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As amigas mudam o mundo

“Sempre detestei o Dia da Mulher, existir ainda um dia para metade da Humanidade, a mulher, como existe para a criança, o idoso, o refugiado, o doente. Os mais fracos no fundo”

Foto: Fotografia de Pedro Ferreira, styling de Rui Ramos e maquilhagem por Cristina Gomes. Edição 360 / Setembro 2018
08 de março de 2021 | Patrícia Barnabé

Descobri tarde as minhas amigas, porque tarde as encontrei, o grupo de mulheres onde encaixo e pertenço, que pensam e sentem como eu. Cresci maria-rapaz e além da "maior amiga", aquela mais-que-tudo que se torna uma continuação de nós, sempre me senti mais à vontade no meio de rapazes. Eles não se comparavam, não invejavam, e falavam de temas mais variados. O que era uma chatice para mim, apesar de gostar mais de jeans do que de vestidos, sempre fui muito rapariga e procurava ter amigas: queria que todas as meninas à minha volta fossem felizes e livres como eu era.

Talvez por isso, ia buscar a casa as amigas que os pais não deixavam sair à noite, pintava-lhes o cabelo na era do grunge, ou maquilhava-as antes de sairmos, ainda adolescente. Todas as mulheres são belas de maneiras diferentes e por razões diferentes, nunca percebi a competitividade, a zanga básica que pareciam ter entre si, por causa da imagem, por causa do namorado, por causa das notas, por causa da atenção que recebiam. Uma fama que nos perseguiu durante séculos. Ainda hoje se diz ofensivamente que um escritório só de mulheres é um "aviário". Trabalhei a vida toda com raparigas e adoro, a melhor diretora que tive é mulher. As melhores alunas de todas as minhas turmas sempre foram raparigas. E mais competitivas porque sabiam que tinham de ser melhores para chegar a algum lado, onde eles chegavam mais facilmente. Uma vez na universidade, um colega disse-me: "A turma tem mais raparigas, e elas têm as melhores notas, mas os rapazes vão arranjar emprego primeiro."

Cresci com a ‘invejites’ das miúdas, tão grandes como a vontade que tinha de acabar com ela. Uma vez arrancaram o cabelo das minhas bonecas no infantário, e tinha aquela miúda que embirrava comigo no colégio sem nunca ter percebido porquê. Talvez por ser opinativa e directa, boa aluna e liderar os trabalhos de grupo, não sei, acho que era por ser a amiga dos rapazes. Aqui, neste país da Europa, o mais evoluído dos continentes em Direitos Humanos, as mulheres só começaram a ter opinião e visibilidade no ano em que nasci, o ano da revolução. E com muita calma: ainda há tanto por fazer. Cedo percebi que o patriarcado que criara o matriarcado também nos dividira para reinar. E isso sempre me entristeceu profundamente.

Para mim, as mulheres eram fascinantes e misteriosas e tive a sorte de calhar numa família de mulheres fortes, e de homens feministas, os meus exemplos estavam longe do comum. Mesmo os que não conheci como a minha avó materna - e que foi a primeira a usar batom vermelho na aldeia ribatejana onde viveu, isto nos anos 30 – fui educada numa casa feminina e por uma mãe que lia mais do que as outras. Ainda hoje me liga para discutir política, comportamentos da sociedade em que vivemos ou uma roupa bonita. A minha mãe foi a primeira feminista que conheci, subiu as bainhas das fardas no escritório que veio a chefiar e falava de causas humanistas à mesa de jantar. Ao contrário de todas as mães dos meus amigos que os tiveram aos 20 anos, eu nasci na década seguinte porque ela quis fazer coisas antes, que é mais o que se faz hoje do que o que se fazia nos anos 70.

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Em Portugal, as mulheres eram maioritariamente esposas e mães, como abençoara Salazar e a santa Igreja. Eu crescera com uma abertura de mentalidade invulgar, e passei a vida a seguir os passos da minha mãe e a trazer estes temas à conversa, tantas vezes incompreendidos e vistos pela rama, até por elas. Escrevi sobre temas femininos desde cedo, como uma espécie de missão inconsciente – a moda é uma arma social fortíssima para a emancipação das mulheres. Ainda hoje há quem não saiba que o feminismo é igualitário.

Tive uma maior amiga no infantário, sempre adorei a ideia de confiança total e absoluta em alguém. Na verdade, é uma espécie de amor mais antigo do que o romance. As nossas mães contam-nos que o nosso berço no infantário era ao lado um do outro, também era moderno ir para o infantário nos anos 70. Fomos para o mesmo colégio e ficámos amigas até seguirmos as nossas vidas de crescidas. Tive duas melhores amigas no liceu, a que me mostrou os The Doors e aquela com quem desbravei os primeiros concertos de rock e partilhei os segredos da minha virgindade, e a sua simbologia ancestral e castradora. Também contei à minha mãe, claro, e à minha irmã que é ainda hoje a companheira de todas as aventuras. Na universidade encontrei amigas, nas redacções encontrei amigas, foram ficando, porque acredito que se gostarmos muito de uma pessoa uma vez, ela fica-nos para sempre, mesmo quando vai embora porque casa e tem filhos, que é o costume.

Hoje tenho um grupo coeso e restrito de mulheres que admiro profundamente. São as minhas amigas. Encontrei-as já adulta, conforme me fui aproximando cada vez mais do que sou. Acredito que as encontrei como elas me encontraram. São de todas as idades, de todas as profissões – embora a maioria trabalhe com artes e ideias como eu – e são de todas as classes sociais e de todas as terras. Há mulheres incríveis em todo o lado. Elas são as mulheres que eu quero ser: fortes, honestas, humanistas, lutadoras, generosas e cheias de sentido de humor. São mesmo boas, não há nada que admire mais numa pessoa do que a sua bondade.

Durante uns anos organizei jantares com as minhas melhores amigas para elas se conhecerem. Hoje olho comovida para os grupos de miúdas que saem juntas para dançar, coisa inexistente na geração da minha moderna mãe. A amizade feminina fora do âmbito doméstico é muitíssimo recente. Nós mudámos isso, e alguém começou a fazê-lo antes de nós. Comovida porque sempre soube que se as mulheres fossem amigas tudo ficaria bem. Como diz o Saramago no seu Memorial do Convento: "Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita."

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Por isso sempre detestei o Dia da Mulher, existir ainda um dia para metade da Humanidade, a mulher, como existe para a criança, o idoso, o refugiado, o doente. Os mais fracos no fundo. E pensar que foram precisos episódios sacrificiais de tantas mulheres para se ter direito ao voto ou a um pagamento justo, como ainda hoje acontece, todos os dias, por esse mundo fora por coisas bem menores. Todo o caminho que se fez foi trilhado sobre a amizade feminina e ela não vai parar de crescer. As meninas que vão agora para o infantário terão um mundo melhor. E vão fazer tranças e pintar as unhas umas às outras. Nós não precisamos de um jogo, um concerto ou uma corrida de motas para estarmos juntas a falar da vida, que às vezes é tão parva. Somos felizes com pouco, choramos de rir e choramos de chorar, tomamos conta umas das outras, sacudimos a poeira e varremos pistas de dança como furacões.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990.

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