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"Acho que não existe nenhum superalimento."

O seu apelido destaca-se quando o tema é a macrobiótica — e o know-how que o acompanha, idem. Em "Tudo o que Comemos Conta", Geninha Horta Varatojo aprofunda a cozinha macrobiótica que revela ser muito mais do que uma dieta: é um estilo de vida.

Foto: Rui Eduardo Botas
04 de dezembro de 2020 | Pureza Fleming

O que acontece na cozinha, não fica na cozinha — pelo menos quando o assunto é a dieta macrobiótica. Na realidade, no que respeita este tipo de alimentação, tudo aquilo que se ingere conta como motor impulsionador de tudo o resto que se passa nas outras áreas da vida. Dito por outras palavras, muito mais do que uma dieta, a macrobiótica é um estilo de vida. É a resposta a um corpo que, constantemente, procura o equilíbrio. Nome de referência desta cozinha, Geninha Horta Varatojo (na realidade, toda a família Varatojo) é, também, a diretora do Instituto Macrobiótico de Portugal e uma das principais professoras de macrobiótica do país. No seu livro recém publicado, Tudo o que Comemos Conta, a autora revela todas as ferramentas para quem se quer iniciar na cozinha macrobiótica, ou para quem já a conhece e só deseja aperfeiçoar a técnica. O livro reune mais de 100 receitas vegan e vegetarianas, para que não sobrem desculpas quando o assunto é "eu não sei cozinhar macrobiótica". A Máxima quis investigar mais sobre este estilo de vida.

É importante que se entenda que, muito mais do que uma dieta, a macrobiótica é um estilo de vida que se adota. E que, começando a perceber como este funciona, em que o corpo (mente e espírito) são vistos como um só, faz todo o sentido que assim seja, certo?

Muito mais do que uma dieta, a macrobiótica, como referi no meu último livro Tudo o que Comemos Conta é muito mais do que uma dieta. É uma forma de vida, uma forma de ser e de estar no mundo, de interagir com harmonia e maior consciência com o nosso corpo, o nosso espírito e todo o meio ambiente que nos rodeia. E para isso precisamos de fazer escolhas diárias, quer a nível da alimentação quer a nível de atitudes, que visem beneficiar e proteger o nosso planeta e cada um de nós. Nós e o planeta somos um todo, não existe separação e está tudo interligado. Só funcionando desta forma podemos entender que não existe "dentro" e "fora" e que todos os fenómenos estão ligados e se completam.

Dedica algumas páginas a falar sobre as forças yin e yang. É fundamental entender estes dois polos no âmbito da cozinha macrobiótica?

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A teoria de yin e yang são princípios dialéticos da filosofia chinesa. Entende-se como sendo polos ou energias complementares e opostas, portanto, dinâmicas e em constante mudança. Todo o Universo é composto de energias opostas e encontrar um certo equilíbrio entre essas duas forças, faz parte da nossa vivência diária e torna-se fundamental para conseguirmos viver de forma mais harmoniosa. É como quem diz: "nem tanto ao mar nem tanto à terra". No âmbito da culinária macrobiótica também se aplica este fenómeno. Existe uma correlação entre cada alimento e o seu efeito ou reação no nosso organismo. Alguns alimentos têm uma qualidade mais yin provocando desta forma uma reação mais yin no nosso corpo e o contrário também se aplica. Assim, alimentos mais yin, como o açúcar, refrigerantes ou alimentos muito refinados, expandem as nossas células, tecidos e órgãos, enquanto os alimentos mais yang, como a carne, ovos ou excesso de sal, produzem o efeito contrário, de extrema contração. O ideal seria optar por alimentos mais equilibrados como cereais integrais, leguminosas, legumes, verduras, algas, sementes e outros de boa qualidade. Na culinária a escolha dos alimentos assim como os métodos de os cozinhar e temperar podem fazer uma grande diferença na nossa saúde.

