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Histórias de Amor Moderno: “O meu batimento estava tão acelerado como da primeira vez que toquei a sério num rapaz”

“Não consegui suportar a ideia do que se seguiu: a rapariga engravidou. O Artur ia ser pai. Fui-me embora.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Foto: IMDB
13 de janeiro de 2024 Maria Olívia Sebastião

Já a meio dos anos 90 a Alanis Morissette, uma cantora canadiana muito inspirada de quem hoje ninguém se lembra, cantava uma frase que eu guardo comigo desde há muito: "Life has a funny way of sneaking up on you." Lembro-me tantas vezes dessa canção, uma música perfeita para acompanhar toda uma letra em torno da ironia – das ironias, desde os detalhes do dia a dia até às curvas e contracurvas maiores que o destino nos prepara e dispõe no caminho. Ao longo da canção, a cantora vai enumerando, são as colheres quando precisava era de facas, é a viagem de oferta quando acabou de a comprar e pagar, é o sinal de proibido fumar precisamente no lugar onde ia acender o cigarro e no momento em que decide fazê-lo.

Até a uma certa altura, eu ouvia essa letra com curiosidade e encontrava nela uma graça ingénua, juvenil, uma espécie de piada discreta e amarga – como o é a própria música que, longe de ser triste, sugere que nem tudo é um mar de rosas, mas sempre sem se deixar abater e esmorecer – própria dos tempos de descoberta. Mais tarde, com a idade e a experiência, fui descobrindo, entre as linhas daquele poema singelo e concebido para ser cantado, chaves para a interpretação de uma vida – a minha – de maneira a não me deixar ir abaixo, a pensar para comigo "caramba, como isto é irónico". Essa música salvou-me a vida.

Evaristo ou Domingos: o nosso filho teria um desses dois nomes. Não são os nomes mais bonitos e na moda, bem sei, mas têm várias particularidades. Por exemplo, são extraordinariamente portugueses, não são vulgares e não evocam grandes figuras da nobreza – que é um tique muito novo-rico que me causa desconforto, esse de chamar aos filhos os nomes que ostentaram, noutros tempos, os reis, os duques e os marqueses, na esperança iludida de, dessa forma, encaminhar os pequenos recém-nascidos a uma vida acima da classe média-baixa a que foram destinados (e é ver o mar de Duartes e Dinises, de Sebastiões e Afonsos que inunda os parques infantis do País). Além de tudo isso, são os nomes dos eventuais avós: Evaristo, o meu pai, Domingos, o pai do Artur, meu companheiro de então.

A questão dos nomes, sendo assunto sério, nunca foi tratada com gravidade. Não valia a pena. Eu puxava para Evaristo, o Artur puxava para Domingos, ríamo-nos, brincávamos, mas nunca foi motivo para chatices ou desavenças. A nossa vida a dois, feita de fresco, ia avançando e, à medida que avançava, íamos alimentando como podíamos a chama dessa fantasia que era ter um filho. O fervor inicial esbarrou rapidamente na consciência fria e bruta da vida real, demos por nós a fazer contas ao que implicaria termos um bebé. As contas, as responsabilidades, as alterações na vida, nos modos, nos tempos, nos rituais, nas liberdades, enfim, uma espécie de renascer para nós, pais, mãe e pai, tendo à nossa guarda o mais indefeso e amado dos seres: um filho.

No princípio, era a casa. A que tínhamos era pequena, então procurámos uma maior. Mas arrendar não era proveitoso, desperdiçaríamos dinheiro, então decidimos comprar. Procurámos, encontrámos, endividámos-nos, como todas as famílias se endividam. Com um volume de despesas superior, chegou a altura de procurar rendimentos alternativos, que passavam invariavelmente por um acréscimo de trabalho, pelo menos enquanto as funções e o desempenho profissional de cada um de nós não conseguiu o reconhecimento necessário para que nos tornássemos, cada um com seu talento, cada qual com sua profissão, desejáveis aos olhos de quem paga.

E com isto passaram-se oito anos: casámos relativamente cedo, eu com 28 ele com 29, e oito anos depois ainda andávamos nisto, à espera do momento certo para fazer um filho. E se, no início, mesmo não o fazendo, praticávamos com elevada frequência, com o acumular dos anos, o amadurecer das peles e o habituar dos corpos um ao outro, passaram a ser muitos mais os meses em branco do que as noites em claro.

Não gosto de arrastar situações que são fontes óbvias de transtorno, de desagrado e até de tristeza, mas faltavam-me forças para ter a conversa que se impunha. Andei hesitante durante cerca de dois anos, até que um dia, de um modo que até para mim foi surpreendente, chegaram-me à boca as palavras sonoras "Artur, precisamos de conversar". Eu disse isto e nem acreditei, porque não foi pensado – foi um impulso visceral, um espasmo inconsciente, como se Deus me tivesse posto na boca as palavras e os sons de maneira a tornar inevitável aquilo que até então tínhamos andado a evitar: a conversa. O Artur olhou-me e nada disse. E eu percebi, percebi de tal maneira que não lhe perguntei o quando: perguntei-lhe somente se queria ou não. "Não temos de pôr as coisas assim", respondeu-me, e levantou-se, levantou o prato, limpou-o para o caixote do lixo, passou-o por água. "Artur, o meu tempo não é igual ao teu tempo. Se não queres ter um filho, tens de mo dizer já. Não é justo que me mantenhas refém de uma dúvida, de uma possibilidade que pode não vir a concretizar-se." Enquanto enxugava as mãos, disse-me friamente: "Alice, faz o que tiveres a fazer. Não me pressiones." E saiu.

