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Crónica Isabel Stilwell. A presbiopia salva casamentos

"Aquilo a que o comum dos mortais chama de vista cansada, e que nos obriga a fazer figuras tristes no supermercado quando somos obrigados a pedir, de preferência a um moço bem-apessoado, que nos leia as letras pequeninas no rótulo da embalagem."

'Alguém tem que Ceder' (2003)
'Alguém tem que Ceder' (2003) Foto: D.R
24 de junho de 2022 Isabel Stilwell

Nada é por acaso, nadinha é por acaso. Todos os dias tenho mais a certeza de que o criador pensou nos mais ínfimos pormenores. As vezes não parece, mas é só porque não nos damos ao trabalho de estudar a causa das coisas, correlacionando tudo o que acontece à nossa volta.

Procuro um exemplo para sustentar a minha teoria, e vem-me logo à cabeça a presbiopia. Isso mesmo, aquilo a que o comum dos mortais chama de vista cansada, e que nos obriga a fazer figuras tristes no supermercado quando somos obrigados a pedir, de preferência a um moço bem-apessoado, que nos leia as letras pequeninas no rótulo da embalagem porque somos incapazes de as decifrar.

(Esperem, só um aparte, como é que é possível que os especialistas em marketing da indústria cosmética se esqueçam de que os cremes para "peles maduras" precisam, necessariamente, das instruções em letras garrafais?)

Adiante. Pego já no fio à meada. Estávamos então na presbiopia que, na maioria das pessoas, começa a dar sinais de si lá pelos 40 anos, e avança a galope por aí fora, de tal maneira que aos 60 ou temos um par de óculos em cada sala, e vários na carteira, ou não vemos nada ao perto. Mesmo aqueles que conseguem enganar na idade, acabam por denunciá-la sempre que esticam os braços para colocar a revista que estão a ler a mais de um palmo de distância.

À primeira vista esta deficiência adquirida é só um sintoma de envelhecimento, que não serve para mais nada senão para nos lembrar, constantemente, que o caminho é para a frente, e não há volta a dar. À primeira vista, porque aqueles que, como eu, acreditam que nada é fortuito, acabam por lhe descobrir um sentido. Foi assim que concluí a quem serve esta diminuição progressiva da visão do que está à frente dos nossos narizes: ao casamento, claro está. À continuação dos relacionamentos amorosos, evidentemente. Porque, gradualmente, vamos sendo incapazes de ver as rugas e outros sinais de velhice da nossa cara-metade. E ela, as nossas, o que é objetivamente um descanso que nos permite concentrarmo-nos no essencial. Com uma visão difusa do rosto alheio, recorremos à imagem mental que preservamos dele (por altura do primeiro encontro), e de nós mesmas (ainda crianças, ou quando muito, adolescentes de 18 anos), com claras vantagens para todos.

Os benefícios não se ficam por aqui: a vista cansada é uma forma orgânica e natural de rejuvenescimento, infinitamente mais barata e segura do que o botox e as operações plásticas, com a vantagem de que não congela a expressão, nem nos impede de rir ou de chorar.

Pela mesma fase da vida, a miopia tende a melhorar, porque o músculo ocular também é vítima da força da gravidade e da falta de colagénio ou de outra substância que tal, o que significa que talvez, pela primeira vez há décadas, podemos mandar os óculos de ver ao longe às urtigas. E, de repente, somos capazes da proeza há muito perdida, focando a atenção nos detalhes do que se passa no toldo vizinho, sempre um bom entretém para os dias mais monótonos de praia, e ver os netos a fazer castelos na areia, sem sair da toalha. Tenho de confessar que foi por esta altura que a minha mãe voltou a implicar comigo por não pentear o cabelo atrás — não podiam ser só ganhos!   

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