Celebridades

Golshifteh Farahani: a atriz iraniana que foi banida do Irão, mas que continua a lutar pelos direitos da mulheres

Vive há anos em França, onde se refugiou depois de ter sido avisada para não voltar a casa, mas não é por isso que deixa de ser uma voz ativa em prol da liberdade e igualdade de todas as mulheres iranianas.

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14 de outubro de 2022 Ana Filipa Damião

Rahavard Farahani (conhecida profissionalmente como Golshifteh Farahani) tornou-se inevitavelmente parte de uma geração traumatizada ao nascer em 1983, quatro anos após a revolução islâmica no Irão e no meio de uma guerra sangrenta no Iraque, na década de 80. O medo e as bombas não lhe roubaram a esperança nem a paixão pela arte, não fosse a jovem atriz, hoje com 39 anos, filha do diretor de teatro e ator Behzad Farahani e estudante de música e canto desde os tenros cinco anos. Aos 14, conseguiu o papel principal no filme The Pear Tree, de Dariush Mehrjui, o que lhe valeu o prémio Crystal Roc para Melhor Atriz na 16ª edição do Festival Internacional de Cinema de Fajr, no Teerão.

Além de diversas participações em filmes - como Mim Mesle Madar (2006), O Corpo da Mentira (2008), Darbareye Elly (2009), Paterson (2016) e Tyler Rake: Operação de Resgate (2020) - Golshifteh revelou-se uma poderosa voz a favor dos direitos humanos e das mulheres, principalmente no seu país natal, sendo ainda embaixadora da luta contra a tuberculose no Irão. No que toca ao amor, foi casada com Amin Mahdavi durante oito anos, de 2003 a 2011, namorou com o ator e diretor Louis Garrel de 2012 a 2014, com o qual contracenou no filme Os Dois Amigos (2015), e esteve casada com o australiano Christos Dorje Walker, de 2015 a 2017.

Golshifteh Farahani e Chris Hemsworth em 'Tyler Rake: Operação de Resgate' (2020)
Golshifteh Farahani e Chris Hemsworth em 'Tyler Rake: Operação de Resgate' (2020) Foto: IMDB

Golshifteh foi obrigada a deixar a sua casa e família em 2008 depois de ter protagonizado Aisha no filme O Corpo da Mentira ao lado de Leonardo DiCaprio, que nele interpreta um espião da CIA numa missão no Médio Oriente. Numa cena do filme, Golshifteh mostra o cabelo, uma ação reprovada no Irão e na indústria cinematográfica iraniana. "Tive muitos problemas por causa [do filme]", disse, na altura, numa entrevista ao New York Daily News. "Os oficiais iranianos tiraram-me o meu passaporte. Os serviços de inteligência interrogaram-se diversas vezes. No fim, disseram ‘temos de ver o filme e depois decidimos o que fazemos contigo’".

Golshifteh Farahani e Leonardo Dicaprio em 'O Corpo da Mentira' (2008)
Golshifteh Farahani e Leonardo Dicaprio em 'O Corpo da Mentira' (2008) Foto: IMDB

Vivia há quatro anos em França quando foi oficialmente banida do país, porque posou nua para a revista francesa Madame Fígaro, numa manifestação contra a opressão feminina no país. "O Irão não precisa de atrizes ou artistas como tu. Vai oferecer os teus serviços artísticos noutro sítio", afirmou o Ministério da Cultura e Orientação Islâmica à jovem, segundo o The Daily Telegraph. Apareceu também em topless num pequeno vídeo do fotógrafo Jean-Baptiste Mondino, Corps et Âmes (disponível aqui), e mostrou novamente as curvas na capa da revista Égoïste, captada pela lente de Paolo Roversi.



Quando a injustiça obriga à mobilização 

"Não quero ser uma figura política", afirmou a ativista à ABC News em 2013. Contudo, os recentes protestos e horrores que têm acontecido no Irão foram a gota de água. Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, visitava o Irão com a família quando foi presa pelo uso inapropriado do hijab - de momento, as mulheres são obrigadas a cobrir o cabelo e o pescoço com o véu islâmico quando estão em público. Amini foi levada para o Centro de Detenção de Vozara, onde acabou por morrer sob a custódia da polícia da moralidade do país.

"O movimento #MahsaAmini é o resultado de décadas de abuso e opressão", escreveu Golshifteh Farahani no Twitter. "Há 44 anos que os nossos corpos têm sido o campo de batalha para as pessoas abusivas e sem misericórdia que estão no poder", continuou, confrontando quem escolhe não fazer nada. 

"Como é que vocês se podem chamar feministas? Como é que podem pedir por igualdade de direitos, apoiar o movimento Me Too e estar ausente para o movimento #MahsaAmini? Isto não tem nada a ver com religião ou ideologia, usar ou não usar o hijab. Isto é sobre LIBERDADE DE ESCOLHA para as mulheres e os seus corpos."

Tanto a conta do Twitter como a do Instagram da atriz estão inundadas de posts e reposts que refletem a violenta realidade que se vive no Irão. Vemos publicações com apelos e críticas lançadas a vários líderes mundiais. Vídeos gráficos que mostram homens a sangrar profusamente no chão, raparigas na rua, cobertas por véus, roupa preta e mochila às costas, a serem incomodadas e inclusive empurradas por homens, e ainda soldados a baterem em civis.

"Liberdade, igualdade, justiça? A maior revolução humana está a acontecer neste momento no Irão. Vocês, Kamala Harris, Michelle Obama, Oprah, ainda não disseram uma palavra", escreve a atriz no Instagram. "As mulheres no Irão não são mulheres? Os seres humanos lá não são seres humanos? Crianças a serem atingidas e mortas a tiro não são crianças? Que interesse estará por detrás deste silêncio sombrio?".

Apesar de tudo, Golshifteh não perde a esperança, antes diz vê-la nos olhares dos mais novos. "Observar os jovens manifestantes de hoje, a maioria dos quais nascidos nos anos 90 e 2000, faz-me perceber como a minha geração foi completamente destruída", confessou em entrevista ao jornal francês Le Monde. "Sentimos a morte antes de compreendermos a vida", mas a geração que está hoje nas ruas já não tem essa bagagem. "Nós estávamos assustados, mas eles não têm medo, não têm vergonha", afirmou ainda ao site norte-americano Voa News. "Desta vez é diferente. Eu conseguia ser livre no Irão porque matava a minha feminilidade (costumava cortar o cabelo para parecer um rapaz), mas esta geração quer manter o cabelo comprido e não usar o véu, continua. 

É uma batalha pela qual vale a pena lutar, esta da igualdade e da liberdade de escolha, mas que parece estar destinada a ter graves consequências. Mahsa Amini tinha 22 anos. Sarina Esmailzadeh, uma adolescente que gostava de publicar vídeos no Youtube, tinha 16 anos quando foi espancada até à morte pelas forças de segurança iranianas num protesto na província de Alborz, a 23 de setembro, avançou a Amnistia Internacional, embora a polícia local tenha afirmado que se tratava de suicídio. O caso de Nika Shakarami, também de 16 anos, é semelhante. E ainda o de Hadis Najafi, de 23, que foi morta a tiro nas ruas de Karaj depois de se juntar aos protestos. Em três semanas, foram declarados pelo menos 201 mortos, avançou a Reuters.

"Quando se tem uma filha no Irão, ela nasce com metade dos direitos dos seus irmãos. Mas as mulheres iranianas são os humanos mais corajosos e destemidos que alguma vez conheci", remata a ativista noutra publicação do Instagram, onde vemos clips dos protestos e mulheres a chorar ao lado de uma campa. 

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