Moda / Tendências

Halston, o homem que inventou a moda americana (e criou a peça mais sexy de sempre)

Foi o rei da Nova Iorque dos anos 70, quando mulheres como Jackie Kennedy ou Bianca Jagger não dispensavam as suas criações, tão minimalistas como sensuais. Halston inspirou uma minissérie da Netflix, com Ewan McGregor no principal papel.

Bianca Jagger com Halston numa gala do Met Museum, em Nova Iorque, 1976
Bianca Jagger com Halston numa gala do Met Museum, em Nova Iorque, 1976
11 de maio de 2021 | Maria João Martins

Está para a Moda americana como Andy Warhol para as artes plásticas ou Truman Capote para a Literatura. Roy Halston Frowick, ou simplesmente Halston (título da biografia de Steven Gaines, publicada em 1991), morreu há mais de 30 anos, mas a marca que deixou na Moda contemporânea permanece viva e atual, como demonstra a minissérie da Netflix, dirigida por Ryan Murphy (realizador de filmes como Comer, Orar, Amar, da série musical Glee e da série American Crime Story) com Ewan McGregor no principal papel, e estreia marcada para esta sexta, 14 de maio.

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Criador do glamour irreverente, que caracterizou a era disco em Nova Iorque nas décadas de 70 e 80, Halston nascera num cenário da maior austeridade, em plena Grande Depressão em Des Moines, Iowa, em 1932, e começou por desenhar chapéus para a mãe e irmãs. Essa peça, essencial ao guarda-roupa feminino antes da invenção da mise-en-plis na década de 60, seria, aliás, a sua "porta de entrada" no mundo da Moda mais sofisticada quando, a 20 de janeiro de 1961, a nova primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy, apareceu na tomada de posse do marido com um pequeno chapéu (o famoso modelo pillbox, que se tornaria parte da sua imagem de marca) assinado pelo jovem Halston, a combinar com um casaco do consagrado Oleg Cassini.

Ewan Mcgregor interpreta Halston na nova série da Netflix
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Dos closets da Casa Branca a Hollywood e à Broadway foi um passo, mesmo que os chapéus já não fossem propriamente o último "grito". Levado pela mão de Liza Minnelli, porventura a sua melhor amiga (interpretada na série por Krysta Rodriguez) as suas silhuetas depuradas, mas sensuais, conquistarão Lauren Bacall, Elizabeth Taylor (para quem conceberá um conjunto de belíssimos turbantes), Margaux Hemingway, Angelica Houston ou Bianca Jagger. E, com elas, o templo do luxo em Nova Iorque, a loja Bergdorf Goodman. A América tinha, finalmente, uma resposta a Dior e Saint Laurent. Como afirma Roland Ballester, produtor do documentário de Frédéric Tcheng sobre o designer: "Graças a ele, os criadores de Moda americanos tornaram-se dignos de interesse. Antes dele só havia cópias do que se fazia em França."

Visionário, Roy Halston criou o conceito de casual chic, desconstruindo a ideia de que a sofisticação e o luxo tinham de ser necessariamente complicados. Valoriza peças como os cafetãs, de inspiração magrebina, os hot pants, mas sobretudo os vestido-camiseiro que, em materiais vários (a começar pela camurça sintética, a ultrasuede por si criada), jamais passariam de Moda. O modelo, que é praticamente uma camisa masculina alongada, terá nascido da resposta ao pedido de uma cliente para que lhe fizesse algo elegante, para usar todos os dias. O sucesso foi retumbante." É sexy. É confortável. É a liberdade", afirma à imprensa especializada o costureiro, orgulhoso. 

