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É só um batom

“A primeira e a mais evidente das disparidades sociais é o machismo. Que mais não seja porque as mulheres são metade do mundo e desde o princípio dos tempos.”

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batom-vermelho-em-belem Foto: Bastian
21 de janeiro de 2021 | Patrícia Barnabé

Faço parte do grupo fofinho dos que acreditam que a pandemia nos vai mudar. Alguns de nós, pela sua conta e vida, aproveitam a humildade e introspeção da lenta solidão dos dias para crescer por dentro, repensar trajetos, quem sabe ficar mais perto da nossa melhor versão. Passaremos a lavar as mãos e a descalçar-nos quando chegamos a casa? A enchê-la com plantas, quiçá um animal que adotámos no abrigo? A comer mais verde e a comprar mais justo e tradicional? São sinais de algumas mudanças maiores que já começaram o seu paciente caminho. É claro que tudo pode ficar pior antes de ficar melhoralguém disse populismo e extrema-direita? – mas um otimista convicto observa sempre a bonança e faz por ela.

Como aquele objeto do passado que descobrimos no fundo de uma gaveta onde nunca mais voltámos, começámos a remexer nos nossos hábitos trogloditas, mas também nos preconceitos, aqueles pensamento tão mas tão enraizados que nem sabíamos existirem dentro de nós. E que vamos começando a largar como a roupa que já não usamos, porque já não nos serve ou passou a fazer-nos parecer ridículos. Numa escala maior ou menor estamos a ser confrontados connosco, com o essencial e com um todo como sociedade – e não há nada mais humano, nem nada mais evolutivo. A cidade e as nossas vidas silenciaram-se na pandemia, deixando-nos ouvir os pássaros e os sons mais distantes. E se estamos mais na internet, que nos distrai da vida enquanto a exibe, tornou-se mais evidente o mundo em que vivemos. Uma desgraça é sempre uma oportunidade e um acelerador de progresso. Basta ver como a Europa amadureceu depois das duas devastadoras Guerras.

Nunca as causas estiveram tão em cima da mesa, tão virais e à flor da pele, in your face, extremadas até. Durante a pandemia falámos do planeta, dos maus tratos a animais e dos atentados à natureza, é que se não mudarmos, não sobrará nada para contar. Falámos do #blacklivesmatter, dos imigrantes e das minorias, debatemos a maldade e a estupidez que nascem do medo do que não se conhece. Haveremos de falar na importância dos mais velhos, vai demorar, está a demorar, a maior parte de nós nunca foi velho. A mais difícil tarefa será pôr em causa as disparidades sociais, donde provêm todas as injustiças. Como a primeira e a mais evidente de todas: o machismo. Que mais não seja porque as mulheres são metade do mundo e desde o princípio dos tempos.

Fala-se de feminismo, mas de forma inconsequente, é um tema incompreendido e desleixado. Tirando a violência doméstica, os abusos sexuais ou a violação, recentemente iluminados pelo movimento #metoo, os seus lamentos geram menos comoção, soam até a mariquice."Isto está muito melhor", que é uma forma de dizer: "Cala-te que tens a barriga cheia." É verdade, já não tenho de pedir autorização ao meu marido para sair do país para comprar caramelos em Espanha, como no tempo dos meus pais. Não tenho marido sequer. Mas isto foi no tempo dos meus pais, ou seja, ontem.

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Tudo permanece nos detalhes, há que reparar, porque são subtis, insidiosos, parecem quase transparentes, como se não existissem. A maioria não os vê, nem quer saber. Falem de racismo ou de ecologia numa mesa de jantar, haverá interessados, até inflamados. Falem de feminismo e verão olhos a revirar e assobios para o lado. Nunca o percebi: não somos todos filhos da mãe e rodeados delas? E fiquemo-nos pelo Ocidente, porque o melhor é não nos metermos com o Islão. O machismo é a mais antiga e enraizada injustiça social. Subreptício, prevalecente, sistémico, contamina até as nossas imagens de beleza e projeção do desejo. É o mais antigo dos preconceitos, repito, e o mais consentido de todos.

Começa no esfarrapado equívoco de baralhar a definição de feminismo, invertendo-o numa qualquer versão feminina de machismo, a mesma que só se recorda dos soutiens queimados, sem saber o que isso significou para os direitos humanos e o sufrágio universal. E acaba no consentimento, aquela linha vermelha aproveitada por ambos os géneros para manter tudo como sempre foi. Porque é uma chatice mudar, por um lado, por outro, ela já sabia que o mundo sempre foi assim: permitiu porque quis, estava mesmo a pedi-las, depois não se queixe. E os ombros encolhem-se.

Os homens são a outra metade do mundo e mandam nele, por isso, sem a sua evolução, isto não vai lá. Mas o que sempre me confundiu o juízo enquanto crescia foi a conivência de tantas mulheres que continuam a alimentar o sistema. Poucas coisas me entristecem tanto. As mulheres passaram a poder fazer mais coisas do que as suas mães e avós, mas não deixaram de fazer o que estas sempre fizeram. Assim, crescemos com a expetativa de ser sopeiras e boas condutoras; belas, mas discretas; independentes, mas sempre a agradar, e a condescender.

Até a imagem da mulher bombada e platinada, a femme fatale, é um produto do estereótipo, que nos atira para duas caixas: Anjos ou Demónios, como chamou aos seus livros sobre mulheres a jornalista Maria João Martins. Todas queremos ser as duas coisas, ser tudo, ou encontrar um meio caminho ou uma combinação de características várias que nos identifiquem com o que sempre foi, para pertencer e sobreviver socialmente. E às vezes até parecemos modernas. Ainda assim, continuamos a ficar com as partes mais chatas da vida doméstica: decidimos o jantar e a lista de supermercado; mudamos os lençóis e tratamos da lavandaria; cuidamos da parte chata dos putos e dos animais, se houver. E ainda compramos os pijamas e as peúgas. Eles continuam a "ajudar". E as férias? Ele é que conduz para o destino, mas ela é que decide onde se vai, marca a casa e ainda faz as malas.

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As mulheres inteligentes, vividas, independentes ou opinativas ainda são ovnis. Ainda que tenham muito mais piada, e mundo, normalmente, ainda são desconfortáveis, não se sabe onde encaixá-las, o que fazer com elas. O mainstream são as mulheres-mãe-esposa, as cuidadoras cordatas e adaptativas, que tudo aturam e tudo perdoam, O eterno femininozzzzz. Eterno, reparem.

Por isso, quando um palhaço se candidata a um alto cargo de Estado, como outros palhaços se candidataram noutros países a altos cargos de Estado e viu-se no que deu, só nos resta responder em exagero a um pequeno comentário sobre um batom. Porque está tudo nos detalhes, repito. É o que acontece quando a piada deixa de ter piada, se torna gasta e boçal. O copo transbordou, a paciência esgotou-se. Mandarem-nos à merda a sorrir começa a não colar. Há cada vez mais mulheres e homens, homens e mulheres, a perceber que o batom vermelho é mais do que um acessório de beleza e sensualidade. É um símbolo de resistência, de emancipação, de poder, de nova era – é muito belo e, não há volta a dar, seremos cada vez mais a usá-lo.  

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