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Daniel Blaufuks: Regresso à movida lisboeta dos anos 80

Lisboa Clichê é um livro que cabe no bolso, mas não deixa de contar um sem fim de histórias fascinantes. As fotografias a preto e branco tiradas por Blaufuks, intercalam-se com textos onde aventuras reais da sua juventude se apoderam das ruas da cidade, numa Lisboa autêntica, secreta e cinematográfica, anos antes de ser engolida pela globalização.

Foto: Daniel Blaufuks
04 de março de 2022 Tiago Manaia

Daniel Blaufuks tem o braço direito arranhado. O fotógrafo da cidade conta como passou os últimos dias no campo, a debater-se com arbustos num jardim. Fala-nos de sol e de como aproveitar a praia do Guincho, num inverno que aboliu as estações. De volta a Lisboa, marcou encontro connosco num café das Avenidas Novas, onde a herança do passado lisboeta ainda pulsa. Por momentos sentimos próximo o universo da cidade que, durante muito tempo, hesitou entre ser cosmopolita ou autêntica, uma indecisão e mudança que Daniel tão bem relata no seu livro.

Nas mãos tem um porta-chaves, uma barra de ferro, mais tarde explica-nos que este bocado de metal era uma ficha para levantar casacos no bengaleiro do bar-discoteca Frágil, ponto de encontro da movida Lisboeta no início dos anos 80 e 90. Daniel trabalhou lá antes de se tornar fotógrafo profissional, divertiu-se, passou noites em branco a sonhar um mundo perto de outros artistas, que como ele, se inspiravam na liberdade que sentiam no Frágil para criar pensamento artístico. Naquela época, Lisboa desfazia-se dos vícios quotidianos da ditadura, e os anos 80 viram florescer uma juventude moderna e ambiciosa, que acabaria por vincar o pensamento contemporâneo português.

Autorretrato de Daniel Blaufuks
Autorretrato de Daniel Blaufuks Foto: Daniel Blaufuks

Daniel tornou-se colaborador do jornal de música Blitz e do Independente, as fotografias que nos mostra em Lisboa Clichê são desses anos, em que percorria a cidade com a sua máquina fotográfica. Nascido em Lisboa em 1963, deixou Portugal adolescente para viver durante anos na Alemanha, país onde tinha uma parte da sua família. A herança judaica e as relações familiares estão muito presentes no trabalho fotográfico de Blaufuks, onde memórias passadas nos dão pistas de como vivemos o presente. Os seus textos autobiográficos, em Lisboa Clichê, mergulham-nos em todo o tipo de detalhes. Ficamos a saber como eram as sessões de cinema em salas míticas prestes a fechar, conhecemos as caras dos empregados da Feira Popular, sentimos o nevoeiro e o vazio dos domingos, redescobrimos o olhar de poetas, como o de Al Berto, que nos deixou cedo demais.  

Há relatos de substâncias e vidas que se esbanjaram na insolência da juventude, a morte num flirt constante com a joie de vivre, a lembrar que tudo muda de um momento para o outro. 

As fotografias de Blaufuks vieram dar a tão carismáticos olhares a imortalidade merecida.

No primeiro confinamento, em 2020, deparamo-nos com uma Lisboa limpa e renovada pronta para receber turistas que não podiam viajar até nós. Ficámos com uma cidade vazia e um tanto artificial. Nos últimos anos Lisboa foi muito "branqueada" para o turismo sobretudo no centro histórico. A cidade do teu livro era outra?

Lisboa mudou muito. E sabemos que perdemos muitas pessoas pelo caminho. Durante a pandemia ias passear e realmente parecia Lisboa dos anos 80, uma cidade vazia, sem turismo. Tudo fechado ao domingo. Tive uma sensação de sentir fantasmas, era algo que não tinha há muito tempo.

Os bairros agora parecem ter-se tornado falsamente típicos...

O povo português tem uma frase engraçada que é cada vez mais verdadeira, "é tudo para inglês ver". E é tudo uma coisa de fachada, tem a ver com todo o poder local que houve aqui em Lisboa, e não estou a associar isto a qualquer partido político.

No teu livro dizes que a cidade do final dos anos 80, era pobre e miserável. No entanto, nas vossas conversas, entre artistas, evocavam Paris e Nova Iorque. Eram os artistas com quem te davas ou havia muita ambição?

Se calhar isso ajudou-nos a tentar não sermos pequeninos. Ainda hoje olhas para a cena artística portuguesa e sentes que é forte. O que se passa é que temos problemas de distribuição enormes e também aqui nunca nos comparamos com um artista grego, que em termos económicos está mais ao nosso nível. Quando olhamos para o lado estamos sempre a pensar nos grandes artistas que vivem em Londres, Nova Iorque e Berlim.

