Atual

"O dia em que descobri que o meu marido era homossexual"  

Um vida inteira juntos, uma filha em comum e vários projectos em conjunto — além do maior deles todos, o casamento. Afinal, era tudo um engano. Uma mulher partilha a sua história com a Máxima, enquanto uma terapeuta de casal tenta explicar aquilo que é passível de entendimento.

Foto: IMDB
11 de maio de 2022 Pureza Fleming

A traição dói, sempre. Não há panos quentes capazes de apaziguar o desgosto que é ser-se enganado pela pessoa que, supostamente, nos "deve" a maior das considerações. A pessoa que jurou ficar connosco "para sempre". E se a traição dói, o que será quando esta irrompe em dose dupla? Quando além do choque do engano, soma-se o espanto de que afinal "havia outro — ou outros"? Foi há cinco anos que Teresa descobriu — ou melhor, concluiu — que o seu marido João, com quem esteve casada ao longo de 25 anos, era homossexual e mantinha com homens as relações que já não mantinha consigo há muito. O seu atual ex-marido foi o seu primeiro namorado: começaram a namorar aos 19 e casaram com 21. Em conjunto tiveram uma filha, hoje com 22 anos, e uma extensa história de desconfianças, mentiras, mas em simultâneo muita paciência e tentativas suficientes para não deixarem o casamento morrer (mesmo quando este já se encontrava moribundo). O mais velho de uma família só de mulheres, João tem quatro irmãs. Teresa conta à Máxima que ele é filho de pai ‘ausente’ — "presente, mas com problemas psicológicos graves", tendo assim crescido no seio de uma família "muito traumatizada com a realidade com que vivia em casa, carência e maus tratos".

Ele e Teresa conheceram-se novos: "Encontramos-nos, juntámo-nos, ele cuidou de mim e eu dele. Vivíamos um bocadinho como irmãos — reflicto agora, passado este tempo todo", desabafa. "Ele é uma pessoa muito alegre, muito de palco. Eu sou mais recatada. Ele, de alguma forma, trouxe alguma alegria à minha vida. Era uma relação muito amiga, sempre". Explica que, além de uma leve intuição, a relação corria tão bem que Teresa preferia deixar as dúvidas a marinar, até porque, até determinada altura, não tinha visto nada que indiciasse que ele pudesse ser, de facto, homossexual. "Ele tinha uns toques afeminados. Toda a gente comentava isso. E depois havia o facto de estar sempre rodeado de mulheres. Até a forma como ele me tratava: punha-me permanentemente num pedestal (às vezes sem motivo), enchia-me de presentes, eu era a melhor mulher do mundo… Talvez para tentar contrariar aquilo que ele era. Os amigos homens, os casais amigos, davam-se com ele e ele era — é —, uma pessoa muito rodeada de amigos. A coisa ia sempre sendo disfarçada por esta maneira dele ser". Enquanto reflecte, Teresa parece ir chegando a conclusões: "Ele casou comigo, dá-me impressão passado este tempo todo, talvez para negar aquilo que o ‘chamava’. E como éramos muito amigos tudo corria bem. Mas as coisas não podem ser tapadas eternamente. No meu interior eu sentia. Ele nunca falava nisso. Não tínhamos abertura suficiente para falar acerca das coisas que nos moviam internamente, a mim e a ele". Só ao final de dez anos de casamento é que Teresa teve aquilo a que se poderia chamar de primeira 'prova do crime’ — algo que fosse além da sua intuição feminina. Certo dia, enquanto usava o telefone dele — com a sua autorização, reforça —, depara-se com uma mensagem que chega: "Havia uma troca de mensagens com um rapaz que lhe pedia dinheiro. Entretanto, o telefone toca e é esse mesmo rapaz que, assim que se apercebe que sou eu do outro lado da linha, desliga. Aquilo despontou em mim uma preocupação/curiosidade. Então fui perceber junto das contas telefónicas que número era aquele. Percebi que há já dois ou três meses que trocavam mensagens: eram cerca de 100 mensagens, diárias e a altas horas da madrugada. Eu perguntei-lhe o que é que se passava e ele respondeu que era um rapaz que ele ajudava, mas que ‘não era nada com que eu tivesse de me preocupar’. Eu quis falar sobre aquilo, mas ele negou, negava sempre. Acabou por se instalar ali um enorme mau estar".

