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Doutor Manuel Pinto Coelho: “A maioria dos problemas de saúde não se resolve com medicamentos"

Médico especialista em medicina funcional, Manuel Pinto Coelho foi dos primeiros a falar da urgência de olharmos para o nosso sistema imunitário na resposta à covid-19. Um ano depois do seu vídeo viral, fala à Máxima sobre o que é que poderia ser feito.

10 de março de 2021 | Rita Silva Avelar
Aos 72 anos, tem seis filhos e sete netos, e é um dos médicos com melhor reputação em Portugal sobretudo no que toca à prevenção e à melhoria global do estilo de vida. Dedicado à medicina funcional e anti-aging, Manuel Pinto Coelho sempre falou à frente do seu tempo, e por isso é que há precisamente um ano, um vídeo seu a falar sobre a importância da nutrição se tornou viral.

No vídeo, o médico apontava a urgência de fortalecer o sistema imunitário como papel essencial no combate à covid-19. Um ano depois, e como mais nenhuma voz se levantou, chega o livro "O Segredo do Sistema Imunitário", publicado pela Leya, sobre o tema.

 Estamos menos imunes e mais doentes? Será que tenho um bom sistema imunitário? Como posso reforçar a minha imunidade? O que é a imunidade específica e a imunidade não-específica? Quais os benefícios da «Vitamina» D para o sistema imunitário e o combate à Covid-19? São perguntas com resposta a ler neste livro. 

Aproveitámos para conversar com Manuel Pinto Coelho, que também é autor dos bestsellers "Chegar Novo a Velho" e "+Vida +Saúde +Tempo", que não esconde a urgência e impotência que sente em relação ao facto de este ser um tema pouco debatido, publicamente.

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Quando a pandemia chegou, foi um dos primeiros a falar sobre a importância de reforçar o sistema imunitário. Sente que a mensagem chegou a muitas pessoas?

Foi em março do ano passado, faz precisamente um ano, foi visto por 2 milhões de pessoas, por isso eu sei que muita gente olhou para ele. Para se perceber que o conhecimento está sempre a progredir, e que não se pode aceitar dogmas em Medicina, é que na altura eu disse uma coisa que hoje já não diria. Que este era um vírus que atacava o aparelho respiratório, sazonal, e que em princípio num mês ou dois se ia embora. Disse eu, a organização mundial de saúde, a DGS… enfim, como dizia e bem o Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Sales, numa entrevista recente, a evidência científica de hoje é erro retificado amanhã. Como tal, a propósito do sistema imunitário, era bom que se percebesse que está estudadíssimo, não quer dizer que não se venha a descobrir mais nada. Mas em relação ao inimigo, que é totalmente misterioso, atípico e diferente de todos os vírus daquela família, é que não se conhece nada. E ao fim de um ano continua sem se conhecer nada. Será que faz sentido que a comunidade científica e o mundo em geral, Portugal em particular, continue a apostar em que todas as estratégias sejam para aniquilar o vírus? Evitar que o vírus infete o homem? Com as máscaras, distância social e confinamento? Eu nunca vi ninguém ganhar uma guerra não se conhecendo o inimigo.

O que é que poderia ser feito?

Conhecer o que se passa do lado de "lá". Como é que é possível, não se conhecendo o que se passa do lado de lá, que a estratégia continue a ser esta? Nas faculdades aprende-se que para haver uma doença tem de haver o agente agressor e o órgão atingido. Faz sentido continuar a valorizar a "semente" esquecendo-nos do corpo, do solo, onde ela aterra? O sistema imunitário são as defesas que o corpo organiza para que a semente não germine. Sempre me espantou nunca ninguém ter discutido o assunto. Na hora dos noticiários, que eu vejo a falar são os epidemiologistas, virologistas… colegas e profissionais a discutir o vírus. E não vejo nenhum fórum para discutir as nossas defesas, o sistema imunitário. Logo quando o vírus apareceu achei extraordinário ser só eu a única voz a levantar-se em relação a isto. Passado um ano a situação é igual.

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Este seu novo livro preenche este vazio?

Entendi que era oportuno passar da gravação dos vídeos para algo escrito, para o papel, de modo a que as pessoas possam acordar para esta realidade. Se a pessoa tratar do sistema imunitário esta preparada para enfrentar a covid-19 como está preparada para enfrentar os outros micróbios, sejam vírus, fungos… A doença é o fruto do braço de ferro entre o agente invasor, tendo ele a roupagem que tiver, e o que nos defende, que é o nosso sistema imunitário.

Começou logo a escrever o livro?

