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Maternidade independente. “Esta é a minha mãe. Mas o meu pai, quem é?”

São cada vez mais as mulheres que optam por ter um filho através de um dador de esperma. As técnicas são algumas e as dúvidas também. Há, porém, uma questão que tarda, mas que sempre surge: o momento em que o filho pergunta pelo pai. Uma mãe independente e uma psicóloga trazem algumas respostas.

Foto: Pexels
14 de junho de 2022 Pureza Fleming

O que é uma família? Como é constituído um núcleo familiar? Desde pequenos que, na escola, nos fazem desenhar a nossa família: por norma rabisca-se um pai, uma mãe, os filhos, quiçá os cães ou os gatos. Mudam-se os tempos e a realidade é que cada vez mais se assiste a uma pluralidade de novos "modelos familiares": pais separados ou divorciados, mães ou pais solteiros, crianças que vivem com os avós porque os pais trabalham "lá fora", casais homossexuais com crianças que têm dois pais ou duas mães… Por fim, e ainda que em Portugal não seja uma existência de peso (ao contrário de países como os Estados Unidos ou até como os nossos vizinhos e nuestros hermanos espanhóis), hoje começa também a assistir-se às chamadas famílias monoparentais — não no sentido de mães ou pais solteiros, mas aquela que resulta da decisão da mulher ter um filho sozinha, recorrendo à ciência.

Por outras palavras: o tipo de família que exclui do desenho da escola a figura paternal. Foi o caso de Inês Fontoura, 45 anos, mãe de Luca de três anos, fruto de uma inseminação artificial, um tratamento de medicina de reprodução assistida: "A maior parte das mulheres que decidem enveredar pela produção independente têm uma história muito igual.

Todas nós vimos de relações falhadas, todas nós temos muito amor para dar e, portanto, todas nós sentimos que podemos construir a nossa própria família sem termos um par. E digo isto porque, desde o momento em que eu partilhei a minha história publicamente, fui contactada por centenas de mulheres. E a história era sempre a mesma… Relações falhadas, o facto de se não encontrar ‘a tampa para a sua panela’. Eu nunca quis ser mãe biológica, sempre me imaginei com uma criança adotada e cheguei a ir à Santa Casa da Misericórdia para saber o que era preciso fazer para adotar uma criança. Normalmente o processo de adoção passa por três fases, antes de entrar mesmo no processo em si. Eu só estive na primeira fase, mas logo percebi que ia ser um processo bastante difícil. A adoção em Portugal é um processo moroso, ainda mais para uma mãe sozinha. Foi então que decidi que não queria esperar esse tempo todo".

Relembra que estava no final de (mais) uma relação quando tomou a decisão de enveredar pela produção independente. "A pessoa com quem eu estava teve uma proposta de trabalho para ir para Luanda, então eu decidi pôr um basta nesta hipoteca constante da minha vida em prol de outra pessoa. Aquela pessoa foi-se embora em dezembro e em fevereiro do ano seguinte eu já estava na clínica a informar-me acerca do que era preciso para avançar com o processo". Recorda que não teve dúvidas nenhumas na hora de avançar. "Na primeira consulta perguntei tudo: ‘Como é que isto se faz? Quanto é que custa? Qual é o processo? Que exames tenho de fazer? Para ele nascer no verão quando é que eu tenho de fazer isto? Trata-se de uma Inseminação Artificial ou de uma FIV (Fecundação In Vitro)? Já que são coisas diferentes?…’ E quis muito escolher a etnia do dador — queria que fosse de origem africana —, mas não foi possível. Naquela altura a clínica não permitia que se escolhesse qualquer característica do dador — hoje em dia já é possível".

Filipa Santos, psicóloga da Clínica IVI Lisboa, avança: "Temos muitas mulheres que procuram a consulta para obter informações e saber quais as possibilidades de engravidarem de forma independente. Nessa fase, muitas ainda não tomaram a decisão. Por norma, quem chega já com a decisão tomada, porque já fez o processo de tomada de decisão, pode ter dúvidas em relação a questões especificas, mas que não condicionam a decisão no seu todo". Acrescenta ainda que o maior receio se prende com o impacto que a decisão de terem um filho sozinhas possa ter na perspetiva do filho. Mas há muitas outras questões: "O receio da reação das pessoas mais próximas, o peso da responsabilidade no sentido de assegurar a rotina, a estabilidade financeira, o receio de alguma coisa lhes acontecer e as implicações que isso possa ter para a criança". 

O amor — e só o amor — importa?

