Atual

"Há empresas que alimentam a noção de que a nossa vida é trabalho"

Entrevistámos o professor e investigador espanhol que fala sem medos sobre os efeitos negativos das teorias da positividade em contexto de trabalho, do overworking e sobre quão se “deixa” que os empregos definam a nossa identidade, nos dias de hoje.

01 de setembro de 2020 | Rita Silva Avelar

É a partir de Madrid que conversamos com Oscar Pérez-Zapata, professor de Gestão nas universidades Carlos III e Pontifícia Comillas, em Madrid, e especialista em Sociologia das Organizações. Mas o seu percurso não começou por aí: formou-se em Engenharia das Telecomunicações e mais tarde em Negócios, trabalhou oito anos numa multinacional norte-americana em Silicon Valley e, porque "sentiu na pele os efeitos da sobrecarga laboral" decidiu mudar de área e especializar-se nas consequências e na pressão que a esfera profissional exerce nos indivíduos, especialmente nos jovens. É precisamente esse o pretexto da nossa conversa, depois de nos depararmos com uma frase sua algures na internet em que dizia que também as teorias da positividade e do mindfulness podiam ter "efeitos negativos" no contexto de trabalho.

Ao longo dos anos, Oscar Pérez-Zapata tem-se interessado por estudar os perigos da intensificação laboral advindos da classificação errónea (e muitas vezes inconsciente) daquilo que é, ou não, a autonomia profissional. Mas também pelo impacto do overworking na saúde mental das pessoas, como demonstra no seu último estudo (em conjunto com outros pares) - "Trabalho excessivo, trabalho sem limites e o paradoxo da autonomia" - onde compara as realidades laborais do Japão com as de Espanha, sobretudo nos pontos em que coincidem. "No domínio do trabalho, organizações e empregos estão a tornar-se cada vez mais digitais e flexíveis e tanto japoneses como trabalhadores espanhóis parecem estar a lidar com os mesmos dois grandes perigos (globais): a crescente precariedade e sobrecarga de trabalho/intensificação do trabalho" escreve. Apesar de conceitos como burnout, overworking ou workaholic não serem novos, numa era em que a saúde mental é um tema global, é urgente trazê-los à discussão.

Comecemos pelo tema da sua mais recente tese. O que é o paradoxo de autonomia?

A autonomia é uma coisa positiva, mas é preciso ver em que contextos falamos de autonomia, ou seja, em que medida a autonomia não se pode transformar no contrário, levando a pressões continuas [no trabalho]. A autonomia é sem dúvida algo positivo, até pode estar ligada à felicidade no trabalho, até porque é uma das três necessidades humanas. O problema é quando classificamos erradamente o que é autonomia ou não é. Temos de saber distingui-la dos mecanismos de controlo [que se estabelecem entre o empregador e o empregado]. É por isso que é tão importante existirem medidores de autonomia (…) embora estes sejam muito difíceis de analisar e de interpretar.

Há formas de as empresas envolverem esse tipo de autonomia em discursos ou mecanismos motivacionais?

Muitas vezes, somos tendenciosos em ver os chefes de um prisma "malvado". Mas é um facto que há empresas que o fazem. Usa-se muito a palavra "engagement" [envolvimento] e positividade, porque são conceitos ligados ao de se ter paixão por algo, e de se ter prazer em fazer algo. Conceitos que também se cruzam com o conceito de identidade…

Esse conceito de identidade ligado ao contexto laboral é novo?