Sim, sabia que mais tarde ou mais cedo teria que escrever. Demorou algum tempo pois tenho os meus pacientes… no próximo ano faço 50 anos de prática clínica, e como tal tenho uma casa grande, clínica essa que tem o meu nome e que se dedica com uma preponderância enorme ao sistema imunitário. O que também me fez querer dizer às pessoas que é por "aqui" que se tem de ir… Uma boa parte do livro dedica-se a inúmeros estudos, que demonstram evidência científica que aponta para o papel preponderante que a Vitamina D pode ter não só na prevenção da doença como no tratamento da mesma. E passado um ano nada mudou. Só me lembro de uma entrevista de Sobrinho Simões ao Diário de Notícias, a 2 janeiro de 2019, que dizia que íamos ter as doenças que os políticos quisessem. Foi quase premonitório aquilo que ele disse.

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Qual é a razão para esta inversão de prioridades, por assim dizer?

O sistema imunitário relaciona-se muito com o estilo de vida. Hoje em dia há congressos sobre tudo [dentro da área da saúde], é mais ou menos claro que quase todos o são organizados pela indústria farmacêutica, e falam sobre medicamentos que visam tratar doenças. E não se organiza um congresso sobre estilo de vida. Aquilo que se faz são coisas que dão dinheiro a ganhar… e todos sabemos que o estilo de vida não interessa a ninguém. Não há congresso que ganhe alguma coisa com o seu laboratório a organizar uma conferência sobre o impacto que uma mudança de estilo de vida bem feita pode conseguir em termos de saúde. O azar é esse. Aquilo que estimula o sistema não são só as vitaminas, é ter um intestino saudável – 80% do nosso sistema imunitário está na parede do intestino – e há imensas estratégias para conseguir esse objetivo. Praticamente todas têm o denominador comum, que é o estilo de vida. O meu livro é "uma pedrada no charco" nesse sentido.

Fala na urgência do acesso igual às vitaminas D3, K2, selénio, zinco, magnésio, e vitamina C. Diminuir as doenças é aliviar o SNS?

Com certeza que sim. As pessoas iriam ser mais saudáveis, pois iriam prevenir melhor as suas doenças, e o SNS beneficiaria com isso. Todos beneficiariam. Porque é que isto acontece? Eu acho que os profissionais de saúde, à exceção dos nutricionistas, não estão preparados para aceitar que o alimento é de facto o nosso principal remédio, como dizia Hipócrates, que tinha três frases célebres, entre outras. Uma delas é que o alimento é o nosso principal remédio, a segunda é que todas as doenças começam no intestino, e a terceira é que temos dentro de nós tudo quanto precisamos para resolver esses problemas. A maioria dos problemas de saúde não é tanto com medicamentos, mas abandonando determinados hábitos.

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É disso que fala quando fala, também de vacina natural?

Claro, se tivéssemos um sistema imunitário promovido, estaríamos preparados para resistir ao novo coronavírus e todos os outros agentes que nos queiram invadir. Em consulta, as pessoas dizem-me com frequência que nunca mais se constiparam, nem no inverno. É extraordinário que ninguém fale disto. Sabemos que é difícil aceitar ideias novas, mas eu acho que o problema é mais escapar das ideias antigas… Eu falo com esta à vontade, porque eu fui assim durante dezenas de anos. E por isso nunca levantarei a voz contra os meus colegas…

O que é que o fez mudar ao longo dos anos?

Foi só uma coisa, um problema de saúde de um filho, que foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica. Fez-me confusão que a abordagem fosse tão limitada… fui investigar. Foi isso que me obrigou a saltar fora da caixa. Tinha acabado de fazer uma tese, estive um quarto de século a trabalhar uma área, a dependência de drogas. A minha ideia [como médico] sempre foi ajudar da melhor forma possível. Dar sempre me deu mais prazer do que receber. Esse meu filho, que provocou em mim toda essa revolução, foi o meu principal mestre no que toca a ensinar que conseguimos obter tudo quanto quisermos da vida se ajudarmos o suficiente os outros. Agora, críticas existem sempre. Fernando Pessoa dizia mais ou menos assim: "Segue o teu caminho, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas, o resto é sombra das árvores alheias." É exatamente esse o estado de espírito que eu tenho.

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Como é que o nosso sistema imunitário se degradou ao ponto de aumentar as doenças crónicas? O que podem esperar as gerações futuras se o paradigma não mudar?

Sabemos que 3.9 milhões de pessoas em Portugal têm doenças crónicas. Quando a Medicina avança, cada vez há mais armas terapêuticas, e cada vez há mais pessoas doentes, desde quando é que o número de pessoas com cancro está a diminuir? Desde quando é que o número de pessoas com doenças autoimunes está a diminuir? Ou desde quando é que o número de pessoas com défice de atenção e autismo está a diminuir? É tudo o contrário, tudo aumenta. Há que pensar e refletir se este paradigma existente – uma maleita, um comprimido – estará correto. Não será necessário, nunca deixando de reagir aos sintomas que as doenças têm, passar a ter uma atitude mais proativa em vez de reativa? E tentar ir às causas das doenças, e à raiz dos problemas. Se tudo estivesse a correr bem, se as pessoas estivessem menos doentes e mais felizes, a estratégia estava bem. Na realidade não é isso que se passa. No mínimo, é preciso discutir isto. A Medicina Funcional aponta para as causas, logicamente tratando as dores, o que nos leva ao sistema imunitário. Nós vivemos rodeados de milhares de micróbios, porque é que umas pessoas ficam doentes e outras não?

