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Entrevista: Rita Vian, a miúda que está a reinventar o cool na nova música portuguesa

Entre a tradição do fado e a ilimitada eletrónica, a sua voz vagueia sem rótulos nas suas letras bem pensadas e na música urbana nascida em Lisboa - e o resultado só podia ser moderno. Rita Vian, fixe este nome.

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08 de junho de 2022 Patrícia Barnabé

O single Purga caiu perfeito nos dias recolhidos da pandemia, por isso muito rodou, e há quem diga que salvou o ano de 2020. Rita Vian canta em casa desde pequena, com alguma consequência nos Beautify Junkyard, e lançou-se a solo no EP CAOS’A. Com apenas cinco temas, produzidos por Branko, o mesmo que fez o remix para o seu single Sereia e espalhou o nome de Rita Vian a uma audiência mais ampla. Por isso, foi nomeada artista revelação nos prémios Play da música portuguesa e está no alinhamento de vários festivais, do Primavera Sound, já esta sexta, 10, ao Bons Sons e a Paredes de Coura. Ela vai andar por aí. 

Conversa numa esplanada lisboeta cheia de sol.

Foto: Pedro Mkk

Estudaste jornalismo na Nova de Lisboa, tens um gosto natural pelas palavras e as tuas letras funcionam sozinhas, sem música, o que é invulgar.

Sempre escrevi e os meus pais deram-me uma grande liberdade para pensar. Sabia que era muito convicta e os primeiras desenhos que fiz até foram letras, depois tive um blogue e escrevia textos criativos e um dia o meu pai falou-me em jornalismo. Segui por aí, mas percebi que a minha cabeça não tem muito de concreto, gosto mais de escrever sobre o imaginário, tentar ao máximo pintar as coisas de uma maneira diferente. Apesar de gostar bastante do realismo da vida, sempre gostei do desafio de romantizar um pouco as coisas. Fui-me habituando a isolar textos, histórias. Estou sempre a escrever, às vezes falo para o telefone e tenho tendência a perder-me, se não me obrigar a concluir uma ideia, ela perde-se, falta-me disciplina. E vou dissecando, dissecando até que não mudaria nada naquela frase. E depois é isso associado à música, porque sempre cantei, os meus pais sempre cantaram em casa. 

Estão ligados à música?

Tocam guitarra de ouvido, gostavam de compor, a minha mãe, neste caso; os meus avós também cantavam muito, a minha avó tocava piano e cantava os fados canção que vim mais tarde a perceber, já adulta, que que só existiam lá em casa, não são fados conhecidos que estejam na internet, são pautas muito velhinhas e acabam por ser as nossas músicas de família. Tinha uma relação muito próxima com o fado, e com essa musicalidade, mas descomprometida. E fui tomando o meu tempo, nunca me senti pressionada a nada. O meu lado criativo sempre me puxou, ouvi muita música portuguesa e pensava: 'E se eu?'… Na minha escrita sempre senti que era uma coisa ligeiramente diferente do que se ouve, qual seria a resposta a essa maneira de escrever se juntar um cantar português afadistado? Fui tomando o meu tempo e acabei por conseguir, deixou-me muito contente.

Look: Marques Almeida
Look: Marques Almeida Foto: Pedro Mkk

Era uma vontade desde pequena?

Um bocado, via os programas na televisão tipo Operação Triunfo, mas também tinha o lado de ser muito envergonhada, e deixar para depois. Sempre guardei muito para mim, cantava para o telemóvel e mostrava ao meu pai, não cantava à frente dele. No outro dia, lembrámo-nos de que eu me escondia atrás dele e não queria cantar com as minhas primas, e ele conta que um dia a minha mãe me pediu para ir cantar uma música ao palco, e eu fiquei muito nervosa, mas consegui e foi a primeira vez que cantei com público à frente, tinha para aí 12 anos. Sempre tive esta dualidade: ficava muito nervosa, mas sabia que não tinha outra saída. 

Entretanto estiveste nos Beautify Junkyards.