A identidade interliga-se com os mecanismos de controlo. É uma questão problemática pois está ligada à socialização e, em parte, ao facto de gostarmos das nossas profissões. Por exemplo, se sentir que gosta de ser jornalista, como é o seu caso, vai sentir-se mais motivada. Ser jornalista é uma das coisas que a define. De uma perspectiva estereotipada, no mundo "de antes", a questão da identidade não estava tão interligada com a da autonomia, e todas as questões que destabilizam ou ameaçam a identidade são prejudiciais à saúde mental. Se, como jornalista, começar a questionar a qualidade do seu trabalho, isso vai mexer com a identidade e leva-a a perguntar-se: "Quem sou eu, agora?" Toca em aspectos muito profundos. Os nossos pais e avós, que sem dúvida que trabalharam muito e também a identidade era importante para eles, provavelmente não faziam depender tanto a sua identidade no geral do contexto laboral. Hoje em dia, tudo mudou porque também há mais investimento na formação, e estuda-se mais. Antes, o trabalho tinha um simbolismo diferente.

Parte da sua investigação diz respeito à relação direta entre o contexto de trabalho e a saúde mental. É urgente falar-se disto?

A esfera laboral é como uma pequena sociedade, e os padrões que se repetem nessa esfera podem muitas vezes ser similares aos que se passam noutras áreas sociais das nossas vidas. O que nos interessou – nos vários estudos que realizámos - foi saber de que forma, a nível mais macro e sistémico, esta responsabilização está ligada à autonomia que foi crescendo sem limites, e saber como podemos distinguir o que é, ou não é, a autonomia no trabalho, do overworking.

Numa entrevista ao El País, diz que "o pensamento positivo elimina qualquer possibilidade de crítica e transfere a culpa e a dúvida para o indivíduo e não para a estrutura onde ele atua". Como é que isso acontece, sem que o indivíduo se aperceba disso, em contexto laboral?

Quando alguém nos diz para vermos o lado positivo de algo, o princípio põem-se em ação. Mas quando consideramos que tudo é negativo, nem temos em conta que é possível mudar. É algo que está muito ligado à racionalidade. O problema é quando nos sentimos responsáveis por coisas que não controlamos. A estrutura social em que nos movemos vai sempre exigir mais de nós como indivíduos. A nível cultural e ideológico, circula a mensagem de que "podemos tudo, só precisamos de pensar que é possível". Uma coisa é, numa determinada situação, sermos conscientes das condições estruturais [do nosso emprego] e fazermos o melhor que podemos com o que temos, outra coisa, muito distinta, é quando sentimos que as soluções dos problemas estruturais tenham que ser iniciativas individuais que passam por ver positivamente e que nos impedem de ver realisticamente as situações. De tal forma que, às vezes, responsabiliza-se o indivíduo ao ponto de, caso este não consiga atingir um objetivo ou resolver um problema, a culpa recaia sempre sobre ele. Isto leva a um sentimento de culpa que pode provocar ansiedade e, em casos mais extremos, depressões.  

A quem afeta mais essa culpa inconsciente?

Aos jovens, mas acontece em todas as faixas etárias. Muitos chegam a ter burnouts. O burnout acontece quando se atinge o pico máximo de todas estas questões de que estamos a falar. Acontece quando ouvimos incessantemente a tal frase motivadora que diz: "se queres o suficiente alguma coisa, se fores suficientemente positivo, se fizeres coisas que dependem só de ti, chegarás lá." O que se passa é que esse pensamento pode resultar durante um tempo, mas acaba quase sempre numa sobrecarga, esgotamento ou burnout. Termina-se com sofrimento. E atenção, o stress crónico tem efeitos físicos e mentais, que são muito sérios.

Quer dizer que o mindfulness pode, afinal, ser tóxico?

O mindfulness pode ser bom, regular, ou mau. Se se ativa o pensamento positivo nas pessoas sem resolver os problemas estruturais de uma empresa, por exemplo, isso pode ser prejudicial. O mindfulness pode ser usado em reuniões de empresa, para que as pessoas falem dos problemas existentes e se tornem mais conscientes. Mas se, por outro lado, for usado como mecanismo de controlo e para fazer com que as pessoas "aguentem" mais, para fazer com que o stress que sentem possa ser usado para se concentrarem melhor, então isso é negativo. É como "meter mais lenha na fogueira."

