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Pobre velho babado

"O machismo é endémico e perpetrado por todos, um sistema não sustentaria metade do mundo se a outra metade não o continuasse a permitir."

Lolita, 1997.
Lolita, 1997. Foto: Getty Images
20 de maio de 2021 | Patrícia Barnabé

Fico a imaginar a solidão destes maduros que assediam as miúdas. Babados pela frescura e pelo seu próprio ego que parece precisar de afirmação – e confirmação. É preciso ser-se um pouco loser para assediar sexualmente a filha de alguém, a filha que podia ser sua, só para sentir um pequeno fervor viril, o palpitar básico do poder garanhão. É triste ter de convencer alguém a alinhar em favores ardentes que não surgem naturalmente. Parece vício de sobrevivente ou de ditador que precisa dos frágeis para ter pódio ou peito feito. Usar a cobardia para parecer corajoso. Pedir já é em si uma infelicidade, coagir é um assalto, é da ordem do perverso, do desespero e da solidão. E dizem-se eles homens de poder.

Tive a sorte de escapar ao assédio enquanto crescia nas redações, ainda eram elas cheias de fumo e testosterona. Ou não dei por isso, o que é uma sorte e uma vantagem. Uma generosa dose de ingenuidade ajuda, é sinal de que se foi bem amado na infância. Na verdade, tive quase sempre chefes, ou chefiei, mulheres ou gays, mais devotados a outro tipo de seduções. Mas nos meus tempos de redações mais clássicas, por assim dizer, deparei com romances entre estagiárias e editores que lhes valeram um lugar. Nunca assisti ao mesmo quando quem chefiava eram as mulheres, parece ser velho hábito de clube do Bolinha. Mas a verdade é que estas miúdas também nunca se apaixonavam involuntariamente pelo paquete.

Sempre me pareceu clara, ainda que fina, a linha que separa a atração e o esticanço, mas se calhar não é - principalmente se nunca se tiver pensado nisso. E há muita miúda que nunca pensou nisso. Hoje as miúdas são cada vez mais livres e desempoeiradas, por isso, se já não havia desculpa, agora não há razão. Há pelo menos duas gerações que pagamos as nossas contas, porque continuamos a deixar-nos ofuscar pelo interesse que estes homens parecem demonstrar em nós? É hoje indiscutível o direito das mulheres à graça, à coqueterie, ao flirt, mas os hábitos ancestrais ainda ecoam irracional e subliminarmente por gerações e gerações. Quem não gosta de ser desejado que atire a primeira pedra.

O problema é quando não se quer jogar esse jogo e é tarde demais. O assédio sexual, como a violência doméstica, são peças de um mesmo jogo desigual à partida onde as mulheres parecem ter de participar desde o princípio dos tempos. Santas ou bruxas. O que aqui está em jogo não é só a propriedade que estes homens parecem continuar a reclamar - é o sistema que todos alimentamos há séculos, a insidiosa relação feudal, do senhor e sua serventia. Foi tão repetido que ainda continua a parecer normal. Como se nos pudéssemos ter habituado. E parece que sim ou não estávamos a falar sobre isto apenas agora, no século XXI.

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Um bem-haja para a era de grandes debates que vivemos agora, ainda há pouco tempo era tema para um rolar de olhos. As próprias raparigas sempre fugiram ao tema, por medo, desconhecimento ou comodismo. As sufragistas e as feministas são as outras malucas, mas são aquelas mesmas que conseguiram muito daquilo por que ainda lutamos. Não é fácil ganhar distância ou perspetiva quando se observa de dentro, ou quando alguém já fez o trabalho mais difícil por nós.

Miúdas, não se zanguem comigo, mas vamos começar a pensar juntas de uma vez por todas: o machismo feminino também tem muitas culpas neste cartório. Como reclamar um óbvio lugar de equidade quando a maioria continua a tratar os rapazes como pequenos deuses ou crianças. Sempre a aturar o que eles não aturariam, a aguentar, a resistir, a segurar, a esperar, a perdoar. Das mães às esposas, transversal a toda a sociedade. E se é persistente no Ocidente, imagine-se no resto do mundo. Nunca viram homens ocidentais "trazer para casa" meninas do sudeste asiático ou de África quando lá foram passar férias? Pois é.

Não podia detestar mais o cancelamento, mas tudo começa quando glorificamos a imagem da Lolita, por exemplo. É alimentar o hábito que vem do tempo em que os reis e os imperadores tinham amantes crianças, como alguns padres molestavam os seus jovens acólitos. Agora chama-se pedofilia, mas Nabokov ou os poetas da Bossa Nova estavam demasiado preocupados a coçar a sua própria barriga para pensar nisso. E os fotógrafos que seduzem as jovens modelos e há sempre uma que acaba por ficar a amparar-lhe a velhice? E escritores? E artistas plásticos? E realizadores? São tantos. É claro que às jovens raparigas apela o facto de puderem parecer especiais, e receberem vénias e conforto por osmose, enquanto herdam um lifestyle e o legado de um nome. Não é discutir se é amor ou não, isso é com eles, é pensar um bocadinho: quem é o machista aqui?

Claro que se pode ter uma panca por homens muito mais velhos ou pela submissão, era o que mais faltava discutirmos gostos, mas a cama faz uma sociedade: "Tudo no mundo é sobre sexo, excepto o sexo. O sexo é sobre poder", escreveu o brilhante Oscar Wilde. São padrões de séculos que se eternizaram das bases às elites. Principalmente nestas, porque os pobres nunca tiveram de se preocupar com os arranjinhos dos nomes de família ou com os casamentos de conveniência por propriedades que não possuem. Foram sempre os mais livres e felizes na história do amor. É maravilhoso não ter nada a perder.

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O machismo é endémico e perpetrado por todos, um sistema não sustentaria metade do mundo se a outra metade não o continuasse a permitir. O assédio é da mesma família de mau gosto, digamos, da violência doméstica ou da violação, que dão mais nas vistas por razões óbvias e estão a lançar o debate. As vítimas do assédio são vítimas reais da própria história, a ponta de um icebergue que espelha uma falta de cuidado generalizado para com as mulheres. Na sociedade, como entre mulheres e como dentro das relações onde elas se habituaram a ser a figura silenciosa que apanha as meias esquecidas no chão. Continuar a alimentar o inescapável e aborrecido eterno feminino, uma clássica expectativa de determinado comportamento por parte das mulheres, é a maior ferramenta do abuso machista, parecendo que não é. Ora experimentem nascer mulher sem badalar predicados sonsos e sacrificiais do eterno feminino e vejam como a vossa vida se complica. Miúdas, a mudança começa em nós, o resto é crime.

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