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Beleza

A nossa vagina é limpa. O capitalismo é que nos faz pensar o contrário

O capitalismo e o patriarcado estão unidos na mesma empreitada: convencer-nos que há algo errado com a nossa vagina. A última modalidade são as (muito danosas) tendências do TikTok.

Foto: Pexels
29 de janeiro de 2024 Clara Drummond

Há muita gente a lucrar cada vez que uma mulher se sente insegura com o próprio corpo. No capitalismo, quanto mais insegurança, melhor. Nós nunca estamos magras o suficiente, o cabelo nunca está tão luminoso quanto deveria, os poros precisam de encolher ainda mais – na realidade, precisam desaparecer. Mas, calma, sem desespero, haverá um qualquer produto que resolve essa questão (spoiler: muitas vezes, não resolve nada). O último problema imaginário diz respeito à limpeza íntima feminina. No TikTok, o hashtag #femininehygieneproducts tem 31,3 milhões de visualizações e #femininehygiene acumula 1,4 mil milhões. Os vídeos falam de supositórios naturais para desintoxicar o útero, vapor com ervas para melhorar o cheiro vaginal e ovos "Yonni" de pedra natural que servem para fazer pompoarismo (uma técnica oriental que serve para melhorar e aumentar o prazer sexual) e que, supostamente, renovam as energias. Os produtos e as técnicas ora são inúteis, ora são nocivos.

A verdade é que a vagina é um órgão inteligente que, em condições normais, não precisa de limpeza extra, basta usar um sabonete neutro na área externa, e é só. Por ter glândulas sudoríparas, produz cheiro quando há suor, assim como acontece noutras partes do corpo. "A crença é que a vagina é suja, que não tem um bom cheiro, que precisa de ser limpa. É mentira", diz Ana Carvalheira, sexóloga, psicóloga e professora no ISPA. "A vagina saudável é um ecossistema vivo que se mantém por si próprio. O seu fluxo estável e contínuo não deve ser perturbado por produtos limpantes. E o microbioma vaginal é facilmente perturbado se usarmos os produtos químicos que a indústria quer vender, como gel de limpeza e toalhinhas." 

As tendências das redes sociais só exacerbaram algo que não é de hoje. "A vagina é descrita em livros médicos como um sítio pouco limpo, de cheiro duvidoso. Ou seja, sempre foi representada de forma negativa, principalmente em comparação com o pénis, que também tem um cheiro característico, mas não tem a mesma reputação", diz a sexóloga Vânia Beliz. A misoginia pode ser antiga, mas ganha uma nova potência quando se junta à sociedade de consumo. Em 2022, o mercado de higiene íntima feminina gerou 43 mil milhões de dólares, com expectativa de crescimento de 5% por ano, conforme mostra a última pesquisa da plataforma de dados Statista.

Entre os produtos mais populares está o pó de talco infantil, utilizado por mulheres adultas tanto na vagina, como na vulva (aliás, é importante lembrar: a vulva é a parte exterior da genitália; a vagina é a parte interior). O problema é que o pó de talco infantil pode conter amianto, uma substância extremamente cancerígena. Em 2018, a Johnson & Johnson foi condenada a pagar 4 mil milhões de dólares a um grupo de 22 mulheres nos Estados Unidos que contraíram cancro do ovário depois de usar o produto da marca – infelizmente, seis destas mulheres morreram nesse mesmo ano.

Portanto, a falta de informação é muito mais prejudicial ao bem-estar da mulher que os problemas imaginários alardeados nas redes sociais. "Os temas que são alvo de muitos preconceitos geram estigmas e, por isso, são mal abordados pelos profissionais de saúde, pelos media e pelas pessoas em geral. Isso vale para a saúde mental, para a saúde sexual e tudo o que envolve a saúde da mulher, como menstruação, menopausa e gravidez. O machismo cria várias ideias falsas sobre a vagina, insinua que a vagina tem um cheiro desagradável, que é suja… E a indústria aproveita essas ideias para criar produtos que vão ao encontro desses estigmas. E, pior: vende esses produtos com uma embalagem feminista e empoderadora quando na verdade está apenas a reforçar estigmas antigos", diz Mariana Varela, cientista social e jornalista de saúde.

