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Dating em Lisboa. “Estava rodeada de amigos do Mateus, familiares, centenas de pessoas na praia, mas sentia-me só."

Foto: IMDB / The Lost Daughter
17 de janeiro de 2024 Maria Pestana

Há alguns anos, conheci o melhor amigo de um amigo num daqueles jantares onde se reúnem várias pessoas sem nexo. O melhor amigo que mora no estrangeiro, o primo afastado, a namorada nova de alguém. Enfim, uma panóplia estranha de pessoas desemparelhadas que se sentaram numa mesa para um jantar bastante bizarro, cujo propósito deveria ser pôr em dia todos os outros jantares em atraso com cada uma daquelas pessoas. Mas esse jantar sem contexto ou ligação deixou-me um amigo virtual. O Mateus, um alfacinha que decidiu tornar-se carioca com a entrada na vida adulta, usufruindo das facilidades de pertencer a uma família que sempre viveu entre os dois países. Nessa noite, a conexão que se criou à mesa passou para o digital e fomos mantendo contacto regular. O Mateus no Rio de Janeiro, a maior parte do tempo, eu em Lisboa, enraizada e sem outro destino. Curiosamente, de todas as vezes que veio a Portugal penso que tomámos apenas um café e estava tudo bem. Eu gostava do facto de o Mateus ser apenas o meu amigo online. Era como se fosse uma entidade omnipresente que responde aos meus anseios, mas cuja presença não existe de facto. E não, não o estou a comparar a Deus, embora a sua fisionomia seja um tanto ou quanto uma bênção angelical. Cabelo loiro desgrenhado, olhos castanhos-claros, ombros largos de atleta. E Anjo se revelou.

No outro dia folheava uma revista feminina e, ao que aparece, existem pessoas esgotadas e descrentes com esta coisa de ter dates no século XXI. Então, já não se sentem esgotadas só com certas situações da vida ou do trabalho, sentem-se esgotadas devido à sua vida amorosa. Estão em dating burnout, veja-se bem. A culpa será das aplicações que não possuem grandes filtros, explicava uma sexóloga. Acho injusto culpar as apps. Primeiro, porque fomos nós que as criámos. Segundo, porque o match pode até ser um floop, mas fundamentalmente são as pessoas que estão disfuncionais. Olhem para mim. Posso não adivinhar quando estou perante um tipo que idolatra pés ou outro que é viciado em pornografia, mas por que razão dou oportunidade a essas pessoas? No meu caso a resposta é simples: prefiro dar oportunidade a morrer de aborrecimento. Não suporto o tédio que sinto em relação a determinados aspetos da vida e finjo que vou à procura do amor da minha vida quando, na verdade, e na grande maioria das vezes, vou à procura da próxima crónica. Mas é verdade que também me sinto exausta, também me abato. Já o comum mortal não sei, poderá gostar de se esparramar e sofrer. Clarice Lispector diz que "os desejos e as paixões morrem quando estão satisfeitos". Acho que andamos todos insatisfeitos à procura de uma eterna satisfação que não perdura e se desvanece constantemente.

Pelo final do ano sentia-me assim, melancólica e embriagada, porque as duas coisas tendem a andar de braço dado. O excitamento do Natal viu o seu auge extinguir-se assim que as azevias de grão terminaram e, este ano, não sei por que raio existiam menos na mesa dos doces. Saturada de levar com o primo João durante largas horas de convívio familiar e com a tia que insistia para que estivesse mais tempo com ele – porventura desconhecerá o conceito de consanguinidade e incesto -, decidi passar a última noite do ano sozinha. Os planos eram simples e envolviam a minha pessoa, uma garrafa de champanhe e doze passas – pelo sim, pelo não, pediria os doze desejos. E vestiria umas cuecas azuis novas. Acho interessante a ideia de começar o ano com algo novo, mesmo que seja somente um bom exemplar de cuecas. Afinal, pelo que me toma, a vida tem mais de roupa interior coçada do que de lingerie de cetim. Portanto: champanhe, doze passas, cuecas novas de renda azul – tentativa de elevar o nível de sucesso do próximo ano ao trocar cuecas de algodão por renda -, e o sossego da minha própria companhia. Foi mais ou menos isso que aconteceu, mas apanhei um avião à última da hora para Salvador e desfrutei da meia-noite na Bahia.

