Beleza

Cirurgia estética. O que procuram as mulheres e homens hoje?

Especialista em cirurgia plástica e medicina estética, Sofia Santareno fala sobre o impacto da sua "arte manual" na saúde mental, da mudança de paradigma nesta área, e de como este tipo de procedimentos deixaram de ser tabu.

Foto: Getty Images
09 de abril de 2021 | Rita Silva Avelar
Sofia Santareno é uma das mulheres a mudar o estado de coisas quando se fala em cirurgia plástica e medicina estética, em Portugal. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, e teve o primeiro contacto com a área no Serviço de Cirurgia Plástica do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte.

Foi o rosto da abertura das inovadoras clínicas Dr. Well's, antes de, em 2018, se aventurar num projeto em nome próprio, do qual é fundadora e diretora clínica - a Clínica Dr. Pure, em Lisboa. É aqui que se espelha a sua forma de pensar, que passa por impactar a vidas dos outros, e por isso pensar primeiro que tudo em como pode mudar a vida das pessoas para melhor, sem nunca comprometer o lado psicológico. Disclaimer: só é aceite para cirurgia quem esta médica e a sua equipa (onde se inclui uma psicóloga) considerar que está mentalmente consciente e apto para a fazer.

Espere de Sofia Santareno explicações descomplexadas, pois também domina a palavra (fez Teatro, em adolescente) e tem a leveza de quem viveu numa ilha (a da Madeira, apesar de ter nascido em Coimbra). Em 2019 realizou o fellowship em Cirurgia Plástica Estética Corporal, Facial e Rinoplastia com o Prof. Dr. Suleyman Tas na Tas Klinik, em Istambul, na Turquia, onde aprendeu e desenvolveu investigação. Foi colaboradora dos médicos Giovanni Botti e de Chiara Botti na Villa Bella Clinic, em Saló, em Itália.

Tem vários artigos publicados em revistas indexadas, e já venceu três prémios na área da Cirurgia Plástica, um deles internacional, pela Reunião da Sociedade Europeia de Rinoplastia em Bérgamo, Itália (2017). 


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A nova geração de cirurgiões plásticos faz parte da geração MILLENNIAL ou Y - somos profissionais nascidos nos anos 80, que assistimos à grande revolução digital. Crescemos durante as origens da internet e assistimos ao início das redes sociais desde tenra idade. De forma natural fomos treinando as nossas capacidades visuais, o processamento rápido de informação e sua adaptação às circunstâncias. Somos a geração que foi educada a trabalhar em equipa e que se sente confortável nas interações sociais, online inclusive, como forma de trocar experiências entre colegas e fazer chegar a informação a pacientes que vêm dos quatro cantos do mundo. Somos a geração motivada pela informação tecnológica: temos facilidade de aquisição de conceitos visuais através de plataformas de cirurgias online, vídeos no YouTube. Somos os cirurgiões que desde cedo operam, que desde cedo mexem as mãos e que precisam de o fazer para aprender. Não nos limitamos a apresentar trabalhos e artigos científicos, acima de tudo pomos a "mão na massa".

Sofia Santareno, Diretora Clínica da Dr. Pure.
Sofia Santareno, Diretora Clínica da Dr. Pure.

Qual é o limite entre aquilo que é considerado estético, ou cirúrgico? Ou seja, a cirurgia reconstrutiva acaba sempre por também ser estética - na sua opinião?

Este é talvez um dos conceitos mais complexos de discutir. A única forma de o fazer é, antes de mais, debater as origens da Cirurgia Plástica. No início do século XX, as origens da Cirurgia Plástica enquanto especialidade assentaram na necessidade de tratar feridos de guerra, queimados, amputados, logo o pilar reconstrutivo é o core da nossa especialidade. No entanto, tal não significa que deva ser realizada uma reconstrução apenas com o propósito de proteção e de função: é preciso incluir o conceito de beleza, de harmonia, de estética. É esse o salto de arte que faz parecer magia o que fazemos. Essa é também a característica que vai além dos livros: depende da veia artística de cada cirurgião. Agora, é verdade que o evoluir das técnicas abriu a possibilidade de mudar características físicas nas pessoas quando estas à partida não necessitariam de tal para sobreviver. E qual o motivo? Melhorar a autoestima, algo que nos é natural enquanto seres humanos. Procuramos sempre gostar de nós, do que vemos ao espelho. E dentro dos limites do normal, a reconstrução estética da autoestima é também uma matéria de saúde mental.

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Quais são as novas tendências na medicina estética e na cirurgia plástica?

Atualmente, as tendências são para a prevenção: as pessoas finalmente estão a perceber que conseguem prevenir o envelhecimento e que essa é a melhor arma para o combater. Nas nossas redes sociais todos os dias são várias as pessoas que procuram aconselhamento sobre rotinas de pele que tento fazer chegar a todos. Também procuram obter informações sobre várias cirurgias.

