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Crónica Dating em Lisboa. “Marquei um date para ter um jantar grátis e nem a sobremesa compensou"

"A meio do jantar, já totalmente consumida pelo desespero, o meu telemóvel vibrou e no ecrã podia ler-se: "Então, jeitosa. Estás em casa?". Vi a mensagem de soslaio e ignorei. Decerto terei revirado os olhos e mordido a bochecha em jeito de: "Ah, agora querias, não é? Pois, agora estou num date com outro".

Sexo Sem Compromisso (2011).
Sexo Sem Compromisso (2011). Foto: IMDB
19 de maio de 2023 Maria Pestana

"Desculpa, sobre o que é que estávamos a falar?", disse o Nuno passados uns minutos de nos sentarmos à mesa. Arrebitei a sobrancelha, notando que algo de estranho se passava, e ele continua: "Isto é um bocado chato, mas tenho um problema de perda de memória a curto prazo. Por isso, é-me mais fácil falar por mensagem, quando me esqueço volto atrás e releio". "Ahhhh, claro", pensei enquanto me elucidava sobre a sua condição e se desculpava. Disfunção erétil, mommy issues, ghosting e agora o universo decide ser completamente inovador e enviar-me alguém com problemas neurológicos – eu sei, sou uma pessoa horrível e se calhar o universo até sabe o que faz. Esbocei um sorriso face à ironia da situação e à minha (pouca) sorte. "Que chato, realmente. Tinhas acabado de fazer uma piada engraçada. Anyway, vamos pedir?", respondi.

Na verdade, eu andava entusiasmada a trocar mensagens com outro tipo que tinha conhecido também no Tinder, mas ainda não estava completamente convencida e continuei a fazer os meus swipe lefts e swipe rights até me deparar com o Nuno. Bonitinho, da linha de Cascais, ex-comissário de bordo, com um negócio em alojamento local, parecia perfeito para um tira-teimas sem grandes compromissos. Não me recordo quem enviou a primeira mensagem, mas assim que começámos a falar achei-o amoroso. Para quem é especialista nestas coisas do online dating sabemos que "amoroso" não é propriamente o adjetivo que procuramos para definir alguém com quem tencionamos, eventualmente, estar – os "amorosos" não se costumam traduzir em homens que "encostam à parede" e quem já foi encostada à parede sabe do que falo, mas vai que o rapaz surpreende? Nunca se sabe…

Quando me disse que vivia em Carcavelos falei-lhe de um restaurante madeirense que adoro e ele disse logo que lá podíamos ir. Ardilosa como sou arranjei forma de ser convidada para jantar em menos de 2 ou 3 horas de conversa e o Nuno veio buscar-me, óbvio. "O que um homem com tesão não faz", dizia a minha colega de casa. "O que uma mulher entediada não consegue", disse eu e ambas ríamos, porque sabíamos que eu estava apenas aborrecida porque o outro não me tinha convidado para jantar e, portanto, decidira explorar as minhas possibilidades como vingança silenciosa. O que se traduz em sacar um jantar "à borla" ao primeiro tipo simpático que encontrar.

Claro que à minha insensatez o cosmos decidiu adicionar algo de absurdo e caricato e tornar o meu date completamente inenarrável. Eu falava, ele perdia-se pelo meio. Ele falava e quem ficava confusa era eu. Ouvi tantos: "Estava(s) a dizer o quê?" que deixei de contar e deixei de fazer conversa também. Sorria e acenava. Pelo menos a comida estava ótima, como sempre. Lembro-me perfeitamente que comi um belo bife de atum com migas de milho e alho francês que me fizeram salivar – vá lá, algo fez -, e o vinho entreteve-me. A meio do jantar, já totalmente consumida pelo desespero, o meu telemóvel vibrou e no ecrã podia ler-se: "Então, jeitosa. Estás em casa?". Vi a mensagem de soslaio e ignorei. Decerto terei revirado os olhos e mordido a bochecha em jeito de: "Ah, agora querias, não é? Pois, agora estou num date com outro", mas depois ocorreu-me o quão miserável estava a ser e não podia fazer mais nada senão rir de forma discreta enquanto pegava no copo ou ajeitava o cabelo. De facto, o karma é tão, mas tão lixado. Não respondi, obviamente.

No dia anterior, tínhamos bebido um café perto de minha casa e tinha-o achado distante, meio desinteressado. Não quis subir, não quis jantar, e eu a precisar de uma aventura, de um entusiamo, de algo que me distanciasse de mim mesma nos momentos em que já nem eu me aguento mais e me acho uma pasmaceira. Agora, queria saber se estava em casa... Não respondi, é certo, mas ansiava por chegar a casa para poder responder sem pressas. A partir desse momento, acelerei o fim do encontro. Pedi a sobremesa à pressa e despedi-me do Nuno sem demoras. Subi o lanço de escadas até ao terceiro andar a correr, entrei em casa, atirei os sapatos e lancei-me para o sofá já com a resposta pronta a ser enviada. Porém, não podia ter sido mais apanhada de surpresa: "Como foi o teu date?". Reli. "Como foi o teu date?". Mas como assim, como foi o meu date? Como é que ele poderia saber que eu estava num date? Esteve à minha espera? Viu-me a chegar com outro? Mas que raio. Temi estar perante um stalker! Afinal, não havia razões para me surpreender em casa ou aparecer sem avisar.

Na verdade, estava apenas perante alguém com dois dedos de testa e um pouco de inteligência. Perguntei porque achava que tinha estado num date, meio que admitindo e mortinha por saber como tinha sido apanhada. "Fácil. Enviei-te mensagem pela hora de jantar, respondes às 23h. Sinal de quem teve um date que não terminou em sexo – felizmente para mim". E é assim, senhoras e senhores, que se desarma alguém que se acha muito espertinha. A bem dizer, tive o meu jantar sem pagar, mas preferia mil vezes ter-me poupado ao aborrecimento da situação e ter desfrutado do habitual jantar millennial – um prato de sopa e um copo de vinho de qualidade razoável. "Vou passar aí. Desces em 15 minutos?". E 15 minutos mais tarde abria a porta do prédio e fazia o meu walk of shame até ele, que se encontrava encostado ao carro a fumar um cigarro. Cheguei até lá tímida, com "o rabo entre as pernas", esperando a reação. Observei-o. Ajeitei-lhe o colarinho da camisa e mordi o lábio. "Maria, não gosto de competições. Vais-te deixar disso?". Puxei-o para mim e beijámo-nos.

No dia seguinte, recebi uma mensagem do Nuno perguntar se queria ir ver o pôr-do-sol à praia. Agradeci o convite, mas neguei educadamente. "Podes explicar-me o que se passou? Pareceu-me que nos tínhamos dado bem", questionava o pobre do Nuno. Dei-lhe a resposta clássica: "O problema não és, sou eu. Estou apaixonada por outro".

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