Os cinemas de Lisboa com cartazes pintados à mão
Os cinemas de Lisboa com cartazes pintados à mão Foto: Daniel Blaufuks

A internet não nos faz viajar mais? 

No início achei que sim, agora já tenho algumas dúvidas. Nós esquecemos que a internet também serve para trazer artistas de longe, e Portugal não é suficientemente exótico. Portugal agora é o segredo mais óbvio que existe na Europa.

Qual era o nosso segredo?

(Risos) Era sermos nós um segredo. Um estrangeiro que viesse cá no início dos anos 90, sentia o fascínio por uma cidade em completa decadência. Com a globalização tu perdeste as qualidades intrínsecas de uma cultura própria. Andas aqui no centro de Lisboa e está tudo escrito em inglês. Nós temos essa coisa de nos darmos (aos outros), e esquecermos aquilo que somos. Mas eu não quero que isto seja um livro de críticas, nem de nostalgia. Os tempos são como são, vão mudando.

A força de um rolo analógico para fotografar é uma maneira de resistir? 

O digital é uma coisa inevitável. Agora eu digo é que o analógico tem erro, e o digital não tem. Uma coisa é verdade: o aborrecimento criou muitas obras de Arte, e hoje não te aborreces. Tens sempre um iPhone para onde olhar, podes ligar um GPS sem nunca te perder. 

Agora não andamos na rua à deriva, como tu fizeste, a fotografar casais desconhecidos aos beijos?

Isso é o andamento das coisas. O Walter Benjamin sentava-se na biblioteca e escrevia durante horas, quem é que faz isso agora que não tenha de fazer um doutoramento? Essas coisas mudam.

Acabas por nunca colocar datas no livro, não se percebe quantos anos as tuas fotografias atravessam. Qual foi então a urgência de meter cá fora este levantamento que fizeste?

São fotografias de 5 anos. No fundo é um pré-digital. Acho que é importante haver documentação dos tempos que passam. Documentação visual.

A entrada do bar-discoteca Frágil nos anos 80, “Neste livro está o tempo em que aprendemos a sair. Eu podia chegar ao Frágil como quisesse e  podia ser o que eu quisesse!”
A entrada do bar-discoteca Frágil nos anos 80, “Neste livro está o tempo em que aprendemos a sair. Eu podia chegar ao Frágil como quisesse e podia ser o que eu quisesse!” Foto: Arquivo LuxFrágil

Quando te ligam e dizem que o Chiado está a arder (Agosto de 1988), contas no livro que agarraste nos rolos e foste a correr. Vais contando a mudança da cidade e há a tragédia do incêndio que vai acelerar tudo nessa mudança... A fotografia é isso, é estar no sítio certo? 

É engraçado pensar no que teria acontecido ao Chiado se não tivesse havido o incêndio. Porque a mudança que está lá ...As Zaras e essas outras coisas... Essas teriam sempre acontecido. Como teria sido sem o incêndio?

No teu livro não tens medo de expor o teu ódio ao ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva?  Fotografaste-o e publicas a fotografia dele. É quase como combateres o diabo num frente a frente.

É inegável que o Cavaco, para bem ou para mal, dominou as nossas vidas durante muito tempo.

Quando escolhi ter a fotografia dele no livro foi porque simbolizava tudo aquilo que nós estávamos contra na altura. Eu digo lá: "eu queria um Portugal Europeu, mas um Portugal europeu português". O Cavaco acelerou uma forma de estar na vida que é extremamente capitalista e liberal

A ideia de finitude está sempre presente no livro. Há pessoas que fotografas e depois contas como as perdeste... E há fotografias de figuras que foram partindo ao longo dos anos... Como o Al Berto ou mais recentemente o Manuel Reis...

E há muitas pessoas que nunca fotografei e outras das quais não tenho boas fotografias.  O livro é um género que não existe. É uma auto-foto-biografia, por isso é que inseri vários retratos meus. Queria criar essa ideia de que aquilo é feito a partir do meu ponto de vista.

E a capa é a cores, porque é o meu ponto de vista nos dias de hoje. Na capa está a mesa onde digitalizei os negativos. É um olhar de hoje. Se tivesse feito o livro na altura em que fotografei, não seria este livro.

Não terias distância?

