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Testemunhos de mulheres que não quiseram filhos. “Eu não sou menos mulher por não ser mãe”

Sandra e Sofia, 43 e 52 anos, contam-nos porque decidiram não ter filhos, recordam os comentários que foram ouvindo ao longo da vida e refletem sobre como a sociedade ainda está longe de aceitar as suas decisões.

Foto: DR
18 de julho de 2022 Rita Silva Avelar

Há mulheres que tentaram ser mães, sem conseguir – por incontáveis razões. Mulheres que quiseram tornar-se mães num formato monoparental. Mulheres que ficaram sozinhas depois de se terem tornado mães. Mulheres que foram mães com outras mulheres. Tias que foram mães. Pais que foram mães. Há mulheres que não quiseram ser mães. Esta última, devia ser, talvez, a mais socialmente aceite e percetível: arriscamo-nos a dizer que é, muito possivelmente, a menos. Dizem-nos mulheres que levaram uma vida a ouvir: "Quando casas?" ou "Quando tens filhos? Olha que já passaste dos 30 anos, depois é mais difícil". Não é incomum, seja num almoço de família ou num jantar com amigos, ouvir este e outros comentários derivados. Nem tão pouco achar bizarro que não se queira deixar descendentes no mundo. Digam-no Sandra Oliveira, 43, ou Sofia Aparício, 52: a gestora e a atriz, que não se conhecem, ligam-se por esta realidade.

As decisões e o instinto (ou a ausência dele)

"Desde adolescente que me recordo de refletir e de ter conversas comigo sobre determinados temas. Ter filhos era um deles. Agora a esta distância, talvez o fizesse à procura do tal instinto, ou seja, quando é que ele (o instinto) despertaria em mim, já que parecia ser uma coisa "certa" e que a qualquer momento iria sentir. Fazia-o em silêncio, sem qualquer tipo de pressão, com muita naturalidade e respeitando o meu tempo" começa por contar Sandra. "Chegui à idade adulta e a vontade de ser mãe, que parecia ser o desejo de todas as mulheres, não veio e, sinceramente, nunca despertou em mim nenhum tipo de sentimento em que me questionasse se seria normal ou se estaria a esconder algum tipo de medo. Ao contrário, sempre aceitei como qualquer outro objetivo, ou seja, se para uns ter filhos é um desejo, para mim não era, e tinha o mesmo valor."

Sandra Oliveira sempre ouviu comentários depreceativos sobre a sua decisão. Na fotografia, com a sua cadela Kueen.
Sandra Oliveira sempre ouviu comentários depreceativos sobre a sua decisão. Na fotografia, com a sua cadela Kueen. Foto: DR

Sofia Aparício, ex-manequim e atriz, confessa que sempre soube que não queria ser mãe. "Eu acho que é sempre uma coisa que se vai desenvolvendo ao longo dos anos, porque quando somos miúdas o futuro parece uma coisa tão distante…Para não me chatear, dizia que sim, que um dia me ia casar, que ia ter filhos. "Cá dentro", eu nunca quis mesmo casar. É daquelas coisas que nos metem na cabeça e que nós temos de fazer para sermos todos iguais. As pessoas devem poder escolher e optar por si. À medida que fui tendo cada vez mais consciência do mundo e do animal que é o ser humano, foi-se criando uma certeza: não querer deixar um filho meu neste mundo. Não tem a ver com encontrar a pessoa certa", esclarece. "Cada um faz o que quer. Seria bom [que as pessoas] não tivessem muitos filhos, porque o Planeta está sobrecarregado, os recursos são limitados, e se não fosse o meu filho, seria o meu neto ou bisneto a passar mal. E eu não quero isso."

Os comentários: incompreensão ou rejeição?

