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A nutricionista que quer provar que é possível reduzir a infertilidade com a alimentação

No seu “Manual para a Fertilidade, Gravidez e Amamentação”, a nutricionista inclui sugestões, desconstrói mitos e até escreve receitas que mostram como a alimentação é fundamental na saúde feminina, da fertilidade à gravidez.

Foto: DR
30 de junho de 2021 | Rita Silva Avelar

Durante a pandemia, e na ausência das suas consultas físicas, Noélia Arruda deu conta que a informação sobre nutrição aplicada à maternidade, seja quando falamos em fertilização, gravidez, ou pós-parto, era insuficiente, sobretudo para as "suas" pacientes. Em resultado dessa reflexão e de mais de 10 anos de experiência em consultório com grávidas, a nutricionista publica o "Manual para a Fertilidade, Gravidez e Amamentação", editado pela Lisbopress, que é um guia descontraído para viver todas estas etapas da vida da mulher (e da futura mãe e sua família) de forma mais tranquila, informada, e sobretudo saudável.

"Ao deparar-me com o impedimento de andar a correr de um lado para o outro a dar consultas, senti que teria de partilhar com as minhas pacientes e com o mundo, um conteúdo mais estruturado e condensado" conta, à Máxima. Resumindo, é um livro de consciência sobre a saúde da mulher, que abrange todo processo, da fertilidade até abraçar o bebé ao colo. 

Defende este lado mais holístico da gravidez, com a importância da alimentação e da psicologia bem presentes. Devia ser sempre assim?

Defendo que a gravidez tem muito haver com um estado de alma....uma abordagem holística no presente, no aqui e no agora, é de extrema importância. Por isso, no meu livro tinha que incluir um capítulo de psicologia para permitir que a grávida tome consciência da montanha russa de sentimentos que é normal acontecer na gravidez e encontrar estratégias para lidar de uma forma mais tranquila com essas alterações. A psicologia tem um impacto não só na grávida em si mas também na relação com o companheiro e com a família. As várias vertentes da mulher (esposa ou não, profissional, amiga, desportista, etc) que se torna grávida e depois mãe, requerem uma identificação consciente de cada um destes papéis para que se desempenhe com paz e amor para si e para o outro. Hoje em dia a psicologia holística tem um foco no futuro e na ação, ou seja, é importante contactar com um profissional que nos ajude a ver a nossa vida, as nossas crenças, os nossos pensamentos como se de um teatro se tratasse, em que somos os espectadores ativos na interpretação desta peça que é a nossa vida.

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Ao longo sua experiência clínica, o que diria que as mulheres mais procuram saber sobre a alimentação e de que forma esta impacta a sua gravidez?

A verdade é que ao longo desses anos em consultas de nutrição para grávida a maior preocupação é não aumentar de peso na gravidez e o que é que o bebé precisa durante a gravidez. Infelizmente as grávidas procuram o nutricionista quando tem uma situação de diabetes gestacional ou tensão arterial elevada, que pode provocar um aborto ou quando a ginecologista/obstreta refere que tem muito peso e tem de ir ao nutricionista. Isso deve-se ao facto das grávidas pensarem que a suplementação recomendada pela ginecologista/obstreta é suficiente e já sabem o que devem comer ou não. Contudo, hoje em dia fala-se muito da epigenética e a modulação da saúde desde a concepção, passando pela gestação e o impacto que tem na saúde dessa criança e nas gerações seguintes. É neste sentido que considero de extrema importância a preparação de cada trimestre para que o organismo tenha capacidade de absorver e armazenar os nutrientes que vão ser recrutados em maior quantidade na gravidez. Assim torna-se muito impactante a minha abordagem em continuidade, desde a nutrição da mulher fértil que pretende engravidar, como depois a mulher grávida e as especificidades de cada trimestre, a preparação do parto e amamentação e por fim a nova mulher e mãe.

“Manual para a Fertilidade, Gravidez e Amamentação”, de Noélia Arruda
“Manual para a Fertilidade, Gravidez e Amamentação”, de Noélia Arruda

De forma suscita, qual o impacto da alimentação na fertilidade? É um dos temas mais fortes do livro…

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Inicialmente pensei fazer o livro só para grávidas e quando decidi colocar o capítulo da fertilidade no livro não esperava que a procura pelas consultas de nutrição fosse ter essa procura tão grande! E estou muito feliz porque as consultas de nutrição para fertilidade têm tido cada vez mais procura. Os casais estão mais sensíveis a encontrar outras soluções com outros profissionais de saúde para a abordagem da (in)fertilidade, em vez de gastarem fortunas em processos de fertilização e que não têm a garantia a 100% de sucesso. Estou a acompanhar casais que já tentaram vários processos para conseguir engravidar e sem sucesso... e isso é muito doloroso emocionalmente...