Sabe-se lá porquê dei por mim a trocar mensagens com o Mateus no dia 25 de dezembro, confessando a minha desilusão face à quadra natalícia e a decisão de desfrutar de uma noite de fim de ano sossegada pela primeira vez na vida. Sentia-me até empoderada ao fazê-lo. Escrevia-lhe sobre o quão malucas as pessoas ficam com a passagem de ano, o excesso de álcool desmesurado – é uma redundância, bem sei, mas na última noite do ano as pessoas tendem a beber tanto para esquecer o passado como para festejar o futuro. "Você precisa passar o final de ano na Bahia", disse o Mateus num português que há muito beija os sons do bossa nova. "Me envia o teu passaporte". Achei que brincava, nem levei a sério, mas o assunto era sério mesmo. E ele insistiu dizendo que iam para casa do tio na Bahia, mas alguns amigos pernoitariam num hotel, eu poderia juntar-me a eles. Não lhe custava nada reservar um quarto para mim. "A Bahia na passagem de ano é o tipo de calma que você precisa". Enviei mensagem à minha psicóloga que se encontrava de plantão por esta altura: "Seria muito louco passar o fim de ano no Brasil com uma pessoa que mal conheço, mas que me quer oferecer a viagem?". Aguardei pela resposta. "Acho que seria o teu tipo de loucura". Respirei fundo, limpei um suor que não existia da testa e enviei os meus dados ao Mateus.

Poupo os detalhes da viagem, mas no dia 30 estava algures nos arredores de Salvador da Bahia, numa praia paradisíaca, com os amigos do Mateus num resort frente ao mar. Exausta, passei o primeiro dia a dormitar ao sol. Parecia-me uma fantasia estar de biquíni em dezembro do outro lado do oceano. O Mateus era real agora. Uma figura de carne e osso, com pensamentos que me eram familiares, mas cujo corpo estranhava. No dia seguinte, repeti a fórmula, banhei-me em água salgada e sol todo o dia, depois, preparei-me para a noite. Usei um vestido branco rendado -, vesti as cuecas azuis também rendadas e questionei-me se sob o contraste da luz não ficariam expostas – tudo como manda a tradição. Escrevi os meus desejos num papelinho que enrolei com uma pulseira do Senhor do Bonfim azul, a cor da Deusa do Mar, dei três nós, e coloquei na Santa. Iemanjá foi carregada até ao mar repleta de flores brancas, enquanto pousávamos as nossas flores e oferendas no mar, também. À noite, o areal da praia encheu-se de cocos a arder e no céu o fogo de artifício iluminou a escuridão.

Estava rodeada de pessoas, os amigos do Mateus, alguns familiares, as outras centenas de pessoas na praia, mas sentia-me só. Não estava em casa a comer as doze passas, estava em Salvador da Bahia a pedir desejos a Iemanjá, mas estava plena no meu sossego. O sossego é um alívio a que damos pouco valor. Senti um toque na mão, dedos entrelaçaram-se. Um ligeiro aperto. "Ainda bem que você veio. Espero que esteja feliz. Sabe, você tem tudo o que você precisa, mas teima em ser insatisfeita. Então olha, espero te ter dado um pouco de satisfação". Olhei o Mateus e este seria o momento em que nos beijaríamos. Os nossos lábios tocar-se-iam e um desejo incontrolável viria à superfície. Faríamos amor o resto da noite, numa cama de lençóis brancos, janelas abertas, cortinas dançando com o vento. Na manhã seguinte, juras de amor seriam trocadas e a despedida um tormento. A estória deveria terminar assim, não era? Mas não, à meia-noite, o Mateus beijou o Lourenço. Ele é bissexual, eu não tinha certezas, só suspeitas com ligeiros fundamentos.

No voo de regresso, depois de sensivelmente 72 horas no Brasil, pensava que pela primeira vez na vida não pedira saúde, amor ou dinheiro na passagem de ano. Não fizera uma lista interminável de desejos de mudança, objetivos para 2024, não cataloguei todos os aspetos da minha vida que quereria melhorar para depois apenas me deprimir frente ao fracasso da mudança lenta e resignada. Peguei num pequeníssimo pedaço de papel e escrevi apenas: "Iemanjá, que nunca perca o prazer de viver e que tenha sempre forças para perseverar". A minha psicóloga tinha razão, este foi mesmo o meu tipo de loucura.

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