Nesse mesmo ano muita coisa aconteceu nas suas vidas: o pai de Teresa morreu; abriram dois restaurantes; e Teresa ainda ficou responsável pelo seu irmão mais novo, que acabou por viver com eles durante seis anos. "De alguma forma, todas estas situações trouxeram distração à situação que tínhamos para resolver. Ao fim de dois ou três anos disse-lhe que tínhamos de falar sobre aquela questão. Ele disse-me que eu estava ‘a fantasiar’. E eu respondi que ‘independentemente de ser fantasia ou não’, certo era que ia falar com o padre que me acompanhava até ele estar preparado para falar comigo". Relata que João continuava a fugir do assunto e ‘as coisas iam-se vivendo’. E assoma que, após ter desabafado com o padre e de ser acompanhada por ele, se sentia mais tranquila: "Pelo menos fui colmatando dificuldades minhas de encarar isto". Porém, reforça, "sempre sem resolver a questão". A determinada altura, João começa a revelar algumas perturbações do foro psicológico: "Depressões intercaladas com picos de excitação… Estava perturbado e começou a enveredar por um caminho de mentira e atabalhoamento sobre situações fáceis da vida. Havia uma variação de humores que nos preocupava". No meio do processo, veio o entusiasmo que resultou na abertura de um terceiro restaurante. Um passo maior que a perna, considera hoje Teresa, já que imediatamente veio o descontrolo financeiro e a falência não de um, mas dos três restaurantes, um sucesso em tempos. "Obviamente que isto foi um tropeção, mas transformou-me. O João estava em casa — esteve em casa durante seis meses. Nessa altura ainda não estava a querer enfrentar a sua questão. Para mim também não era prioritária. Era um issue que teria de ser tratado depois: a mentira, o facto de não conseguir ser honesto e transparente consigo próprio. E, claro, o assumir da sua homossexualidade. Mas tudo poderia ser numa fase posterior."

A vida continua na casa de Teresa e João e é só em 2017 que a segunda grande prova é colocada defronte da mulher do casal. "Estamos a chegar de uma peregrinação quando ele recebe uma chamada. Eu estava com o telefone dele, sentada ao seu lado no carro a ver o Waze no nosso regresso a Lisboa. Atendo e é a voz de um rapaz que pergunta: ‘Meu amor a que horas chegas?’. Ele imediatamente diz que não é nada, que deve ser ‘um parvo qualquer que o anda a perseguir’ — ‘Não tens de te preocupar’, e deita o telefone fora. Literalmente. Nessa altura eu percebi que nada daquilo fazia sentido e que tinha voltado a acontecer o que já tinha acontecido dez anos antes. Não sei como, decorei o número e quando fui ao Google vi que o mesmo correspondia a um Escorts (‘acompanhante’) brasileiro de 20 anos. Continuei a ver as contas telefónicas — é horrível esta intromissão mas, de facto, estávamos a falar der uma necessidade de resolver isto de uma vez por todas — e encontrei diversos números de Escorts, de homossexuais, todos brasileiros e todos muito novos. Viviam todos na nossa zona", desabafa. Mesmo com as evidências, Teresa confronta o marido que mantém o discurso ‘são ilusões tuas’. "Ele deixou de me conseguir encarar, deixou de conseguir estar em casa. Saía muito cedo e começou a tirar coisas de casa, supostamente sem eu perceber. Nós não discutíamos e a coisa ia sendo vivida desta forma". Como? É a pergunta a fazer perante uma situação destas. Como é que Teresa, depois de tudo, continuava a manter os olhos fechados: "Com dez anos a saber a verdade e dez anos posteriores com imensa distracção — a morte do meu pai, restaurantes a abrir e a fechar, tomar conta do meu irmão… Tudo isto ficou por resolver, mas qualquer coisa foi trabalhando dentro de mim, mesmo sem eu ter uma acção. De alguma forma, o meu amor por ele foi morrendo. Deixámos de ter qualquer tipo de intimidade. Não havia zangas, simplesmente não estávamos". A derradeira vez tardou, mas chegou: "A cabeça dele, entretanto, não estava muito estável. Andava medicado e foi tendo vários acidentes de carro e de mota. Num desses acidentes, estava eu no hospital com ele quando a enfermeira me pede as receitas daquilo que ele andava a tomar. Ele dá-me o telefone para a mão para eu mostrar as receitas e adormece. Aproveito e vou ver as mensagens. As mensagens trocadas com o seu namorado eram promessas de amor, ‘vamos viver juntos não tarda nada’, que ‘nada mais importava para ele do que ele’, que ‘gozava sempre que nós tínhamos as sessões com o Padre’.

