, com o Alla, pretendi assumir finalmente uma personagem em palco e partir daí criámos toda uma cenografia para os concertos.

O novo disco toca em temas pessoais como o bullying.
O novo disco toca em temas pessoais como o bullying. Foto: Rui Palma

Como é que se transforma e resume um disco tão complexo como o Alla num concerto?

Foi muito complicado, aliás, ainda está a ser, porque continuamos à procura desse ponto certo. Estivemos cerca de dois meses de intensos ensaios em que as primeiras duas ou três semanas serviram apenas para fazer a anatomia de cada canção e perceber o que é que cada um tocava. Foi um trabalho tão intenso que a dada altura fomos obrigados a fazer uma pausa, porque já estávamos a ficar fartos uns dos outros (risos). Mas como temos um química muito bonita, tanto em palco como fora dele, porque somos amigos há muito tempo, isso acabou por nos ajudar a encontrar o caminho. E mesmo assim, no primeiro concerto, ainda andámos um bocadinho à procura dos botões, porque cada um dos nós tem de ser um bocado "polvo", em palco, e tocar muitas coisas ao mesmo tempo.

E que mais anda a fazer a Surma por estes dias?

Estou neste momento a fazer a sonoplastia ao vivo para três peças de teatro, vou fazer uma residência artística no Alentejo com o Pedro Mestre, o tocador e professor de viola campaniça e quero tocar este disco o máximo possível, apesar de entretanto já estar a pensar no próximo álbum.

Já?

Sim, já estou novamente a entrar no modo workaholic (risos).

E como vai ser, pode revelar?

Vai ser totalmente o oposto deste. Já tenho a estética fechada e o objetivo é fazer um álbum apenas com sintetizadores. É esse o desafio neste momento, mas até lá ainda tudo pode mudar. Vamos ver...

O que é que a inspira para criar música?

Ui, tanta coisa, mas talvez as viagens sejam a minha maior fonte de inspiração, porque a parte visual é muito importante para mim no momento de criar. Também como falar com pessoas de outras culturas, que vivem noutra realidade. Neste álbum, por exemplo, a literatura foi muito importante. Li muito durante o confinamento e isso ajudou-me a criar diversas bandas sonoras, que depois aproveitei para o Alla. Mas todas as outras artes me inspiram, o cinema, o teatro, a pintura...

Mas não tanto a música...

A música fica sempre em segundo plano, ao contrário do silêncio, que também me inspira bastante.

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