Prazeres

São Lourenço do Barrocal. Regresso ao passado com o melhor do presente

Um monte pitoresco na margem esquerda do Alentejo, São Lourenço do Barrocal é paragem obrigatória para os amantes da história que nos faz perder de amores uma e outra vez: a do Sul do país. Que é também a história do Alentejo profundo, a das gentes que viveram para a terra, para a Natureza e para a cultura da região.

Foto: Ash James
17 de agosto de 2021 | Rita Silva Avelar

Há um disclaimer no início deste texto: a jornalista que o escreve nasceu no Alentejo, e por isso não se responsabiliza por uma certa dose de cumplicidade e deslumbramento que possam estar, em demasia, nestas linhas. 

São Lourenço do Barrocal.
São Lourenço do Barrocal. Foto: Nelson Garrido
A entrada do hotel.
A entrada do hotel. Foto: Ash James

Mas regionalismos à parte, a verdade é que São Lourenço do Barrocal é um desses sítios que encantam ao primeiro minuto, logo que pisamos a sua terra quente e árida, e pomos a vista naquela que parece uma rua típica do Alentejo, com casinhas de um lado e de outro, onde cada "vizinho" tem a sua janela, não se contendo em assomar-se à rua a quase todas as horas do dia. Assim é no Barrocal: cada curva, cada recanto, desperta-nos uma curiosidade infantil como quando somos crianças e queremos desbravar caminho pelo parque onde nunca estivemos. O Barrocal é um desses sítios raros em que a repetição não retira o prazer das primeiras vezes.

O restaurante São Lourenço do Barrocal.
O restaurante São Lourenço do Barrocal. Foto: Ash James
O spa tem assinatura Susanne Kaufmann.
O spa tem assinatura Susanne Kaufmann. Foto: Ash James
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Embora uma noite aqui saiba a pouco - fique pelo menos cinco, vá por mim - estar no Barrocal é viajar no tempo. Noutros tempos - no século XIX, mais precisamente - foi uma pequena aldeia operária, que começou pela plantação de vinhas até à extensão para outras atividades agrícolas e pecuárias, como o cultivo de cereais ou a criação de gado, que serviram de sustento mais de 50 famílias que ali residiam.

São Lourenço do Barrocal pertence à mesma família há 200 anos, e é José António Uva, oitava geração, quem inaugura este hotel e monte alentejano, que esteve mais de uma década em reabilitação, para se manter fiel à estrutura original, sem perder os seus encantos. E homenageando os antepassados da família Uva ao mesmo tempo. Foi um minucioso projeto de arquitetura e design que manteve não só intacta a estrutura como hoje podemos ver, do hotel ao restaurante, fotografias, objetos da família e do monte original que, se deixarmos, nos contam histórias dentro de histórias e nos transportam para outras vivências e décadas do Portugal do sul. 

O Bar da Piscina.
O Bar da Piscina. Foto: Ash James
Uma das piscinas, junto ao bar.
Uma das piscinas, junto ao bar. Foto: Ash James

No passeio pela herdade, que remonta à época megalítica, um olhar mais atento oferece-nos as reminiscências de outros tempos: os barrocais, os afloramentos graníticos que pontuam a paisagem e que representam uma das caraterísticas naturais mais monumentais do Alentejo, e que dá até o nome à herdade, são um sinal desses tempos. É junto a um deles que fica uma das luxuriantes piscinas, com verde a perder de vista (há uma outra, mais recatada, perfeita para ler um livro em silêncio), onde simpaticamente nos é oferecida uma garrafa de água, um pano fresco para nos refrescarmos e um borrifador aromatizado com alecrim. Junto à piscina está naturalmente o Bar da Piscina, uma paragem que sabe pela vida depois de uma viagem de Lisboa com quase 40 graus. Saborear o vinho do Barrocal é essencial- para o almoço, escolhemos um branco Viognier, fresco e frutado, perfeito para os petiscos: peixinhos da horta com molho tártaro, salada de batata, maçã verde, aipo e camarão e o famoso hambúrguer do Barrocal, apenas para nomear exemplos.

