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16 anos da morte de Gisberta, a transexual que não salvámos

Recordamos um texto escrito por Tiago Manaia a propósito do Festival Porto/Post/Doc, aquando da exibição do filme 'Madalena', sobre violência transfóbica e a falta de segurança que assombra o quotidiano das pessoas transexuais. Não será uma coincidência pensar de imediato em Gisberta, cidadã brasileira brutalmente assassinada por um grupo de adolescentes há 16 anos no Porto. O seu nome continua a ecoar na cidade.

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22 de fevereiro de 2022 Tiago Manaia

As ruas do Porto estavam envolvidas num estranho e húmido nevoeiro cinematográfico. Havia algo de David Lynch na noite em que o filme Madalena foi projetado pela primeira vez.

Rodado na região conservadora do Mato Grosso, no Brasil, a ação passa-se no meio de plantações de soja, um cenário a perder de vista, onde a mão humana destrói o lado selvagem da Natureza, lembrando as desflorestações instigadas pelo fascismo de Bolsonaro.

O mistério do desaparecimento de uma mulher toma rapidamente conta da história. Não chegamos a saber muito de Madalena, se trabalha na rua, numa discoteca ou se é profissional do sexo. Talvez tudo isto. Uma parte da cidade anda à sua procura, outra deseja-a.

A virilidade naquela zona do Brasil é tóxica, há o décor urbano a contrastar com os momentos em que se filmam os campos agrícolas, assombrados por uma silhueta que se veste com o brilho da fantasia de quem vive a lutar pela liberdade de existir. Madalena é trans, o seu desaparecimento é associado à morte por esta única razão.

O suspense que se instala nesta narrativa brasileira lembra Laura Palmer, personagem marcante da série Twin Peaks. Quem a matou afinal?

E no Porto, esta história lembrou-me de imediato a dor de uma mártir — Gisberta. Agredida durante dias (fisica e sexualmente), assassinada por um grupo de jovens com idades entre os 12 e os 16 anos, em 2006, Gisberta era sem abrigo, tinha encontrado uma construção abandonada para passar o inverno, estava doente, tossia sem parar. Em tempos foi uma figura da noite, fazia playbacks com a voz da loira Marilyn Monroe. Também Gisberta tinha a beleza das estrelas que o mundo se esforçava em esfolar.

O filme brasileiro que me faz escrever estas palavras foi projetado no Passos Manuel, cinema que à noite se transforma numa conhecida pista de dança. Nada parece ter sido escolhido ao acaso na projeção do Festival Porto/Post/Doc. Terminada a sessão, ouvia-se no bar a música de Ghetthoven ou Igor Ribeiro, um dos fundadores da Groove Ball, célebre festa que começou na Invicta em 2011 – nestes bailes é através do Voguing (estilo de dança nascido em Nova Iorque no final dos anos 80) que a pista funciona como movimento de inclusão e mudança de mentalidades. 

No Porto, a sensação de se ser transportado para ambientes de uma modernidade alternativa é permanente. A movida é vibrante: há a dinâmica dos espetáculos de dança apresentados em inúmeros teatros renovados, as galerias espalham Arte pela cidade e multiplicam-se, os criadores de Moda questionam a indústria têxtil que aqui cresce como em nenhuma parte do país. 

Por momentos esqueci o Portugal conservador que está ao virar de cada esquina, esqueci o conservadorismo presente em qualquer lado quando o diálogo aborda temas como a aceitação e o género. No Porto/Post/Doc a ficção ou documentário existem para questionar o real. O pensamento é provocado nesse sentido.

Quando a história de Madalena acabou, ficou escrito no ecrã, "O Brasil é o país onde morrem mais transexuais". Tinha sido da insegurança brasileira que Gisberta fugira para tentar viver e ser feliz em Portugal.

Em 2021, os números dizem que no mundo 375 pessoas trans e não binárias foram assassinadas. A contabilização é feita pela Transgender Europe – uma rede de organizações que trabalham em defesa dos direitos das pessoas trans e contra a discriminação – como mudar a realidade?

Ao meu lado na projeção, estava o pintor de 28 anos Dylan Silva, que costuma pintar figuras solitárias. Pedi-lhe para desenhar Gisberta.

Gisberta pintada por Dylan Silva, 2021
Gisberta pintada por Dylan Silva, 2021

Deixei o cinema à procura da Avenida Fernão de Magalhães, era ali que Gis tentava viver até ser projetada para dentro de um poço pelos seus agressores. 

O livro vencedor do Prémio Saramago em 2019, Pão de Açúcar de Afonso Reis Cabral, tinha nas primeiras páginas uma fotografia do edifício onde Gisberta morreu. A literatura é feita de zonas cinzentas, e um livro não é um lugar unânime como uma rede social, onde se gosta ou odeia. Em Pão de Açúcar, o escritor escolheu focar-se no paradeiro dos que agrediram Gisberta, ao descrever os sentimentos que atravessam o corpo dos seus agressores, Afonso Reis Cabral conseguiu tornar Gis ainda mais real no imaginário de quem lê o seu romance. 

Caminhei pelas ruas do Porto, vi no Google um aliado, e escrevi o nome "Gisberta". Tem centenas de páginas associadas a ti. Comecei mentalmente a falar contigo, a dizer frases como os atores que falam sozinhos, a passar texto nos dias que antecedem uma estreia.

