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Pangaia, Tommy Hilfiger ou COS. E se lhe dissermos que as peças são feitas em Portugal?

Discretamente, a indústria têxtil portuguesa faz o seu caminho, com boas práticas e uma visão de futuro que passa pela sustentabilidade. É no norte do país que tudo acontece.

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21 de outubro de 2020 | Joana Moreira

Só com GPS lá chegamos, e com direito a alguns enganos. Em Cavalões, Vila Nova de Famalicão, esconde-se a Scoop marca da Scorecode Têxteis. Especialista em vestuário técnico, a empresa é um exemplo de sustentabilidade, inovação e responsabilidade social, em que termos como "reciclagem" ou "upcycling" não são uma novidade, mas antes léxicos que dominam. Produzem para marcas como Tommy Hilfiger e Calvin Klein, mas também para novos talentos que levam criatividade à London Fashion Week.  

"A indústria têxtil é como todos sabemos uma das indústrias mais poluentes do mundo, e durante muitos anos havia aquela ideia de que não havia solução para isso", diz Mafalda Mota Pinto, CEO da Scoop. No que descreve como "um ataque de loucura", pediu a uma pessoa da equipa da área de investigação para fazer um levantamento de todos os resíduos têxteis produzidos na fábrica. A partir daí, "traçamos em conjunto um processo de reutilização ou transformação desse resíduo para uma nova aplicabilidade", explica.

Mafalda Mota Pinto, CEO da Scoop, com um casaco feito integralmente de etiquetas antigas.
Mafalda Mota Pinto, CEO da Scoop, com um casaco feito integralmente de etiquetas antigas.

Porquê começar pequeno quando sabia como chegar aos "grandes"? Lançou o desafio a um dos seus maiores clientes: Tommy Hilfiger. Na fábrica portuguesa a marca tinha acumulado 150 quilómetros de sobras, restos. "Olhei para aquilo e pensei ‘porque é que isto não há de ser o meu maior ativo?", lembra Mafalda. Em 2016 saiu a primeira coleção cápsula da marca norte-americana totalmente feita a partir de lixo. Uma coleção de loungewear. "É isto que chamamos na indústria têxtil de upcycling", explica. Por outras palavras, trata-se de voltar a introduzir o desperdício na cadeia de valor e valorizar. Mas não foi fácil. "Para resumir, andei cerca de dois anos para ultrapassar as barreiras políticas, legais, de compliance, etc, de uma marca como a Tommy Hilfiger", assume. Foi só o início. O conceito estava provado. "Foi vencer um paradigma, foi uma vitória. Foi para provar que era possível transformar [lixo] numa coisa bonita." Hoje, a Tommy Hilfiger produz uma coleção por ano totalmente a partir de desperdício. 

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"A maior parte das marcas não sabem o que deixam para trás, algumas nem querem saber."

Foi o pontapé de saída que lhe deu coragem para entrar noutras áreas. Para a Cordova, marca norte-americana de roupa de esqui de luxo, e que também ali se produz, fazem-se agora testes com carteiras, feitas a partir das sobras de tecido do corte dos fatos.

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"A maior parte das marcas não sabem o que deixam para trás, algumas nem querem saber. O meu objetivo é ser parceira do meu cliente e gerar negócio a partir do desperdício dele", diz Mafalda. Nas vendas da empresa, que em 2019 faturou perto de 11 milhões de euros, o upcycling representa ainda uns tímidos 5%. Mas a expectativa é crescer. "O Covid-19 nesse aspeto veio ajudar um bocadinho, porque surgiram estas marcas todas pensadas para a sustentabilidade, mais ligadas a esta área, e estamos a prever um volume de faturação já resultante das áreas de upcycling na ordem de 1 milhão e meio. Vamos quase dobrar o ano passado", adianta.

Sustentabilidade: futuro para uns, presente para outros

"Todas têm essa preocupação (...) É fácil se for uma coleção pequenina. Mas efetivamente as grandes marcas não sabem como lá chegar, porque é demasiado grande para controlar", refere Mafalda.

