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"A Moda flirta com todas as disciplinas, por isso é preciso ter uma cultura muito grande"

Quando tudo o que temos como certezas nos falha, chega a altura de parar, pensar e questionar. E depois fazer perguntas novas. A 57ª edição da ModaLisboa arrancou com uma interrogação coletiva e não termina com pontos finais – é que tal como a sua fundadora e diretora, este é um certame que 30 anos depois ainda não sabe estar parado.

Eduarda Abbondanza.
Eduarda Abbondanza. Foto: Louie Thain
11 de outubro de 2021 | Patrícia Tavares

Queria começar pelo óbvio: o tema desta edição. Quando ouvi pela primeira vez este tema, senti-o como uma provocação, mas acho que é um tema que varia conforme a perspetiva de cada um. Pode ser uma coisa "and now what?" o que é que ainda há para fazer?; ou não há nada, se a pessoa for um pessimista. Ou, por outro lado, pode ser uma algo com caráter otimista. Qual foi o tom que quis dar – ou quis deixar em aberto?

Eu acho que o que está na base são esses tons todos. Mas o que está na comunicação é sempre uma perspetiva otimista. Porque é essa a mensagem que nós queremos passar. Mas na realidade, a melhor forma de eu contar a história da ModaLisboa nestes 30 anos não é nem pelos sítios nem porque aconteceu esta história ou aquela – porque acontecem sempre histórias. A melhor maneira de eu contar a história seria pelos temas da ModaLisboa porque através do tema eu sei contextualizar cada uma delas: qual era o mood, o que é que era a missão naquela altura, quais eram as expetativas, os objetivos, a estratégia, tudo... Eu sei dizer tudo sobre a ModaLisboa, sobre o país e sobre o Mundo, a partir do tema. Este tema reflete sempre alguma coisa nossa – fomos nós que o pensámos e somos nós que o validamos. Mas não vamos a nenhuma caixa ou nenhuma agência de publicidade encomendar os temas. Nascem sempre de nós. E "now what?" tem muito a ver com a saturação toda da covid-19, do online... de tudo e um par de botas. E da pressão da equipa dos 30 anos. Portanto, sai quase não como um tema, mas como: e agora? O que é que é preciso fazer mais? E depois disto, o que é que temos de fazer mais?

E, como em todos os processos criativos, nós vamos anotando palavras, assuntos, questões que são pertinentes para nós e em que ainda não tocámos. De repente "and now what?" por todas as razões tornou-se válido. Iam passando os dias e ele assumia uma dimensão, para além de um desabafo, ele assumia uma dimensão maior.

Todas as indústrias são desafiadas, mas quando falamos em Moda particularmente – não sei se por ser ainda associada a uma indústria muito fútil – parece que é um universo que é ainda mais colocado à prova. ‘E agora, que mais? E agora, o que é que vão fazer de diferente?’ Não sei se também veio nesse sentido.

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Veio. As pessoas criticam, mas esquecem-se que fazem parte do sistema. Fazem parte dele - muitas vezes até inconscientemente, - mas fazem. E essa exigência, essa necessidade que as pessoas têm do novo, inevitavelmente naquilo que é a indústria da Moda é muito evidente. Porque a Moda é uma indústria, mas é uma Arte também. Faz parte da Cultura e denuncia tão rapidamente tudo aquilo que se está a passar. Porque se mistura com todas as outras, mistura-se. Tem uma relação de poliamor com todas as outras disciplinas e saltita sem muitas regras por aí. Mas sim, há essa pressão e a indústria da Moda, como lhe interessa porque é uma indústria que fatura milhões, responde muito bem a essa ansiedade das pessoas.

Quase um FOMO pelo novo. Mas é engraçado que, olhando para estes últimos desfiles e para Casas como Chanel, Louis Vuitton, Chanel, Valentino, estão a voltar ao passado e aos arquivos para escrever o futuro. Acha que isto é um sinal de insegurança? Será uma forma de nos agarrarmos às únicas certezas que temos? Ou é também uma forma de pegar em códigos antigos e dar-lhes uma reinterpretação como resposta a este FOMO?

