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"Um dos mitos mais comuns é que é fácil engravidar." Tudo sobre a infertilidade

As duas filhas de Michelle Obama nasceram há 20 anos por Fertilização In Vitro (FIV). São duas em oito milhões de crianças geradas no mundo, até hoje, com ajuda de FIV. Porque a infertilidade existe. Apesar do silêncio e da dor que para algumas mulheres dura a vida inteira. Testemunhos de quem só quer construir uma família.

"10 a 15% dos casais em idade reprodutiva enquadram-se na definição de infertilidade", segundo dados da Direção-Geral da Saúde.
"10 a 15% dos casais em idade reprodutiva enquadram-se na definição de infertilidade", segundo dados da Direção-Geral da Saúde. Foto: Pexels
02 de julho de 2019 | Paula Cristovão Santos

"Estamos a fazer tudo o que podemos, excepto raptar, para começar uma família", diz a personagem interpretada por Paul Giamatti em Vida Privada, o filme de Tamara Jenkins, de 2018 (disponível na Netflix), que retrata as dificuldades de um casal nova-iorquino para ter um bebé, após os 40 anos de idade.

O filme é delicado, comovente e cómico, e o problema é sério: a maternidade adiada. "Dizem-nos que a gravidez vai acontecer um dia", escreve a autora americana Belle Boggs no seu recente livro The Art of Waiting (A Arte de Esperar). Por isso, alinhamos as prioridades e vamos à nossa vida, acreditando que o endométrio estará sempre pronto a receber um dos nossos seis milhões de óvulos (que vamos perdendo com o tempo) que, por sua vez, há-de ser fecundado por um (basta um!) dos 300 milhões de espermatozóides. A mãe-natureza encarregar-se-á do resto. Mas isto nem sempre funciona assim.

"Um dos mitos mais comuns é que é fácil engravidar e que se pode adiar o momento de ser mãe e pai", revela a equipa da Associação Portuguesa de Fertilidade (APF). "É comum as pessoas pensarem que, como familiares ou amigos, conseguiram ser pais rapidamente e sem problemas e que não haverá complicações quando tomarem a decisão de avançar para uma gravidez. Esta realidade tem-se vindo a verificar, cada vez mais, em grande parte motivada pela procura pela mulher ou pelo homem por uma vida profissional e financeira equilibradas e por um companheiro ou companheira para constituir família. No entanto, esta ideia é ingénua e pode revelar-se dolorosa quando, após as tentativas de gravidez, o positivo não chega."

O positivo não chega, pelo menos, para "10 a 15% dos casais em idade reprodutiva que se enquadram na definição de infertilidade", segundo dados da Direção-Geral da Saúde. A infertilidade é uma "doença do sistema reprodutivo traduzida na incapacidade de obter uma gravidez durante 12 meses ou mais de relações sexuais regulares e sem uso de contracepção". E uma das causas mais conhecidas é a idade.

"A fertilidade muda com a idade", esclarece o guia Age and Fertility que é totalmente dedicado ao tema e que foi lançado, em 2012, pela Sociedade Americana para a Medicina Reprodutiva. Ainda assim, a informação não chega a todos. Em Agosto deste ano, a investigadora Eugénie Prior confirmou as suas suspeitas com os resultados de um inquérito feito a 1.215 estudantes australianos universitários: a maioria revelou querer ter crianças, mas desconhece o momento em que começa a fertilidade a diminuir (um terço dos jovens respondeu que a fertilidade feminina começava a declinar após os 40 anos). Estes estudantes planeiam adiar a maternidade até completarem os estudos, evoluir nas suas carreiras profissionais e viajar, entre outras coisas complicadas de concretizar com filhos. "É preocupante estes jovens fazerem escolhas sem estarem informados dos efeitos da idade na fertilidade."

Antónia tem 49 anos e recorda que, apesar de ter começado a namorar no ano 2000, a ideia de aumentar a família só surgiu sete anos depois. Assustada pela instabilidade financeira e inspirada pelo ciclo de amigas com gravidezes na faixa dos 40 anos, Antónia protelou a questão até "ter a vida organizada".

