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20 anos de abusos e tráfico. Os relatos dramáticos das vítimas de R. Kelly

O cantor foi condenado por tráfico sexual e crime organizado após um julgamento que incluiu testemunhos de várias vítimas. Conheça a cronologia dos crimes, que remontam aos anos noventa.

Foto: Getty Images
29 de setembro de 2021 | Rita Silva Avelar

O caso que envolve R. Kelly não é novo - tem, aliás, mais de 20 anos - mas continua a ter novas revelações. Na passada segunda-feira, 28, o cantor foi condenado pelo Tribunal Federal do Distrito Leste de Nova Iorque por crime organizado, coerção e transporte de mulheres e raparigas menores para envolvimento em atividades sexuais ilegais nos EUA e durante mais de duas décadas.

Tratam-se de acusações semelhantes às que enfrenta em Chicago, onde esteve preso, entre 2019 e junho do ano passado, e também se prevê que seja condenado noutros Estados como o Illinois ou o Minnesota. Os relatos de abuso e tráfico sexual remontam ao início de sua carreira na década de 1990, muitos deles centrados numa perseguição predatória de adolescentes para gravações de vídeos de teor sexual.

Neste julgamento em particular, e nos 14 atos de que estava acusado, R.Kelly precisava de ser considerado culpado de pelo menos dois para ser condenado. Todos foram provados, exceto dois dos atos de extorsão subjacentes.

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Jerhonda Pace, a primeira vítima a testemunhar e uma das mulheres que quebrou o acordo de sigilo feito anteriormente com o cantor, publicou uma declaração no Instagram poucas horas após a leitura do veredicto. "Estou feliz por finalmente encerrar este capítulo da minha vida", escreveu. "Não importa o que pensam de mim, hoje fiz história." 

Pace, 28, acusou Kelly de abusou sexual em 2009, com apenas 16 anos. A vítima assumiu que inicialmente disse a Kelly que tinha 19, mas não só acabou por revelar a verdade como lhe disse que era virgem. No entanto, o cantor instigou-a a "continuar a dizer a todos que tinha 19 anos e a agir como se tivesse 21". Pace contou que o seu relacionamento sexual com Kelly durou seis meses e que, às vezes, ele a proibia de sair de casa ou mesmo do seu quarto.
O depoimento de Pace fez parte do caso com três atos de extorsão que o júri considerou comprovados, assim como as acusações de violações da Lei de Mann: trabalho forçado e exploração sexual de uma criança.
 
"Tenho me escondido de Robert Kelly com medo por causa das ameaças feitas contra mim e estou pronta para começar a viver minha vida livre do medo e para iniciar o processo de cura", disse outra vítima, Sonja, num comunicado à imprensa. 

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Os problemas do cantor com a justiça começaram em 1994 quando, então com 27 anos, R. Kelly se casou com a cantora Aaliyah, de 15. Sabe-se que Aaliyah mentiu sobre a sua idade, afirmando que tinha 18 anos, e por isso o casamento acabou por ser anulado no ano seguinte. Ao longo da sua carreira, Aaliyah evitou responder a perguntas sobre a natureza de seu relacionamento com R. Kelly e acabou por morrer num acidente de aviação em 2001.

Em 1996, foi a vez de Tiffany Hawkins processar R. Kelly pelo "sofrimento emocional" que sofreu durante um relacionamento de três anos que manteve com o cantor. Em documentos judiciais, afirmou ter iniciado uma relação sexual com Kelly em 1991, quando ela tinha 15 e ele 24 anos, e que o relacionamento terminou quando ela completou 18. 

Em 2001, Tracy Sampson processou R. Kelly, acusando-o de a induzir "num relacionamento sexual indecente" quando ela tinha 17 anos. A mulher, ex-estagiária da Epic Records, disse que foi "tratada como objeto sexual e posta de lado" e que Kelly "sempre tentou controlar todos os aspetos da minha vida, incluindo quem eu veria e para onde iria."

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No ano seguinte, o artista foi processado por Patrice Jones, uma mulher de Chicago que afirmou que ele a engravidou quando ela era menor de idade e que ela foi forçada a fazer um aborto. Nesse ano, também Montina Woods processou Kelly, alegando que este a filmou a ter relações sexuais sem que ela soubesse. A gravação terá circulado, acabando por ser vendida por contrabandistas sob o título "R. Kelly Triple-X". A estrela resolveu ambos os casos fora do tribunal, pagando quantias não reveladas em troca de acordos de sigilo.

Em 2002, uma jovem acusou-o de 21 crimes relacionados com a realização de vídeos de abuso sexual infantil. Kelly, que pagou uma caução de 750 mil dólares, negou imediatamente as acusações numa entrevista polémica à MTV, declarando-se inocente em tribunal. O júri acabou por concluir que não era possível provar que a jovem nos vídeos era menor e Kelly foi considerado inocente de todas as acusações.

Em 2017, um longo e detalhado relatório do Buzzfeed acusou R. Kelly de manter seis mulheres num "culto" sexual. O artigo alegava que Kelly seduzia mulheres jovens quando elas o abordavam para obter ajuda nas suas carreiras musicais e depois controlava as suas vidas - ditando "o que comiam, como se vestiam, quando tomavam banho, quando dormiam e como se envolviam na sua vida sexual e nos encontros que ele gravava".

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Jerhonda Pace quebrou o seu acordo de sigilo em 2018. Outra mulher, Kitti Jones, afirmou que a estrela a obrigou a passar fome, forçou-a a ter encontros sexuais com outras mulheres e abusou dela fisicamente. Em 2019, a estreia do documentário
 Surviving R. Kelly chamou de novo a atenção para todas estas acusações. Duas semanas depois, a editora discográfica afastou-se do artista, que viu todos os seus concertos cancelados. Ainda nesse ano chegam acusações mais explícitas de exploração sexual. 

Combinadas, as alegações provavam o crime organizado, que consistia em transportar meninas menores de idade além das fronteiras estaduais para fins sexuais ilegais, incluindo a produção de imagens de abuso sexual infantil, bem como conspiração para obstruir a justiça destruindo provas e subornando ou ameaçando testemunhas.

Entre mais acusações e adiamento de julgamentos, chegamos ao veredicto, pelo menos em Nova Iorque. 
Gloria Allred, advogada que representou várias vítimas, disse aos repórteres: "Pratico advocacia há 47 anos. Durante esse tempo, persegui muitos predadores sexuais que cometeram crimes contra mulheres e crianças. De todos os predadores que persegui, o sr. Kelly é o pior."

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