O desfile da Chanel foi particularmente emblemático. Para mim, que sou mais velha, aquilo é claramente uma reposição dos anos 90. A passerelle, a altura da passerelle, as entradas laterais, a língua e depois aqueles fotógrafos que são claramente figurantes porque naquela posição não estão a fotografar. Temos uma passerelle carregada de fotógrafos de uma ponta à outra. Quando ainda antes da ModaLisboa, eu fui fazer um estágio rápido a Paris, naquilo que eram desfiles e bastidores – sabia lá eu o que eram bastidores antes de fazer a ModaLisboa – tive o privilégio de assistir a muitos desfiles importantes, desde Galliano a Jil Sander, a Christian Lacroix, por aí fora. E na realidade assisti a um desfile igualzinho ao da Chanel. De alguma maneira, a coleção também remete para esse universo. E, de alguma maneira, também a ModaLisboa vai buscar imagens dos anos 90. Na Chanel terão de ser eles a explicar, mas para nós tem a ver com haver muita liberdade criativa. Hoje em dia a liberdade criativa não existe. Porque a Moda está carregada de coisas às quais tem de responder – não estou a criticar, atenção, estou a constatar. A Moda tem tantas questões sobre as quais tem de ponderar, pensar, alterar, modificar, responder, que há uma liberdade que lhe era subjacente nos anos 90, que desapareceu. Ponto.

Tinha aqui uma pergunta relacionada com isso: hoje em dia, é exigido que uma marca seja transparente, sustentável, tudo. E, claro que essas são questões importantes, mas isso pode de certa forma abafar um bocadinho essa criatividade, não sei se era a isso que se referia.

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Sim, são questões que nós temos todos que responder. São legítimas e fazem parte da sociedade que temos hoje em dia. Nos anos 90 elas não existiam. Eram outras questões que existiam e que permitiam um pensamento mais livre de tabelas. Talvez possamos dizer que foi a liberdade de pensamento dos anos 90 que agora nos fez estar mais condicionados. Será? Poderá ser. Mas o que é facto é que nos anos 90 do ponto de vista criativo não havia limites. Independentemente de, e nós vimos depois ao longo da história, tantas coisas complicadas. Como a entrevista do John Galliano, a própria história do John Galliano, a história da Kate Moss, histórias muito complicadas porque se foi longe de mais – e também se retificou nessa altura. Há essa capacidade de entendimento e de controlar e de retificar o discurso para o exterior. Mas era uma liberdade que existia.

A Moda dos anos 90 foi seguida do início dos anos 2000, que foi a loucura absoluta das cinturas descaídas, das coisas que eram consideradas pirosas, trashy e que agora vemos novamente a entrar dentro de desfiles e tendências.

Da mesma maneira que, antes disso, os anos 70 continuam sempre. A paisagem de base para tudo, sendo que agora no confinamento vimos a questão das comunidades no campo, as comunidades alternativas, com os jovens de 16/17 anos. E que, se nós compararmos, as próprias imagens são muito semelhantes nas opções e na maneira de pensar a vida fora do contexto acelerado e histérico das cidades e grandes metrópoles que estão cada vez piores.

Estávamos aqui a falar da pandemia e daquilo que veio expor. E veio expor ainda mais as vulnerabilidades da indústria e passou-se a exigir ainda mais transparência e sentido de comunidade e escolhas mais conscientes... Este tipo de exigências que estão a ser feitas são uma realidade possível para a Moda agora e para a Moda portuguesa?

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É. Digamos que as marcas não respondem todas aos mesmos assuntos. Isso tem a ver com targets. E esta questão do confinamento veio trazer muito o B to C. Isso para as marcas dos designers que são marcas pequenas – são micro, pequenas ou médias empresas – é determinante. Porque faz com que não haja 50 mil intermediários que aumentam o preço e faz com que o designer não contacte com o seu público. Esta questão do confinamento e de trazer o business to consumers foi boa. Quer dizer, o confinamento não tem nada de bom, mas há no ultrapassar desse estado de emergência que ninguém queria um tentar retirar lições positivas. Naturalmente todas estas marcas têm um lado de transparência na sua produção que, muitas vezes, elas nem comunicam porque não sentem necessidade de comunicar de tão visível. São marcas que produzem em Portugal – que é um país da União Europeia com uma série de leis de trabalho, regras, regulamentos e etc, que torna a nossa produção dentro do que são os limites da comunidade europeia: com produções locais, não tem excedentários (têm poucos), trabalham muito limited edition e trabalham muito os arts & crafts dentro daquilo que é a produção das suas coleções. Têm muito o cuidado de ter partes manuais na sua própria fabricação, como é o caso da Béhen, da Constança Entrudo e tantos outros. Digamos que, se por um lado, nós temos marcas que enfrentam mais as questões de género - por exemplo, questões de inclusão, porque é esse o seu universo de trabalho, é aí que o seu património criativo está situado - temos outras para as quais a sustentabilidade e a produção ética são o seu território. Nasceram já assim, não tiveram de sofrer adaptações, como é o caso da Béhen, que toda ela é ética e sobre sustentabilidade social. A sua génese é essa e, de alguma maneira, a da Constança também. Já são marcas de última geração que não nascem de adaptação, não têm que fazer adaptações.

