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O famoso destino dos Brunhoff. A saga de uma família da Moda, da edição e da cultura

Elegantes, criativos e influentes, os Brunhoff estão ligados a sucessos editoriais como as aventuras do elefante Babar ou a Vogue francesa, mas também à resistência ao ocupante alemão durante a Guerra. Um livro acabado de sair em Portugal, O Esplendor dos Brunhoff, conta a sua fascinante história.

Grupo de modelos no Place de la Concorde, em França (1933).
Grupo de modelos no Place de la Concorde, em França (1933). Foto: Getty Images
30 de agosto de 2021 | Maria João Martins

É um livro sobre a história de uma família mas, nele, cabem Christian Dior, Chanel, Elsa Schiaparelli, Picasso, Jean Cocteau, Robert Doisneau, Lee Miller e boa parte dos dramas da Europa do século XX. Isto porque, como avisa a autora, a jornalista Yseult Williams, na introdução a O Esplendor dos Brunhoff (Quetzal), "na Belle Époque, no bairro de Montparnasse, já eles davam cartas. Nos anos 20, eram a encarnação do Tout-Paris, o mesmo é dizer do centro do mundo. Imprensa, Edição, Moda, Fotografia, Arte Moderna - os Brunhoff estavam implicados em cada um desses domínios. Inovadores nas Artes, estiveram na linha da frente da luta contra o fascismo, com estreitas ligações ao movimento pacifista."

'O esplendor dos Brunhoff', de Yseult Williams (Quetzal).
'O esplendor dos Brunhoff', de Yseult Williams (Quetzal). Foto: D.R

O membro mais famoso desta família de origem alsaciana é Jean, autor das aventuras do elefante Babar e de parte da decoração do maior orgulho da marinha mercante francesa, o paquete Normandie. Mas, como demonstra Yseult Williams, também o irmão de Jean, Michel, os seus filhos e sobrinhos merecem muita atenção. Editor da revista Jardin des Modes, fundada pelo cunhado Lucien Vogel e mais tarde vendida à americana Condé Nast, Michel tornar-se-á o primeiro redator chefe da Vogue francesa. Estamos então no princípio da década de 1920 e Paris é o epicentro de todos os movimentos culturais e artísticos do mundo ocidental. Na redação, apesar da supervisão do outro lado do Atlântico protagonizada pela implacável Edna Chase, recorre aos maiores talentos da Europa de então: "Pesquisador de ouro genial - escreve a autora - feiticeiro do ar dos tempos, fazia parte desses homens na sombra, cujo talento é descobrir e revelar o dos seus contemporâneos."

'Le Jardin des modes', lançada por Lucien Vogel em 1922 e dirigida pelo seu cunhado Michel de Brunhoff.
'Le Jardin des modes', lançada por Lucien Vogel em 1922 e dirigida pelo seu cunhado Michel de Brunhoff. Foto: Biblioteca Nacional de França
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Encontramos Michel a trabalhar nos bistrots próximos da redação, permanentemente rodeado por desenhadores, fotógrafos, escritores e criadores de Moda. Estes digladiam-se com ferocidade por uma capa, às vezes por uma página a mais do que a concorrência. Usam todas as armas, mesmo as mais reprováveis como a chantagem, junto de Michel: "Antes da Guerra, havia, quando muito, uma vintena de casas de alta-costura na capital. Em 1934 contam-se cerca de duzentas!" Às que já existiam antes de 1914-1918 (Patou, Worth, Poiret, Paquin, Lanvin, entre outras) somam-se, com uma pujança inédita até aí, Chanel, Lelong, Molyneux, Rochas, Maggy Rouff, Schiaparelli. Michel tem de se haver com a guerra entre criadores e com a mais feroz de todos, Coco Chanel, a quem ele dá o epíteto de "dragão da Rue Cambon." Nos anos 20, o arqui-inimigo de Chanel era Jean Patou, mas a troca de insultos entre ambos em nada se comparará com a que, na década seguinte, a há-de opor à italiana Elsa Schiaparelli.

