Celebridades

Pilar Eyre: “Juan Carlos foi um mulherengo, eternamente carente de afeto”

Como lembrará a História de Espanha a figura do Rei Juan Carlos? O campeão da Democracia, que foi no período da transição, ou o protagonista dos escândalos que o levaram a abdicar? Em 'Eu, o Rei', a biografia agora publicada em Portugal, a jornalista Pilar Eyre diz que a verdade se compõe de muitos matizes.

O rei Juan Carlos e a rainha Sophia, 2004
O rei Juan Carlos e a rainha Sophia, 2004 Foto: Getty Images
26 de maio de 2021 | Maria João Martins

Em Espanha, a jornalista e escritora Pilar Eyre (Barcelona, 1951) vende livros como se fossem bolas de Berlim em dia de praia. Não admira, já que o seu tema de eleição são as figuras da família real espanhola, que vem acompanhando, como jornalista, nas últimas décadas. O extraordinário, porém, é que obras como esta Eu, o Rei (agora publicada em Portugal pela Esfera dos Livros) ou as anteriores biografias da Rainha Sofia; da mãe de Juan Carlos, a Condessa de Barcelona ou da sua avó paterna, Vitória Eugénia de Battenberg, evidenciam uma qualidade literária rara neste tipo de biografias. Tudo isto acompanhado por uma investigação rigorosa, que acaba por reconstituir também boa parte da atribulada História de Espanha no século XX.

A autora do livro, 'Eu, o Rei', Pilar Eyre
A autora do livro, 'Eu, o Rei', Pilar Eyre Foto: Sergio González Valero

Este é um livro que não é simples. Juan Carlos não nos surge aqui apenas como mais um pícaro Bourbon. É um homem com muitos matizes, ressentimentos, egoísmos mas também com boas intenções. Como lembrará a História de Espanha a sua figura?

Espero que o lembre como uma figura psicologicamente complexa. Não o podemos representar apenas como um mulherengo, que usou a sua posição para obter incontáveis benefícios. É tudo isso, mas também soube ser o estadista decisivo durante o golpe do 23-F (tentativa de golpe militar a 23 de Fevereiro de 1980, que teve o Congresso dos Deputados, em Madrid, como palco) e o homem que participou ativamente na democratização de Espanha, durante o período da transição, e depois na sua modernização. Hoje tendemos a só falar dos aspetos negativos ou das suas supostas 1500 amantes mas, na verdade, Juan Carlos era também um homem atormentado por uma infância com pouco amor e cuidado. Na realidade, nunca deixou de procurar esse amor que lhe faltara tão cedo. As muitas mulheres que se relacionaram intimamente com ele foram unânimes em dizer que era um homem muito carente, que buscava sexo, claro, mas também afeto.

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O seu olhar sobre as figuras reais é duro em alguns momentos, mas também de grande empatia noutros, marcados por grande sofrimento. Falo sobretudo dos episódios relacionados com a infância de Juan Carlos, como refere, e da angustiante espera por um regresso a Espanha, que nunca aconteceu, pelo rei Afonso XIII, avô de Juan Carlos, destronado pela República Espanhola.

O rei Afonso XIII teve um final de vida infelicíssimo. Morreu, exilado em Roma, apenas com 54 anos, amargurado porque confiara que Franco restauraria a monarquia e este nunca o fez, mas também porque a hemofilia dizimara a sua descendência. Recorde-se que Juan, o futuro Conde de Barcelona, era o seu herdeiro mas também o mais novo dos filhos sobreviventes. Os mais velhos tinham abdicado dos seus direitos à Coroa por serem demasiado doentes para tais responsabilidades. Quanto a Juan Carlos, creio que é impossível não sentir alguma pena de um miúdo com quem o próprio pai estabelecia uma certa rivalidade, sobretudo depois de perceber que Franco talvez preferisse, como preferiu, ver a monarquia restaurada na pessoa do filho.

Juan Carlos com o pai, Juan Carlos, 1957
Juan Carlos com o pai, Juan Carlos, 1957 Foto: Getty Images

O pequeno Juan Carlos chegou a ter familiaridade com Franco?

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Sem dúvida que sim. Durante as minhas investigações, cheguei a falar com uma pessoa que os acompanhou a ambos, nos encontros do El Pardo, que me dizia ter testemunhado uma verdadeira amizade entre os dois. Para uma criança tão descuidada pelos seus, como era o príncipe, o ditador acabou por ser uma espécie de avô.

O príncipe Juan Carlos e Francisco Franco, em Madrid, 1971
O príncipe Juan Carlos e Francisco Franco, em Madrid, 1971 Foto: Getty Images

Que consequências psicológicas teve o acidente com uma pistola, em que Juan Carlos, com 18 anos, matou acidentalmente o irmão, Alfonso, de 14?

Devastadoras, eu diria mesmo que essa fatídica tarde de chuva, no Estoril, destruiu para sempre aquela família. Juan Carlos arrastou para sempre o remorso, a mãe mergulhou no alcoolismo e na depressão, o pai afastou-se ainda mais do filho e passava longas jornadas no mar, longe de casa. Um pesado manto de silêncio caiu sobre a figura do pequeno infante.

