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"Há clientes que cancelam montagens por eu ser mulher." Três mulheres taskers contam episódios de discriminação

Samara, Marlene e Silvia fazem reparações domésticas e contam-nos como se sentem discriminadas no trabalho. No Dia Internacional da Mulher, recordamos a urgência de mudar a realidade nesta e noutras áreas.

Foto: TaskRabbit
08 de março de 2022 Rita Silva Avelar

Sílvia Borges, Samara Rezende e Marlene Souza, todas na casa dos 30 anos, têm três denominadores em comum: são mulheres, trabalham como taskers (alguém que desempenha uma série de tarefas ligadas à casa, desde restauros a furos, passando por montagem de móveis) na TaskRabbit (uma app de reparações grandes e montagens) e sofrem discriminação no trabalho. Por todos esses fatores. Num mundo ainda dominado pelos homens, têm que provar que são boas no que fazem, e justificar-se a todo o momento. São elas o motor da mudança, mas também quem sofre na pele os efeitos da discriminação de género neste universo laboral. No Dia Internacional da Mulher contam-nos as suas histórias.

Como chegaram a esta área (reparos/montagens)?

Sílvia Borges: Desde pequena sempre peguei nas ferramentas do meu pai, estragava-lhe as brocas todas, desarrumava-as, sempre me desenrasquei em casa a montar/desmontar alguma coisa, e depois o meu marido, que também é tasker, incentivou-me.

Samara RezendeEu fazia serviços pela Ubereats, de mota, e o meu irmão começou no ramo da montagem. A certa altura pediu-me para trabalhar com ele, tendo em conta que eu já me dava bem com essa área no Brasil, fazendo pequenas coisas em casa, mas com montagem de mobiliário foi a primeira vez.

Marlene SouzaFui vitrinista durante muitos anos e uma das partes de que sempre gostei muito era o início de temporada, quando toda a decoração mudava e tínhamos de montar móveis ou estruturas, pintar, colar papel de parede, colar autocolantes. E no meio disso tudo arranjar soluções para adaptar essa decoração a espaços de montra completamente diferentes. Para além do gosto por Moda, claro.

Como recordam o vosso primeiro serviço como taskers?

Sílvia: 
O primeiro serviço que fiz foi fixar umas grades para montar um canil para um cão.

Samara: Estava muito nervosa, pois ia 
sempre com o meu irmão fazer as montagens. Quando fui a primeira vez sozinha e vi que realmente conseguia fazer sem que ninguém me auxiliasse fiquei muito orgulhosa.

Marlene: O meu primeiro serviço foi com um cliente que achava que eu tinha sido "enviada" pelos amigos, e que não estava com paciência nenhuma para "aquilo",  mas assim que percebeu que não era esse o caso, pediu muitas desculpas, saiu e fiquei a trabalhar sozinha.

Samara Rezende
Samara Rezende Foto: TaskRabbit

Em que situações sentiram discriminação de género nestes trabalhos?

Sílvia: Por diversas vezes os clientes perguntam-me: "mas você consegue fazer isso?" não que seja uma discriminação de género exagerada, porém não vejo os clientes perguntarem isso aos taskers do sexo masculino.

Samara: Infelizmente, acontecem várias discriminações. Clientes que cancelam tarefas por eu ser mulher, clientes que não acreditam que eu consiga fazer o trabalho, e também aqueles que sempre perguntam: "Vem mais alguém? Ou é só você mesmo?" E tenho sempre orgulho em dizer: "Sim, sou somente eu que vai montar todos os seus móveis."

Marlene: Em várias situações, logo no primeiro contacto que faço para confirmar a tarefa, quando percebem que sou mulher, dizem-me que não têm ferramentas, ao que respondo sempre para não se preocuparem porque levo as minhas. Quando eu chego e me apresento, dizem que achavam que eu era só a secretária que fazia o contacto. Na realidade, dizem-me muitas coisas, que os móveis são grandes, "maiores do que eu", sendo no caso de móveis com mais de 2 metros, são maiores do que todas as pessoas que conheço. Dizem ainda que não se pode mandar uma mulher sozinha para tanto trabalho. Eu justifico sempre com humor e as pessoas acabam sempre por ficar satisfeitas, e muito surpreendidas.

Marlene Souza
Marlene Souza Foto: TaskRabbit

Quais foram as situações mais gritantes? Podem descrever?

Sílvia:
Em termos de discriminação não tive nenhuma situação gritante, realmente só alguma falta de credibilidade dos clientes.

Samara: Uma vez caiu-me um trabalho no valor de aproximadamente €150 (havia bastantes coisas para montar), e assim que o senhor viu que seria uma mulher a realizar o serviço, cancelou. Fiquei muito triste, mas já estou acostumada. No dia seguinte a mesma tarefa com o mesmo cliente caiu para o meu namorado. No dia da montagem, eu fui com ele. Chegando no local identifiquei-me, dizendo que era a Samara Rezende da TaskRabbit, o cliente ficou sem graça, pois acho que se lembrou de mim. E no decorrer da montagem ele percebeu que eu sabia montar tudo muito bem. O meu namorado disse-lhe até que fui eu quem lhe ensinou tudo, que eu é que era a professora. Fizemos tudo, o cliente ficou satisfeito com o serviço, mas em hora nenhuma ele me pediu desculpa pelo preconceito de ter cancelado a tarefa que estava em meu nome.

Marlene: Só tive uma situação desagradável, com um casal que tinha uma loja e tinham muitas prateleiras de fraca qualidade que dificilmente ficariam direitas, uma vez que o chão e a parede eram completamente tortos, mas eles decidiram que eu não conseguia fazer por ser mulher e insistiram nesse tema desde o primeiro contacto. Cheguei a chamar um colega, porque não estava a saber lidar, ele chegou, disse o mesmo do que eu, e não pôde ficar muito tempo. Todos os homens que passaram lá disseram que era uma missão impossível, e quando percebiam que eles estavam a questionar por eu ser mulher, diziam que aquele material não era o ideal para aquilo. Fiz o meu melhor e fui-me embora, mas estive prestes a desistir.

Sílvia Borges
Sílvia Borges Foto: TaskRabbit

O que gostavam que mudasse, nesta realidade?

Sílvia:
Mais igualdade entre os taskers, pois a competência não depende do género.

Samara: Que realmente as pessoas acreditassem que as mulheres conseguem fazer tudo o que querem, e não só o que é imposto pela sociedade. E que não só as mulheres, qualquer pessoa independentemente do género ou raça, pode fazer tudo que quiser.

Marlene: Na minha opinião esta pergunta faz parte do problema. O que eu queria que mudasse era que deixasse de ser uma questão.

Há uma necessidade constante de se justificarem?

Sílvia: Existe uma necessidade de justificar somente quando os clientes questionam se eu consigo fazer a tarefa, algo que (provavelmente) não seria perguntado se eu fosse um homem.

Samara: Preciso sempre, pois não acreditam que sou capaz. Sou baixinha, tenho as unhas arranjadas e cabelos compridos. Não pareço alguém que monta móveis, mas consigo sempre. E todos os clientes no final ficam admirados de ver que realmente consigo fazer tudo.  

Marlene: Sim. Em Portugal ainda temos de trabalhar muito para mudar esta mentalidade, mas temos de começar por algum lado, e é bom fazer parte deste processo. No entanto, tenho uns quantos clientes estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos, para tarefas como pequenos arranjos, soluções para a casa, que me contratam mesmo por ser mulher, por exemplo.

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