Como é que a Moda, sendo algo tão comportamental, pode aspirar a um caráter intemporal? Hoje esse é um grande chavão que muitas marcas usam – roupas intemporais, peças intemporais, estilo intemporal –, isso existe sequer?

No passado chamavam-se peças icónicas. Hoje em dia as peças icónicas são as peças intemporais porque são aquelas que ficam no nosso roupeiro e que até podemos não usar durante bastantes anos, mas depois voltamos a usar com menos intensidade noutros contextos de vestuário – como reapropriação – ou como usámos primeiramente.

Porque uma peça icónica o é porque olhamos para ela e conseguimos identificar um timing, um comportamento, uma mensagem.

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Algo que não se perdeu. Eu tenho no meu guarda-roupa muitas peças icónicas que já não uso, mas parte do meu guarda-roupa já ofereci. O meu roupeiro não é excessivo, nunca foi, detesto comprar compulsivamente, provoca-me dor, não me provoca prazer. Gosto de ir comprando, não gosto disso de comprar 10 peças num dia, mas não é só de agora, foi sempre assim. Mas tenho peças que não consigo dar porque tenho uma relação com elas e porque preciso delas do ponto de vista de investigação, de construção. Tenho peças absolutamente deslumbrantes que não me desfaço delas. Tenho um vestido Alaïa que é icónico, feito de uma malha absolutamente transcendente a todos os níveis, tecnológico, de modelagem, tudo. Ele é absolutamente incontornável. Tenho um vestido da Prada absolutamente amarelo, que é uma cor que eu não uso, portanto comprei um vestido amarelo mas que é todo cheio de pedras de cima abaixo e tudo o que brilha para mim é muito interessante. Tenho dois smokings do Yves Saint Laurent originais, da altura Yves Saint Laurent. Tenho um smoking branco da Stella McCartney e depois tenho mais umas coisas que não consigo dar. Nem pensar. Tenho algumas peças Abbondanza Matos Ribeiro ainda, que também não me desfaço delas porque são demasiadamente... Não consigo, ou porque foram mesmo feitas para mim ou porque aquele tecido é qualquer coisa de transcendente e eu fixei isso. E depois o resto vou dando. Dou muita roupa, sempre ofereci muito.

O que é que acha deste conceito de aluguer de roupas que algumas marcas, como a Stella McCartney ou a Burberry, estão agora a criar e a desenvolver?

É tão caro e poluente. Porque cada vez que se aluga uma roupa, ela anda em transporte e depois tem que inevitavelmente ir para a lavandaria. Na verdade, o aluguer de roupa sempre aconteceu, nos festivais de Cannes, nos Óscares, etc, há quinhentos anos que são montados mega showrooms de joias, sapatos, a que 50 mil aspirantes a atrizes recorrem e se vestem lá. Portanto essa questão do aluguer não é uma coisa nova, chegar ao público em geral é que é mais novo.

Eu acho que pode ser interessante, por exemplo um vestido de noiva é uma coisa que se usa uma vez na vida. Eu não sei se gostaria de casar com um vestido alugado, não faço ideia, mas eu já sou de outra geração. Se calhar as gerações mais novas estão-se nas tintas para isso. O vestido de noiva ocupa imenso espaço, requer manutenção, é caríssimo. Ou posso ter uma gala e precisar de um vestido com uma tipologia que, depois de usar naquela gala, não posso mais vestir, porque não posso aparecer com o mesmo vestido duas vezes. Por isso, se calhar o aluguer de roupa faz sentido em algumas ocasiões.