Não teria distância e estávamos todos vivos. É de facto outra coisa, não é necessariamente nostálgico, mas é sempre um olhar sobre o passado que já não é meu… Já não o consigo agarrar… Já não posso dizer "vamos sair hoje à noite ao Frágil". Porque já não vamos encontrar as mesmas pessoas. A ideia de um livro destes, não é que tenhas uma lágrima no olho. É sem dúvida bom estarmos conscientes que it’s not forever. (pausa) O que ainda dura mais são os livros. Se calhar daqui a 50 anos há um exemplar deste meu livro que será encontrado e eu já vou estar mais que morto. Poderá estar numa biblioteca, se ainda houver mundo. 

O livro do Victor Palla, Lisboa Cidade Triste e Alegre (1960), foi uma referência para ti? Há a mesma dinâmica de usar poemas que intercalam as fotografias.

Dizer ‘não’ seria pretensioso... E dizer que ‘sim’, é exagerado. O livro do Victor Palla está na minha cultura visual e é um livro de que gosto. Qualquer português gostaria de o ter feito. Tem piada porque eu fui ver que livros foram feitos sobre Lisboa e não há quase nada. Há um livro sobre a Expo 98 do Luís Pavão, e o resto é tudo livros turísticos. Passaram 60 anos, numa cidade que merecia ter tido vários olhares.

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Tu dás várias pistas no livro de que tentaste viver no Porto, mas fazias tudo para regressar a Lisboa, tinhas noção de querias fazer parte de uma movida e de que estava algo a acontecer aqui? 

Absolutamente, e também tinha o meu fascínio. Fiz parte e fui sugado por uma vida que de facto era incrível. Éramos jovens. A juventude é um tempo incrível. Por isso se diz que a juventude é esbanjada pelos jovens. Nós nem temos noção de quanto é incrível poder ser-se jovem.

Não achas que hoje aprendemos a envelhecer mantendo uma espécie de juventude?

Eu gostava de ter parado aos 50, não queria ser jovem para sempre… Mas aquela sensação de que não há morte à tua volta... O facto de pensares que podes pendurar-te numa varanda de pernas para o ar e achar que não te vai acontecer nada... Neste livro está o tempo em que aprendemos a sair. Eu podia chegar ao Frágil como quisesse e podia ser o que eu quisesse!

O Frágil era um bar pequeno mas tinha uma grande mistura de classes sociais...

Sim, e o facto de podermos dizer a alguém que éramos isto ou aquilo. Podíamos dizer isso de boca aberta, olhos nos olhos. Quantos amigos tinha que eram homossexuais, e todos nós sabíamos. Só que quando eles iam para casa não podiam dizer nada... Essa barreira ainda existia com as gerações anteriores.

Yen Sung, durante anos era das poucas mulheres a ocupar o lugar de Dj em Portugal. Tocava no Frágil.
Yen Sung, durante anos era das poucas mulheres a ocupar o lugar de Dj em Portugal. Tocava no Frágil. Foto: Daniel Blaufuks

As tuas fotografias parecem virar quase ficção, como as imagens que tiras na estação de comboios ou em todos os cartazes de cinema que fotografas.

Viste os cartazes de filmes pornográficos? Hoje já não poderia haver isso na rua.

Sim. O Instagram não deixa que se publiquem fotografias de mamilos.

Aquilo era um senhor em cima do Cinema Condes que pintava os cartazes, pintava os normais e pintavas os pornográficos. Hoje acho que não poderias ter aquilo, não sei …

Mas eu estava a falar-te dos cartazes de cinema que fotografas em paralelo com a tua vida real… Queria falar desta ideia de autoficção, enquanto estás narrar a tua vida real… Entra sempre ficção no real?

Claro que entra, porque nós nos autocriámos. Toda a fotografia é uma certa ficção, mesmo aqueles autorretratos… E há momentos em que deixo a ficção entrar no livro de forma óbvia, para dizer que apesar de tudo, é uma história que ali está. Nos momentos em que digo que a Paula Moura Pinheiro e eu íamos assaltar um banco... É uma maneira de dizer: tudo isto é verdade e também é mentira ao mesmo tempo. A nossa memória é uma ficção. 

E claro que houve noites em que eu fui ao Frágil e não me diverti. Ou tivemos desgostos de amor gigantes que não nos deixaram vir à tona de água durante sei lá quanto tempo... Mas quem quer saber dos meus desgostos de amor? Ou eu saberia descrevê-los de uma forma abrangente, ou então para quê falar disso? Claro que é uma Lisboa ficcionada… (pausa) Hoje os meus autorretratos seriam selfies por exemplo.