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'Eu, o Rei' ( Esfera dos livros)
'Eu, o Rei' ( Esfera dos livros)

À parte este acontecimento terrível, que importância tiveram os anos do Estoril na vida do Rei?

Uma importância enorme. No Estoril, quer Juan Carlos, quer as irmãs, viveram os seus anos de formação. Os amigos portugueses dessa época, como Pinto Balsemão, ainda o tratam por Juanito. Foi também aí que aprendeu a nadar, que teve os seus primeiros amores, com Maria Gabriela de Sabóia, por exemplo, que teve a sua primeira amante, Olghina di Robilant. Essa ligação com o Estoril, e com Portugal (Juan Carlos é fluente em português), ficou para toda a vida, de tal maneira que se chegou a falar do vosso país como lugar de exílio mas a proximidade era demasiada. O rei emérito continuaria a ser um embaraço para o filho e para a monarquia.

A atriz espanhola Barbara Rey terá sido uma das amantes do rei
A atriz espanhola Barbara Rey terá sido uma das amantes do rei Foto: Getty Images
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Em boa parte graças ao papel que teve na condução dos acontecimentos do 23-F, Juan Carlos teve muito boa imagem em Espanha e no exterior. Era um campeão da democracia. Em que momento é que isto muda?

A imagem era fantástica. Eu vivo em Barcelona e recordo-me do aspeto maravilhoso que a família real tinha nos Jogos Olímpicos de 1992. Sofia e Juan Carlos pareciam muito unidos, eram simpáticos, tinham uns filhos modernos e atléticos, toda a Europa os reverenciava como exemplo de uma monarquia moderna. E, no entanto, portas adentro, as discussões do casal real eram tremendas por causa de uma amante que ele tinha na cidade. Mas a imprensa espanhola, mesmo que o soubesse, não falava disso. A vida da família real era um tabu.

Rei Juan Carlos e a rainha Sophia, 1962
Rei Juan Carlos e a rainha Sophia, 1962 Foto: Getty Images

Porquê?

Porque assim se estabelecera com os governos liderados por Felipe Gonzalez, que foi sempre muito próximo do Rei. Nós, jornalistas, éramos pressionados para não publicar, para não falar, recebíamos telefonemas da Casa Real, éramos ameaçados de processo, podíamos, efetivamente, ser despedidos. Hoje já não é assim. A própria Casa Real abandonou este tipo de práticas. Pergunta-me pelo momento em que a imagem de Juan Carlos se começou a degradar. Eu diria com a tomada de conhecimento das práticas de corrupção e dos negócios ilícitos com os árabes, a que os governos fechavam os olhos porque, enfim, era o Rei... Os boatos sobre as amantes já eram antigos e só por si não lhe beliscariam a imagem. Sendo Espanha um país ainda tão machista, havia até uma certa simpatia para com essa prática. Se Juan Carlos era um grande mulherengo então é porque era um verdadeiro espanhol, uma espécie de Julio Iglesias coroado. Em Portugal imagino que a atitude não fosse muito diferente, temos essa matriz católica, patriarcal, pouco solidária com o sofrimento das mulheres, sejamos nós ou a Rainha Sofia.

A família real espanhola em Maiorca, 2007
A família real espanhola em Maiorca, 2007 Foto: Getty Images

Podemos dizer que Corinna Larsen foi, de facto, o grande amor do Rei?

Estou convencida que sim. Por ela, com os filhos já adultos, chegou a pensar em divorciar-se de Sofia. Foi Filipe VI, então Príncipe das Astúrias, que o fez cair em si, dizendo-lhe: "Papá, se queres acabar com a monarquia, vai em frente. Divorcia-te!"

Mas estou convencida que os seus últimos pensamentos irão para ela.

Como vê o futuro da monarquia em Espanha?

Não creio que os jovens sejam monárquicos mas, na verdade, não se sabe ao certo porque não se fazem referendos sobre o regime e não parece estar no programa de qualquer partido fazê-lo. Nem mesmo o Podemos alguma vez falou nisso, mesmo no momento em que a monarquia estava no seu ponto mais baixo de popularidade.

Sara Montiel, uma das primeiras amantes do rei
Sara Montiel, uma das primeiras amantes do rei Foto: Getty Images

Qual será o seu próximo livro?

Será uma novela, sem qualquer relação com estes temas. Tenho muita vontade de escrever a biografia da Rainha Letícia, que tem uma história extraordinária.

Era uma jornalista como nós...

Claro, como podem dizer que Letícia não tem biografia? Era uma mulher como nós, que tinha um ordenado, andava de autocarro, que teve um casamento falhado como tantas de nós e acabou por se tornar Rainha de Espanha.

No seu livro, diz uma coisa muito bonita sobre Letícia, que ela deixou de trabalhar na profissão mas intimamente continua muito ligada ao Jornalismo. 

As pessoas que lhe são próximas disseram-me que ela continua a manter-se muito informada, a fazer perguntas, a querer saber. Como sabes, não é uma profissão a que se simplesmente se vire as costas, somos jornalistas até quando estamos de férias. Depois de casar, ainda como princesa das Astúrias, Letícia ainda tentou participar em alguns documentários sobre a Natureza, mas até isso lhe foi negado.

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