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Eduarda Abbondanza, fundadora e diretora da ModaLisboa.
Eduarda Abbondanza, fundadora e diretora da ModaLisboa. Foto: António Custódio

Talvez até para tocar um bocadinho os consumidores no sentido em que, quando têm acesso a uma peça e vestem e sentem, é diferente e conseguem perceber melhor porque é que aquela peça tem o valor X ou Y.

Também é um ato de democratização das marcas de luxo.

Uma pessoa que se queira educar sobre Moda e sobre consumo, por onde é que começa?

Ui. Quer saber como é que eu me eduquei sobre consumo? Nós tivemos uma geração pioneer, iniciámos os processos todos, não tínhamos histórico. E como não tínhamos histórico, tínhamos de fazer as experiências todas para perceber.

Mas hoje em dia, como é que alguém pode chegar e ir informar-se sobre. Fala-se muito que não há cultura de Moda em Portugal, que é uma coisa recente... Como é que alguém se pode educar sobre Moda?

Estudando, lendo. A Moda é uma cultura por isso existem aulas. Nós fazemos muitos exercícios de estimulação nas minhas aulas. No passado a informação estava classificada por isso havia informação para profissionais, para semiprofissionais e para o público em geral. Hoje em dia não, está tudo disponível. Há aqui uma questão que é: todos nós vemos as mesmas coisas. É a maneira como as vemos que difere. Por isso a questão é olhar e ver. As pessoas que trabalham em Moda têm que ter um olhar mais agudo, mais acutilante, onde vão ler na mesma informação que os outros vão ler, mas que elas leem coisas diferentes. Por exemplo ontem quando surgiu o ativista no desfile da [Louis] Vuitton. Eu não vejo só uma imagem, a partir do momento em que há essa ocorrência, eu tenho de saber tudo sobre a ocorrência. Tudo. E se para isso for preciso uma noitada ou uma insónia eu nem hesito. Nem consigo pular essa necessidade de saber tudo. E, portanto, saber tudo significa investigar de muitas maneiras.

Tem referências de algumas dessas formas de investigação? Ou de pessoas que considere referências. Isto para aquelas pessoas que "adorava estudar moda, adorava saber mais, por onde é que começo?"

Não há só um começo, tem de começar por muitas frentes ao mesmo tempo. Para já: quer saber mais sobre Moda até que nível? O que é que quer fazer com Moda? Quer trabalhar mesmo na área da Moda? O que eu dou é projeto por isso eu estou diretamente ligada ao que é desenvolvimento de projeto na área da Moda. Para fazer isso tem que ter conhecimentos de construção de vestuário porque não é possível, sendo que o vestuário é desenhado de uma forma flat, ele parte de materiais que são flats para uma tridimensionalidade. É preciso saber de construção de vestuário para poder desenhá-lo. E quem não sabe porque há pessoas que têm muito sucesso e vem de formações na área têxtil e não de vestuário, e mais tarde percebem que têm de juntar à sua formação têxtil formação de vestuário para conseguir realizar bem o seu trabalho. O vestuário requer conhecimentos técnicos específicos. Isso é logo uma questão.

Depois para começar a entender este mundo todo tem de perceber que a Moda tem sempre um lado económico e perceber que os grandes negócios de Moda têm uma raiz económica, têm um pensamento de negócio. E que em Portugal não há investimento de Moda e que isso é um problema grande para o desenvolvimento da Moda em Portugal porque os criadores com o seu próprio investimento... A Moda é um assunto caro, trabalhar em Moda requer meios, a não ser que esteja empregado de alguém, fazer alguma coisa em Moda requer meios. E isto porque? Porque há que criar marca e a marca leva tempo e porque o valor de lucro está na marca não está no produto. Sabemos isso. Os criadores conseguem subir degraus e sobem-nos muito bem, mas há uma altura das marcas em que é preciso subir patamares e para subir patamares é preciso investimento. Ponto. Se não, a marca fica ali. E isto é, daquilo que são os meus 30 anos de experiência, incontornável. É preciso money, não há como.

