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“Sou brasileira e negra e esta é a minha história de racismo em Portugal”

O episódio de racismo contra os filhos dos atores brasileiros Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso reacendeu o debate sobre uma questão em constante combustão. Histórias de racismo, xenofobia, violência e misoginia de uma imigrante brasileira a viver em Portugal.

Foto: DR
04 de agosto de 2022 Rosário Mello e Castro

O caso aconteceu numa praia às portas de Lisboa, num cenário de férias, sol e felicidade. Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, casal de atores brasileiros conhecidos dos dois lados do Atlântico, almoçavam com os filhos, dois dos quais foram alvos de insultos racistas por parte de uma mulher. Filmado nas redes sociais, e depois de Ewbank dar uma entrevista comentando que a atenção dada à situação não seria a mesma se ela não fosse branca, o caso chegou a Lula da Silva e a Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal, o racismo ou a xenofobia podem acontecer a qualquer um, atravessam países, culturas e classes sociais, até podem afetar um casal de atores bonito e conhecido.

Nada que surpreenda Amina Bawa, 34, jornalista brasileira e negra a viver em Portugal, que acompanhou a polémica com o interesse redobrado de quem já passou pelo mesmo, feliz por saber que a celebridade pode iluminar temas que ainda permanecem na sombra, segredados entre amigos, demasiado desconfortáveis para serem debatidos em sociedade. "Sofro racismo desde a minha infância e, por vezes, é muito difícil conseguirmo-nos impor, conseguir falar e conseguir mostrar o que se passa," diz à Máxima. "E é bom que as pessoas o façam, que discordem, que não riam de uma piada mesmo quando não está um negro no espaço." O facto de ser uma mulher branca a reagir desta forma, diz-nos, é importante por isso mesmo. "Porque as mulheres negras são sempre colocadas como mulheres raivosas, agressivas, acontece-me isso, mesmo eu sendo um docinho. E como eu sou muito grande entendem isso como um embate."

Amina Bawa diz que sofre racismo desde a sua infância.
Amina Bawa diz que sofre racismo desde a sua infância. Foto: DR

Amina Bawa chegou a Lisboa há seis anos, veio para fazer um mestrado em cultura e comunicação e já trazia na bagagem a ideia de se mudar definitivamente para o país. Começou por trabalhar num restaurante, logo depois para a faculdade, foi bolseira e mais tarde encontrou emprego no departamento de comunicação de um conhecido polo cultural e de ensino. Chegou ao lado do agora ex-marido, praticamente sem amigos, "fui assim na coragem," conta, a vontade de deixar o Brasil do impeachment de Dilma Rousseff falou mais alto. Em Portugal, encontrou dois lados do mesmo Brasil, o cruzamento entre o fim de um programa do governo brasileiro que trouxe para Portugal vários estudantes, e os resquícios de "fases menos fáceis da emigração brasileira, pessoas que vinham para ser mão-de-obra barata, para trabalhar nas obras, etc.," descreve.

"Senti logo um grande preconceito, mas isso mudava quando eu dizia que era estudante." Numa das primeiras idas ao SEF, Amina conta que entrou menina e saiu doutora, cada documento que entregava significava uma evolução na escala social. "Primeiro trataram-me por 'menina', depois 'senhora' quando viram que era casada, por fim, quando entreguei documentos do mestrado, passei a 'senhora doutora'." O tom também mudou, entre o "super simpático, como se fossemos amigos próximos, com muitas piadas e muito à vontade e a conversa séria que se tem com uma ‘pessoa de respeito’," conta. Mestrado tornou-se uma espécie de palavra-passe para um tratamento diferente.

Amina viveu as situações de racismo, xenofobia e misógina aconteceram logo no ambiente académico.
Amina viveu as situações de racismo, xenofobia e misógina aconteceram logo no ambiente académico. Foto: DR

Apesar disso, conta Amina, algumas das primeiras situações de racismo, xenofobia e misógina aconteceram logo no ambiente académico. "Houve um diretor de curso que, depois de ter entendido que eu era brasileira, fez uma piada do tipo ‘você pode ter o homem que você quiser [em Portugal] com esse sotaque e com essa cor, mas alguém bem mais velho’ e começou-se a rir." Sem perceber exatamente o significado da frase, Amina explicou que era casada, ao que o professor esclareceu, em frente a outros alunos, que em Portugal seria fácil para ela encontrar um homem velho que lhe deixaria uma boa herança.

Amina vive num corpo que transmite várias mensagens. "Eu sou uma mulher negra, de pele escura, por isso as pessoas têm muita dificuldade em me ler como brasileira. E eu acho muito engraçado que todo o mundo fale comigo em francês ou inglês, mesmo em Portugal. E depois quando reconhecem o sotaque ficam super assustados," diz. "Quando percebem que falo português do Brasil acham que eu sou super aberta, acham que eu vou estar super disponível, e quando eu corto, não incentivo esse tipo de conversa, chamam-me de antipática ou grosseira. Dizem que é uma brincadeira."