Existe muito de filosofia oriental a influenciar este estilo de dieta. Em particular, a noção da permanente mudança do mundo. É fundamental seguir-se uma determinada religião e as suas guidelines, ou é possível separarem-se as águas?

Apesar da existência da filosofia oriental ser milenária, o japonês George Oshawa, um filósofo da natureza, escreveu um livro a que chamou Macrobiótica Zen e que teve uma grande influência em pessoas de todo o mundo. Era um livro que podia tocar cada um de nós, orientais ou não, e que falava da importância da alimentação, de liberdade, de níveis de consciência e de unidade. De seguida, surgiu Michio Kushi que levou ainda mais além os conhecimentos e teorias do George Oshawa. E, assim, foi crescendo o interesse pela Macrobiótica. É uma filosofia de vida que não está estritamente ligada a nenhuma religião em particular, mas que respeita cada um na sua forma de ser e nas suas escolhas. Lá diz o ditado, "cada um sabe de si". Como é óbvio, a alimentação deve ser sempre adequada e ajustada a cada pessoa, consoante a sua condição e o local onde vive, de forma sensata e equilibrada.

Tudo o que comemos conta (2020)
Tudo o que comemos conta (2020) Foto: Rui Eduardo Botas
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A sua família está ligada à macrobiótica. As suas filhas cresceram com a macrobiótica em casa, certo? Houve, por alguma vez, vontade de se experimentar outro tipo de regime alimentar?

Sim, criámos, eu e o Francisco, os nossos filhos com base na alimentação macrobiótica. Se quiseram experimentar outros alimentos? Claro que sim. Fizeram as suas experiências, enquanto adolescentes, e foram chegando às suas próprias conclusões, com o tempo. Todas as nossas escolhas têm consequências e foi assim que foram aprendendo ao longo dos anos. Felizmente para eles (e para meu contentamento) ainda hoje esta alimentação faz parte das suas vidas, naturalmente e não como uma dieta.

No livro escreve "a Macrobiótica pretende ser esta Grande Vida, plena, fantástica". O que significa, na macrobiótica, isto da "Grande Vida"?

Macrobiótica = Grande Vida ou a "arte de saber viver", seguindo as leis da natureza, respeitando e agradecendo cada dia que nos é oferecido. Grande Vida é isso mesmo, é viver com a consciência de que tudo o que acontece faz sentido e que todas as nossas escolhas fazem a diferença na nossa vida, na vida de todos e na vida do nosso planeta. E para isso, por vezes, precisamos de parar um pouco e pensar antes de agirmos, porque tudo está ligado de alguma forma e somos todos Um.

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Numa primeira instância (tal como acontece com todas as dietas que diferem daquela a que estamos habituados), pode parecer ‘complicado’ adotar este estilo de alimentação. Tem dicas para se começar?

Recomendo começar por procurar informação sobre o tema. No caso do Instituto Macrobiótico, onde trabalho e que foi fundado pelo Francisco Varatojo, que já partiu, temos a decorrer, durante todo o ano, diferentes cursos, workshops, palestras e livros que estão ao alcance de qualquer pessoa interessada em começar ou em aprofundar este tema. Nada como frequentar um curso básico ou um workshop para ajudar nos primeiros passos. Não precisamos de mudar tudo no mesmo dia. Cada pessoa deve fazer as mudanças que pretende, ao seu ritmo. Pode começar por substituir alguns ingredientes de pouca qualidade por outros de melhor qualidade. Exemplo: em vez de arroz branco use arroz integral e biológico, cozinhe mais leguminosas para substituir a carne e os ovos, inclua mais variedade de legumes nas refeições, substitua o açúcar refinado por geleia de arroz, sumos naturais ou fruta cozida, prefira sal marinho, sem aditivos e por aí fora. Qualquer mudança exige da nossa parte investimento, atenção e prática. Sem praticar, nada feito. Publicidade à parte, pode começar por ler o meu livro.