Para produzir e trabalhar com Moda, é preciso ter um partner que pense o business, porque o designer não pode pensar em tudo. É preciso saber que é preciso ter. O negócio tem que estar pensado. A logística e tudo isso.

E depois é preciso Zeitgeist. A Moda flirta com todas as disciplinas, por isso é preciso ter uma cultura muito grande. É por isso que faço estimulação, passo 50 mil exercícios, digo para lerem 50 mil coisas. Hoje em dia há pouca informação especializada por isso Business Of fashion é a única informação, é o nosso jornal, é o jornal da Bola da Moda é o BOF. Ler todos os artigos do BOF é fundamental para começar a perceber como é que mundialmente as coisas se processam e depois é preciso ser criativo e é preciso ter cultura. Não em todos os casos, depende do que é que a pessoa quer fazer, mas não vai conseguir juntar tanta cultura de um dia para o outro. Por isso, isto é uma coisa que se vai treinando. É preciso estar conectado com as coisas que estão a acontecer. Conexão é uma coisa que se desenvolve através de várias coisas.

Depois é preciso perceber de sociologia, psicologia, disto, daquilo, é preciso apanhar muitas coisas. No princípio dos anos 2000 eu só lia livros de Economia e os meus amigos passavam-se porque eu ia de férias com livros de Economia. "Trabalhas em Moda e vens carregada de livros de Economia???". Foi na altura da Globalização.

Ou seja: é preciso falar a linguagem do que está a ser falado no momento?

É preciso entender o tempo em que se está a viver. Zeitgeist, não é? E quais são as coisas que estão em cima da mesa. Por exemplo, do que é que eu preciso que eu não sei?

E do que é que precisa? Sobre o que é que está a pesquisar neste momento?

Biomateriais. Estou na zona dos cogumelos.

Esteve a ver o documentário dos fungos!

Já vi várias vezes, mas vi uma outra coisa: vi um tecido absolutamente extraordinário e que, ao contrário de outros materiais que tentam simular outros já existentes mais ecológicos, aquele não é uma substituição. Está um palmo acima da própria pele dos animais e, portanto, estou absolutamente mergulhada nisso. Depois vai-me perguntar assim "o que é que vai fazer com isso?". Nada, mas não interessa! Eu não preciso nunca de uma justificação para aquilo que me interessa.

Falou em conetividade. Hoje em dia fala-se em conetividade e o primeiro pensamento é Instagram, Internet... Pensando nisso como um canal aberto para as marcas e consumidores e, tendo em conta que no ano passado tiveram que reformular todo o vosso evento para se adaptarem a esta realidade, o que é que sente que este digital pode trazer como ferramenta de mudança? Há muitas pessoas que dizem que a emoção sentida num desfile jamais pode ser substituída por esta experiência... Como é que acha que podemos utilizar esta ferramenta a nosso favor? Falando de Futuro.

Foi uma aceleração digital incrível. Se não nos tivesse acontecido o mal que nos aconteceu, nós não tínhamos tido essa aceleração. E toda a gente passou a funcionar digitalmente, fosse mais velho, mais novo, com mais recursos informáticos ou com menos, gostando mais do digital ou gostando menos, toda a gente foi obrigada. E isso provocou um avanço considerável. Eu depois disto tudo que passei... Eu vejo muitas pessoas que estão descansadas porque, de alguma maneira, puderam estar menos ativas neste período. Não foi o meu caso. E eu estou em contraciclo, estou muito cansada. E de repente a ideia de ter de lidar com o público depois de uma edição digital que tinha corrido tão bem, assustou-me imenso. Mas todos nós, neste momento, estamos com dificuldade em cumprimentar-nos, não nos sabemos cumprimentar. Perdemos esse hábito. Vemos alguém, ficamos distantes, não sabemos se damos um abraço, um aperto de mão... E estamos um bocadinho de pânico de espaços sobrelotados. E os desfiles que eu tenho estado a ver, tirando exceções, têm todos público, mas não têm o público que tinham antes. Têm um público muito mais reduzido. Claro que todas as atividades criativas precisam dessa interação do público, porque a Moda trabalha para as pessoas diretamente. Não é um bem de primeira necessidade, mas é um bem que tem a ver com o lado emocional das pessoas e, portanto, naturalmente que online é tudo mais flat e há um lado emocional que não passa. Mas é uma ferramenta incrível, por exemplo nós vamos ter que repensar muita coisa: uma masterclass presencial, conseguimos fazê-la com 20/30 pessoas; numa masterclass online com inscrição e sem fazer publicidade podemos ter 200 pessoas. Eu acho que no futuro cada organização, cada marca, cada um de nós, vai ter no âmbito do seu trabalho decidir o que é que se justifica. O que é que pode ser presencial e o que é que funciona bem digitalmente. Sendo que o digital não é uma coisa que vai desaparecer, ele faz parte já.

