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Clarice Falcão: "Eu me permiti errar, ser cancelada, e entender que eu não vou agradar todo mundo"

A cantora brasileira sentou-se connosco à conversa para uma entrevista sobre género, fama, vida noturna e seus próximos projetos. Este mês regressa a Portugal com concertos no Teatro Sá Bandeira, no Porto, e no Capitólio em Lisboa.

Foto: D.R
15 de junho de 2022 Clara Drummond

Clarice Falcão é uma mulher de fases. A cantora, atriz, compositora e guionista começou sua carreira aos dezassete anos com a curta-metragem Laços, feita com o amigo e parceiro profissional Célio Porto, que venceu o concurso mundial do Youtube Project Direct. Em seguida, Clarice ganhou um papel no horário nobre da Rede Globo, na novela A Favorita. Mas a artista considera que sua carreira começou mesmo alguns anos depois, com o Porta dos Fundos e o álbum Monomania, respetivamente em 2012 e 2013. "Foi ali que encontrei a minha voz autoral. Antes, já fazia algum sucesso, mas era diferente, porque sentia era por acaso".

A menina adorável que cantava melodias doces com letras mórbidas evoluiu sem perder sua essência. No seu segundo disco, Problema Meu, de 2016, explorou novos ritmos, sem perder o humor que é característico do seu trabalho. Tem Conserto, de 2019, já é bem distante do folk que a tornou famosa anos atrás, com batidas eletrónicas e versos sobre saúde mental.

Agora, Clarice regressa a Portugal com dois concertos, no Porto, dia 16 de junho, no Teatro Sá Bandeira, e dia 17, em Lisboa, no Capitólio. Falámos com a artista para saber mais sobre a turné e os seus próximos projetos, como a série Eleita, escrita e protagonizada por ela, que estreia este ano na Amazon Prime.

O que deve o público português esperar dos concertos?

Esta vai ser uma apresentação inédita para mim, até por causa da formação, mais enxuta, porque não viajamos com a banda toda, então teríamos que repensar o formato de qualquer forma. O "Tem Conserto" é um disco mais eletrónico, feito logo antes da pandemia. O Lollapalooza foi o primeiro show depois desse hiato de dois anos, eu ali adorei tocar as músicas antigas do Monomania. Foi um show muito mais curto que o show que vai acontecer em Portugal. Mas quero seguir a mesma linha, até por carência, quero que as pessoas gostem, e sei que Portugal tem uma ligação forte com essa época do Porta dos Fundos.

Cartaz Clarice Falcão
Cartaz Clarice Falcão Foto: D.R

Como foi a transição da Clarice que cantava folk e a Clarice do eletrónico?

Foi um processo lento, até porque eu lanço discos de três em três anos, dá tempo para mudar de interesses. O Monomania reflete uma fase da minha vida, eu tinha vinte anos, estava vivendo meu primeiro amor, era casada (com o ator e escritor Gregório Duvivier). Eu sempre gostei de escrever, e a melhor forma de fazer sua letra ser ouvida com atenção é cantando folk. O violão era bem básico para que a letra pudesse se sobressair. Mas não quero repetir uma fórmula só porque deu certo. Depois que eu expliquei para uma parte das pessoas quem eu era como compositora, senti-me mais livre para explorar novos ritmos. O Problema Meu, que é o segundo disco, tem brega, rock, eletrónico. O que costura é a minha forma de falar as coisas. Mesmo o Tem Conserto, que é mais sério, ainda tem humor, como os discos anteriores, mesmo nas músicas mais tristes. Eu comecei a usar o próprio arranjo para fazer piada, tipo falar de depressão numa música house.

Qual a sua relação com festa de música eletrónica, em especial àquelas com viés mais underground e queer?

Eu sou da geração Fosfobox (discoteca que é referência da cena clubber carioca). Na adolescência, eu ia para lá todo fim de semana, mesmo sem ter idade para isso. Depois, aos dezanove anos, casei-me, entrei noutra fase, e saí desse universo. O que me atraí na cena underground de eletrónico é o elenco de estranhos e excluídos. É como na escola, quando você não encontrou ainda seu lugar, e você fica sonhando com o dia que você vai receber a sua cartinha do Harry Potter: o dia que todos os meninos vão descobrir que na verdade você não é estranha, e sim linda. Você vê aqueles filmes que a menina estranha aparece com um vestido incrível e vira popular. As festas underground de eletrónico é como se os estranhos fizessem a festa deles, em vez de esperar a aceitação do mainstream.

São festas em que o estranho é que é considerado interessante, e quem está no padrão não é.

Na adolescência, eu não era padrão, porque eu era gordinha, mas hoje eu sou, tenho consciência disso, porque sou branca e magra. Mas ainda assim não sinto que pertenço entre as pessoas que são o padrão. Os anos de formação são muito intensos, são parte de quem você se torna, e mesmo com o sucesso, alguma coisa não muda lá dentro.

Tem uma entrevista com a Taylor Swift que ela se diz que não se sente cool mesmo na primeira fila do Grammy.

