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O plano é não ter plano

Foto: Fotografia: João Paulo/Realização: Filipe Carriço
26 de agosto de 2021 | Patrícia Barnabé

Há uns dias revi o Visages, Villages da brilhante Agnés Varda, que nos deixou há pouco, decerto para ir para outro mundo melhor (de onde deve ter vindo certamente). Para quem não viu, neste documentário ela vagueia com o jovem street artist J.R, duas gerações estrada fora com o mesmo propósito de descoberta dos pequenos heróis locais, talvez os únicos possíveis, os heróis de todos os dias e que são a pequena mudança que querem ver no mundo. Agnés, às tantas, diz a JR enquanto partilham um chá algures: "O acaso sempre foi o meu melhor assistente." E lembrei-me logo de uma das minhas tiradas preferidas de Clint Eastwood: "A minha vida tem sido uma sucessão de acasos e coincidências."

Há menos dias entrevistei o grande arquitecto Daniel Libeskind, responsável por muitos museus judaicos no mundo, a começar pelo de Berlim que, por todas as razões, é um estandarte dos outros. Foi incrível vaguear pelos seu labirintos a céu aberto, as paredes cinzentas que se parecem fechar ou abrir sobre um chão desnivelado, como uma metáfora do que passou a diáspora judia ao longo dos séculos. Libeskind contou-nos que nasceu num lar sem tecto duma Polónia arrasada, descedente de sobreviventes do Holocausto, por isso sente estes seus museus como missões. Segue-se o Tikvá, o museu judaico de Lisboa, que vai nascer em breve, em Belém, com vista para os monumentos que glorificam as nossas epopeias marítimas, e para o rio que as levou. Libeskind regozija-se por imaginar o seu projecto num lugar onde se pode pensar a História de um país e de um povo virados para o mundo. Gostemos ou não do que significam, do que as moveu e do forte lastro que deixaram, é indiscutível que as Descobertas (que os brasileiros chamam acertamente de Achamentos) só foram possíveis porque meia dúzia de malucos se lançaram ao mar para um qualquer desconhecido.

No fim da conversa, demos por nós a falar de esperança, o significado de Tikvá, uma palavra inventada pelos judeus, esclarece-nos, que não existia na cultura grega ou romana primitivas, e onde aqueles se agarraram para não naufragar os seus destinos incertos. Arquitectura e Jornalismo, quando bem feitos, são actos políticos, fiquei a pensar em como os dias em que vivemos nos parecem treinar para a incerteza, mas também para o exercício da esperança, para o enraizamento no que é verdadeiramente importante.

Faz sempre sentido falar de esperança quando se desconhecem as regras do jogo, ou quando elas se viciam ainda mais em momentos mais duros. A pandemia está a ensinar-nos uma nova humildade, a puxar-nos as calcinhas para cima, como diziam as avós nas aldeias, mas também a ver como meia dúzia quer ficar com os botes todos quando o grande barco se está a afundar. E falamos de barriga cheia, porque será que chega a esperança às meninas do Afeganistão? À Síria? Ao Haiti? À Venezuela? Á Africa mais profunda e pobre? Ou àqueles que estão a perder quase tudo para as alterações climáticas de cada vez que o planeta nos sacode?

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Nesta conversa de pequeno existencialismo, às tantas, pergunto-lhe se planeou muito a sua vida, sempre achei que as pessoas que não tentam controlar o seu destino acabam por receber a verdade como recompensa. Não têm menos medo, mas parecem encaixar melhor as arbitrareidades mais incompreensíveis. Libeskind riu-se da ironia de ser arquitecto, mas não acreditar na actividade premeditada: "Não acredito que tenhas de ter um alvo e que a tua vida seja tentares chegar a esse alvo, porque isso é falso. O que é importante é teres um caminho verdadeiro, que te dê estabilidade e integridade, podes cair para um lado certo ou para um lado errado, mas segues esse trilho, o resto é uma aventura (...) é como se o desejo acabasse no próprio mundo. E não podemos esquecer que não somos os únicos que decidimos, o mundo decide também."

Passei a vida a achar, ainda mais por ter nascido rapariga, o que não deixa de ser um acaso, que sempre pareci um pouco doida aos olhos das outras por não planear quase nada. Ou mais livre. Nascer rapariga é observar, quase sempre, uma check-list para a vida: casar aos X, ter X filhos aos X, com o rapaz X, e tem de ser mesmo aquele rapaz X; e quero aquele trabalho X, mato-me a estudar e depois a trabalhar, ups, afinal foi para o rapaz X que era amigo do Y, mas continuamos a tentar, a levantar, a sacudir, try better fail better. Senti-me sempre arrapazada por preferir não usurpar nada à vida, por não perseguir, não insistir, não me encostar ou cobrar ou jogar, que é tudo a mesma coisa. Como se alguma coisa, muito menos alguém, alguma vez fosse nossa.

A esperança investe em questões maiores, vê mais longe, mais aberto, mais horizonte, guiada pelas razões certas – e que raramente são apenas as pessoais, óbvio. A verdadeira coolness, para não dizer grandeza que parece grande demais, é seguir o instinto a cada momento e avançar por intuição, com o peito aberto, às balas e às estrelas. A Kate Moss disse-me numa entrevista que não pensava muito no que vestia, abria o armário e atirava umas coisas para cima das outras. E essa era a razão porque toda a gente se queria vestir como ela: porque era verdade, no bullshit. Podia estar a falar da vida. Vivê-la como acontece e sem demasiadas cartografias é do caraças. Existir como se é, com todas as surpresas, as maravilhosas e as de merda, e aceitar que a maior parte do tempo não é como se sonhou, ninguém acorda maquilhado e lindo como nos filmes. Bom, acordar maquilhado e lindo não combina sequer. Não será navegar à deriva a acreditar no mantra ingénuo de que a sorte protege os audazes, mas é reduzirmo-nos um pouco à nossa insignificância, não somos os maiores, ainda menos os únicos. E se não decidimos quase nada, o que não é necessariamente mau, podemos sempre treinar para ser aqueles pequenos heróis de todos os dias, e o resto é confiar que "a vida tem sempre razão", já dizia o Vinicius de Moraes.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990

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