Atual

Pode o Natal ser o pior pesadelo de um casal?

Prepare-se, não vai ser fácil. Se lhe serve de consolação, não é para ninguém. Mantenha a determinação e a esperança: lá para o décimo já estará tudo resolvido.

Emilia Clarke e Henry Golding em 'Last Christmas' (2019)
Emilia Clarke e Henry Golding em 'Last Christmas' (2019) Foto: IMDB
21 de dezembro de 2021 Isabel Stilwell

Esqueçam lá isso do Tinder. Se isto das relações se resolvesse com selfies e algoritmos já estava meio mundo feliz no amor e na cama, e a aplicação obsoleta. Não sobravam candidatos a programas televisivos de casamentos à primeira vista e os romances bucólicos com agricultores produziriam uniões eternas e à prova de bala. Digo-vos eu, que ando a pensar nestes assuntos há muitos lustres e todos os anos engulo doze passas para que as minhas amigas sozinhas encontrem finalmente a alma gémea.

Nope, nada disto é simples e, na verdade, ainda está para nascer quem saiba o que faz um casamento resultar. Mesmo aqueles que têm o privilégio de acordar todas as manhãs com a pessoa que amam, não conseguem explicar a fórmula do sucesso. 

Mas no meio de tanta incerteza de uma coisa estou segura: as relações tremem no Natal, e só passam de ano à custa de muito Xanax, ou equivalente alcoólico, implicando o engolir de sapos. Em regime de pandemia e semi-confinamentos, com testes e certificados de vacina pelo meio (ou a falta deles), tudo só pode piorar, de tal forma que desconfio que os notários deviam abrir logo a 1 de janeiro de 2022, para evitar o pior.

Mas comecemos pelo princípio. Os primeiros anos de celebrações natalícias em comum são de uma dificuldade equivalente ao Iron Man, porque quando julgamos que sobrevivemos à prova da natação, ainda falta a de bicicleta e a maratona. Ambos querem um primeiro Natal perfeito, mas simultaneamente cada uma das partes está disposta a dar a vida para que se realize segundo as suas tradições. Que são muito mais do que "hábitos", porque contém em si as memórias das pessoas que amámos e já perdemos, de uma infância que não se repete, de nostalgias que embelezamos com a passagem do tempo, tornando-as tão brilhantes e douradas como a estrela que penduramos no ponto mais alto da árvore. E, por isso, irrepetíveis.

O pior é que o outro tem as dele. De que se recusa a abrir mão. E, de repente, discute-se tudo, da logística ao menu. Era o que faltava passar a noite em casa da mãe dele/a, impensável trocar o bacalhau pelo peru ou o peru por camarões, está tudo doido? Rabanadas compradas?! Uma coisa é não gostar de cozinhar 364 dias por ano, outra é recusar-se a pôr a mão na massa e encher a casa daquele delicioso cheiro a fritos que ele associa em absoluto ao dia 24 de Dezembro. Até a sogra não resiste a reagir, oferecendo-se para lhe passar a receita, o que é igual a acender o rastilho da pólvora.

E depois implica-se. Implica-se quando ela se recusa a por a uso os talheres de prata e os copos de cristal do enxoval porque não vão à máquina (e sabe bem quem os vai lavar), e implica-se porque ele entrou em casa com as botas cheias de lama, ou se sentou a ver um jogo de futebol em lugar de aspirar a sala. Implica-se por tudo, é o que eu acho, e em menos de nada o cansaço, as feridas mal curadas, os obstáculos que se julgavam superados parecem regressar ao mesmo sítio, inamovíveis. Até o facto de ela dizer "prenda" e ele "presente", ou dar dois beijinhos, em lugar de um, assumem proporções extraordinárias e, ping, vêm as lágrimas, as dúvidas e as angústias — foi para isto que casei!?

O segundo ano custa menos, o terceiro a coisa vai, ao quinto o primeiro filho baralha tudo outra vez, só lá para o décimo —sim, demora tempo — é que a coisa acontece sem demasiados sobressaltos. Por essa altura já se recriou um Natal de marca própria, uma "fusão", em sentido culinário. Porque, afinal, envelhecer não tem só desvantagens! Feliz Natal. 

Saiba mais
Natal, casais, família, tradições, crónica
As Mais Lidas