Nos anos 80 os cartazes de filmes pornográficos eram pintados pelo mesmo senhor que fazia o circuito comercial
Nos anos 80 os cartazes de filmes pornográficos eram pintados pelo mesmo senhor que fazia o circuito comercial Foto: Daniel Blaufuks

Achas que há algo de sagrado no autorretrato em oposição às selfies que são feitas hoje?

Sagrado? Aquela minha fotografia no elevador é como as miúdas põem hoje no Instagram.

Só que tu não vias (como agora) a fotografia de imediato, não apagavas e tiravas outras como se faz com o digital.

A diferença entre o analógico e o digital é que tens um tempo. E esse tempo que levas até acabares um rolo e o revelares, ou até secarem os rolos e começares a imprimir... Isso faz com que tu penses. É isso que a fotografia digital não tem. O tempo de pensamento.

De repente já te vês quase como uma personagem?

Completamente. Na altura tive consciência de tirar a minha fotografia ao espelho, mas qual é a diferença para a selfie? Pode haver a diferença da qualidade da imagem, mas isso é o pensamento… 90% do que as pessoas mostram no Instagram não são fotografias...São experiências. É o bolo que comeram, a praia onde estão, e a cara delas naquele momento.

Paula Moura Pinheiro, “Nos momentos em que digo que a Paula Moura Pinheiro e eu íamos assaltar um banco... É uma maneira de dizer: tudo isto é verdade e também é mentira ao mesmo tempo. A nossa memória é uma ficção.
Paula Moura Pinheiro, “Nos momentos em que digo que a Paula Moura Pinheiro e eu íamos assaltar um banco... É uma maneira de dizer: tudo isto é verdade e também é mentira ao mesmo tempo. A nossa memória é uma ficção." Foto: Daniel Blaufuks

Tiveste sempre essa urgência de fazer um diário com as tuas fotografias? 

Não, na altura eu era fotógrafo e levava sempre a máquina. Hoje não pensas que tens de levar a máquina contigo, porque tens sempre alguma coisa contigo que tira uma fotografia. Na altura tinhas a máquina e pensavas, "vou aproveitar, já que a tenho".  Imagina, se eu levantar agora o meu telefone e disser, "quero tirar uma fotografia tua"…Tu achas normal. Mas se eu pusesse uma máquina à tua frente seria uma coisa muito mais formal. Podias pensar, "ah ele vai gastar rolo comigo". Não é uma coisa financeira, é uma coisa de formalidade. Na altura, quando se encarava a câmara tinha-se uma sensação de prosperidade.

E achas que se banalizou? 

Agora uma fotografia é uma fotografia. Tão depressa é tirada como é esquecida. Mudou principalmente a nossa relação ao ver fotografia e ao ser objecto de uma fotografia. Quando o Robert Frank passa para a Leica, é a passagem de uma câmara grande para uma câmara mais pequena. O olhar muda. Tudo se torna mais rápido de fotografar, mas também na forma de ver.

Por causa do Instagram quase todas as fotografias são quadradas. A nossa relação com a fotografia sempre foi mudando.

Uma criança que engraxava sapatos na rua
Uma criança que engraxava sapatos na rua Foto: Daniel Blaufuks

Queria acabar perguntando-te onde ainda sentes Lisboa, o Ser Lisboa?

Há a Pastelaria Versalhes, é onde acaba o meu livro. Ainda vou a tascas… Quando Lisboa é de facto contemporânea e honesta na sua contemporaneidade, é bom. Quando emula outra coisa, uma coisa que foi vista lá fora, aí é um disparate. Já viste isso noutros lados. Porque temos de estar num sítio em Lisboa que é igual a Nova Iorque? (...) O personalizado é mais transparente e mais honesto. Se calhar a nossa relação com a memória também é uma relação pós guerra, não é real. Se calhar as próximas gerações vão estar-se nas tintas para tudo. Tudo o que existe na verdade é virtual, não real. Não sei se o nosso pensamento sobre memória não é também um pensamento geracional, que vem de gerações antes das nossas. Se calhar foi isso também que senti quando cheguei a Portugal, como eu venho de uma família que perdeu tudo na (Segunda) Guerra, e quando digo perder tudo, incluo também pessoas, membros da família …

Não sei se isso não criou uma tentativa de criar um passado, como se a guerra não tivesse existido. Não sei se no futuro a memória terá o valor que alguns de nós lhe damos.


Vídeo com: Mia Fernandes
Realização e edição: Mariana Margarido
Direção: Tiago Manaia


* Mia Fernandes, protagonista da série 5Starz realizada por Justin Amorim, lê um poema do livro Lisboa Clichê. Quando a juventude de agora se encontra com o passado da cidade

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Lisboa Clichê de Daniel Blaufuks, Edições Tinta da China

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