Mesmo uma solução básica de vinagre de maçã e água – que, em tese, combateria infeções fúngicas – deve ser evitada. O duche de vinagre com água pode causar irritação, piorar situações anteriores de inflamação, prejudicar a fertilidade e alterar o pH da área. Já as soluções prontas, compradas na farmácia, podem conter antisséticos, parabenos e fragâncias. 

A ameaça do mau cheiro é onipresente nas propagandas de higiene íntima feminina. Este ano, um anúncio de Gyno-Canesbalance, que é um remédio para vaginose bacteriana, foi alvo de críticas por comparar o cheiro vaginal ao cheiro de peixe. No caso, a vaginose bacteriana é uma infeção clínica que deve ser tratada com o medicamento adequado, o que é diferente de procurar cosméticos para alterar o cheiro natural da vagina. Na maioria dos países, cosméticos e medicamentos são regulados de maneira diferente, uma vez que os medicamentos entram na corrente sanguínea, e por isso precisam de obedecer a critérios mais rigorosos, e os cosméticos, não. Da mesma forma, o medicamento é indicado por um médico especialista, enquanto o cosmético fica ao critério de cada um.

O problema é que, embora exista uma ampla variedade de formatos de vulvas, a representação disponível não é muito realista, principalmente considerando que o nu feminino é muito difundido. Um estudo publicado no International Journal of Gynecology & Obstetrics, feito por investigadores do Hospital Elizabeth Garrett Anderson, em Londres, indica claramente como a discrepância entre ficção e realidade é uma das causas do aumento de cirurgias estéticas íntimas: "Existem poucos relatos na literatura sobre a aparência genital feminina ‘normal’ e o posicionamento exato da vagina, clitóris, lábios e uretra. No entanto, esta informação é crucial para cirurgiões e pacientes na avaliação da cirurgia genital estética. Há o risco, na cirurgia genital, de perturbação dos nervos e vasos sanguíneos, o que pode afetar a capacidade de prazer sexual." O estudo também mostra o contraste com a genitália masculina, cujas medidas são tema de publicações médicas desde pelo menos 1899.

"A autoimagem genital feminina é muito negativa. Já a masculina é enaltecida e admirada há séculos. Há frescos em Pompeia que mostram um pénis em cima de uma balança", diz Ana Carvalheira. Assim, mesmo que nem que todas as mulheres recorram a medidas extremas, como cirurgias íntimas e técnicas virais das redes sociais, as consequências são sentidas no quotidiano. "A frequência dos orgasmos está associada à autoimagem genital feminina: quanto mais orgasmos, mais autoestima. Da mesma forma, quanto maior a frequência da masturbação, mais autoestima. Em geral, mulheres que aderem a padrões sexuais mais conservadores e estritos têm uma autoimagem genital mais negativa", diz Filipa Chaves, aluna do ISPA que estuda a ligação entre a autoestima e a genitália feminina.

O estudo referido acima também mostra a influência dos media modernos na autoestima genital feminina, como a pornografia e as redes sociais. "O grupo de mulheres que têm autoestima genital mais baixa são as que têm entre 18 e 30 anos. O TikTok tem um algoritmo que nos traz esse tipo de conteúdo – sem o termos pesquisado – com o objetivo de vender produtos.a pornografia, por mais que pressuponha uma escolha, entranha no nosso subconsciente de modo indireto, construímos uma imagem do que é normal, e acreditamos naquilo", continua Filipa.

Para as mulheres que, ainda assim, querem fazer o possível para manter as suas partes íntimas impecáveis, as indicações são simples: além do sabonete neutro somente na área externa, é bom que as cuecas sejam sempre de algodão, ou ao menos com forro interno de algodão, devem ser lavadas com sabão de coco ou neutro, e a secagem deve ser em ambiente arejado, já que a humidade da casa de banho favorece a proliferação de bactérias. É verdade, por vezes a solução mais eficaz não rende muitas visualizações no TikTok.

*A jornalista escreve em Português do Brasil.

*Artigo originalmente publicado na revista que celebra os 35º anos da Máxima.
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