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A comida do chef.
A comida do chef. Foto: She is Visual


Uma das pérolas do Barrocal, cedo descobrimos, é o spa, com produtos de Susanne Kaufmann, com produtos de origem orgânica e uma abordagem holística. Resplandecentes é como de lá saímos após fazer uma massagem revigorante que começa com um detox aos pés - um banho de alecrim com gotas milagrosas (de Kaufmann, claro) que cheira maravilhosamente bem. Estar quase a dormir, naquele estado semiacordado, enquanto ouvimos os pássaros lá fora e a cadência da música, é um sinal de que estamos a recuperar profundamente de dias de stress, deixando o corpo relaxar em pleno, diz-nos a terapeuta.

Paisagens.
Paisagens. Foto: Nelson Garrido
São Lourenço do Barrocal à noite.
São Lourenço do Barrocal à noite. Foto: Nelson Garrido


Com os chakras alinhados e uma dose de otimismo ganhamos energia de sobra para um passeio de bicicleta pelos trilhos do Barrocal - há dois, o trilho dos pássaros (7km) e o das oliveiras (4km). No primeiro encontramos um marco geodésico com vista panorâmica, vinhas, oliveiras antigas, dómens (que são monumentos megalíticos tumulares), e vistas esplendorosas para o castelo de Mourão e para o Alqueva; no segundo passamos por vinhas com vista para Monsaraz, silos de cereais ou ruinas medievais de um lagar de azeite. Ambos os trilhos incluem passagem por um menir com sete mil anos que é um dos mais antigos da Península Ibérica. Piqueniques e birdwatching são algumas das atividades preferidas dos residentes temporários do Barrocal - ou, então, pode ir de bicicleta até São Pedro do Corval visitar uma das 22 olarias que existem na vila, já que a tradição com a cerâmica, nesta terra, é longeva.

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Uma delas é a de Rui Patalim, a Olaria O Patalim, onde o encontramos coberto de barro e a dar as ordens do que é preciso ir para o forno. Dentro da loja há quem pinte minuciosamente vasos e pratos, enquanto outros dão vida às peças em tempo real, de olhos postos na matéria-prima. Mais um dos encantos do sul.

Olaria Patalim - Rui Patalim
Olaria Patalim - Rui Patalim
O exterior de um dos quartos.
O exterior de um dos quartos. Foto: Gambetta Studio
Uma das suites.
Uma das suites. Foto: Ash James


Em São Lourenço do Barrocal há ainda uma loja, onde as peças vendidas são 99% de origem portuguesa, e onde podemos adquirir um dos inúmeros vinhos produzidos pela herdade. Um deles, provamos ao jantar, é o Syrah tinto 2018, um dos néctares concebidos pelo enólogo residente José López Rogel e a enóloga consultora Susana Esteban. Ao jantar comem-se vegetais vindos diretamente da horta, acompanhando grelhados, seja carne de porco de bolota do Alentejo ou o peixe do Alqueva.

Ao almoço, o chef esmera-se ainda mais no restaurante farm to table do hotel, o São Lourenço do Barrocal, que acabou de mudar a ementa. Despache-se a ir provar costeletas de borrego panadas, esmagada de ervilhas e batata assada, burras de porco alentejano bolota, açorda de berbigão e salicórnia ou bacalhau, chícharos de Sacaios e pezinhos de coentrada; quem sabe o chef não muda de ideias e começa a pensar em novos pratos. Boa sorte para escolher, já agora, porque é tentador ficar só pela secção dos petiscos, na ementa, como perdiz de escabeche ou língua de vitela, agrião, batata e queijo S. Jorge (36 meses). 

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A comida do chef.
A comida do chef. Foto: Nelson Garrido
 A comida do chef.
A comida do chef. Foto: She is Visual


Por fim, dormir sob as nuvens do Barrocal é dormir em quartos que contam mais histórias, da decoração à sua vista, já que há várias tipologias e registos distintos, alusivos aos compartimentos que existiram em cada espaço. É por isso que existem os quartos da adega, os quartos do pátio e os quartos do monte, mas também as casas do celeiro, as casas do terreiro e as casas do prado, além das incontornáveis suítes. Todos eles apelam ao conforto e à elegância sem deixar de parte a tradição. Numa visita fugaz, em última instância saímos deste hotel na margem esquerda do Alentejo, onde já chegam aragens de Espanha, a querer ser egoístas e levar um pouco do local connosco. Seja uma pernada de alecrim ou uma garrafa de vinho para beber de olhos fechados e lembrar as férias que passamos embalados num autêntico repasto.

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