Prazeres

Sonho de uma noite de inverno na Serra da Estrela

A Serra da Estrela guarda segredos que vale a pena descobrir. Há pelo menos dois refúgios na montanha para recuperar da azáfama do início do ano: todos os caminhos vão dar a Manteigas.

Foto: Casa de São Lourenço / António Magalhães Ramalho
10 de março de 2022 Rita Silva Avelar

Recortada sob um céu azul de inverno, a fachada da Casa das Penhas Douradas – primeiro hotel do grupo Burel Mountain Originals, em Manteigas - parece saída de um filme nórdico, cujo enredo pouco importa perante tão deslumbrante cinematografia. No dia em que chegamos ainda não neva, mas à despedida, quando estamos prestes a fazer o check-out do segundo hotel do grupo, a Casa de São Lourenço - a neve dá um ar de sua graça, enchendo a paisagem de um branco ténue. Há sempre a expectativa de ver os vales da serra cobertos de branco, mas há muito mais para descobrir.

Casa das Penhas Douradas.
Casa das Penhas Douradas. Foto: José Campos

Tanto a Casa das Penhas Douradas como a Casa de São Lourenço são hotéis recuperados por Isabel Costa e João Tomás, empresários da região, que entretanto também reabilitaram a fábrica do Burel, tornando-se em boa parte responsáveis pelo emprego das gentes da terra nestas áreas, e por proporcionar momentos de prazer a quem visita ambos os destinos. Com diferentes moods, estilos e até vistas, valem visitas distintas, quiçá na mesma expedição. Vamos a isso?

Casa das Penhas Douradas
Casa das Penhas Douradas Foto: José Campos

Primeira parte da expedição

Com a Casa das Penhas Douradas – Burel Expedition Hotel, o primeiro hotel do grupo Burel Mountain Originals, Isabel e João sabiam que queriam manter-se fiéis à tradição, e do chalet na montanha fazer um oásis de relaxamento em sintonia com a tradição da região, conta-nos Nuno Leite, diretor de ambos os hotéis. Noutros tempos, a altitude a que está este chalet na montanha - precisamente a 1.475 metros - fazia com que fosse procurado para as chamadas curas em altitude, para quem tinha problemas respiratórios, por exemplo, e foi considerado o local mais saudável do país pelo médico Sousa Martins, aquando da famosa Expedição Científica à Serra da Estrela organizada pela Sociedade de Geografia Lisboa em 1881. A lã e as capacidades curativas deste local eram a grande atração, e continuam a sê-lo, noutros moldes.

Casa das Penhas Douradas: detalhes em burel.
Casa das Penhas Douradas: detalhes em burel. Foto: José Campos

A Casa das Penhas Douradas abriu como hotel em 2006 com 9 quartos, atualmente existem 17, e o hotel é pensado em torno da sustentabilidade. "Toda a decoração é em torno da bétula, uma madeira da região, e de materiais sustentáveis como a cortiça, encontrada em revestimentos interiores e exteriores. O burel é aplicado em objetos, da tapeçaria aos tapa pés, sobretudo na decoração", explica Nuno Leite. O hotel tem duas suites, que oferecem uma vista de tirar o fôlego sobre a paisagem circundante, mas também permite observar as estrelas numa clarabóia (e que ronda os €300 por noite em época alta). Há ainda uma piscina interior, uma sauna, um duche vichy, uma área de relaxamento e várias salas de massagem. "As mais procuradas são as massagens de casal, que é uma tendência há dez anos", afirma ainda o diretor. Entre as massagens de assinatura da casa, estão a massagem de relaxamento com óleos de ervas da serra, a massagem com paus de bétula ou a esfoliação com flor da penha.

Casa das Penhas Douradas
Casa das Penhas Douradas Foto: José Campos

No restaurante, o chef Manuel Figueira propõe uma cozinha tradicional com um toque internacional, sempre com recurso a produtos locais e sustentáveis. O bacalhau, o pato ou o atum são alguns dos protagonistas de pratos que vão variando toda a semana, para que os hóspedes possam experimentar a variedade do receituário da região. Disso são exemplo os pratos como bacalhau de cura tradicional à lagareiro, couves e cebolinhas assadas, ou o arroz caldoso de cogumelos selvagens, espinafres e cebolinho. Não é raro que, quem aqui fique, dê um salto ao restaurante da Casa de São Lourenço, e vice-versa. 