Quando o Artur saiu, a sua saída foi cénica, dramática. Saiu para onde voltaria a sair uma e outra vez nos tempos seguintes. Foi saindo. Até que, certo dia, antes que ele saísse de novo, decidi que seria eu a sair. Esperei que ele chegasse a casa, eu estava sentada à mesa, tinha duas malas feitas ao meu lado e o casaco vestido. Já não fumava, na altura, mas decidi acender um cigarro para acrescentar densidade à personagem que ia encarnar (e acerca da qual eu tinha milhões de dúvidas e inseguranças). Soube-me mal, tossi, apaguei o cigarro. O Artur entrou, "estiveste a fumar? Esteve aqui alguém?", perguntou antes que eu pudesse falar. "Esteve, mas já não está, meu amor: estou de saída. Não venhas atrás de mim." Ele olhou-me com espanto e segurando um sorriso, como se pensasse – e eu aposto que pensou mesmo – "mas porque é que eu havia de te seguir?" Feito o meu número, saí. Deixei a minha chave na porta.

Na época, nos subúrbios de Lisboa os preços não eram exorbitantes como são agora, pelo que consegui sair dali e mudar-me para um lugar razoavelmente próximo. Foi bom porque me permitiu manter o emprego e boa parte dos hábitos e rotinas; foi mau porque cedo percebi que o Artur tinha outra pessoa – mais nova, mais bonita, mais fresca. Por mais que o detestasse, eu ainda o amava. Custou-me aceitar. Porém, não consegui suportar a ideia do que se seguiu: a rapariga engravidou. O Artur ia ser pai. Fui-me embora.

Dei por mim a viver numa aldeia nos arredores de Castelo Branco. Não consigo precisar o que aconteceu, desconheço os detalhes do processo, foi como se eu tivesse fechado os olhos durante meses e fosse dizendo que sim a tudo só para escapar dali, escapar daquilo, fugir, não ver, fingir que nada daquilo existia. Só caí em mim algum tempo mais tarde. Lembro-me perfeitamente: estava no meu terraço a tomar um chá e comecei a rebobinar a memória, tudo o que me tinha acontecido desde que eu soubera da notícia. Só mais uma ironia: chamaram Domingos ao miúdo. Àquele que podia ter sido o meu filho. Life has a funny way.

A desesperança e a tristeza profunda acabaram por dar lugar à calmaria, à paz e ao reencontro de mim comigo. É todo um processo, não é coisa que aconteça em dois dias. É preciso aceitar, é precisar chorar, sofrer, carpir, e depois é preciso relativizar, respirar fundo, parar. E, no fim de tudo, é abrir a porta da rua e começar de novo. Há dias novos, há pessoas novas, ideias, lugares. E com eles vêm novas amizades, novos aniversários, novas datas importantes; eventualmente uma viagem, e outra; e mais tarde uma viagem só a dois, a descoberta de um novo mundo, que desconhecíamos, brindes sinceros, olhares profundos, olhos nos olhos, as mãos dadas, uma nova adolescência, uma segunda oportunidade. Talvez o amor.

O tempo passou e o Artur, que tinha desaparecido da minha vida, um dia mandou-me mensagem numa rede social. Dizia que me queria ver, que precisava de falar comigo, de pedir-me desculpas pessoalmente. Disse-lhe que estava longe, que a minha vida era outra, que me mudara para Castelo Branco. Respondeu-me que não fazia mal, que era importante para ele. Disse-lhe que tudo bem, que viesse. Dei-lhe a minha morada e o novo número de telefone. Não foi preciso uma grande pesquisa no Instagram para perceber que ele se tinha separado da miúda – Samantha, com "h".

Quando ouvi o toque da campainha, estremeci. Inspirei o mais que pude, o meu batimento cardíaco estava tão acelerado como da primeira vez que toquei a sério num rapaz. Levantei-me e dirigi-me lentamente até à porta. Eu usava nesse dia um vestido ligeiro de manga curta, era primavera, estava calor. Abri a porta e lá estava o Artur. Disse "olá" e depois a voz embargou-se-lhe, como se se engasgasse ou se o oxigénio tivesse expirado repentinamente e ele não soubesse o que fazer sem ar. Fixou-me na barriga e dos seus olhos esbugalhados começaram a escorrer lágrimas de silêncio e de arrependimento, mas sobretudo de perda. E eu disse-lhe "vai-se chamar Evaristo".

* Se conhecer uma história real envie-a para m.oliviasebastiao@gmail.com. As suas ideias podem dar origem à história do próximo sábado.

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