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Halston tornar-se-á  também o primeiro criador de moda norte-americano a comportar-se como uma pop star. Acompanhado pelas suas modelos de eleição (algumas das quais negras, como Pat Cleveland, o que era uma total novidade na época), a quem o jornalista de moda André Leon Talley chamava The Halstonettes brilhará na mítica discoteca norte-americana Studio 54. Entre bolas de espelhos, empregados sobre patins e mulheres deslumbrantes nos vestidos minimalistas e muito sensuais que ele desenhara para elas, Halston reinava ao lado de gurus como Andy Warhol ou Truman Capote. Para a história dessa época dourada de boémia (e para a lenda desta discoteca) ficaria a festa do 30º aniversário de Bianca Jagger, em 1977, em que a modelo, então casada com o vocalista dos Rolling Stones, montada sobre um cavalo branco, usou um vestido vermelho de Halston. De repente, o nome dele estava por todo o lado, como símbolo de modernidade e luxo - numa canção de Billy Joel (Big Shoot), no filme de Sidney Pollack, Tootsie, ou mesmo num episódio da popular série O Barco do Amor.

'Halston' estreia na Netflix esta sexta, 14
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 O volume de negócios correspondia a esta euforia. Para além da sua linha de roupa feminina, que rendeu perto de 30 milhões de dólares entre 1968 e 1973, o designer lançou um perfume, em 1975. Em dois anos, as vendas da fragrância somaram cerca de 85 milhões de dólares, impulsionadas também pelo design do frasco (de formas tão minimalistas como as próprias roupas), um trabalho assinado pela italiana Elsa Peretti, modelo e designer de jóias, que se tornaria amiga inseparável do criador. Em breve, o nome de Halston estaria também em etiquetas de roupa de homem, óculos, luvas, carteiras, malas, lingerie e roupa de cama. Por esta época, o costureiro desenhou até uma linha de uniformes, confecionada para a companhia aérea Braniff International, mas também para as funcionárias da multinacional de rent-a-car Avis e para a equipa que representaria os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976. No princípio dos anos 80 voltaria a surpreender, desenhando uma coleção acessível para a cadeia de roupa low cost JCPenny, muitos anos antes desse tipo colaborações se tornar normal. Escandalizada, a Bergdorf retaliou: mandou retirar das suas prateleiras tudo o que tivesse o nome de Halston, dos sapatos aos perfumes. A quem lhe pedia um reação, limitou-se a sorrir altivamente, o cigarro teatralmente suspenso da mão direita. Estava apaixonado (pelo artista venezuelano Victor Hugo Rojas) e sentia-se no topo do mundo, de tal maneira que, em 1980, se decidiu a conquistar o mercado chinês. Pegou nas suas principais modelos e rumou a Oriente, mas a Cidade Proibida não era Manhattan e as encomendas prometidas nunca se concretizaram.

Uma cena de 'Halston'
Uma cena de 'Halston'
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Este império de glamour desmoronar-se-ia com estrépito nos anos 80. Os problemas tinham começado um pouco antes, quando o designer aceitou vender a sua marca, a Halston Limited, à Norton Simon, por 16 milhões de dólares, confiando que continuaria a ser o designer principal da casa. Assim aconteceu, de facto, até 1983, quando a Norton Simon foi adquirida pela Esmark Inc, que não honrou o acordo anterior. Na nova companhia, Halston foi perdendo o controlo da situação, até ser afastado em 1984, quando foi proibido de trabalhar para a marca que continuou a usar o seu nome – um golpe de que nunca recuperou. Na origem da atitude da Esmark estavam as despesas colossais do criador com flores, viagens em jatos privados e outros luxos, e ainda a evidência pública e notória de que este se tornara cada vez mais dependente do consumo de cocaína. Em 1988, quando descobriu que contraíra SIDA, Halston trocou Nova Iorque por São Francisco, para se juntar à família, com quem sempre mantivera uma relação próxima, nomeadamente com o irmão mais velho, Robert. Morreria aos 57 anos, a 26 de março de 1990. Sem ele, e sem o seu sucesso fulgurante, é bem possível que o mundo não tivesse prestado atenção a outros criadores americanos, que, de algum modo, dele descendem, como Calvin Klein ou Tom Ford.

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