Uma das formas de permanecermos relevantes é através da mudança. E que estranho seria que as coisas continuassem todas estanque e nada mudasse no mundo da Moda. Fala-se há muito tempo de um fim ou de uma readaptação do calendário oficial de Moda. Como é que se faz essa readaptação a ritmos diferentes?

Nós já fizemos essa adaptação e fomos dos primeiros a dizer: não há estação. Nós já não temos essa imposição em relação aos nossos designers já há várias edições, porque nós trabalhamos com marcas que só faz sentido a apresentação na ModaLisboa se ela se vir como uma ação para vender imediatamente. E há marcas que estão organizadas com os timings todos e que têm um tipo de produção diferente que funcionam a 6 meses. Nós trabalhamos sem estação, já deixámos de fazer essa exigência há bastante tempo. E agora vamos ver o Futuro. Há muitas coisas. A própria alteração do grupo Condé Nast tão anunciada e pensada há tanto tempo já, mas que começa a entrar em funções agora. Começa-se a sentir muito. É um grupo que assenta muito nas marcas de luxo e as marcas de luxo também mudaram os mercados nestes tempos de confinamento – alteraram as estratégias, mudaram de mercados. O mercado americano continua a ser um mercado muito interessante, mas já não é um mercado prioritário de maneira nenhuma.

Quais é que vê como mercados prioritários? Ou isso já está diluído?

A China, um mercado onde os consumidores estão habituados a comprar digitalmente. E a China tem milhões e milhões de consumidores. Também os Emirados Árabes. Toda essa zona. O Japão já era. Os EUA já eram. Ainda nesta estação, os problemas dos showrooms eram que os asiáticos não estavam ainda a viajar. Os showrooms podem já ter tido alguma fisicalidade, mas foi online que eles estiveram a funcionar. Porque os mercados que são realmente importantes não estavam a viajar. E a Moda tem uma necessidade de se reerguer como todas as áreas, mas ela não está a funcionar como estava antes disto. Ainda está em esforço. E é preciso entender como é que vai ser o novo mundo. Por exemplo, a Itália foi muito castigada na Europa com a Pandemia, e a Itália tem muita indústria, enquanto a França acaba por estar mais ligada à Alta Costura, aos ateliers, aos arts & crafts, tudo muito protegido e classificado. A Itália tem indústria, com muita emigração ilegal e por aí fora, portanto, claramente nesta estação a Itália ainda estava a lamber as suas feridas, enquanto que Paris zukkk. Vamos ver como é que isto se recompõe. Eu estou à espera de alterações estruturais, estou há um ano e meio à espera dessas alterações. A primeira leva de confinamento em que se achou que as pessoas iam mudar e que o mundo ia ficar muito melhor e a solidariedade... eu nunca achei isso. Fiquei confusa por estar em contracorrente. Porque não era isso que as minhas antenas me indicavam. E agora, apesar de perceber a dureza de tanta coisa, percebo que a minha intuição, que eu por momentos achei que estivesse cega – que tivesse perdido um sentido porque estava aqui fechada com um ecrã – não me enganou. Não sei ainda explicar do que é que estou à espera, mas é de algo.

Fala-se de um futuro colaborativo e a última edição da ModaLisboa foi sobre isso. Falar do futuro da Moda não é falar de uma viagem a solo, é de uma viagem conjunta. Sente que é isso que acabou por prejudicar determinados mercados enquanto outros... – ou seja, este futuro colaborativo de que se fala ainda não é de todo uma realidade?