Avistei uma vitrine com revistas internacionais, na capa da Elle está Raya Martigny, é manequim, nasceu na Ilha da Reunião, é musa dos maiores criadores da atualidade, tem uma beleza estranha como a tua e fala abertamente da sua transexualidade. Clama-a como um feito maravilhoso. Poderias ser tu Gisberta, na capa desta revista, se o destino te tivesse cruzado com as pessoas certas? 

A modelo Raya Martigny, capa da revista Elle, musa de Mugler, Margiela ou Gaultier.
A modelo Raya Martigny, capa da revista Elle, musa de Mugler, Margiela ou Gaultier. Foto: Getty Images

Na minha cabeça queria contar-te coisas positivas, porque muito mudou desde que morreste e a transexualidade não está só associada à tristeza das mortes e agressões. A beleza de Raya diz-me isso na capa de uma revista numa rua tipicamente portuguesa do Porto.

Comecei a escrever-te uma carta (na minha cabeça) enquanto falava sozinho. 

Gisberta, onde quer que estejas… Hoje podia chamar-te Madalena como no filme que acabo de ver, todos os nomes vão dar a ti. 

Ontem em Lisboa, centenas de pessoas assinalaram o Dia da Memória Trans e fizeram uma vigília. Cortaram as ruas para lembrar pessoas como tu, que partiram de maneira inexplicável. 

Hoje, domingo dia 21 de Novembro, dezenas de jovens reúnem-se pela primeira vez numa festa chamada The Art For Freedom Kiki Ball, no Nada Temple. É um ball como os que se viam no documentário Paris is Burning…Os que hoje ali dançam eram crianças quando morreste.  Talvez não saibam que as leis mudaram depois das agressões de que foste vítima. Conseguiste mudar o código penal, logo em 2007 as penas foram agravadas em Portugal nos crimes motivados pelo ódio à orientação sexual ou à identidade de género. 

Nos dias de hoje, há ainda muitos jovens adultos a contar que crescem sem ídolos LGBTQIA + nos quais conseguissem projetar aspirações de vida… As coisas podem estar a mudar.

Na Modalisboa, há um mês desfilaram várias manequins trans, algo que seria impensável ainda há dois anos, e um jovem criador, Martim Alvarez, desenhou toda uma coleção para a sua marca AMOR DE LA CALLE inspirado na história de uma espanhola, que como tu, era uma força da natureza. Chama-se La Veneno e uma plataforma de streaming dedicou-lhe uma série inteira que ficará na história como o melhor que se fez de ficção em 2020. 

Os jovens da European House Of Bodega vestidos pelo criador Martim Alvarez com a sua marca AMOR DE LA CALLE.
Os jovens da European House Of Bodega vestidos pelo criador Martim Alvarez com a sua marca AMOR DE LA CALLE. Foto: Martim Alvarez

A tua amiga Rute conta que antes das coisas se terem complicado para ti, também tu foste adorada por muita gente. O teu carisma continua vivo. 

Há uma atriz portuguesa chamada Sara Barros Leitão que luta para que no Porto uma rua passe a ter o teu nome. E na zona norte do país, existe um centro que funciona como uma estrutura de atendimento a Vítimas de Violência Doméstica e Violência de Género. Chama-se Centro Gi, foi criado em 2017. 

A Maria Bethânia tem cantado uma balada que o Pedro Abrunhosa escreveu com o teu nome. 

E por fim… Sinto que tenho de acabar esta carta com um relato menos positivo, porque a ignorância latente no que te vou descrever, servirá sobretudo para poder deixar aqui um excerto de um texto que me parece brilhante. 

Há uma minoria de feministas radicais que tem ganho força na estupidez da internet. São feministas trans-excludentes, não acreditam que mulheres trans sejam mulheres. Algumas dessas radicais surpreendem por estarem ligadas aos mundo das letras. A transexualidade consegue ser fraturante, e as posições que elas vincam continuam a servir para excluir ou apoiar o pensamento daqueles que violentam todos os dias pessoas como tu.

Imagem do filme Madalena apresentado no Porto/Post/Doc
Imagem do filme Madalena apresentado no Porto/Post/Doc

Virginie Despentes, escritora com real talento, escreve o seguinte num prefácio sobre o ex-namorado, o filósofo Trans Paul B. Preciado: "Queria falar da obsessão de todos os regimes autocráticos (da extrema-direita, religiosos, ou comunistas) em atacar os corpos queer, os corpos de puta, os corpos trans, os corpos fora-da-lei. É como se tivéssemos petróleo e todos os regimes poderosos quisessem ter acesso a ele e que para isso nos privassem da gestão das nossas terras. É como se fossemos ricos numa matéria-prima indefinível. Se interessamos a tanta gente, será devido à nossa essência rara e preciosa. Caso contrário, como explicar que todos os movimentos liberticidas estejam tão interessados nas nossas identidades, nas nossas vidas, nos nossos corpos e no que fazemos nas nossas camas?" **

Querida Gisberta, não estou sozinho como tu estavas, e os que estão do meu lado estão empenhados em não te esquecer.

** Um Apartamento em Urano, de Paul B. Preciado, edições Bazarov

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"Nas últimas semanas, senão meses, vários cronistas reputados da nossa praça se têm manifestado de forma transfóbica. Fazem ataques violentos, alguns mascarados de humor, à comunidade trans que, como se sabe, é a mais atacada dentro da sigla LGBTQIA+."

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