Passou um ano e nada aconteceu. O marido de Antónia, desiludido, prontificou-se a fazer exames por iniciativa própria. "Ele achava que eu era saudável e que, a haver um problema, seria relacionado com ele", recorda Antónia.

Mais um mito, esclarece-nos a equipa da APF: "Existe a ideia errada de que ao ser-se saudável a fertilidade mantém-se protegida. É certo que uma alimentação saudável, acompanhada por exercício físico, o não consumo de tabaco, de álcool e de drogas ou exposição a substâncias tóxicas, contribuem para a prevenção da fertilidade, mas não combatem o envelhecimento do organismo. A qualidade e amadurecimento dos óvulos vão sendo afectados à medida que a idade da mulher avança. No homem, a capacidade de os espermatozóides conseguirem fecundar o óvulo vai diminuindo, por exemplo."

Na verdade, os resultados do espermograma do marido de Antónia não adiantavam conclusões. Estima-se que em 25% dos casais a causa da infertilidade não seja identificada. Antónia avançou, então, para o médico de família, o primeiro passo a dar em situações de infertilidade.

Mas, em 2008, Antónia "já" tinha 39 anos, o que a colocava de fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no que se refere à abordagem deste problema. "Não há limite de idade da mulher para ter acesso à consulta, mas no momento dos tratamentos, caso seja aconselhada a fazer um tratamento de indução de ovulação ou de inseminação intra-uterina, a mulher não poderá ter mais de 42 anos. Se for estabelecido pela equipa médica que deverá ser realizada uma fertilização in vitro ou uma injecção intracitoplasmática de espermatozóide, não poderá ter mais de 40 anos. As mulheres e casais que estejam a ser acompanhados no SNS têm direito a três ciclos de tratamento. Nos casos em que a mulher tenha ultrapassado a idade limite de acesso ao SNS, os casais apenas poderão recorrer a centros de fertilidade privados, sendo que terão de suportar todos os custos que envolvem o processo, avultados e sem comparticipação", esclarece a equipa da APF.

Passo seguinte: a pesquisa na Internet. O referido casal procurou e, aleatoriamente, escolheu a clínica Cemeare. Antónia tinha 40 anos quando fez aquele que seria o seu primeiro tratamento de FIV. Resultado negativo. Segundo tratamento. Negativo. Terceiro tratamento. Idem.

"Uma das dificuldades que recordo de todo o processo tem a ver com as injecções de estimulação hormonal que antecedem a fertilização. A minha barriga reagia à medicação e ficava toda negra. Recordo-me de a médica me dizer para dar a injeção num local que não estivesse negro. Mas já não havia… Começou por ser o meu marido a dar-me as injecções, mas depois fui eu a assumir essa tarefa, pois percebi que lhe custava ainda mais a ele do que a mim."

Antónia foi aconselhada a fazer um tratamento com óvulos doados. E também foi aconselhada a desistir. Isto, embora no privado, e ao contrário do limite que existe no sistema público, sejam "as mulheres/casais a decidir o número de tratamentos a realizar, após uma informação cabal e esclarecedora do prognóstico de cada caso clínico", refere a médica e directora da Clínica Cemeare, Maria José Carvalho.

Mas a conta ia avultada. Ainda que Antónia reconheça que, a certa altura, o dinheiro deixou de ter valor: "Quando era preciso dinheiro, arranjávamos. Desisti de coleccionar recibos."

A médica Maria José Carvalho explica-nos que "o custo do tratamento de infertilidade varia de acordo com o ciclo proposto: pode ir de €500, no caso da Inseminação Intra-Uterina (IIU), a €2.750, no caso de uma Fertilização In Vitro (FIV), e €3.750, no caso de uma Micro Injecção de Gâmetas (ICSI)". Acresce ainda a medicação e as consultas. Isto sem contabilizar o sofrimento do resultado negativo. O quarto tratamento consistiu numa FIV por ICSI (Intra Citoplasmatic Sperm Inject), ou seja, por Micro Manipulação de Gâmetas, técnica usada em casos de Fertilização In Vitro clássica sem fecundação.

Quando a FIV recorre a esta técnica, o espermatozóide é colocado dentro do óvulo com a ajuda de uma microagulha, em vez de o óvulo ficar perante milhares de espermatozóides, aguardando que um consiga fecundá-lo. Resultado: negativo.