Segunda parte da expedição

A 4km em descida, fica o segundo hotel do grupo, a Casa de São Lourenço - Burel Panorama Hotel, edificada sob aquela que foi considerada por muitos como a primeira pousada a abrir em Portugal (em 1948), em sintonia com a natureza envolvente, sem lhe roubar protagonismo. Neste hotel de charme, aberto em 2018, encontramos um estilo decorativo muito distinto do primeiro, mais minimalista sem deixar de ser acolhedor, mais sofisticado sem deixar de ser autêntico. Neste hotel, o burel surge incorporado na arquitetura, no seu expoente máximo, usado como isolante térmico e sonoro, e conferindo aos corredores mistério e conforto. Decorado pela consagrada artista e decoradora portuguesa Maria Keil, o hotel está repleto de peças autênticas, muitas delas exemplares únicos e vintage, de artistas nacionais.

Casa de São Lourenço: a piscina aquecida.
Casa de São Lourenço: a piscina aquecida. Foto: António Magalhães Ramalho
Casa de São Lourenço: vista.
Casa de São Lourenço: vista. Foto: António Magalhães Ramalho

No primeiro piso encontramos o restaurante e uma sala comum, onde ao centro está edificada uma lareira (ah, uma lareira!) que convida a beber um copo de champanhe ou de vinho antes de prosseguir para a refeição. Ao almoço ou ao jantar, o chef prodígio Manuel Figueira, esmera-se com combinações improváveis que não fogem à tradição mas também evidenciam um lado mais interpretativo. O chef, que veio do Penhas Douradas e é natural de Tondela, concebe pratos irreverentes à volta de matérias primas da região como o cabrito, as trutas, o javali, as castanhas, os cogumelos, ou a cherovia e aproveita com esmero as ervas da região, do zimbro à menta selvagem. Embora as sugestões vão variando, além do menu à carta, existem 3 menus, o Entre Serras (€60), o São Lourenço (€65) e o Tradição (€80), para que descubra, por assim dizer, as várias interpretações da serra, pelo chef.

Casa de São Lourenço: o restaurante.
Casa de São Lourenço: o restaurante. Foto: António Magalhães Ramalho

No piso inferior está o spa, um oásis autêntico, que nos permite relaxar no interior e apreciar a paisagem, com opção de nos escaparmos por uma pequena porta lá para fora, para o jacuzzi exterior. Perfeito para relaxar, ler, antes de nos escapulirmos para uma das salas de massagem, este retiro é essencial para abrandar do ritmo da cidade e ter a experiência completa na Serra da Estrela.

Casa de São Lourenço: suite.
Casa de São Lourenço: suite. Foto: António Magalhães Ramalho

Ao passar por estas bandas, é quase imperativo fazer uma visita à Burel Factory, uma antiga fábrica de lanifícios, propriedade do hotel, que hoje continua a trabalhar com máquinas do século XIX ao serviço do burel. Lã de todas as cores converte-se neste tecido, excelente isolante, que passou a ser usado da decoração à Moda, e não podia estar mais na moda. Na loja, que fica dentro da fábrica, encontramos peças tão improváveis e raras como a colaboração de ténis Sanjo x Burel ou acessórios como os bonés, feitos 100% neste material, sem esquecer as tradicionais (e quentinhas) mantas de mil e um padrões. Uma visita que dispensa mais argumentos que este: o que é português é mesmo bom.

Burel Factory
Burel Factory Foto: DR
Burel Factory
Burel Factory Foto: A

Onde?  Casa de São Lourenço Estrada Nacional 232, km 49,3 Campo Romão 6260-200, Manteigas Reservas 275 249 730 casadesaolourenco.pt/ Casa das Penhas Douradas Penhas Douradas, Apartado 9, Manteigas Reservas 275 981 045 casadaspenhasdouradas.pt. Burel Factory R. de Benguela 4, Manteigas, Contactos913 285 370

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