O assédio sexual e a misoginia estão entre as situações mais marcantes por que passou. Por exemplo quando, durante uma conversa de trabalho, um colega passou por ela e deu-lhe uma palmada no rabo. "Não tinha qualquer intimidade com essa pessoa, e eu fiquei tão chocada com essa ideia de que o corpo negro pertence a todos, que é uma coisa pública, que eu só consegui terminar a reunião, saí e fui chorar. Nunca consegui falar sobre isso." Noutra situação profissional, alguém fez um comentário à senhora da limpeza, uma mulher africana: "vem cá minha escrava", disseram-lhe em tom de brincadeira e Amina não conseguiu deixar de intervir. "A minha bisavó, por exemplo, foi uma mulher escravizada, é muito duro, eu não sei a origem da minha família por causa disso". O problema, continua, é que responder, questionar, denunciar, nem sempre é fácil ou sequer possível.

No debate sobre o que vem primeiro - o género, a cor da pele ou qualquer outra aspeto - Amina analisa-se camada a camada, consciente de que cada um tem um impacto antes de sequer falar. "Primeiro fazem uma leitura de mim como mulher africana, e eu não sou, sou uma mulher brasileira, que tem uma cultura completamente diferente de outras mulheres por exemplo, de Angola, da Guiné-Bissau, Moçambique. E depois quando eu falo é que muda. No Brasil isso já aconteceu algumas vezes, mas o brasileiro pode ser tudo, pode surgir de qualquer cor. Aqui, não."

"Eu sigo o padrão de alguém que serve," diz Amina. Foto: DR

A agressividade dos outros tornou-se parte do seu dia a dia. Durante uma visita guiada a uma exposição sobre racismo, perguntou quantas pessoas negras faziam parte da equipa ou haviam participado na organização da mostra. Quando lhe responderam que nenhuma, Amina deu o assunto por encerrado. "Até que uma outra mulher, que estava no mesmo grupo, ficou extremamente irritada e começou a gritar comigo: ‘vocês, os pretos que vêm do Brasil com essas ideias, eu também sou africana e vivi muitos anos em Angola, mas eu não sou tão agressiva quanto você. Têm a mania de querer estar em todos os espaços". A senhora, que era branca, teve que ser retirada da exposição, e Amina, por consequência também, mesmo sem ter alimentado a conversa.

Noutra situação, um cliente que Amina abordou no seu local de trabalho por estar a fumar numa área proibida, reagiu assim: "muito engraçado que vocês vêm para cá e depois querem mandar em tudo," conta. Sem surpresas, frases como "’brazuca’ sai daqui, volta para o teu país", "vocês vêm para aqui roubar os nossos empregos e maridos," ou "eu não atendo brasileiros" repetem-se em bares, transportes públicos e outros lugares do género.

Na vida pessoal, a história não muda muito, à exceção das amizades. "Com amigos é tudo ótimo, mas no dating continuam os estereótipos como 'a mulher africana é quente’, mas eu não sou africana, sou brasileira, ‘ah melhor ainda, está preparada para tudo, queres fazer tudo, mulheres abertas’. Ou ‘então vamos sair para sambar’, mas eu também não sambo." São etiquetas difíceis de contornar, resume. Recorda ainda uma relação que teve com um homem português branco, o machismo resumido na ideia de que uma mulher, ainda por cima negra e brasileira, existe para obedecer. "Eu sigo o padrão de alguém que serve," diz.

Até hoje, Amina nunca fez queixa nas autoridades, apenas escreveu no Livro de Reclamações de um supermercado depois de ser abordada por uma empregada que queria ver os conteúdos de um saco que trazia de outra cadeia. "Ela segurou no meu braço, puxou-me para trás e disse que antes de sair eu tinha que mostrar o que tinha dentro do saco. ‘Gente como você sempre rouba alguma coisa, temos sempre que estar de olho’, disse ela." Mesmo com uma queixa por escrito, nada aconteceu.

No entanto, sublinha, já fez várias mudanças na sua vida por causa do racismo. Sabe que há discotecas onde gostava de ir, mas assusta-a a violência contra pessoas negras. Tal como sabe que a roupa que veste, por muito que reflita a sua personalidade, pode ter uma leitura diferente para os outros. Decotes ou peças justas são para esquecer, especialmente se estiver sozinha.

 Frases como
Frases como "’brazuca’ sai daqui, volta para o teu país", "vocês vêm para aqui roubar os nossos empregos e maridos," ou "eu não atendo brasileiros" repetem-se Foto: DR

Cada cor de pele esconde uma escada de desigualdades, cada patamar é reflexo de séculos de discriminação. Num espaço de trabalho com poucas pessoas negras, Amina depara-se com o complexo paradoxo de uma mesma pele ter vários significados. Muitas vezes, "as pessoas negras à minha volta estão em serviços de limpeza, manutenção, e são africanas, cabo-verdianas, angolanas, enquanto eu estou nesse outro lugar. Eu não posso dizer que é de privilégio, mas há menos desrespeito por isso."

Ao mesmo tempo, lida com o racismo estrutural de quem acredita que uma pessoa negra só pode ser muito inteligente para chegar a uma posição perfeitamente atingível para a maioria – mesmo que na área da cultura e da comunicação, que é a sua, a diversidade seja cada vez mais uma realidade. Como reflete o caso de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, "há mais olhos atentos a esta realidade e a reagir por isso mesmo," diz Amina, sinal de uma consciência coletiva que, a qualquer momento, voltará a gritar contra a discriminação.   

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