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E se pudesse fazer um reset ao cérebro? Os conselhos de um neurologista

O cérebro humano está a ser gravemente manipulado pelos estímulos da tecnologia e as consequências refletem-se em comportamentos que nos deixam cada vez mais doentes. Em Limpeza Cerebral, o recém lançado livro do neurologista David Perlmutter e do médico internista Austin Perlmutter, reúnem-se técnicas para combater esta realidade.

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18 de março de 2021 | Pureza Fleming

Afirmou o Dalai Lama que o cérebro que desenvolvemos "reflete a vida que levamos". Sintomas tais como o síndrome de desconexão, a falta de empatia, ou o narcisismo fomentado pelo uso (e abuso) das redes sociais, entre outros, a maioria destes fruto do mundo contemporâneo, espelham na perfeição uma sociedade cansada e, de certa forma, doente. David Perlmutter, o reputado neurologista e autor dos bestsellers internacionais Cérebro de Farinha e Cérebro de Fibra, e Austin Perlmutter, médico formado pela Universidade de Miami, com residência feita na Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, em Portland, ambas nos Estados Unidos, trazem assim a obra Limpeza Cerebral - O Detox da Mente - Pense com clareza, pense melhor e seja mais feliz (2021), onde decifram como é que estes e outros fatores, como o excesso de informação e a dependência digital, estão a minar os nossos cérebros retirando-nos faculdades.

O livro propõe um programa de detox mental de dez dias, com receitas incluídas, alertando para a importância de treinarmos o nosso cérebro no sentido construtivo. Como refere David Perlmutter, "quanto mais fizermos uma coisa, seja ela qual for, mais tendemos a fazê-la" — só é preciso fazer, de facto. A Máxima trocou umas palavras com o prestigiado neurologista americano, numa entrevista que pode ser lida de seguida.

Limpeza Cerebral - O Detox da Mente - Pense com clareza, pense melhor e seja mais feliz (2021)
Limpeza Cerebral - O Detox da Mente - Pense com clareza, pense melhor e seja mais feliz (2021)

Limpeza Cerebral não é apenas acerca da dependência digital (tal como pode sugerir o título do livro). A limpeza cerebral acontece de uma forma holística e, como tal, são inúmeras as variantes que contam. Nomeadamente, a forma como levamos a vida, como um todo. Correto?

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Correto. "Limpar" o cérebro é olhar para tudo aquilo que o está a fazer funcionar de forma lenta, com algum defeito. Ou olhar para qualquer coisa que o esteja a impedir de funcionar de forma saudável. Tudo o que fazemos tem um efeito nos nossos cérebros e corpos. Isto significa que devemos ter cuidado com tudo o que entra nos nossos corpos. A comida, a exposição digital e até mesmo a qualidade das nossas conversas afetam o nosso funcionamento cerebral. Isto também quer dizer que temos muitas oportunidades para limpar os nossos cérebros. Até mesmo uma boa noite de sono pode ajudar o nosso cérebro a funcionar melhor e a ajudar-nos a fazer escolhas melhores.

"Basicamente, quanto mais fizermos uma coisa, seja ela qual for, mais tendemos a fazê-la". Esta citação, retirada do seu livro, indica-nos que, efetivamente, a mudança nas nossas vidas está à distância de uma decisão? E que o nosso cérebro, se trabalhado nesse sentido, seguir-nos-á?

A ideia por detrás desta afirmação é que todas as vezes que fazemos seja o que for, estamos a fortalecer certas conexões nos nossos cérebros. Esta é a ideia da "neuroplasticidade". Basicamente, os nossos cérebros estão sempre a mudar enquanto resultado das nossas ações. No que respeita às nossas decisões, tal significa que sempre que fazemos uma escolha, podemos mudar os nossos cérebros. No entanto, isso também significa que as nossas escolhas são um reflexo das escolhas que já fizemos. O melhor exemplo disso são os hábitos. Hábitos são decisões inconscientes que direcionam cerca de 40% das nossas ações a cada dia. Os hábitos são criados quando fazemos a mesma coisa muitas vezes da mesma maneira e no mesmo lugar. Se formos capazes de direcionar a formação do nosso hábito, poderemos direcionar o nosso cérebro inconsciente para fazer o que queremos que este faça.

O mais engraçado é pensar que a mudança encontra-se nas mais pequenas coisas. Temos de deixar de fazer tanto. Deixar de querer tanto. Deixar de exigir tanto. Assim sendo, por que é que é tão difícil mudar?

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Para ser franco, o difícil não é mudar. Estamos sempre a mudar. Você é uma pessoa fisicamente diferente hoje daquilo que era ontem, porque mil milhões de células são substituídas enquanto se dorme. A parte difícil é mudar os nossos comportamentos e fazer com que essas mudanças ocorram. Uma das razões pelas quais isso é tão difícil é porque o nosso mundo moderno foi projetado para nos manter presos às mesmas coisas: ver TV, navegar na web, comer junk food, navegar nas redes sociais. Existem fortes laços de recompensa neurológica que são ativados quando fazemos essas coisas e é difícil quebrá-los.