Nós vamos sempre tendo muitas realidades. Nós já tínhamos muitas realidades e agora vamos ter mais ainda. Depois disto nós vamos encontrar muitas realidades, a própria cidade de Lisboa é um exemplo – eu sei que não conheço a cidade de Lisboa. Eu que nasci cá, e que sempre vivi cá tirando o tempo que vivi em Milão, e que sou uma lisboeta nata, tenho a consciência que tenho de perceber novamente a cidade de Lisboa porque ela mudou imenso nos últimos tempos. Eu e toda a gente a tem que perceber.

Mas sobre esse futuro colaborativo. O futuro já é colaborativo. Por exemplo os exercícios que nós fazemos na faculdade que há muitos anos eram individuais, agora são sempre colaborativos – sempre. Isto porque as pessoas têm de ser treinadas para uma realidade que é aquela que vão enfrentar. Ele é colaborativo, mas não quer dizer com isso que ele seja bonzinho, ele é colaborativo em algumas situações no sentido em que as pessoas se entreajudam, e noutras pelas alianças que lhe interessam. Mas é colaborativo. E há muitas tribos e muitas alianças.

Há pouco falou das suas ‘antenas’ – ou da sua intuição. O que vê daqui a 30 anos? Como acha que vamos consumir Moda no futuro? O que acha que vai mudar na Moda no que diz respeito ao consumo e aquilo que vamos vestir?

Não consigo prever isso, quem me dera. Não tenho uma bola de cristal, mas sem dúvida que o desenvolvimento tecnológico vai ser determinante. Só o facto de terem implementado a impressora digital alterou o paradigma todo da Moda – TODO. Porque de repente os produtores de pigmento que estavam todos organizadinhos há 500 anos e todos a produzir os pigmentos para os têxteis e, de repente, surge a impressora digital e quando ela se dissemina toda a gente pode fazer prints e usar cores agora, sem ter de estar a programar as compras a não sei quantos anos... Isso alterou tudo. Por isso podemos imaginar que o desenvolvimento tecnológico não parou e que da parte da robótica e dos programas tridimensionais e toda a maquinaria – na área das malhas por exemplo é transcendental, e na área da fabricação dos tecidos também – nós vamos encontrar uma cultura nova, que vai sempre abordar novas estéticas porque a tecnologia surge sempre com revoluções tecnológicas – e nós estamos a passar por uma revolução, não sei se as pessoas têm consciência disso!

Quando há grandes revoluções tecnológicas, esteticamente (...) agora existe uma coisa a que se chama digital crafters que é as máquinas numa primeira fase existiam e quem trabalhava com as máquinas eram os técnicos das máquinas. E os criativos estavam a produzir e a pensar para dar aos técnicos para os técnicos produzirem com aquilo que eram as valências da máquina. O digital crafter é aquele que pega na máquina e aquele que a pode destruir, mas vai encontrar possibilidades naquela máquina que um técnico não encontra, só um criativo pode encontrar. Quando vê aqueles sapatos todos feitos em impressoras 3D ou aquelas carteiras, tudo isso tem a ver com digital crafting. Toda essa evolução tecnológica vai desenvolver uma cultura e uma linguagem artística nova.

E a própria linguagem artística vai exigir novidades tecnológicas, certo?

Elas estão na calha. Elas estão a começar a entrar no mercado e, portanto, isso vai inevitavelmente criar uma cultura própria ao nível do design, ao nível do pensamento, do produto, quer se queira quer não. Por exemplo as questões da sustentabilidade acrescentam fases ao projeto de design. Nós acabávamos no protótipo, agora temos de pensar o que é que acontece àquela peça de vestuário. Não é sempre, mas parte dos exercícios tem mais fases de pensamento que têm a ver com questões relevantes para esses assuntos que nós temos de resolver ao nível da moda também, que são as questões da sustentabilidade, que é como é que aquele produto depois vai morrer ou vai acabar, ou como é que pode acabar. Assim como por exemplo toda a parte de malhas, ou outro tipo de materiais, ajuda porque o corpo do homem é diferente do corpo da mulher e o corpo da mulher é diferente do corpo do homem... Nestas questões do genderless, o genderless é muito mais fazível com materiais com elasticidade e adaptação natural ao corpo do que com materiais flat e com delimitação na sua flexibilidade. E a tecnologia vai ajudar também a resolver esses enigmas.

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