Elsa Schiaparelli em 1936.
Elsa Schiaparelli em 1936. Foto: Getty Images

Mas Michel, a Vogue, os criadores de Moda, nesses anos marcados pela sombra longa da Grande Depressão, eram felizes e não sabiam. Em breve, a IIª Guerra Mundial e a ocupação da França pelos alemães, em junho de 1940, colocariam os Brunhoff, e todo o mundo luminoso que eles representavam, em sérias dificuldades. A Moda, como atividade económica relevante, torna-se mais um palco de confronto entre ocupados e ocupantes: "Contra todas as expectativas, a indústria da Moda permanece, de momento, em Paris. Contudo, Goebbels faz da Moda francesa uma das suas grandes prioridades. Está decidido a deslocalizar la Couture para Berlim e Viena, a fim de controlar o estilo da nova mulher arianizada, inteiramente dedicada à família, ao desporto e às atividades domésticas."

Coco Chanel em 1944.
Coco Chanel em 1944. Foto: Getty Images
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Se os criadores se vêem em dificuldades, a imprensa sofre os efeitos devastadores da censura: a partir de julho de 1940, torna-se impossível publicar um título sem a autorização da Propaganda nazi. Mas mesmo que esta seja concedida, ainda é possível boicotar, em banho-maria, uma publicação, basta ir-lhe vedando o acesso ao papel, que, como todas as matérias-primas numa economia de guerra, era racionado e controlado pelas autoridades. Foi o que aconteceu a Michel e à Vogue francesa que, no princípio da ocupação, suspenderá a atividade.

Capa de um número da Vogue em 1934.
Capa de um número da Vogue em 1934. Foto: Biblioteca Nacional de França

Pelo livro de Yseult Williams passam ainda os membros da família envolvidos na Resistência: Pascal, o filho de Michel fuzilado pelos alemães em 1944, Lucien, a quem foi retirada a nacionalidade francesa por "ser um judaizante perverso, perigoso e hábil" e, sobretudo, a filha deste, Marie-Claude, internada num campo de concentração pelo seu envolvimento ativo na Resistência e proximidade com o Partido Comunista. Marie-Claude, familiarmente conhecida por Maico, é, aliás, uma das grandes personagens do livro. "Conhecemo-la" como intrépida repórter de outra das publicações da família, a revista Vu, que, ao longo dos anos 30, denunciara, antes de qualquer revista ou jornal europeu, as práticas aviltantes dos nazis. Nos campos, sobrevive, ajuda os companheiros de infortúnio e radicaliza-se. Eleita deputada pelo Partido Comunista Francês em 1946, foi duas vezes Presidente da Assembleia Nacional e dirigiu a Federação Democrática Internacional das Mulheres.

Christian Dior em 1955.
Christian Dior em 1955. Foto: Getty Images
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Em maio de 1945, quando a Guerra terminou, os Brunhoff, como a maioria dos franceses, não eram os mesmos: as perdas e as dificuldades de toda a ordem tinham cavado em todos um sulco de amargura. E, no entanto, voltarão a Paris, à Vogue e ao lugar onde tudo acontece. Mais do que um ato patriótico, a retoma é o único meio de não naufragar em definitivo. Aos poucos, Michel volta a desempenhar o papel de árbitro das elegâncias, devendo-se-lhe a aposta decisiva em jovens tímidos, mas cheios de talento, como Christian Dior ou Yves Saint Laurent. Como escreve a autora, "é, pois, graças a Michel que o grande estilista Robert Piguet contrata Dior em 1937 como primeiro assistente". Depois da Guerra, voltará a ser Michel a transformar Dior (e o seu New Look) num fenómeno de impacto mundial: "No número da Vogue de março de 1947, uma fotografia de Christian Dior, apoiado no lintel do fogão da sala do seu pequeno apartamento (...) Lê-se Christian Dior acaba de se lançar com enorme sucesso." Estava lançado o New Look. A História da Moda não voltaria a ser a mesma.

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