Antónia tinha 44 anos quando iniciou o seu quinto tratamento, desta vez com dois embriões seus (de tratamentos anteriores) congelados. "Só o processo de transferência de embriões custa mil euros", recorda Antónia. Custava-lhe mais não poder ser mãe. Os resultados eram bons, diziam-lhe. Mas só na consulta respirou fundo quando a médica Maria José Carvalho lhe deu os parabéns. Durante o processo, Antónia desdobrou-se em desculpas para faltar ao trabalho e encontrou sempre justificações falsas para os momentos mais desesperantes. À excepção da irmã, que teve acesso aos recibos para fazer a contabilidade do casal, não há um único elemento da família que conheça a história. O casal acordou em fazer esta caminhada a solo. E nem a criança, hoje com três anos, saberá algum dia que foi gerada em laboratório.

"As principais causas de infertilidade envolvem em cerca de 40% o factor feminino e em cerca de 40% o factor masculino. Dentro dos factores femininos, temos o factor tubário (obstrução das trompas de Falópio, devido essencialmente a causas infecciosas), a endometriose (doença com uma prevalência significativa na idade fértil), as alterações da ovulação e uma das causas que tem vindo a aumentar nos últimos anos e o factor ovocitário, devido à baixa reserva de ovócitos relacionados com a idade da mulher", esclarece a médica Maria José Carvalho, em tempos Coordenadora da Unidade de Medicina da Reprodução da Maternidade Alfredo da Costa (de 2000 a 2004).

A endometriose foi a causa da infertilidade de Paula, de 41 anos. Acostumou-se à ideia de que sofrer com fortes dores menstruais era "normal". Mas com o tempo e muitas consultas depois, o seu caso ganhou um nome: endometriose. Não teve opção à cirurgia que lhe retirou parte de um dos ovários. Mas, ao fim do período indicado, Paula teve permissão clínica para engravidar.

"Deixei de tomar a pílula e em seis meses tive dez menstruações. A doença voltara." Avançou para os tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA) e o facto de ter 36 anos fez com que se inscrevesse em ambos os sistemas, público e privado. Durante os dois anos de espera para fazer tratamentos no Hospital de Santa Maria, iniciou no privado. Doze tratamentos no total. Cada um com uma história, partilha Paula. Cada um com o mesmo resultado: negativo.

Depois de esgotar os ciclos de tratamentos de FIV no sistema público, sem sucesso, Paula ouviu falar da doação de embriões. A endometriose baixa a reserva ovárica, o que, entre outras razões, diminui a taxa de fertilidade. Restava-lhe esta esperança. Faltava a equipa clínica hospitalar reunir-se e tomar a decisão. Paula e o marido, sempre juntos nesta "dura batalha", suspiraram de alívio quando receberam a notícia. Afinal, a equipa do Hospital de Santa Maria não tinha desistido deles. "Este é um tratamento menos doloroso, sem as injecções diárias de estimulação hormonal", conta. De qualquer forma era preciso preparar o endométrio (com medicação) para receber os dois embriões compatíveis (com um dos tipos de sangue do pai ou da mãe). Resultado: negativo. O seu oitavo tratamento. Paula recorda-se de cada um deles com detalhe passou pela indução da menopausa.

"Os médicos procuraram fazer um reset do organismo em resposta ao facto de o endométrio ter deixado, a certa altura, de responder à medicação", recorda. O endométrio acabaria por responder e por finalmente espessar, permitindo a transferência de embriões. Resultado: negativo. Esgotadas todas as possibilidades no sistema público, o seu décimo segundo e último tratamento foi feito numa clínica privada com embriões doados não compatíveis. O resultado negativo veio no dia 24 Julho deste ano. Após mais de 30 mil euros gastos e um sem-número de experiências, cuja dor as palavras nunca conseguirão retratar, Paula confessa que se soubesse que engravidaria após mais 20 tratamentos, não hesitaria em fazê-los. Paula, que também desistiu da adopção perante uma fila de espera de nove anos, manifesta-se sobre a polémica dos dadores anónimos e finaliza a conversa que já vai longa: "A dor não é o passado. É o futuro."