Quais são as mudanças na alimentação que ajudam nesse processo?

Tem de haver mudanças alimentares, no estilo de vida e no mindset destes casais para que os óvulos sejam fecundáveis e os espermatozóides sejam saudáveis. É verdade que existem patologias (como a endometriose, o síndrome do ovário poliquístico ou até a obesidade) que tornam o sonho de ser mãe mais desafiador, mas não impossível! Com a nutrição funcional o olhar sobre as necessidades do organismo é fulcral e infelizmente as mulheres com essas ou outras patologias só tomam uma atitude face ao silenciamento da patologia quando decidem engravidar, e isso deveria acontecer desde que lhes é diagnosticada qualquer patologia. A infertilidade sem causa aparente é muito comum porque não se explora todas as situações que condicionam a diminuição da fertilidade.

Diria que é uma lacuna na saúde feminina?

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O mundo que se abre para os casais que pretendem engravidar e que procuram a nutrição funcional para lhes abrir novos horizontes é, sem dúvida, um outro paradigma na saúde da mulher. Nessa linha de atuação, a envolvência com a saúde do homem é fundamental, tanto em termos de alimentação e estilo de vida, pois todo o casal é um todo para gerar um bebé. O impacto dos nutrientes presentes nos alimentos e suprir as necessidades nutricionais do organismo gera alterações metabólicas e fisiológicas importantes para a fertilidade.

 Quais são os maiores mitos envoltos neste tema? E o que é que se diz às mães, relativamente à alimentação, que é absolutamente falso?

Entre os maiores mitos na gravidez está o de que a grávida tem de comer por dois. Mas o que eu recomendo é que a grávida deve comer para dois, o que significa que não é importante a quantidade, mas sim a qualidade. A maior riqueza nutricional presente em legumes, vegetais e frutas não tem um valor calórico considerado excessivo. Apesar dos alimentos terem calorias, e que são necessárias, o mais importante são as características desses alimentos e o impacto que vão ter no organismo, como por exemplo descontrolar ou não os níveis de açúcar no sangue. A alimentação da grávida deve ter o foco para satisfazer as necessidades da grávida e as necessidades dos vários estádios de desenvolvimento do bebé, para que depois do parto a mãe/mulher não tenha consequências em termos de saúde por défices nutricionais. Por exemplo, no terceiro trimestre, o bebé recruta muito ferro, por isso é importante que a grávidas ao longo da gravidez tenha sempre uma alimentação rica em ferro, para criar boas reservas de ferro e para não ficar com anemia, o que é muito comum, infelizmente.

Há uma série de restrições e recomendações sobre a alimentação das grávidas. Continua a ser verdade? O que é que mudou, se mudou?

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Hoje em dia a verdade é que existe muita informação disponível, mas depois falta a adequação da alimentação específica para cada grávida de acordo com o trimestre que está, de acordo com as análises clínicas, de acordo com a sua história clínica, de acordo com a sua composição corporal… As recomendações alimentares devem estar sempre na base da dieta mediterrânea e nutrição funcional. Contudo, as recomendações gerais não se adequam a todas as pessoas porque há características fisiológicas e metabólicas que condicionam consumos alimentares mesmo que sejam saudáveis. Quero dizer com isso que, mesmo que as favas sejam saudáveis, se a grávida tem favismo, é um risco para a saúde dela e do bebé. Ainda assim existem outras restrições gerais como o consumo de alimentos crus (peixes, queijos) que podem provocar a toxoplasmose e que pode colocar o bebé em risco.

As dietas durante a gravidez continuam a ser frequentes? Continua a haver uma grande preocupação (e pressões) com o peso de um lado e do outro – nutricionistas e pré mamãs?

É verdade. Infelizmente ainda oiço no consultório: "estou grávida mas não quero ganhar peso ou talvez ainda perder peso…." E isso é uma incongruência, porque todos sabemos que os bebés têm de ganhar peso para poderem sobreviver no mundo exterior. Se fizermos contas no 1º trimestre o feto deve apenas ganhar 300g, no 2º trimestre o bebé vai crescer mais e ganhar apenas 1000g e só no 3º trimestre o bebé já está quase pronto para nascer deve atingir 3000g. Além disso o volume de sangue aumenta 50%, o líquido amniótico aumenta juntamente com o peso em água corporal, a placenta tem um peso de 500g e ocorre um aumento de peso mamário para preparação para o parto e amamentação. Fazendo bem as contas o aumento do peso é um aumento que resulta das estruturas desenvolvidas aquando da gravidez e que no momento do parto quase a totalidade desse peso é perdida. Por isso recomendo que o ideal para aumento de peso na gravidez seja entre 5 a 7kg.

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