Tudo começou quando participei na Operação Triunfo, foi uma terapia de choque, achava graça aquela ideia de escola, sentia que havia uma melhor preparação. Inscrevi-me e acabei por entrar, fui eu a empurrar-me para a frente. A primeira vez que cantei ali foi mesmo a primeira vez, tirando a que te contei dos meus pais, e já se tinham passado uns cinco ou seis anos. Ainda por cima estava em direto para o país. E disse aos meus amigos em Telheiras: "Vou começar a cantar para vocês, porque vou começar a cantar aos fins de semana na televisão." E eles: "Ok". E fui-me habituando a cantar fado para os meus amigos, a meio da noite, mas nenhum deles tocava, há o Mike El Nite ou a Da Chick, mas quando nos juntávamos estávamos a ouvir música e a beber um copo, não estávamos à volta de uma fogueira, como se fazia em minha casa. Assim nasceu o Carmen que fiz para um disco do Mike el Nite, ele ia usar como sample. Depois juntei-me ao Beautify porque o João Moreira, dos Beautify, fazia parte da Operação Triunfo. Tive alguns contactos para fazer parte de algumas bandas, mas os Beautify tinham um lado experimental que me interessava muito, porque havia muitas coisas que eu gostava de juntar. 

Tens escola de música? 

Tenho de piano solto, um ano ali, outro ano ali, toco tudo de ouvido. A viola é, para mim, mais difícil de entender. Tenho agora o dilema: ou trazer o piano de casa da minha mãe, que não cabe na minha, ir para um sitio e montar um estúdio ou aprender a tocar viola para ter em casa.

A música também és tu que compões?

Sim, normalmente, no caso das Diágonas e da Sereia foi tudo de cabeça e a capella, saiu-me assim uma ideia que calhou bem. Há muitos outros casos em que isso não acontece. Muitas músicas saem assim e depois tenho de ir descobrir donde é que aquilo vem, ou porque é que acontece, depois tenho outros casos em que alguém me envia um beat, e há um ou outro caso que resulta logo. O meu primeiro tema do CAOS’A, que é o Plana, com o Branko foi ele que me mostrou aquele beat e resultou logo na minha cabeça.

A colaboração com o Branko (que agora também juntou Dino de Santiago na homenagem a Sérgio Godinho em SG Gigante) deu-te imensa visibilidade, como aconteceu?

Surgiu, por acaso, um ano antes, o Branko andava há procura de vozes. E até enviei uma ideia, mas as coisas depois perdem-se no tempo, e ele deve ter tido outras ideias melhores e outras coisas para fazer. Cruzei-me com o Branko no Primavera Sound em 2019 e até fui meia star strucked porque estava a ver concertos, da Rosalía e do Jorge Ben Jor, e estava sempre a cruzar-me com ele, estávamos no mesmo grupo. E sempre que eu dizia alguma coisa e ele respondia, eu pensava sempre: "Ah, está a falar comigo?" (risos) Passado quase um ano, eu tinha tudo preparado para lançar a Sereia, tinha os instrumentos todos gravados em casa e só me faltava gravar a voz, comprei um microfone, gravei a voz em casa atrás da porta do quarto. Até tinha aquelas coisas de ovos que fui coleccionando, aquela coisa "um dia posso usar isto para fazer coisas em casa, sei lá". E até cosi assim quatro com linha, zero expectativa, a melhor maneira de ir para as coisas. A Sereia teve uma óptima recepção à minha volta, no Instagram e isso, e o Branko mandou-me uma mensagem a dizer que tinha gostado muito da música, que a estava sempre a ouvir, e perguntou se eu não queria ir lá ao estúdio. Se há coisa de que me orgulho é de já ter ido para aquele encontro mega grounded, tinha aquela coisa: tenho o microfone atrás da porta do quarto, a música está mais democrática, aprendi a fazer o meu próprio upload do Spotify. Era uma segurança muito ingénua e pequenina, mas não deixava de estar lá. Eu fiz isto de mochila às costas a pedir a um pessoa para gravar uma guitarra ali, outra guitarra ali… Então fui para o estúdio ter com o João e ele disse que tinha um beat para mim que era o Plana e estava certo, nem sei explicar como foi, foi aquela coisa empática, às tantas já estás a falar sobre um amigo ou coisas de que gostas, às tantas: "Não queres cá voltar amanhã? Rita, desafio-te já a escrever o primeiro verso." E quando demos por nós estávamos a escrever juntos e temos o mesmo entendimento sobre a vida. E comecei, enquanto trabalhava, a mandar-lhe ideias pelo telefone, a capella e ele a trabalhar essas ideias com um instrumental por trás.

Look: Marques Almeida
Look: Marques Almeida Foto: Pedro Mkk

A tua música começou por ser fado, mas depois há pop e uma eletrónica que corre por detrás. Foi uma busca muito consciente esse lado urbano e moderno?

