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José Roquette. Relatos de uma vida ao serviço da Medicina

Acredita que aos médicos de hoje e de sempre não basta a competência técnica, importa somar-lhe a capacidade de ver o Outro para além da anatomia. José Roquette, cirurgião cardiotorácico de referência, neto do fundador do Sporting, acaba de publicar o livro das suas histórias. Fomos ouvi-lo.

Foto: Pedro Catarino / Cofina
14 de abril de 2022 Maria João Martins

Passou a vida com os corações dos outros nas mãos, procurando, a cada nova cirurgia, que se tornassem mais robustos e foi, por isso, que ao livro das suas histórias, agora editado pela Oficina do Livro, chamou De Coração nas Mãos. Falamos de José Roquette, referência maior na área da Cirurgia Cardiotorácica e Vascular, atualmente presidente do Conselho Clínico do Grupo Luz Saúde, para quem o exercício da Medicina exige tanto (ou mais) capacidade de estabelecer ligações com os doentes e suas famílias como excelência técnica e científica.

Por este seu livro, escrito depois de ter tomado consciência da sua própria fragilidade através da doença, passam mestres como o professor Machado Macedo, doentes célebres como Álvaro Cunhal ou Eusébio, mas também aquilo a que chama o seu "cemitério privado", aqueles que não esquece porque não os conseguiu salvar. Lembra-se de todos (até porque felizmente não foram muitos) mas sobretudo de Joaquim, o menino cigano, que não sobreviveu a uma peritonite avançada nas velhas catacumbas do Hospital de São José, ainda José Roquette era um jovem médico. Mas, por mais anos que passem, frisa, "um médico nunca se habitua à morte."

Por estas histórias de corações passam também muitos casos felizes como o da fundação do Sporting Clube de Portugal pelo seu avô paterno, José de Alvalade, e a sua ligação afetiva ao Alentejo, que o levou a assumir a presidência da assembleia municipal de Fronteira em 1994. Um amor nascido na infância que dura até hoje.

José Roquette
José Roquette Foto: Pedro Catarino / Cofina

Começa o seu livro com a narrativa da sua doença e internamento. A situação de ser o senhor o doente, e não o médico, mudou a sua perspetiva sobre o exercício da Medicina?

O meu olhar sobre a profissão não mudou muito, o que mudou foi a ideia, muito frequente quando somos mais novos, de que somos imortais. Pelo facto de ser médico percebi talvez muito depressa que tinha uma doença grave, entreguei-me nas mãos do colega que me pareceu mais adequado e fui tratado, muito bem tratado, aliás. Não direi que esta situação mudou a minha maneira de olhar para a profissão, já estava até numa fase mais retirada, mas fez-me consciencializar da minha própria finitude.

Esse tempo em que esteve no hospital, naquele quarto, naquela cama, fê-lo ter vontade de contar a sua história, na Medicina e fora dela?

Já tinha essa vontade antes, até. Entre colegas, contávamos muitas histórias uns aos outros. É normal, em momentos de relax. Havia um enfermeiro, que depois veio comigo para a Luz, que me estava sempre a dizer para contar estas histórias em livro. Houve um outro fator a pesar nesta decisão de escrever, que foi o período de confinamento ditado pela pandemia. Foi também um modo de manter a minha sanidade mental naquelas condições. 

Nota-se pela maneira como escreve, que é um grande leitor. Do que é que gosta de ler?

Sou, de facto. Sempre fui. Leio todos os dias um jornal, algumas revistas de fim-de-semana, mas não consigo adormecer sem ler umas páginas dum livro que tenha à cabeceira. Neste momento, é um romance do escritor espanhol Javier Marias, Thomas Nevinson.

Curioso. Estamos a ler o mesmo livro.

É fantástico, ele escreve muito bem. Só tem um defeito, é um livro muito pesado para ler na cama.

