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Os melhores amigos gay

Foto: O Sexo e a Cidade
22 de junho de 2021 | Patrícia Barnabé

Em pequena não sabia o que eram gays ou lésbicas, Lisboa era rural e aristocrática, não poderia ser moderna e diversa. Lembro-me de ouvir o conceito de homossexual, como se dizia dantes, assim cheio de vogais, quando a minha mãe anunciou que os actores da sua infância, Errol Flynn e Rock Hudson, afinal não gostavam de beijar mulheres. Depois foi o coming out de Freddie Mercury e de George Michael, e ouvir a minha mãe explicar-me, enquanto me levava pela mão, que o António Variações vivia num país e num tempo que ainda não estavam preparados para a sua liberdade.   

Foi uma sorte crescer com o espalhafato e o cross gender dos anos 80 que tudo revelou, com a sua audácia e bimbalhada também, o princípio do que apregoamos agora: o poder que vem de nos assumirmos como somos, mesmo quando não encaixamos no padrão. Herdamos o que as gerações anteriores rasgaram. Foi-me tão natural saber que existem pessoas que amam pessoas e não o seu género, como aprender os mistérios da terra em Geografia ou descobrir o império romano nas aulas de História onde, aliás, a monogamia e a heterosexualidade não eram endeusadas como vieram a ser pelo Cristianismo. Bem, para as mulheres a história rezou sempre de outra maneira. Ainda hoje adoro personalidades históricas como Phillipe D’Orleans, irmão do rei-sol Louis XIV, abertamente bissexual, ou o Chevalier d’Eon, um espião francês na corte russa, que se assumiu como transgender, como sempre me fascinaram os castrati da Ópera. E ainda mais, por todas as razões, as muitas mulheres que se vestiram de homens para passar despercebidas, e foram piratas ou repórteres de guerra, ou apenas escritoras como a magnífica George Sand. O meu trabalho de fim de liceu em Filosofia foi sobre a homosexualidade e orgulho-me de ter rebentado a escala.

Sempre achei o máximo poderem ser imperceptíveis as diferenças de género. Talvez por este cortar o mundo ao meio, e injusto, até porque somos todos um pouco de ambos o que só nos enriquece. Sempre estive bem com a minha heterosexualidade rodeada pelo bom gosto, profundidade – só reflecte quem passa por elas – e o humor contagiante da comunidade gay. Lembro-me de ver os telediscos, como se dizia, dos Human League, elas e eles idênticos, mas também dos Duran Duran ou Spandau Ballet, sex symbol hetero, e mais tarde casados e pais de família, mas que usavam rímel e gloss, pintavam o cabelo e ripavam-no sem pudores. Sem, por isso e alguma vez, nos parecerem menos apetecíveis.

Era um admirável mundo novo que o Portugal pobre e acabado de chegar à cidade desconhecia completamente. Tirando o Bairro Alto, onde, como sabemos, já se inventava o futuro.

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O meu primeiro artigo para a Máxima, e apoiada pela modernidade do então sub-director Manuel Dias Coelho, tinha eu vinte e poucos anos, foi sobre a androginia. Acabei por me especializar em moda e cultura e lifestyle, as áreas da sociedade mais abertas, e que melhor, convivem com a diferença e a independência. Por isso, fiz-me em redações e indústrias cheias de gays, e quando comprei uma casa em Lisboa escolhi (inconscientemente) o bairro gay e artista. Já sabemos que é para estes bairros que confluem os que não encaixam onde nasceram e que são, como sabemos, os que depois mudam isto tudo; e é por aqui que entra o cosmopolismo e o dia de amanhã.

Fui fã da série Sex and the City, símbolo do feminismo soft dos anos zero, e não era só pelas quatro fantásticas de Nova Iorque, mas pelos seus amigos gay. As mulheres sempre foram apoiadas pelos movimentos de género, assim como estes cresceram a reboque do feminismo. Adoro aquele momento em que Charlotte choraminga os seus desencontros amorosos num banco do Central Park com o bestie Anthony Marentino: "Existe alguma coisa pior do que isto?", pergunta-lhe. "Calças de ganga com blusão de ganga".

À medida que os amigos hetero se foram afastando – nunca percebi porque se diz que homens e mulheres não conseguem ser amigos? - foram permanecendo os leais amigos gay, eles e elas. Falam de emoções e fragilidades com naturalidade, não ensaiam meias tintas, seja sobre o que vestes ao que sentes; e quando têm bom gosto têm bom gosto, por isso cuidam mais da imagem e têm casas cheias de pinta. Uma jornalista muito aplaudida escreveu uma vez no Público que algumas das mulheres mais interessantes e livres que conhecera são gay. Grande verdade.

Sempre adorei o seu talento para a alegria e a diversão – chamam-se gay e o belo arco-íris representa a sua diversidade – parecem ter um maior amor à vida. Talvez porque sabem que ainda existe neste mundo, e neste tempo, quem mate pelas suas escolhas sexuais. Dos recentes atropelamentos na parada gay na Alemanha, a tantos outros terrorismos de género, sendo o maior deles os campos de concentração para gays que ainda existem na Tchéchénia. Como é possível? Bom, até há bem pouco tempo, em Portugal, os gays não podiam dar sangue. Eu trocava de sangue com cada um dos meus amigos gay.

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Passei a vida a pedir-lhes para darem workshops de civilidade e mentalidade aberta aos hetero, sempre mais lentos a chegar à exigência e à modernidade. E nos solitários dias da pandemia foram  os meus queridos vizinhos que me mimaram e reconfortaram, lasanhas vegetarianas e pãos de ló japonês acabados de fazer, rimos muito juntos enquanto o mundo lá fora parecia enlouquecer.

Por isso, quando na televisão passou há dias um estudo, em que a Gulbenkian participou, sobre os valores europeus, neste caso "os valores dos portugueses" que dizia que estes não gostam de ter vizinhos ciganos, alcóolicos e toxicodependentes, por esta ordem – sem comentários – que se destacavam em relação aos grupos seguintes onde estavam judeus, muçulmanos e homossexuais… Nem quis acreditar. Até fiz rewind para ouvir melhor e fui ler o estudo para perceber o alcance da ignorância. Houve manifestações anti-racismo, manifestações da CGTP, congressos partidários, corridas de carros, jogos de futebol e suas comemorações; convivo todas as noites com hordas de miúdos bêbedos amontoados nos jardins - e a avenida da Liberdade não pôde ter a sua marcha colorida? Não faz mal, "até está um bocado frio", disse ao meu bestie desanimado, "faz-se mais para o verão", quando estiver mais luz e calor, como sugere a frase linda de Oscar Wilde: "We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars." No fundo, estamos sempre à espera de melhores dias.

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