Beleza / Wellness

O que é a endometriose? De Anitta a Raquel Prates, a doença que afeta 190 milhões de mulheres no mundo

A endometriose prejudica a vida de uma em cada dez mulheres em idade fértil (o que corresponde a cerca de 350 mil em Portugal), não existindo um tratamento 100% eficaz à vista. Entrevista com Filipa Osório, especialista em ginecologia-obstetrícia, sobre o tema.

Anitta nos Billboard Music Awards 2022 em Las Vegas, 15 de maio
Anitta nos Billboard Music Awards 2022 em Las Vegas, 15 de maio Foto: Getty Images
26 de julho de 2022 Ana Filipa Damião e Rosário Mello e Castro

Pouco estudada, pouco conhecida e dificilmente diagnosticada. A endometriose, doença que durante décadas permaneceu escondida nos corpos de 10% da população feminina mundial (incluíndo Portugal), está lentamente a ganhar visibilidade através de várias personalidades. A cantora Anitta e a apresentadora Raquel Prates, por exemplo, optaram por partilhar a sua jornada nas redes sociais, para sensibilizar o desconhecedor, mas há quem continue a sofrer em silêncio.

"Saio dessa experiência desejando que todas as mulheres do mundo tenham mais acesso ao diagnóstico e entendimento dessa doença que afeta tanta gente mas é, ao mesmo tempo, tão pouco falada", escreveu Anitta, após uma cirurgia para tratar a endometriose. "Já já eu volto com tudo lutando ‘pra’ que as mulheres todas tenham acesso à tudo que diz respeito a esse filme de terror que é a endometriose e que principalmente sejam tratadas com a seriedade e o respeito que essa doença requer. Não tenham vergonha de buscarem ajuda."

Mas o que é a endometriose? "É uma doença crónica e inflamatória que afeta 1 em cada 10 mulheres em idade fértil, atingindo 190 milhões em todo o mundo", começa por dizer Filipa Osório, especialista em ginecologia-obstetrícia, à Máxima. "Não existe um perfil específico de paciente, mas costumam ser mulheres sofridas pela exposição frequente à dor, que nem sempre é compreendida pelas pessoas que as rodeiam."

Em primeiro lugar, é necessário entender o que é o endométrio, o tecido que revesta a cavidade uterina e que sofre alterações cíclicas ao longo do mês, proliferando e crescendo até iniciar a sua descamação, que se traduz na menstruação, continua a médica. Neste caso, o que acontece é que "as glândulas crescem fora da cavidade uterina, sofrendo as alterações cíclicas do endométrio nos locais onde se implantaram, originando lesões", que podem localizar-se em qualquer parte do corpo, sendo a cavidade pélvica, junto ao útero e aos ovários, o local mais frequente. Manifesta-se de diferentes maneiras, sob a forma de quistos, aderências, nódulos e até infertilidade. Tem uma taxa de mortalidade baixa, pois é benigna, mas as complicações acontecem.

Por ser um mal "não totalmente compreendido" na comunidade médica, ainda existem muitas perguntas sem resposta. "Aparamente tem uma causa multifatorial. Existem várias teorias para tentar explicar o seu aparecimento, mas nenhuma consegue explicar a totalidade dos casos de endometriose", continua Filipa Osório. Contudo, a teoria mais aceite é a da menstruação retrógrada em que há passagem de células de endométrio para a cavidade abdominal, através das trompas, e estas, sob influência de um sistema imunitário alterado, de agentes tóxicos a que a mulher ou pessoa com sistema reprodutor feminino é sujeita (seja por exposição, alimentação, entre outros), de stress, e tudo isto associado a uma predisposição genética, faz com que se desenvolva a doença."

Exterioriza-se maioritariamente através de dores intensas, quer estejam ligadas à menstruação, dor a evacuar ou a urinar e até dor nas relações sexuais. Nalguns casos, descobre-se aleatoriamente em exames de rotina ou porque o casal não consegue engravidar. É um quadro de sintomas complicado, no sentido em que pode não se conseguir entender se as dores sentidas, por exemplo durante a menstruação, se devem a apenas isso ou se refletem algum problema.