E agora que já estou a pensar em coisas novas e a pensar lançar o meu novo álbum, e no fim dessa primeira fase de busca e concretização: como juntas os elementos todos? O que ouves e o que escolhes cantar? O que é a tua verdade e as coisas que queres transmitir? Há uma coisa que o ritmo urbano me traz muito que é o ritmo, que me desafia muito, como vou explorá-lo de forma eletrónica e até acústica? Não tenho nenhuma convicção de que o fado ou a música electrónica sejam o caminho, é a forma como o exploras, como é que nos reinventamos com aquilo que veio de trás e que sabemos que é mais ou menos certo? E essa descoberta é curiosa e é o que me atrai, e não ver o acústico e o electrónico como coisas estanques e divididas.

Pode ser um caos organizado, o titulo do teu EP é CAOS’A precisamente.
 
Tal e qual. Um dia vi essas palavras juntas, vi casa com caos e juntei-as. Fui para a questão da casa, mas ao teres um propósito e uma causa independentemente do caos. Não que a minha vida seja um caos, todas as vidas são um bocado. Mas é, ao final do dia, escolheres uma direcção, saberes o caminho para casa. Pode até não ser tão intuitivo, como foi para mim, mas escolhes todos os dias, ou semanalmente, um objetivo e é seres disciplinado nessa essência que trazes contigo. 

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Os teus textos têm muita poesia, são muito carregados, no sentido positivo, o que parece contraditório quando hoje há tendência para aligeirar, sempre. Se calhar a ascensão do rap e do hip hop pôs-nos a reparar mais nas letras…

Muitas vezes digo isso e nem sempre tenho a sensação de que as pessoas estão a perceber. Às vezes vou buscar inspiração ao hip hop e tenho a sensação que as pessoas estão a ir buscar o lado estético desta minha afirmação: "Olha a Rita a juntar coisas." Não é isso. Por exemplo, ainda bem que alguém tem a coragem de pôr a quantidade de palavras que o Sam the Kid põe numa música de seis minutos. Porque, para mim, o meu cérebro quase relaxa a ouvir: (E começa a cantar): Há um silêncio que ainda me ensurdece, uma incerteza na pertença ou para ti sou guest? Ei, o que é que ele está a dizer? E eu sinto que ele se dedica a um texto, sinto a entrega, puseste ali o máximo de palavras que conseguiste e desafiaste-te a ver por cima das orelhas, e ainda assim conseguiste que aquilo fosse foneticamente agradável e genial, a certo ponto. Quanto tempo precisas para realmente entender o que está por detrás daquilo? Devia estudar-se Sam the Kid na escola, existe uma lição de pensamento muito importante no hip hop. 

A internet democratizou tudo, mas tem o lado perverso de ter superficilizado tudo, a rápidez não tem reflexão.

A democratização ainda bem que existe, mas faz com que sejas muito perseverante e selectivo naquilo que escolhes ver. Corres o risco de haver coisas que te podem escapar ou que te afunilam muito. Estava a falar com um amigo sobre a série Sara, que passou na RTP 2, e passou ao lado de muita gente. Ele dizia: "Qual a vantagem da televisão?" O Sara, nunca irias lá parar. A televisão ainda te obriga a ver coisas porque tropeçaste nelas, e foste obrigado a sair da bolha do teu algoritmo. Espera aí, se calhar também quero ver o Fugiram de casa dos seus pais e ouvir pessoas a conversar mais do que dois minutos, não é? A televisão ainda pode ter esse papel, não que eu ache que tenha. E isso tem a ver com a personalidade, nem é uma coisa de geração.

Mas agora há mais miúdos com o microfone atrás da porta do quarto. O que é ser original?

É falares do que tu sabes. Não há ninguém que faça ideia do que se passa na tua cabeça, e estamos a falar sobre a coisa mais banal, como eu fazer uma música sobre a nossa conversa, mas ninguém esteve aqui a ouvir-nos. A experiência é que conta, é estares o mais conectado contigo possível e saberes que não há nada mais original do que tudo o que é um dia normal.

Look: Marques Almeida
Look: Marques Almeida Foto: Pedro Mkk

A tua canção Purga diz isso: "O que não vejo, não ouço, nem pego/O que eu sinto que é certo/ Não tem nome tem mais importância/ O que eu sinto é que é certo/ a tua verdade vem muito do que sentes, para além do que pensas."