David Perlmutter
David Perlmutter Foto: Ed Chappell

O mundo digital (e agora a pandemia) tem criado uma enorme distância entre as pessoas (ainda que o objetivo primário do digital fosse o de aproximar). A falta de convívio entre humanos tem-nos deixado doentes e desconectados?

As conexões digitais têm sido maravilhosas por várias razões. Especialmente durante a pandemia, estas podem ser as únicas formas que muitas pessoas têm à sua disposição para puderem ver e falar com os seus amigos e familiares. O problema não é a tecnologia digital ser prejudicial, mas é antes, e muitas vezes, a forma como a usamos. Tantas vezes damos por nós a consumir horas de conteúdo estúpido, ao mesmo tempo que estamos a perder atividades mais saudáveis, tais como fazer exercício físico, passar tempo na Natureza ou apenas a estarmos atentos e presentes enquanto estamos a comer. Também é verdade que grande parte do conteúdo digital hoje é projetado para ser stressante e sensacionalista, por isso tem o efeito de realmente levar a um aumento do stress e a polarizar-nos, resultados que são, obviamente, prejudiciais à nossa saúde. Portanto, embora a maioria de nós confie nas interações digitais para alguns aspetos das nossas vidas no futuro próximo, é verdade que temos de estar conscientes de como estamos a usar essas tecnologias ou arriscaremos as consequências físicas e psicológicas que daí advêm.

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Precisamos realmente uns dos outros? Porque para algumas pessoas, a saída é trancar-se num mosteiro e ficar muito tempo sem ver ninguém…

Esta é uma conversa que surge com frequência. Algumas pessoas são capazes de ser muito felizes num isolamento relativo, e certamente muitos de nós beneficiariam com algum tempo longe da agitação do ritmo frenético da vida moderna. No entanto, para a maioria das pessoas, os seus relacionamentos com os outros são uma das partes mais importantes das suas vidas. Tal não significa ter alguns milhares de amigos nas redes sociais, mas sim ter um pequeno número de relacionamentos próximos. Para a maioria das pessoas, tal contribui muito para a felicidade, e a qualidade dessas conexões desempenha, na verdade, um grande papel na saúde.

Austin Perlmutter
Austin Perlmutter Foto: Ed Chappell

Um dos capítulos do livro diz respeito à Natureza e à falta que esta nos faz na vida moderna. Qual é o poder da Natureza e como é que esta nos pode tornar mais felizes e completos? E como integrá-la na vida moderna, da cidade?

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Sim, a exposição à Natureza acaba por ser uma das coisas mais subestimadas que podemos fazer para nos ajudar a equilibrar o stress do mundo moderno. Uma pesquisa demonstrou que a exposição à Natureza pode ajudar a melhorar a nossa cognição, a aumentar a criatividade e até mesmo a aumentar os níveis de empatia, além do seu efeito relaxante. Muito disso, provavelmente, tem a ver com o benefício que vem do facto de simplesmente sairmos e ficarmos longe das nossas interações diárias (stressantes) típicas, mas algumas pesquisas demonstraram que apenas 20 minutos por semana num ambiente urbano natural pode ajudar a reduzir os níveis de stress. Mesmo que a pessoa não possa sair, ter uma planta em casa ou no escritório já é um ótimo começo.

Alguém que vive permanentemente na Natureza encontra-se, inevitavelmente, mais conectado consigo mesmo e com o mundo que rodeia?

Não há estudos suficientes que comprovem cientificamente essa ideia, mas parece bastante evidente afirmar que mais tempo na Natureza significa uma maior consciência do ambiente natural. Se alguém estiver a viver realmente fora do "sistema" e quiser sobreviver, terá simplesmente de estar mais ciente de coisas tais como as estações do ano, o clima e a vida selvagem local. Qualquer pessoa que já acampou sabe disso!

Resumindo e concluindo, ao contrário do que se costuma dizer, as pessoas mudam sim? E, para que tal suceda, basta quererem mudar?

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Todos nós mudamos, o tempo todo. Só precisamos de fazer um trabalho melhor e direcionar essa mudança para o nosso próprio benefício. Existem muitas estruturas que ajudam a mudar, mas achamos que um ótimo lugar para começar é a educação e a consciencialização. Aprender como funciona o cérebro permite que se comece a entender de que forma é que o mundo está a influenciar os nossos pensamentos, para o melhor e para o pior. Preste atenção à forma como aquilo que come, a sua exposição digital e os seus outros hábitos de vida estão a influenciar a maneira como se sente e como pensa. Torne-se curioso e procure entender por que é que experimenta as emoções que sente. Assim que começarmos a substituir a culpa pela curiosidade e pela empatia, as possibilidades serão infinitas. Mas não se trata apenas de querer o suficiente, é sobre encontrar maneiras de alinhar o seu cérebro, o seu corpo e os seus objetivos. Precisamos de nos tornar os arquitetos do nosso futuro.

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