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Histórias de Amor Moderno: "Gosto de sexo. E o meu marido também - lá porque já tenho idade não passei a acreditar só no missionário"

“Os 67 anos acrescentaram-me rugas no rosto e pregas no rabo, flacidez nos antebraços e uma barriguinha descaída, mas a sorte de ter encontrado a pessoa certa, aquela que eu amo para lá da paixão e do encantamento, impediu que me subtraísse o entusiasmo e o desejo.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Amar... É Complicado! (2009)
Amar... É Complicado! (2009) Foto: IMDB
28 de fevereiro de 2026 às 09:00 Maria Olívia Sebastião

As minhas amigas chamam-me insensível, mas eu quero é que as minhas amigas se danem. Aposto que se roem de inveja quando, em desavergonhado conluio, dizem sobre mim cobras e lagartos. Rio-me na cara delas, ahahahah - que sabem elas? Roem-se de inveja precisamente porque não sabem por que sou assim, por que me comporto desta maneira. Mas desconfiam que é por boas razões. E têm razões para desconfiar.

As minhas filhas também não percebem. Para elas, sou a avó louca, que tem a mania que é jovem. Gosto muito delas, claro que gosto. Gosto das minhas filhas e também gosto das minhas amigas invejosas. Acontece que não acredito nessa paixão devota que as pessoas, quando se tornam avós, dedicam aos netos. Não me revejo nesse culto, não ponho os filhos das minhas filhas no centro do universo só porque aconteceu nascerem na minha linha de descendência. Quanto mais pô-los no centro da minha vida.

Eu, quando fui mãe - e fui mãe três vezes - não tentei passar o fardo a ninguém. “Foste tu que as fizeste, Regina, agora tratas delas.” Não é um mantra nem uma máxima, mas é uma frase que muitas vezes me rodava na cabeça. Nos momentos difíceis da maternidade, e não são poucos, acredito que devemos socorrer-nos do pragmatismo. Não vejo isso de um modo negativo, não há aqui qualquer estímulo punitivo, nenhuma intenção de me fazer pagar pelo que fiz e pelo bem que me soube fazê-lo. Porém, há um sentido de responsabilidade de que não devo e não posso demitir-me. As minhas filhas são assunto meu, para o mal e para o bem. E, agora, os filhos delas são exatamente assunto delas, responsabilidade de cada uma delas.

Tenho duas teorias sobre o tema, não pretendo estar certa em nenhuma delas. Deito-me simplesmente a pensar nas razões pelas quais certas coisas são de determinada forma e concebo as minhas próprias conclusões.

Antes de tudo, acredito que a tendência de pôr os netinhos lindos no centro de tudo, como se deles emanasse a mais pura e irrefutável razão de viver, não passa de um escape, uma máscara para a infelicidade acomodada que acabou por se instalar na vida das pessoas. Chegadas ao limiar da passagem da meia-idade para a terceira idade, as pessoas tendem a olhar para si mesmas, para o que passaram e viveram, sopesam as memórias, o passado, o que ficou por viver e por fazer, e confrontam tudo com a felicidade e a satisfação do momento presente.

Pelo que observo, em boa parte dos casos ficam desapontadas, para não dizer mesmo que se sentem defraudadas com aquilo que viveram e com o ponto em que se encontram. O passado foi mal vivido, o presente fica muito aquém do que outrora desejaram e imaginaram para si. É também normal que essa infelicidade perpétua e acomodada tenha o epicentro no amor falhado a que se apegaram desde demasiado cedo, desde que casaram, ainda muito jovens, ainda sem saber do que é feito o mundo, as alegrias e as dores, as lutas, os quotidianos e a calmaria refrigeradora que se segue à febre da paixão.

Quando se dá a epifania - “eu não amo esta pessoa há demasiado tempo” - é, quase sempre, tarde demais. Sem idade para começar de novo nem tempo para mudar de rumo, as pessoas comuns veem-se num limbo complicado e desagradável onde sabem que provavelmente nada de novo e estimulante vai acontecer, desde ali até ao último dia das suas vidas desinteressantes, tépidas, previsíveis e desperdiçadas.

É nessas alturas que o sagrado netinho surge como um messias, salvador, capaz de dar sentido a tudo, mesmo que isso não faça sentido algum. Iluminam-se de alento os olhinhos dos avós apagados: o benjamim da família tudo justifica e tudo merece. Adoremos, ó senhores, o menino que chegou para nos salvar e a reavivar em nós, velhas carcaças, a capacidade de amar e de gerar amor.

Não alinho nesse padrão. Primeiro que tudo, não preciso, não faço o tipo. Sou muito bem resolvida e muito bem amada, felizmente, e sou casada praticante - em certas alturas mais do que uma vez por semana. Os 67 anos acrescentaram-me rugas no rosto e pregas no rabo, flacidez nos antebraços e uma barriguinha descaída, mas a sorte de ter encontrado a pessoa certa, aquela que eu amo para lá da paixão e do encantamento, impediu que me subtraísse o entusiasmo e o desejo. Sim, gosto de sexo. E o meu marido também. Não fazemos quatro vezes ao dia, como há quarenta e tal anos, mas ainda sabemos muito bem como se faz e fazemo-lo com muito gosto. E de muitas maneiras, que eu lá porque já tenho idade não passei a acreditar só no missionário.

O segredo para a longevidade do nosso amor é, sem dúvida, o amor sincero que temos um pelo outro. Já o segredo para a sua vitalidade, essa, acredito eu, resulta de nunca termos camuflado nem maquilhado nada na nossa vida a dois. E isso inclui assumirmos sempre a responsabilidade pelas nossas filhas, na mesma medida em que recusamos assumir a parentalidade dos nossos netos, ainda que pontualmente. Não o fazemos. E não cedo neste particular. Não altero a minha agenda nem condiciono a minha rotina para ficar a tomar conta dos filhos das minhas filhas. Era o que mais faltava. E não me privo dos meus planos a dois com o meu marido só para fazer de babysitter porque lhes dá jeito naquela noite ou naquele fim de semana.

É por tudo isto que me chamam insensível e avó louca, mas é para o lado que eu durmo melhor. Estou muito feliz assim. Adoro os meus netos, uma coisa não tem que ver com a outra, uma não menoriza a outra. Só não uso os meus meninos como bálsamo nem restaurador de vitalidade, tal como não permito que as suas existências condicionem a minha. Gosto muito que gostem de mim, mas terão de gostar de mim mesmo assim, como eu sou. Tenho uma vida. Tenho um marido. E nem eu nem ele temos uma vida inteira pela frente, ao contrário dos meus netos.

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“Há uma coisa de que não se fala quando falamos de violência em casa, mas que eu sinto e acredito que aconteça com outras pessoas: parece que sou incapaz de me sentir feliz. Há sempre uma tormenta qualquer, indizível e invisível, um tolhimento no estômago, uma impossibilidade de desfrutar.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

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