Faz sentido. Ela é linda, loira, altíssima, tem vários namorados, mas quem escreve a composição das letras é outra Taylor, é a adolescente nerd, não a estrela poderosíssima.

A cena underground é muito justaposta à cena queer, que também exalta o que é estranho. Qual a sua relação com a cena queer?

Eu acho que eu sempre tive uma conexão de alma com esse universo. Meu primeiro namorado era gay, mas eu não sabia, achava que ele era só emo. Com o Célio, meu segundo namorado, foi a mesma coisa. Mas essas relações não deixavam de ser romances. Meus pais falavam: Clarice, para de namorar homens gays! E por isso eu nem falei para eles do meu namoro com o Célio. Eu nunca entendi porque isso acontecia. A comunidade LGBT é muito livre, e fui criada nesse ambiente, mas ainda assim, demorou muito tempo para eu me entender bissexual, talvez porque minha proximidade inicial era com homens gays, não com mulheres lésbicas. Nós sempre tentamos achar onde está a nossa aprovação, onde vamos despejar a nossa carência. E, no meu caso, eu era mais aprovada por homens gays que por homens heterossexuais. E demora um tempo para você sair da caixa da mulher que só anda com homens gays, a fag hag. A minha identidade se complexificou quando eu me entendi bissexual.

Foto: D.R

A Clarice é guionista e compositora, e sua mãe é a escritora Adriana Falcão. Tem vontade de explorar outras áreas da escrita?

Eu sou muito insegura para isso, porque a prosa tem um processo de escrita mais demorado, e isso angustia-me. Eu não escuto as minhas próprias músicas nem assisto aos meus filmes, e na escrita de prosa é necessário reler muitas vezes o próprio trabalho. A minha parte preferida da escrita de roteiro é o brainstorming de ideias, eu tenho uma ideia, se não gostam, sigo em frente, não penso mais naquilo.

Você vai estrear a série Eleita, escrita e protagonizada por si na Amazon Prime. A sua personagem é uma influencer que é eleita para o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Os acontecimentos recentes do país moldaram de alguma forma os seus interesses artísticos?

O Célio, que é o showrunner, sempre quis fazer algo relacionado a política, mas o meu interesse principal não era esse, e sim criar uma protagonista mulher moralmente complexa, uma mulher que não pensa só em homem. Nós começamos a pensar na história em 2016, ainda no Governo Temer. Mas, à medida que criávamos a ficção, as coisas aconteciam na realidade, então precisamos tirar algumas coisas.

Você sente que mudou a maneira que as pessoas veem a mulher desde que você começou a sua carreira?

Com certeza, muita coisa mudou de lá para cá, e isso afetou-me como artista, e principalmente como mulher. Quando comecei, havia poucas caixas disponíveis, eu não me entendia como sexy, então a caixa mais próxima era da manic pixie dream girl. Sem perceber, eu adequava minha imagem para me encaixar ali. Mas eu sempre me identifiquei mais com a Tina Fey que com a Zooey Deschanel. A Tina Fey que começou a fazer personagens femininas com uma quebra moral, e depois veio a Vanessa Bayer, e séries como Girls e Insecure. É muito libertador poder ser uma mulher que comete erros, seja como personagem, seja como pessoa pública.

E como mudou a sua relação com a fama? Tem hoje uma relação muito aberta com os fãs.

Antes, eu tinha muito medo de usar rede social, eu usava como Clarice Falcão, a pessoa pública, não como eu mesma. Eu me vi presa numa caixa que eu mesma havia criado, e isso gerava expetativa nas pessoas, a ponto de não entenderem bem a música. O meu trabalho tem essa ambiguidade, as letras pesadas contrastam com a imagem e melodia. Eu adoro falar besteira, não tenho uma personalidade fofinha Zooey Deschanel. Eu sumi da vida pública justo quando comecei a ganhar dinheiro porque eu tive síndrome do pânico. Depois, mais velha, pensei: se eu não me colocar nesse lugar inacessível, as pessoas vão entender como eu sou. E eu me permiti errar, ser cancelada, ser descancelada, e entender que eu não vou agradar todo mundo. Eu não estava feliz naquela época, fazendo shows enormes, prefiro fazer show menores, e depois sair para beber, comemorar. 

A representação das mulheres é moldada pelo olhar masculino heterossexual. Você acha que a sua proximidade desde nova com a comunidade queer abre mais espaço para a autenticidade de género?

Eu nunca me encarei como uma diva gay. Os meus amigos gays não escolhiam minhas roupas, não era esse tipo de relação. Na adolescência, eu achava que se usasse a roupa certa, tudo ia mudar, e eu iria ser amada. Depois, você cresce e percebe que mesmo se você fizer ginástica não vai acordar no dia seguinte com o corpo perfeito para o biquíni. Aí você pensa: vou desenvolver outras formas de resposta. Por muitos anos, eu tentei ser a menina feminina heteronormativa, eu me esforçava muito para isso. Não era uma questão de escolha, e sim de fracasso. Mas agora não quero mais.

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