Sim. Aquilo que não tem nome tem mais importância, e isso é uma batalha constante de estar a tentar materializar um sentimento numa palavra e não conseguir. 

Mas não tens de fazê-lo!
 
Se calhar não tenho, e até posso falar sobre isso, porque a música é bastante comprida e tem milhares de palavras. Ela fala desse sentimento, a que te tens de habituar, de as coisas não serem concretas, não serem certas. No outro dia ouvi uma frase muito bonita: passamos a vida a tentar ter certezas, a arranjar um sítio seguro quando a cena é o contrário, é habituares-te à insegurança total da situação e lidares com a situação o melhor possível.

A pandemia acabou por te lançar, de certa forma? E o silêncio da rua ajudou...

É verdade, é aqui que eu tenho de estar. Aliás, eu escrevi a Purga nesse processo e nesse silêncio. Quando voltei já estava tudo mais clarificado, tinha o processo de quarentena todo digerido, num estado bué tranquilo de pensamento e de estar sozinha. Porque calhou-me estar sozinha este tempo todo e a escrita foi a melhor maneira de lidar com isso.

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Viemos todos mais para dentro durante a pandemia, ao nosso fundo, e começámos a escolher melhor as pessoas, quem esteve lá…

Sim quem te telefonou ou estivemos horas ao telefone, já não fazíamos isso! Agora vivemos uma coisa de que não gosto muito, dos cancelamentos, faz-me muita confusão de o erro ser altamente punível por qualquer pessoa, ocupa muito espaço e é meio intoxicante. Cada vez mais precisamos de ganhar distância das coisas, de perceber o nosso lugar e apreciar quem está por perto. O lado negro da pandemia é que as pessoas se viram muito tempo atrás do écran. Ninguém fala das coisas boas da pandemia: o privilégio de estar sozinha em casa. Eu estava a receber metade do meu ordenado, que já era baixo, numa situação zero boa, mas estava debaixo do meu tecto e vi uma oportunidade de terminar ideias que tinha há anos. E tive de me desenvencilhar como toda a gente. Todos os dias são uma escolha, para que lado queres olhar? Tens de ir disciplinando a tua cabeça. Podes contar que passaste dificuldades ou podes contar o outro lado, que foi muit’a fixe. Para qual escolhes olhar? A autossuficiência traz-te imensa paz.

Já estás numa mini tour, estar em frente ao público é a prova de fogo.

Começou o ano passado, já fiz alguns concertos. Sabes o que é que foi mais difícil? Estar num teatro com máscara, foi um embate distante, porque as pessoas estão sentadas, não percebo a expressão, se estão a rir ou a chorar, tirando uma ou outra que se levanta, foi muito desafiante. O contexto de festival traz sempre uma descontracção e uma entrega maior por parte das pessoas. Todas as experiências têm sido boas, cada palco é um desafio novo, vou tentando ultrapassar os meus limites. Falava no outro dia com uma amiga sobre o medo do palco, a vida arranja sempre uma maneira de te pôr à prova, se não for isto, é outra coisa qualquer. Se gostas de escrever e falar com as pessoas, isto iria sempre acontecer. Há alturas em que me esqueço, é quando estou mesmo contente de estar ali - e espero perpetuar isso em todos os palcos onde estiver. 

A polémica de seres a única miúda portuguesa no cartaz de Paredes de Coura - achas que falta representação feminina?

A primeira coisa que me veio à cabeça nesse momento foi imaginar raparigas e rapazes mais novos a olhar para esse cartaz, a representatividade é uma responsabilidade muito grande, porque em lugares de curadoria está a imaginação dos mais novos que olham para lá e percebem se terão ou não um lugar. Ainda agora há pouco tempo, no ID No Limits, voltei a ter essa sensação, fui a um soundcheck por curiosidade, e acabei por ficar lá um bom tempo não só porque a música era boa como fiquei hipnotizada com uma girl band em palco, a da Poppy Ajudha. Há qualquer coisa que nasce em nós, e que de certeza que sabes também o que é, um piquinho de encorajamento que nos lembra da força que queremos mostrar ao mundo, porque ser mulher é ser uma força complexa, trazem-se muitos lados e cores que faltam ao palco. A Rita de 13 anos olharia para qualquer cartaz, e para este em específico, para aqueles nomes todos, e inconscientemente sentiria força ou desalento. Por isso quero levar-me de forma consciente a esse palco, e deixar lá o pensamento e a energia certos para viver esse momento por completo.
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