Porém, desengane-se quem pense que quando se fala de upcycling se fala apenas de coleções cápsula de poucas unidades. Os resíduos permitem fazer coleções com volume, como explica a CEO da Scoop: "[as marcas] têm mesmo muita coisa. Há muito desperdício. As pessoas perguntam-me muito ‘e quando acabar?’ Quando acabar sou a mulher mais feliz do mundo (risos)."

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Enquanto algumas marcas vêm na sustentabilidade o futuro, para uma nova geração de designers a sustentabilidade é assunto do presente. "Há [uma maior predisposição], sem dúvida nenhuma. Neste momento os designers que já estão a sair das faculdades já têm essa consciência e já tem isso como parte integrante, a sustentabilidade, dos seus cursos", diz a CEO.

A provar que a sustentabilidade está na ordem do dia, e no âmbito da Capital Verde Europeia, Lisboa vai receber a 23 de outubro a Sustainable Fashion Business, uma conferência dedicada inteiramente à sustentabilidade e ao futuro da Moda, com a produção da Kind Purposes, consultora portuguesa especializada em soluções sustentáveis na área da Moda. Na Academia das Ciências de Lisboa vai ser possível ouvir (presencialmente ou via streaming) oradores nacionais que têm "revolucionado a produção de moda sustentável", mas também novos designers que fazem sucesso internacionalmente. No caso destes últimos, não é preciso muito esforço para adivinhar o que diz na etiqueta. Sim, é made in Portugal.

É o caso de Priya Ahluwalia, uma das vencedoras do prémio LVMH (este ano excecionalmente atribuído aos finalistas). As peças são fabricadas na mesma morada em Cavalões. "Temos uma parceria muito próxima com ela, uma relação muito boa", garante a CEO da Scoop. Mariah Esa é outro dos nomes da Moda britânica emergente que chegou até à fábrica portuguesa. Uma das peças que ali se produz é um casaco 100% feito de etiquetas velhas e usadas. Não tem qualquer tecido adicional, é feito apenas de etiquetas. Está à venda na Farfetch.

Nos corredores da fábrica encontramos outras marcas como Lola Studio ou Martine Rose. "Não podemos esmorecer, temos agora que manter o ritmo", diz Mafalda com entusiasmo. Muitos destes novos designers chegam pelas mãos de Dio Kurazawa, fundador da The Bear Scouts e consultor da Copenhagen Fashion Summit. É ele o elo de ligação, que faz a ponte entre os jovens criadores e a empresa portuguesa. "Funciona muito numa base de interação e de parceria. Agora, por exemplo, tenho um stock muito grande de cachecóis. Lancei o desafio para ele e ele lança para a sua rede de designers a ver se algum se interessa em fazer uma coleção nova com cachecóis de desporto antigos, que também são outra praga no ambiente", explica Mafalda.

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Consumir menos (mas melhor)

Já olhou para a bandeira de Portugal erguida no topo do Parque Eduardo VII? Foi produzida com lixo dos oceanos e foram necessárias duas toneladas de plástico. A bandeira veio de Santo Tirso, de um enorme edifício à face da estrada nacional, em Rebordões. É lá que encontramos a fábrica da LMA Textiles, a empresa portuguesa especializada no segmento desportivo e com um portfólio que inclui as grandes marcas de desporto internacionais. Nike, Puma, Adidas são apenas três das marcas para as quais a fábrica portuguesa produz, mas há outras, como a britânica Sweaty Betty ou a canadiana Lululemon. Na LMA fazem-se malhas com um grande foco na sustentabilidade, e usa-se pouco algodão, por ser pouco resistente quando se fala de desporto ativo. Trabalha-se sobretudo com poliamida, que tem "um comportamento de maior longevidade", e aposta-se em fio reciclado. "A maioria das marcas de desporto hoje em dia só usam fio de origem reciclada. São marcas que estão a comprar reciclado, mas que não têm intensão que a peça deles venha a ser reciclável", explica Alexandra Pinho, CEO da LMA Textiles e membro da direção da ATP.

"A ideia hoje é essa, reduzir o consumo e ter produtos de maior durabilidade".

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Alexandra é pragmática: "as compras não vão desaparecer, mas vamos comprar menos (…) Se tiver uma t-shirt de corrida que dure… A ideia hoje é essa, reduzir o consumo e ter produtos de maior durabilidade".