Geninha Varatojo
Geninha Varatojo Foto: Rui Eduardo Botas

Que mudanças sentirá alguém que resolve começar a adotar este estilo de vida, no geral?

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Quando se pratica um estilo de vida, que naturalmente, seja mais saudável, é óbvio que os resultados serão benéficos a todos os níveis. Quando se mudam os hábitos alimentares e se fazem escolhas mais saudáveis no dia a dia, todo o organismo reage e é comum haver uma eliminação de excessos, começando por perder peso. Ao mesmo tempo a nossa imunidade, que é a capacidade que o nosso organismo tem em reconhecer vírus, bactérias ou fungos fica mais forte e resistente. E nos tempos que correm, quem não deseja ter um sistema imunitário que nos proteja desta bicharada? Comer melhor, ajuda também a acalmar o nosso sistema nervoso e a sermos mais resilientes. Comer bem é apenas uma forma de nos nutrirmos. Outras formas são precisas e fundamentais. Ter atividade física, meditar, descansar, conviver, respirar e partilhar o nosso melhor, são algumas formas de nutrir o nosso Ser.

Se pudesse eleger um superalimento da dieta Macrobiótica, qual seria?

Na minha opinião, acho que não existe nenhum superalimento. Apesar de estar muito na moda alguns alimentos serem considerados ‘super’, é bastante relativo e quase insignificante escolher qualquer um deles, por si só. Por outro lado, ao combinarmos dois ou três alimentos, podemos conseguir facilmente um superalimento. Vou sugerir uma super combinação: arroz, feijão e verduras. Que bela sopa ou que belo prato. Estava à espera de bagas goji ou de sementes de linhaça? São boas para juntar ao pequeno almoço e pronto. O super encontra-se, na maioria das vezes, na simplicidade.

O chá de três anos é o preferido dos macrobióticos, estou certa? Como é que é constituído este chá e quais os principais motivos da sua ótima fama?

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Kukicha, também conhecido como chá de três anos, é um dos chás de eleição na alimentação macrobiótica. O nome deve-se ao facto de serem usadas as folhas e os caules mais antigos da planta deste chá. É um excelente antioxidante e ajuda na eliminação de radicais livres. É um ótimo digestivo no final da refeição. É suave no paladar e de cor dourada. E muito mais poderia acrescentar, mas para já sugiro que experimente com uma casquinha de limão e um biscoitinho caseiro — para alegrar.

Enquanto diretora do Instituto Macrobiótico Português, o que tem a dizer acerca do crescimento deste movimento em Portugal?

Por volta dos anos setenta e oitenta existiu uma cooperativa que se chamava Unimave, que foi criada por um grupo de pessoas interessadas em promover uma forma de vida e de alimentação mais natural e saudável. Nessa altura, o Francisco [Varatojo] já dava palestras, aulas e consultas nesse espaço. O crescimento deste movimento deve-se ao trabalho inicial desse grupo e a muitos anos de dedicação, estudo e entrega por parte do Francisco Varatojo. Era esse o seu sonho, contribuir, com a sua paixão, para ajudar a melhorar a vida de cada um e do planeta em que vivemos. Inspirar cada pessoa que o procurasse ajudando-a a ter uma vida. Dedicou toda uma vida a espalhar conhecimentos e saberes pelos quatro cantos do mundo, com entusiasmo e humildade. Assim, considero que o crescimento deste movimento em Portugal se deve muito ao trabalho que o Francisco deixou feito, juntamente com uma fantástica equipa de colaboradores, professores e alunos que o acompanharam ao longo dos anos e que continuam, ainda hoje, a oferecer um excelente trabalho em prol de um mundo melhor para todos nós. E não posso deixar de referir o Alcino e a Cesaltina, donos de uma empresa portuguesa que se chama Próvida, que têm investido na alimentação natural há várias décadas e que sempre apoiaram as nossas atividades. Francisco, onde quer que estejas, foste e És o maior.

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