Cada vez mais pessoas ganham a coragem de efetuar pequenos procedimentos na clínica (tratamento de pele, de rugas, celulite, gordura localizada) pelas mãos seguras de um cirurgião plástico, que além de dominar a técnica mais invasiva e complexa, também domina a menos invasiva. Os tratamentos mais procurados, neste sentido, são sem dúvida a toxina botulínica (técnica full-face ou baby botox), o ácido hialurónico para harmonização facial, os estimuladores da produção do colagéneo (o Sculptra, Radiasse) associados aos ultrassons microfocalizados. O objetivo é prevenir e tratar de forma gradual com resultados muito naturais, sem alterar propriamente as características de cada rosto de forma abrupta.

Já nas cirurgias, a maior parte procura procedimentos sob anestesia local - tratamento de pálpebras, de lábios (lip-lift). Nas cirurgias da mama, assistimos a uma procura por mastopexia (levantamento do peito) sem próteses ou com gordura, aumento de mamas com próteses de silicone de tecnologia cada vez mais avançada e com volumes cada vez menores (e ainda bem). As mulheres que nos procuram pretendem maminhas equilibradas com o resto do corpo e com técnicas que disfarcem as próteses, privilegiando um aspeto natural, e tal é possível ainda que tecnicamente mais avançado. Ainda neste espectro, muitos procuram realizar uma lipoaspiração (de definição baixa, intermédia ou alta, conforme os casos) para terminar com alguma gordura mais rebelde que não conseguem eliminar. Se por um lado assistimos a um menor tráfego de turismo cirúrgico, tento em conta a pandemia global, assistimos, por outro lado, a maior procura de todo o tipo de procedimentos por parte de homens - lipoaspiração, rinoplastia e transplante capilar.

Finalmente, assistimos a cada vez mais interessados em mudar ou melhorar a forma do seu nariz - seja através de rinomodulação com ácido hialurónico (muitas vezes para ensaiar um resultado), ou através de rinoplastia cirúrgica. Esta é, sem dúvida, a cirurgia que muda mais um rosto.

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Nos últimos 30 anos, o que diria que mais evoluiu nesta área?

Os anos 90, marcaram o início da era digital. Em 1995, realizou-se a primeira conferência online, que foi sobre rinoplastia. Iniciou-se também a globalização da troca de experiências. Verificou-se um aumento considerável nas publicações científicas. Foi também a década de desenvolvimento da microcirurgia, área de expertise da cirurgia plástica, que permite com a ajuda de lupas e microscópios realizar reconstruções complexas de zonas amputadas, por exemplo, na sequência de tratamentos de cancros agressivos. Assistimos à multidisciplinaridade na abordagem do cancro, que se revelou uma das grandes ameaças à saúde moderna. Verificou-se ainda uma evolução franca nos biomateriais, nomeadamente nas próteses para mama ou outras regiões do corpo - os materiais utilizados hoje são ainda mais biocompatíveis do que alguma vez imaginado, isto é, é cada vez mais raro que um corpo "rejeite" um material. Evoluímos na simbiose tecnologia - humano. Entretanto nos últimos 20 anos, sobretudo a partir dos anos 2000, a evolução dos materiais injetáveis na sua biocompatibilidade e disponibilidade permitiram integrar os procedimentos menos invasivos com segurança no dia a dia das clinicas.

Sofia Santareno, Diretora Clínica da Dr. Pure.
Sofia Santareno, Diretora Clínica da Dr. Pure.

O lado holístico faz parte do seu trabalho, no sentido em que aborda os casos de uma forma global. É impossível "mexer" com o exterior sem tocar no interior? Ou seja, uma cirurgia plástica é sempre mais que uma intervenção física?

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Não é possível alcançar resultados corporais estáveis, duradouros e naturais se a atitude mental não está lá. O nosso foco tem de incluir sempre a saúde mental! Queremos pessoas verdadeiramente felizes ao longo de todo o processo. Por isso, contamos com psicólogas com formação em psicoterapia e coaching, equipa de psiquiatria, equipa de nutrição (com foco na nutrição funcional e anti-aging), equipa de enfermagem (com formação e treino em linfoterapia e tratamentos faciais e de rosto). E é com base nesta sinergia e personalização dos cuidados que se gera um resultado estável, bonito, holístico e que se deixa as pessoas verdadeiramente felizes.

O que é que a apaixona nesta profissão?

A forma como o soma (corpo) tem impacto na psique (mente) e vice-versa. A forma como a arte aplicada ao corpo (cirurgia plástica) e à mente (a cirurgia plástica é na verdade psiquiatria cirúrgica) consegue mudar vidas para melhor. A forma como me agradecem (antigamente nos abraços), hoje através dos olhares, das redes sociais. Inspira-me e motiva-me saber que eu e a minha equipa fazemos a diferença de forma honesta na vida de cada pessoa e como isso pode contribuir para mudar o mundo para melhor. A cirurgia plástica foi, é, e será sempre o meu sonho tornado realidade! É o praticar de uma "alquímia" entre medicina, investigação científica, arte, mindfulness, vida saudável e família. E é este propósito de usar a minha vida para mudar e marcar outras que me inspira todos os dias.

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