Com muitas marcas de desporto como clientes (cerca de 80%), Alexandra sente na pele a mudança do mercado na procura por uma produção responsável. "As grandes marcas de desporto são da Europa, da Suíça, uma ou outra alemã, da Lituânia, da Noruega. Hoje estamos a trabalhar muito com a Puma. A Puma decidiu há dois anos que tinha que passar uma grande produção de África para cá. Queriam passar para a Europa. Porque são alemães e não podem andar a apregoar a sustentabilidade das coisas bonitas e depois pôr tudo a passear de navio", remata.

Corredores e corredores de fio, na fábrica da LMA Textiles
Corredores e corredores de fio, na fábrica da LMA Textiles Foto: DR
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O apelo por Portugal é evidente, mas, para as empresas que trilham o caminho, não é um sprint, é uma maratona. "Há mais de sete anos que fomos obrigados pelas marcas de desporto internacionais, que são os nossos clientes finais (…), a fazer algumas certificações ambientais, sérias, de contabilização de água utilizada em todo o processo, de informação específica de produtos químicos utilizados no tingimento, que tipo de tintas, que tipo de corante (…) Estas certificações trazem-nos alguma segurança e conforto, e aos compradores."

"A sustentabilidade não é uma coisa só de conversa, ou de dizer que somos sustentáveis. Nós temos auditorias internas constantes. Muitos deles [auditores] são pessoas que fazem auditorias em todo o mundo e chegam cá e ficam bastante surpreendidos com a lei portuguesa", garante Alexandra.

Fábrica do futuro

Quase cheira a tinta fresca quando entramos pela Valérius 360, em Vila do Conde. A nova fábrica é um projeto de 20 milhões de euros e é completamente dedicada à reciclagem têxtil. "Esta empresa quer fechar o ciclo", diz Patrícia Ferreira, Business Development Manager do grupo Valérius. Moschino, Givenchy, COS, Lacoste, Ralph Lauren, Topshop, River Island, Inditex são apenas algumas das marcas produzidas pela Valérius, cuja sede é em Barcelos.

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Sacos de desperdício, organizados por cores, que deixam adivinhar as peças produzidas pela Valérius
Sacos de desperdício, organizados por cores, que deixam adivinhar as peças produzidas pela Valérius Foto: DR

Só que esta fábrica é diferente. Aqui não há peças, mas apenas restos, muitos restos. É essa a matéria prima para o que aqui se produz: novo fio que depois originará novas peças. Tudo é separado por cores e composições, e por isso vemos sacos e sacos de matéria prima catalogados por cor e material. "O nosso core business seria o desperdício do corte das nossas mesas de corte (…) em média cada produção que nós fazemos tem 20 a 25% de desperdício", revela. É esse desperdício que é aproveitado para produzir novo fio.

Saltam à vista os sacos gigantes que adivinhamos pelas cores a que marcas pertencerão: serão o desperdício dos populares fatos de treino da Pangaia? Provavelmente.

A marca de Miroslava Duma, influenciadora russa e figura incontornável da indústria, tornou-se um sucesso de popularidade durante o confinamento graças aos seus fatos-de-treino monocromáticos que invadiram o feed do Instagram. É uma das que estreia a Valérius 360. A relação com a marca aconteceu antes da pandemia, mas foi durante os meses de isolamento que as coisas cresceram. "É giro como as crises trazem inovação e novas soluções para o mercado", diz Jorge Miguel Ribeiro, Chief Growth Officer da Valérius.

De perder de vista a fábrica Valérius 360.
De perder de vista a fábrica Valérius 360. Foto: DR

Com a mesma composição e a mesma cor, salvam-se assim os excedentes de fábrica, produz-se novo fio com qualidade e a partir de um material que, de outro modo, acabaria queimado ou em aterro.

A fábrica, que parece saída de um filme futurista, é a prova que Portugal está no mapa no que toca a fornecer soluções sustentáveis às marcas de moda mundiais. Mas a Valérius tem grandes ambições que passam pelo futuro, sim, mas próximo: em 2025 metade da roupa que produzem provirá de matéria-prima reciclada.

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