Após sairmos do hospital decidi que ia falar com ele. "Já em casa, sugeri que ele fosse tomar um banho, pego nas chaves dele para ir passear o cão e ele diz-me que tem de ir trabalhar para o restaurante — era meia-noite. Eu vou ter com ele ao restaurante, ele diz que ‘está a trabalhar, que não podia conversar’, mas a verdade é que o restaurante está fechado e que ele não estava lá. Insisti que tinha de o ver, fui ter onde ele estava e pedi-lhe para não voltar a casa nessa noite. Nem nas seguintes. Que precisava de tempo para saber como é que eu ia digerir aquilo tudo, mas que estava tudo terminado. Ele não estava a acreditar. Ele não acreditava que eu fosse capaz de ‘viver sem ele’. Mas fui e percebi que aqueles últimos dez anos, de facto, haviam encerrado em mim o amor e o companheirismo que eu tinha com ele. Foi menos difícil por essa razão".

Duplo engano, o dobro da revolta? Não necessariamente

Se ser-se trocado por alguém do sexo oposto ao parceiro não é fácil, o que dirá quem é traído por alguém do mesmo sexo do parceiro? A psicóloga Liliana Fonseca, da Oficina da Psicologia, elucida: "A traição com pessoas do mesmo sexo pode ser vista como mais difícil de ultrapassar por motivo de duplo engano. A pessoa traída sente uma traição emocional e física e uma traição de identidade — sente que a traição vai alterar a sua identidade, a forma como se vê e a forma como a vêem. Este tipo de traições pode dificultar a confiança futura, no relacionamento vivido ou num novo, até porque o sentimento de culpa e de auto falha está muito presente nestas situações. É de extrema importância um bom canal comunicativo para libertar todas as angústias, medos e mais que tudo dúvidas, para evitar ‘ancoras’ em questões afetivas futuras. Já o primeiro sentimento que surge quando se descobre que o parceiro é homossexual é a revolta, em conjunto com o choque. Não se sabe o que dói mais, se a dor de se ter sido traída ou a dor que põe toda a feminilidade em causa". Explica que o cliente traído chega ao consultório com um misto de sentimentos tais como "revolta, angústia, baixa autoestima, insegurança, humilhação, sendo constantemente invadida por questões de ‘como não percebi’, ‘o problema sou eu’, ‘será o meu corpo", ‘será que alguma vez teve prazer comigo’. A instabilidade emocional sublinha muito o medo, a vergonha da sociedade, da família e dos amigos ‘e quando souberem’, há quase uma sobreposição de medos e de perdas, em que o medo que se saiba é superior à dor da perda, da traição e da humilhação".

Assoma que há um constante relembrar de todas as coisas que viveram, na tentativa de relembrar um comportamento suspeito, qualquer sinal que apazigue todas as dúvidas que, por vezes, são mais fortes que o sofrimento. Desde o primeiro momento há uma "continua procura de validação por parte do Psicólogo para acalmar o sentimento de culpa". Teresa confessa que, no seu caso, teve de ‘pegar o touro pelos cornos’ logo após a separação: "Comecei a trabalhar. Precisei de ser a tranquilidade da minha filha e o facto de eu não falar com ela acerca desta questão também me deu a mim um ambiente mais seguro, sem dramas para seguir em frente. As coisas ligaram-se de uma forma óptima. Apoiei-me nos amigos, liguei-me muito ao trabalho. Quis ser mesmo aquilo que a minha filha precisava, era minha maior prioridade. E, portanto, senti necessidade de arrepiar caminho (ainda ia bem a tempo) antes por ela, para que ela pudesse ter uma vida o mais ‘normal’ possível. Como eu sou uma pessoa tranquila consegui isso com alguma facilidade". Além disso, mantém: "O João sempre tomou as decisões por mim ou comigo. Então eu tive de fazer um crescimento rápido. Ao fim de um ano ou menos eu era outra pessoa. Era uma pessoa muito mais aberta — porque ele era sempre ‘a pessoa aberta’. Eu bastava estar no silêncio, na sombra. E passei a estar mais visível, mais proactiva. Ao fazer essa transição — que até foi antes da separação, quando ele teve o esgotamento — eu gostei de mim assim. As pessoas que me rodeavam viram-me uma pessoa nova, mais feliz. Simplesmente, fui desenvolvendo essa parte em mim. Foi o caminho certo e correu muito bem".