Poderá também estar ligado ao chamado síndrome de impostor?

Ligo muito o Síndrome de Impostor ao conceito de "overachievement", que se relaciona com a insegurança, e com o facto de se achar que se não está à altura, e que é preciso fazer sempre mais, mais e mais. Tudo isto se liga à saúde mental. Se deixamos com que a nossa identidade dependa muito do trabalho, sobretudo se este for precário e intenso, a identidade "sofre" muito. Tudo isto está interligado, são questões complexas, e é difícil "metermos-lhes mão" porque em parte não as vemos, são o dia a dia que vivemos, são o ar que respiramos.

Em Portugal, temos a cultura de sair tarde. É uma das razões que levam à chamada sociedade overworking?

Na investigação que levámos a cabo, avaliamos as pessoas que trabalham um grande número de horas, e que saem tarde, até porque o nosso tema era precisamente a intensificação do trabalho. Em Espanha, também isto sucede. Por exemplo, ser-se mais rápido, fazer-se mais com menos, com recursos reduzidos são dinâmicas que, como vemos na investigação, mais crescem nos últimos 20 anos, sobretudo em Portugal e Espanha. Porque nos outros países europeus já tinham crescido. No nosso caso de estudo usámos o Japão, que é um exemplo muito particular pela sua cultura familiar e profissional, e uma das maiores descobertas é a de que esta intensificação está muito generalizada e que quase se pode comparar ao "sacrifício do samurai": é preciso estar ao serviço do colectivo, não interessa o quanto se sofra.

Há também as empresas que tornam os locais de trabalho deveras apetecíveis, assemelhando-se a recreios, como a Google. Também essa realidade tem um outro lado mais subversivo?

Esta interiorização da autonomia, que se espelha em mecanismos feitos pelas empresas como o ‘engagement’ ou a cultura da iniciativa própria, passa pouco por impor limites. Há empresas que alimentam a noção de que a nossa vida é o trabalho. Portanto, a nossa identidade está maioritariamente lá posta, de forma inofensiva, porque às tantas parece que somos nós a fazer essa escolha de forma livre. E nem sempre é assim.

Como professor de Gestão, quais são os seus conselhos para estarmos mais conscientes num âmbito profissional?

Interagindo com outras pessoas, vendo as coisas de forma mais colectiva. A dinâmica da conversação leva a uma consciência maior, todos estaremos mais atentos aos limites. Como já referi, estas são dinâmicas complexas, mas uma das chaves para entender melhor tudo isto é começar por explorar a questão da identidade. Ter muita atenção a palavras como resiliente, que está ligada ao pensamento positivo, sim, mas que pode ser perigosa dentro das dinâmicas de trabalho. Ser consciente, saber que é urgente haver equilíbrio e impor limites, sobretudo em relação a algo que hoje em dia é tão precário, e que depende de muitas variáveis. Todos precisamos de uma coisa chamada perspectiva. Como? Lendo, falando com outras pessoas, procurando informação. A nível mais macro, esperamos que as organizações e a sociedade nos ajudem nesta consciência e perspectiva, mas nem sempre isso acontece. É preciso que as organizações acordem para isto, porque está a causar danos, sofrimento a pessoas muito válidas, porque estas questões afetam sobretudo pessoas bem-sucedidas e altamente profissionais - simplificando muito.

Saiba mais Overworking, Excesso de trabalho, Oscar Pérez-Zapata, Paradoxo da autonomia, Trabalho, Emprego, Burnout, Madrid, Negócios, Carlos III, Silicon Valley, Pontifícia Comillas, Japão, Espanha, Portugal
Relacionadas

Que mundo teremos?

Ao longo da história, pandemias devastadoras anunciaram admiráveis mundos novos. Tudo mudou com elas. Como irá o coronavírus mudar-nos? O Dr. Liam Fox* faz uma análise de longo prazo.

Mais Lidas