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Carta de uma feminista ao Pai Natal

"Para começar, queria pedir-te umas luvas de boxe. Não que queira começar esta prática desportiva, mas porque vão dar-me jeito cada vez que ouvir piropos javardos na rua." A carta ao Pai Natal de Cláudia Lucas Chéu.

Foto: Sebastião Sá da Bandeira
21 de dezembro de 2021 Cláudia Lucas Chéu

Querido Pai Natal,

Este ano portei-me muito bem, por isso tenho uma lista com vários presentes para te pedir, sei que os mereço. Para começar, queria pedir-te umas luvas de boxe. Não que queira começar esta prática desportiva, mas porque vão dar-me jeito cada vez que ouvir piropos javardos na rua, sejam dirigidos a mim ou a outras transeuntes. Partir uns dentinhos aqui e acolá, mas mantendo a classe; há coisas em que só se deve tocar de luvas. Quero também pedir-te um pau; pode ser uma tábua simples, com pregos, para educar com delicadeza e boas maneiras os homens que batem nas mulheres. A madeira com pregos é um material didáctico forte e é muito mais persuasivo do que o discurso verbal ou uma palmadinha nas costas. Quero também pedir-te um faca afiada, pode ser de sushi, para cortar em tiras finas os falos de violadores, e quero também uma bandeja (pode ser das baratas) para os servir às rodelas numa pocilga, com os porcos de verdade a assistir ao repasto dos pobres animais. Por último, gostava de receber um batom vermelho dos bons. Não é para mim, é para todos os machistas que já ofenderam em público ou em privado um homem que não obedeça aos parâmetros da virilidade exibicionista. Violentando-o através da masculinidade tóxica, que deve ser corrigida com muito batom vermelho. Esse batom é para pintar os lábios de todos os agressores armados em machos alfa e, no final, obrigá-los a comer o batom, inteirinho, de uma só vez. E pronto, por este ano é tudo. Prometo que vou continuar a portar-me bem, como uma senhora deve ser. 

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