Um "ponta esquerda" com potencial

Este livro não fala só de Medicina. Começa por falar da sua família, da ligação desta à fundação do Sporting, da casa em que cresceu, na Alameda das Linhas de Torres…

Não creio que tivesse noção do privilégio que era ter uma casa tão espaçosa, com salão de baile, jardim, acesso ao Estádio. Somos crianças e não ligamos, achamos que o mundo é assim. Ia a pé para o Colégio de São João Brito, com amigos que tomavam conta de mim e do meu irmão. Mas, na verdade, tínhamos algumas comodidades, mas também incomodidades: lembro-me que, por ser muito grande, a casa era muito fria no inverno. 

José Roquette
José Roquette Foto: Pedro Catarino / Cofina Media

Fala muito do seu avô paterno. Foi uma figura marcante na sua vida?

Eu não o conheci porque morreu muito novo, o meu pai tinha 9 ou 10 anos quando ele foi vitimado pela febre tifóide, que matava muita gente nessa época. Mas marcou a família pelo impulso que deu ao crescimento do Sporting, apoiado no avô dele, o Visconde de Alvalade. Sempre joguei futebol e até jogava bem (era ponta esquerda), mas o meu pai não me deixou jogar pelo Sporting porque isso iria certamente perturbar os meus estudos. Eu sempre tinha dito que queria ser médico e isso não se compadecia com uma vida de atleta profissional.

Como surgiu essa determinação de se tornar médico?

Na infância, talvez porque os meus pais tinham muitos amigos médicos que iam lá a casa. O nosso pediatra era um catedrático muito importante, o Dr. Salazar de Sousa. Se calhar também houve alguma influência genética porque esse meu avô estudou Medicina na Harvard Medical School durante três anos, mas não seguiu ao compreender que tinha dificuldade em lidar com o sofrimento e com o sangue, que, nesse tempo, era bem pior do que hoje. 

A propósito da formação dos médicos, refere, a certa altura, que não basta ser bom aluno e ter boas notas para ser um bom médico. A empatia com o sofrimento e a fragilidade do ser humano é determinante?

Sem dúvida. E sempre foi assim. Os dois melhores alunos do meu curso, por exemplo, foram para a Investigação e não para áreas clínicas porque percecionaram a tempo que não tinham a empatia, que eu acho indispensável, para lidar com o sofrimento e a fragilidade dos doentes e das famílias.

Em jovem, nunca temeu que lhe faltasse essa empatia?

Não, achei sempre que a tinha. Às vezes penso que é mais importante a capacidade de diálogo com os outros do que os conhecimentos científicos. 

Fala do cemitério privado que cada médico carrega - o dos doentes que não consegue salvar…

Isso é mais para os cirurgiões.

Que é o seu caso.

Sim, é verdade. Nunca digam que os médicos se habituam à ideia da morte. Isso não acontece, felizmente porque os casos não são muitos. Talvez nos habituássemos se estivéssemos numa guerra, em que é preciso tomar decisões trágicas em pouco tempo. De resto, fica sempre alguma frustração, a dúvida se fizemos realmente tudo o que era possível para salvar aquela pessoa. Temos de olhar para cada uma das situações de uma maneira muito pragmática, temos de discutir os casos de pessoas que morrem em cuidados intensivos, perceber se houve algum erro ou se se podia ter feito de outra maneira.

Fala em particular do primeiro doente que lhe morreu, Joaquim, o menino cigano que chegou ao hospital já em muito mau estado para ser operado ao apêndice.

Foi um caso muito especial, marcou-me muito porque era uma criança. Nestes casos, o sentimento de perda é muito maior porque sentimos que aquelas mortes são anti-naturais. Como lhe dizia há pouco, fica sempre no nosso espírito a dúvida se podíamos ter feito mais alguma coisa, embora neste caso em particular, nos anos 60, fosse muito difícil. Ele tinha uma apendicite gangrenada, com uma peritonite significativa e tinham demorado muito tempo a levá-lo ao hospital. Depois, não existiam os antibióticos que temos hoje, o ambiente do Hospital de São José era terrível, umas catacumbas na antiga adega do hospital.