De acordo com a psicóloga Liliana Fonseca, "todas as traições são difíceis de ultrapassar. Na verdade nunca se esquecem, o que se consegue, na minha experiência em Terapia de Casal, é aceitar a situação e trabalhar tudo que levou a uma situação de traição. Quando a traição é no mesmo sexo, e há diferenças de idades acentuadas, de imagem, a auto estima e a insegurança da pessoa traída atinge níveis elevados. Neste tipo de situação observo dois grandes resultados: há mulheres que caem em inércia total e numa tristeza profunda, que preferem aceitar a traição; e depois há mulheres que criam um ‘poder’ interior e fazem uma mudança radical de hábitos, de imagem, como certa cliente que me diz ‘Doutora agora é todos os dias ginásio, vou ficar uma ‘bomba’, ele vai ver’". Teresa parece ser um caso bem resolvido, até porque, como a própria relatou, ao longo dos anos em que o assunto foi ficando em stand by, ela foi trabalhando dentro de si não só o seu eu, mas também a sua relação. "Passado este tempo sinto-me muito forte. Sinto que ultrapassei isto da melhor forma. Continuo a ser muito amiga dele. Ao fim de dois anos comecei a telefonar-lhe para saber como é que ele estava. Ele ainda muito orgulhoso, ainda a negar a situação, a dizer que são ‘ilusões minhas’ — contudo, já viveu com uma pessoa, fala à filha disso, fala a alguns amigos disso… Enfim, ainda não lhe caiu a ficha da verdade que é o que mais importa. Já eu tenho agora um namorado, uma coisa recente. Foi um processo difícil para mim: saber que posso ter uma vida feliz com outra pessoa, que sou merecedora…". De facto, tal como avança aquela psicóloga, recomeçar não é um processo fácil, sobretudo neste tipo de traição: "Nestas situações há o sentimento que se falha ‘como mulher’. Uma paciente minha constantemente referia ‘Que mulher sou eu, nem sou mulher, que tipo de mulher sou eu — diga-me —, que é trocada por um gajo?’, tornando o aceitar da situação mais demorada e mais trabalhosa. No entanto, considero que as traições, sendo com alguém do mesmo sexo de quem nos troca ou não, são situações sempre difíceis de aceitar e muito mais de compreender. Contudo, a minha experiência em terapia de casal mostra-me que quase todas as situações são passíveis de se resolver e de se aceitar. Claro que o resultado final nem sempre é o retorno ao casamento, mas há um fim sem dúvidas e sem traumas para o futuro afetivo". Para Teresa, "obviamente que esta situação é algo que não volta atrás. Eu senti que precisava de sair da vida dele (porque ele continua ainda hoje a gostar imenso de mim) não só por mim, mas também por ele — para ele encontrar o caminho certo. Não foi fácil para ele — não está a ser. Ele não percebeu isto. Ele ainda não encontrou ninguém mais estável que lhe possa ensinar o que é esta vida , portanto continua a ter relações muito fugazes. E, à distância, tenho pena que ele ainda não tenha conseguido encontrar o conforto e a tranquilidade que ele merece e procura".

A questão que muitas mulheres colocam é a seguinte: é mais fácil ser-se trocada por alguém do mesmo sexo que o parceiro, ou por alguém do nosso sexo, mais jovem, mais bonita? Segundo Liliana Fonseca, "a dor desta traição faz com que se olhe para todos os sonhos, expectativas como uma grande ilusão, ou seja toda a relação foi uma mentira, e há a sensação de que, como afirma uma das suas pacientes, ‘se fez papel de parva’, gerando sentimentos de raiva, revolta versus tristeza". Teresa, por sua vez, considera mais confortável apenas saber que não era a pessoa para ele — ‘a pessoa para ele é um homem’, arremata. E conclui sabiamente: "Em todas as relações que falham há responsabilidade dos dois lados: da minha parte houve a responsabilidade de não ter entendido isto, de ter sido usada por ele para seu próprio conforto e engano do mundo, usando-me como fachada. Permiti isso, fui imatura. Uma responsabilidade, porque ao permitir isso ele também não se encontrou. No final, prejudicámo-nos os dois".

Saiba mais
mundo, discussão, homossexualidade, casamento
Leia também

Crónica Isabel Stilwell. A presbiopia salva casamentos

"Aquilo a que o comum dos mortais chama de vista cansada, e que nos obriga a fazer figuras tristes no supermercado quando somos obrigados a pedir, de preferência a um moço bem-apessoado, que nos leia as letras pequeninas no rótulo da embalagem."

As Mais Lidas