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Taraneh Alidoosti, a atriz iraniana que foi presa por ir contra o governo

É uma das atrizes mais populares e influentes do Irão, mas nem o seu estatuto a salvou das autoridades iranianas, tendo sido detida por espalhar informações falsas sobre o governo e por incitar motins no Irão. Menos de um mês após a detenção, foi hoje, dia 4, libertada sob fiança.

Taraneh Alidoost na 69ª edição do Festival de Cinema de Cannes em França, 2016.
Taraneh Alidoost na 69ª edição do Festival de Cinema de Cannes em França, 2016. Foto: Getty Images
20 de dezembro de 2022 Ana Filipa Damião

Taraneh Alidoosti, uma das atrizes mais proeminentes do Irão, foi libertada sob fiança da prisão de Evin, menos de um mês após a sua detenção, a 17 de dezembro, por apoiar os protestos que se prolongam há mais de três meses no país contra o regime teocrático islâmico, instalado pela Revolução Islâmica de 1979. A notícia foi avançada pela sua mãe e pela sua adovgada, Zahra Minooei, através das redes sociais, segundo a Variety.

Taraneh Alidoosti nasceu a 12 de janeiro de 1984 no Teerão, e é filha de um antigo jogador de futebol da seleção nacional, Hamid Alidoosti, e da escultora Nadere Hakimelahi. Alidoosti lançou a sua carreira enquanto atriz com o filme Man, Taraneh, panzdah sal daram, em 2002, no qual interpreta uma adolescente de 15 anos que se vê persuadida a aceitar um pedido de casamento que não quer. Em 2016, foi a estrela do filme Forushande (O Vendedor), realizado por Asghar Farhadi e vencedor de um Óscar na categoria de Melhor Filme Internacional. Mais recentemente participou na obra de Saeed Roustayi, Baradaran-e Leila (Os Irmãos de Leila), exibida no Festival de Cinema de Cannes deste ano.

Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em 'O Vendedor' (2016).
Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em 'O Vendedor' (2016). Foto: IMDB

A atriz, fluente em alemão e inglês e mãe de uma criança de nove anos, foi descrita como uma figura de destaque na indústria cinematográfica iraniana, "respeitada internacionalmente", pela atriz Nazanin Boniadi, avançou o jornal The New Yorker. "O facto de alguém da sua estatura ser preso mostra como o regime tem medo dos artistas, porque eles têm um efeito galvanizador sobre a população".

De acordo com a imprensa internacional, Alidoosti fez uma pausa na representação quando os protestos começaram em setembro, após Mahsa Amini ter sido detida pelo uso incorreto do véu islâmico e ter acabado morta. Na sua conta de Instagram, agora inacessível, a ativista partilhou diversas publicações de apoio aos manifestantes. Numa delas, publicou uma fotografia com o cabelo solto, sem hijab, e com um papel que dizia "Mulheres, Vida, Liberdade", o lema que une todo um Irão que apenas procura ver-se livre do opressivo regime atual. Não é a primeira vez que a mulher de 38 anos usa a sua voz para lutar pela injustiça. Tem também lutado contra o assédio sexual na indústria cinematográfica através do grupo 800 Mulheres, como noticiou o The New Yorker

Uma das fotografias de Taraneh Alidoosti mostrava a atriz se hijab e com um papel que dizia
Uma das fotografias de Taraneh Alidoosti mostrava a atriz se hijab e com um papel que dizia "Mulheres, Vida, Liberdade" Foto: Instagram de Taraneh Alidoosti

A sua última mensagem, a 8 de dezembro, acabaria por lhe selar o destino. Nela, expressou solidariedade para com Mohsen Shekari, executado aos 23 anos por crimes alegadamente cometidos durante os protestos, e criticou o governo iraniano por recorrer à pena de morte contra os protestantes. "Qualquer organização internacional que assiste a este banho de sangue sem reagir é uma vergonha para a humanidade", escreveu na conta do Instagram, que tinha mais de oito milhões de seguidores. Segundo meios de comunicação do país, citados pela EuroNews, Aliddosti foi detida por não ter apresentado documentos que comprovassem as suas alegações, por partilhar informações e conteúdos falsos e por incitar o caos. 

Ainda em novembro, a atriz já tinha declarado que não iria sair do Irão e que estava disposta a "pagar o preço" necessário para defender os seus direitos, que iria ficar ao lado das famílias das vítimas e dos indivíduos detidos ao longo destes três meses e que iria lutar pela sua pátria. "Ficarei, e olhar-vos-ei diretamente nos olhos como todas estas pessoas normais quando gritar pelos meus direitos", disse, citada pelo The Guardian. "Herdei esta coragem das mulheres da minha terra, que durante anos viveram as suas vidas, todos os dias com resistência...Acima de tudo, acredito naquilo que estamos a construir hoje em conjunto". É importante destacar que Taraneh Alidoosti não é a única figura pública que tem lutado pela libertação do Irão. Na lista também se encontra as atrizes iranianas Golshifteh Farahani, Hengameh Ghaziani e Katayoun Riahi, bem como cantores, cineastas e jogadores de futebol.

Taraneh Alidoosti na 69ª edição do Festival de Cinema de Cannes em França, maio de 2016.
Taraneh Alidoosti na 69ª edição do Festival de Cinema de Cannes em França, maio de 2016. Foto: Getty Images

Organizações de defesa dos direitos humanos e várias celebridades, como Emma Thompson ou Mark Ruffalo, apelaram à libertação da ativista. "O poder das vozes das mulheres aterroriza os governantes da República Islâmica", afirmaram porta-vozes do Centre for Human Rights in Iran (CHRI), sediado em Nova Iorque, citados pela AFP.

"Taraneh Alidoosti é uma das atrizes mais talentosas e reconhecidas do Irão. Espero que seja libertada em breve para continuar a representar a força do cinema iraniano", disse por sua vez Cameron Bailey, diretor do Festival de Cinema de Toronto. O Festival de Cinema de Cannes também manifestou o seu apoio através das redes sociais. "Em solidariedade com a sua luta pacífica pela liberdade e pelos direitos das mulheres, o Festival de Cannes manifesta o seu total apoio".

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