Histórias de corações

O que o levou a optar pela Cirurgia cardiotorácica?

Sempre me atraiu muito a Cirurgia, depois houve ali uma indecisão quanto à área que me atraía mais: a Cirurgia Geral ou outra especialidade. Um dia, assisti a uma palestra sobre o melhor tratamento para a hérnia do diafragma proferida pelo meu futuro mestre, o professor Machado Macedo. Fiquei muito impressionado pela capacidade de apresentação e diálogo e procurei-no no Hospital de Santa Marta. Ele mostrou-se muito disponível para receber gente nova. Foi assim que enveredei por este caminho.

Foi uma pessoa muito marcante na sua vida?

Muito, na vida profissional e na pessoal. Era um cavalheiro, um excelente médico e procurava transmitir aos seus discípulos uma lição de humildade: dizia-nos muitas vezes que nós não podemos estar convencidos de que sabemos tudo. 

Um dos seus doentes, como conta no livro, foi Álvaro Cunhal. Como é que se deram, apesar das diferenças políticas?

Demo-nos muito bem, não discutíamos Política, embora ele estivesse a par da minha eleição e da minha atuação na Assembleia Municipal de Fronteira. Impressionou-me muito porque ele sabia tudo e er um homem de grande inteligência. Depois, também me impressionou muito o facto dele não usar o hipotético privilégio que podia ter. Queria ser tratado como qualquer outra pessoa.

Outro doente famoso foi Eusébio, por quem chegou a autografar bolas de futebol dentro do Hospital, como também conta no livro…

É verdade. Eusébio estava doente, precisava de ser tratado, e as pessoas não o largavam. Queriam autógrafos. Às tantas, a maneira de lhe permitir algum repouso foi pôr-me eu próprio a autografar bolas de futebol, imitando a assinatura dele. Foi uma maneira de poupar o doente àquela pressão. 

Como se lê neste livro, o coração do lisboeta José Roquette também bate com intensidade pelo Alentejo.

É uma herança do lado materno da minha família. Lembro-me de ir ao Alentejo quando ainda não existia a Ponte de Vila Franca, metia-se o carro num barco, o que para um miúdo era uma aventura. Também não se podia ir de noite, tinha que se ir de dia porque as estradas não eram seguras, e o meu pai levava um jerry can com gasolina porque só havia uma bomba em Vendas Novas e depois outra em Estremoz. Para um miúdo da cidade, como eu, a casa de lá era fascinante porque havia mulas, bois, cavalos, cães, galinhas. Era um Alentejo muito diferente, em que a vida assentava toda na Agricultura. Bem falta nos fazia agora esse trigo.

Continua a trabalhar, agora como presidente do Conselho Clínico do Grupo Luz Saúde. O que é que essa experiência lhe tem trazido?

Quando a Engenheira Isabel Vaz me propôs que me juntasse ao Grupo Luz Saúde, eu tinha atingido o topo da minha carreira, já fizera o meu doutoramento, era diretor de serviço e vi aqui uma oportunidade de fazer uma coisa diferente e de raíz. Embora não logo a tempo inteiro, aderi ao projeto e creio que construímos uma coisa importante: um hospital privado em que a maioria dos profissionais trabalham a tempo inteiro, o que é muito importante. A partir daí, fomos construindo tudo o que está à volta: o Ensino, a formação. Hoje desempenho outro papel porque penso que é muito importante sabermos qual é o momento de deixarmos uma pele a que estavamos habituados. Há um timing para a retirada, que tem de ser o certo, como o Pelé soube fazer. Deixei a Cirurgia e, à frente do Conselho Clínico, analiso as reclamações, debato o tema com os meus colegas e com os juristas tentamos resolver as coisas da melhor maneira possível. É um papel de mediador que me agrada bastante.

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