Está tudo relacionado com o nosso intestino, logo, com a alimentação?

Dentro do nosso intestino temos 100 triliões de micróbios (sabe que temos 10 triliões de células?). Nós não somos o que comemos, somos o que aqueles 100 triliões de micróbios digerem. No meu livro, cito por duas vezes a médica Conceição Calhau - à frente da cadeira de Ciências da Nutrição, a primeira no seu género, na Nova Medical School – que tem vindo a estudar a vitamina D, mas também os benefícios de uma microbiota bem tratada. Vivendo nós rodeados de micróbios, as doenças que nós temos têm por detrás os desequilíbrios que acontecem dentro do nosso organismo que permite que esses micróbios se tornem violentos e agressivos, virando-se contra o hospedeiro, a propósito sobretudo das doenças autoimunes. São esses desequilíbrios que têm de ser estudados. A pandemia era a oportunidade para os médicos se focarem nisto.

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A pandemia veio por em evidência essas fragilidades?

Nos países mais desenvolvidos é onde existem mais casos de covid-19. Em África, onde se pensava que seria uma lástima, como pensou também António Guterres, teve o maior número de países, parcos em recursos, onde o covid-19 se instalou. Isto é o que nos mostra a realidade. Porque lã não se comem hambúrgueres com batatas fritas, e certamente as pessoas têm o intestino melhor tratado, à custa da fome, infelizmente, à custa da situação precária que existe nas populações mais pobres. Comem pouco, mas comem raízes, vegetais, frutas, não há dinheiro para mais, e os solos não estão envenenados com pesticidas. A microbiota é, certamente, mais saudável, pois não é assediada pelos alimentos que a inflamam – açúcar, glúten, caseína. Veja-se o caso da covid-19 no Brasil… o principal consumidor de açúcar no mundo.

O que é que estimula o sistema imunitário? E os que o enfraquecem?

Os alimentos processados, os conservantes que se usam para os adoçar e conservar, melhorar o sabor. A alimentação que privilegia os hidratos de carbono, indo completamente contra o nosso equipamento genético, porque os nossos genes são os mesmos que no paleolítico, só mudaram 1%. Na altura, consumia-se 70% de gorduras, 20% a 30% de proteína e só 5 a 10% de hidratos de carbono, e hoje é ao contrário. É 70% de hidratos de carbono, totalmente inflamatórios para a parede do intestino. A propósito do sistema imunitário, tudo isto é gritante. Os lacticínios e os cereais só foram trazidos pela Agricultura há 10 mil anos… Por isso é que de há 10 mil anos para cá dispararam as doenças, não só o cancro, como do sistema metabólico e autoimunes. Todas elas têm por detrás um destes três, ou os três fenómenos: intestino poroso, inflamação e resistência à insulina. É essa mudança de hábitos que nós hoje praticamos que deixa os nossos genes "atarantados", não tiveram tempo de se acostumar a estas circunstâncias novas. E as pessoas mexiam-se, corriam, coisa que hoje não se faz. Nada disto se diz, o que é uma coisa extraordinária. No Paleolítico, a esperança média de vida podia ser menor, mas vivia-se com mais saúde.

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E as pessoas apanhavam sol…

Não estavam fechadas nos seus gabinetes como acontece hoje. As pessoas faziam uma vida ao ar livre. As pessoas estão em casa, em pânico, mais fraco fica o seu sistema imunitário. O medo é imunossupressor.  

Concluindo, precisamos de uma mudança urgente?

As pessoas têm que mudar. Logo na segunda página do meu livro cito George Bernard Shaw: "O progresso é impossível sem mudança. E aqueles que não conseguem mudar a sua forma de pensar, não conseguem mudar nada". As pessoas têm que aceitar que é preciso mudar. Nós temos um elefante na sala, que são as doenças crónicas, a obesidade, a diabetes, a hipertensão, a maior das pessoas que morrem com covid-19, morrem com estas situações. E não se aproveita este momento de ouro, para tratar disto… Já que estamos em casa, é imperioso que se faça esta mudança, A pandemia pode ser a oportunidade para fazer a mudança no estilo de vida, para que não só tenhamos mais capacidade de resistir ao covid-19, mas para termos mais saúde, para sermos mais felizes.

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