Desde Abril, quando foi anunciado o acórdão do Tribunal Constitucional sobre o fim da confidencialidade dos dadores de gâmetas e de embriões, instalou-se "uma situação dramática para perto de duas mil famílias, cujo tratamento de fertilidade depende de uma dádiva", regista a APF. Consequências imediatas. "No Serviço Nacional de Saúde, a recusa de abdicar do anonimato por dadores agravou a já diminuta capacidade de resposta dos centros. Nas clínicas privadas, alguns tratamentos foram retomados por os dadores terem aceitado o fim da confidencialidade, mas, em grande parte dos casos, a resposta não foi positiva." A APF teme que muitos casais e mulheres acabem a desistir ou a procurar uma alternativa em Espanha. "Sou dador de esperma e fi-lo com o pressuposto do anonimato e sinto-me assustado com essa mudança" ou "Está nas vossas mãos descongelar os nossos filhos!" foram alguns dos testemunhos entregues, dentro de tubos de ensaio, aos deputados da Assembleia da República, com o objectivo de sensibilizá-los para a resolução desta questão.

Que outras dificuldades enfrentam as mulheres e os casais com infertilidade, perguntámos à Associação Portuguesa de Fertilidade. Além do tempo de espera para o acesso a tratamentos através do Serviço Nacional de Saúde, que pode significar "vários meses para uma primeira consulta e mesmo até um ano ou mais para um primeiro tratamento", esta situação é ainda agravada pelo "facto de não existir um centro público de PMA na zona sul do país".

A Associação destaca também os custos elevados dos tratamentos no privado, "o que leva a que muitas destas pessoas acabem por desistir por incapacidade económica". E acusa a pressão que existe "no seio familiar e entre amigos", relativamente às pessoas inférteis que ainda não têm um bebé. A APF defende que o apoio psicológico é essencial. "O SNS deve disponibilizar esse apoio, mas na prática não responde com o número de profissionais que seria desejável nos centros de PMA."

Voltamos às páginas do livro escrito por Belle Boggs, uma americana que durante cinco anos viveu uma das experiências mais difíceis da sua vida: tentar engravidar. A sua filha foi gerada com recurso a FIV e, na sequência desta etapa, nasceu também A Arte de Esperar. Neste livro, a autora aborda a atitude "never-give-up" numa cultura que parece venerar a parentalidade, acima de tudo. E recorda alguns comentários de que foi alvo enquanto tentava construir uma família: "Mas porque é que esta pessoa não desiste?", "Ela devia arranjar um cão", "Ela devia adoptar". Belle recolheu testemunhos de várias mulheres que também falam de FIV. Uma delas, Fiona Shackleton, uma advogada bem- sucedida e conhecida por tratar de divórcios da realeza britânica, diz no livro que "há certas linhas de trepidação num casamento que potenciam o divórcio e a FIV está na lista". A opinião de Fiona vale o que vale. No casal Obama, a FIV chama-se Malia (hoje com 20 anos) e Natacha (17 anos). E mesmo para Paula, que nunca chegou a ser mãe, a FIV sempre foi sinónimo de esperança.

FIV: a polémica
Em 2010, Robert Edwards recebeu o Prémio Nobel da Medicina pelo desenvolvimento da terapia de Fertilização In Vitro. Consiste na fertilização dos óvulos pelos espermatozóides em laboratório, no subsequente desenvolvimento embrionário e na transferência dos embriões assim obtidos para o útero. Graças a Robert Edwards nasceu o primeiro bebé proveta, a 25 Julho de 1978, 20 anos antes do nascimento das duas filhas do casal Obama, pelo mesmo processo. O acesso a esta terapia é contudo limitado. No Sistema Nacional de Saúde, o acesso é limitado pela idade e pelo número de ciclos de tratamento. Pelo sistema privado, não há comparticipação. Nos Estados Unidos, é comparticipado em alguns estados. E, no Reino Unido, a polémica actual é conhecida como "A lotaria FIV", ou seja, a disponibilidade desta terapia depende do local de residência, o que levou Adam Kay a escrever recentemente sobre o assunto.
"Em 2009, eu tive uma paciente que tentou o suicídio quando lhe disse que não estava elegível (devido a uma diferença de quilómetros) para fazer uma FIV."

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