Por causa desta convicção, Sandra habituou-se a ouvir comentários depreciativos ao longo da vida. "Comentários? Muitos! Principalmente das mulheres! É curioso (ou não) mas as mulheres são as que mais apontam o dedo, muitas vezes de forma pouco delicada. Além disso são as que menos aceitam a minha posição, como se tivessem que aceitar alguma coisa. Talvez por estar tão segura de mim e da minha decisão, nunca me deixei afetar pelos comentários." Sandra afirma que alguns comentários foram mudando ao longo dos anos, e alguns até tinham alguma piada. "Logo após o casamento - casei em 2002, tinha 24 anos, os comentários começaram subtilmente: "Agora bebé para quando?"; "Não deixes passar muito tempo, para seres mãe nova e depois para o segundo". Passados uns anos os comentários começaram a mudar. "Era como se as pessoas começassem a ficar impacientes e a tentar encontrar justificação para a barriga que (teimava) em não crescer, ao contrário do 'esperado'. Aqui, as questões passaram para o nível do problema em engravidar, pensavam que nós, coitados, não estávamos a conseguir fazê-lo e por isso escondíamos esse facto", conta. Soma mais um à lista: "O tempo foi passando e depois do constante esclarecimento que não existia qualquer problema, chegou o comentário: "é para não estragar o corpo", esta foi a que menos achei piada. Nunca na vida deixaria de ter um filho, se fosse o meu desejo, para não estragar o corpo. Passou depois para: "é por causa da carreira"!"

Ao longo de 20 anos de casamento, conta Sandra, foram inúmeros os juízos de valor, excepto provenientes do marido, da família e dos amigos mais próximos. "Tive pessoas que me tentaram convencer a ter filhos. Outras que me disseram que era egoísta e que queria gozar a vida sem preocupações. Já outras achavam estranho um casal não ter filhos e desconfiavam sobre o que, então, tínhamos para conversar? – dá-me vontade de rir. Depois também há quem diga que não temos a "cereja no topo do bolo", como se só a cereja tivesse lugar no topo… e não fica por aqui. Juntamos à "festa" o facto de ter feito parte da família um animal, o Big, durante 14 anos e recentemente a Kueen, de 3. Espantem-se com este comentário: "estes casais que têm animais e não têm filhos, muito estranho!".

Sofia Aparício diz-se segura da sua decisão, alheia a todos os comentários que lhe foram sendo feitos. "Todas as pessoas que me faziam perguntas sobre casar e ter filhos, para que me sentisse mal, nunca conseguiram. É uma decisão muito consciente. Quando tinha 20 ou 30 anos, diziam-me que ia ficar para tia e eu dizia: pois vou. É exatamente isso!" (risos). "Nós vivemos em sociedade, e acho mesmo importante que nos organizemos enquanto grupo, nos respeitemos, mas não acho nada obrigatório termos que repetir os comportamentos que se repetiram de geração em geração", esclarece.

Arrependimentos. E se…?

Então e se se arrepender? "Esta também era habitual, mas estava muito bem estruturada na minha cabeça" desabafa Sandra. "Felizmente, vivo muito bem com as minhas decisões. Se as tomo aceito que são as melhores dentro da informação e do que penso no momento. Tenho o presente e o futuro para corrigir se for possível. Se for esse o meu desejo, posso ser mãe até ao limite que o meu corpo permitir e se por acaso esse limite for ultrapassado posso sempre adotar uma criança já com alguma idade (sempre tive bem ciente que no caso de adoção não quero bebés). Ser mãe é dar amor, educar e acolher", acredita.

Sofia Aparício reforça a sua opinião: "No meu caso, acho que também é a minha crença no niilismo a funcionar. É preciso termos consciência, não olhar só para o nosso umbigo, há tantas maneiras de dar oportunidades de vida a crianças que não as terão se não fizermos por isso… Eu não me sinto mãe de ninguém nem quero, mas se for preciso cuidar de uma criança, há tantas aí a precisar de ser apoiadas e criadas."

Sandra levanta a questão do respeito e acredita que o assunto ainda é tabu. "Não posso deixar de referir, numa altura que tanto se fala em respeitar minorias, considerando que pertenço a uma, a de mulheres que assumem (pois estão escondidas muitas que não assumem e vivem uma vida imposta pela sociedade) que não querem ter filhos, que se continue a atacar e a fazer juízos de valor desagradáveis - como se fossem donos da razão - a quem não segue o padrão. Estaremos, verdadeiramente, a evoluir?", levanta a questão. "Existe, portanto, um grande movimento da sociedade à volta da maternidade. É como se a maternidade fosse o ponto alto da mulher e a sua posição na sociedade fosse determinada por este ato – o de ser mãe. É como que ser mãe colocasse a mulher num patamar inalcançável por quem não o é. Não aceito esta visão da Mulher. Eu não sou menos mulher por não ser mãe e muito menos pela decisão de não o ser", remata.

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