Encontrar o tratamento adequado é outro dos desafios. "Eu sofro de endometriose e adenomiose, e vou fazer uma histerectomia total com excisão de todas as lesões provocadas pela doença", revelou Raquel Prates no Instagram, em fevereiro. Na mesma ocasião, a apresentadora alertou para a importância do diagnóstico atempado e respetivo tratamento como forma de evitar complicações ainda mais graves.

A 17 de agosto de 2020, a Resolução da Assembleia da República nº74/2020 recomendou ao Governo a adoção de medidas para um diagnóstico e tratamento precoce, mas ainda nada foi feito. Infelizmente, sendo uma doença crónica, "temos de ensinar as mulheres a saber lidar com ela e a controlar os sintomas, uma vez que ainda não existe um tratamento 100% eficaz", lamenta Filipa Osório. Contudo, existem formas de atuação. A primeira a ter em conta são os hábitos de vida diários – seguir uma dieta alimentar anti-inflamatória irá reduzir a inflamação pélvica e as dores. Níveis de stress baixos e praticar exercício físico regularmente também são fatores importantes. Porém, cada caso é um caso, e cada paciente tem de ser avaliada individualmente, pois só assim se cria um plano adequando, dependendo do seu objetivo, continua a especialista.

"Se a mulher não apresenta contraindicação para uma terapêutica médica e não pretende engravidar, tem indicação para iniciar terapia hormonal, ou seja, iniciar uma pílula para atrofiar o endométrio, que se encontra fora do útero, de modo a tentar adormecer a endometriose e a controlar os sintomas, melhorando a qualidade de vida e reduzindo o risco de recorrência." Por outro lado, se engravidar for uma meta a alcançar, deve-se interromper a terapia hormonal e vigilar os sintomas até obter-se uma gravidez.

Se a dor for incapacitante ou em casos mais agressivos que envolvam outros órgãos, a cirurgia deve ser uma opção discutida. "A laparoscopia é o método gold standard para o diagnóstico e tratamento adequados da doença. Hoje dispomos de equipamentos de laparoscopia com elevada qualidade de imagem e instrumentos inovadores que permitem abordagens cada vez mais precisas, eficazes e seguras".

Sexo e gravidez com endometriose

A endometriose dificulta a batalha contra a infertilidade e favorece os abortos espontâneos - uma consequência que a cantora Halsey, diagnosticada em 2016, conhece bem. "Tive três abortos antes do meu 24º aniversário. Parecia uma ironia cruel o facto de eu conseguir engravidar com facilidade, mas ter dificuldade em manter a gravidez", confessou a cantora em entrevista à Vogue norte-americana. Foi apenas no ano passado, em julho, que Halsey teve o seu primeiro filho.

Ver esta publicação no Instagram

Uma publicação partilhada por halsey (@iamhalsey)

Por se tratar de uma doença inflamatória, "pode associar-se a distorção dos órgãos da cavidade pélvica pela formação de aderências levando à existência de um obstáculo ao encontro do óvulo e do espermatozoide. Associada à dificuldade anatómica ainda existe dor na relação que muitas vezes está aumentada na ovulação, havendo muitas mulheres que evitam ter relações nesta altura", afirma a especialista." Associada à dor na penetração, a pilula pode ainda diminuir a libido e a lubrificação", o que pode ser catastrófico para a relação do casal.

Por estes e outros fatores torna-se, assim, importante recorrer-se à criopreservação dos óvulos de quem quer, no futuro, ter filhos. "A inflamação pode por si só deteriorar a reserva ovárica/função ovárica, podendo haver mesmo envolvimento dos ovários e das trompas pela endometriose, e por isso devemos cada vez mais e mais cedo alertar para a possibilidade de preservar óvulos – criopreservação. Seja pré-cirurgia, seja apenas porque a mulher ainda não pretende engravidar. Devemos cada vez mais falar precocemente sobre este tema", aconselha a especialista.

Saiba mais
Saúde, Atualidade, Endometriose, Anitta, Raquel Prates, Halsey, Gravidez, Infertilidade, Aborto Espontâneo
As Mais Lidas