Apesar da certeza da sua decisão, algo que a mãe de Luca enfatiza ao longo da nossa conversa num tom de voz seguro de si e bastante tranquilo, houve sempre questões que Inês soube que não podia deixar de fora ou simplesmente ignorar. Pontos de interrogação que, eventualmente, iriam acabar por surgir, tais como o Luca perguntar pelo seu pai. "Nunca pensei muito sobre o momento em que o Luca iria perguntar pela figura paterna que ele não tem, a figura masculina dentro de casa — porque ele tem tios diretos e tem todos os meus amigos — mas, de facto, em casa essa presença não existe. Em todo o caso eu nunca descurei do assunto. Eu sabia que haveria um momento em que ele haveria de fazer perguntas, o que é normal: ele olha à sua volta e os amigos têm um pai e uma mãe. Inclusive o Luca chamou, muitas vezes, de ‘papá’ ao pai de uns amiguinhos que ele tem — que são os filhos dos meus melhores amigos. Os filhos chamam-no de ‘papá’ e ele imita. O Luca não percebe a figura paternal. Percebe a figura materna — ‘esta é a minha mamã', ele marca um território e há ali uma proteção territorial. Contudo, no que respeita o pai, ele não sabe o que isso é, mas acredito que vá começando a perceber que essa figura não existe na vida dele. Eu nunca dramatizei muito essa questão porque sempre comparei essa situação com outras mais graves: o pai existiu e morreu; o pai abandonou a família; o pai maltrata a mãe; o pai existe, mas é omnipresente… Sempre que eu me debruçava sobre isso, sem grandes dramatismos, pensava: ‘Ok, essas pessoas devem ter muito mais para explicar aos filhos do que eu, porque no caso do Luca essa pessoa simplesmente não existe. Ele não terá de lidar com uma situação de rejeição, de abandono, de maus tratos…’", acrescenta Inês Fontoura.

E quando surgir a pergunta: "quem é o meu pai?"

E mantém: "Foi sobretudo quando comecei a ouvir o Luca chamar ‘pai’ a esse meu amigo que procurei uma psicóloga — que na realidade já era a minha psicóloga. Pedi-lhe que me preparasse para quando essa pergunta surgisse. Quando esse momento chegasse. E, basicamente, o que ela me disse foi para contar sempre a verdade (nem nunca pensei fazê-lo de outra forma); e contar aquela história que todos os pais contam às crianças pequeninas quando eles perguntam de onde é que vieram: ‘O pai pôs a sementinha dentro da barriga da mãe e tu nasceste’. Neste caso, ‘a mãe queria muito ter-te porque tinha muito amor para dar, então a mãe arranjou uma sementinha, pôs na barriga e tu nasceste. E tu estás aqui porque a mamã ama-te muito, porque a mamã queria ter uma família, porque tu és a família da mãe’. E esta é a história que se deve contar. Com três anos eles não percebem. Podemos contar a história, ele decora-a e reproduz. Mas não a percebe. Só vai realmente começar a entender com seis ou sete anos. Há um livro em Portugal que se chama O Álbum das Famílias: Todas Diferentes e Especiais, Editora Booksmile (2017), é um livro só para sete anos. Um livro que não conta uma história, mas que explica os vários tipos de família. Eu tenho comprado livros que contam a história de uma família monoparental, e as histórias andam sempre muito à volta do mesmo e são sempre baseadas no amor. Eu tenho andado a introduzir estas histórias ao Luca para que toda esta realidade não lhe seja nunca estranha", arremata.

A psicóloga da clínica IVI confirma a importância de se ir "conversando" com estas crianças acerca das suas realidades e da soberania do amor: "Explica-se desde que eles são pequenos, na medida da capacidade deles compreenderem. Vai-se construindo essa narrativa em conjunto. A ideia é explicar às crianças que família é amor, respeito, cuidar em continuidade, assegurar as necessidades físicas e emocionais, e que as famílias são todas diferentes umas das outras na forma como se organizam. O importante é ser família, independentemente do modelo que cada uma representa. Quando se faz essa construção desde cedo pode ser algo muito natural para as crianças". E soma: "As famílias são mesmo todas diferentes umas das outras, na forma como se estruturam, organizam, como evoluem e se transformam e as crianças experienciam essa diversidade desde cedo. A abertura aos diferentes modelos promove a compreensão e o respeito, assim como o sentimento de pertença e segurança".

Para Inês Fontoura, a escolha de "acartar com tudo sozinha — o bom e o mau, as tarefas, a educação, as contas, os momentos maus, as tristezas, as angústias, os medos…" pode ser vista sob uma dupla perspetiva. Apesar de estar tudo "em cima de si", apesar de, por vezes, se sentir "exausta", tal como confessa, e até possa sentir "saudades dos tempos de solteira", traz sempre à sua memória: ‘Inês, tu escolheste isto com todas as adversidades e tudo aquilo que tu não conhecias…’. E sublinha: "É certo que eu tenho todo o bom e todo o mau, mas sou eu que decido de tudo. Não tenho de partilhar isto com ninguém, e não dependo de ninguém para tomar decisões sobre o que vai acontecer na vida do Luca. E isso para mim é bastante libertador", afirma.

Além disso, garante que 
para qualquer mulher que queira partir nesta aventura, há alguma cartas que têm de ser postas em cima da mesa, e que vão muito além da questão da não-existência de um pai: "Que rede de apoio é que se tem? E não é uma rede de apoio para podermos ir jantar fora ou sair à noite com as amigas. Mas sim: se nos ligam da escola a meio da tarde a dizer que ele está com febre e que é preciso ir buscá-lo, eu posso ir? Tenho alguém que o possa ir buscar por mim? Isto foram coisas que eu tentei perceber, se tinha esse apoio à minha volta e, se não tivesse, como é que eu iria organizar essa parte.

Suporte familiar, finanças e educação - as três bases

Outra questão foi a financeira: não temos de ser ricos para ter filhos, mas eu vivia com um ordenado que, de repente, iria ser partilhado com uma pessoa, com uma pessoa que depende de mim e que precisa de coisas que custam dinheiro. Isto tendo um filho saudável, que é o meu caso. Mas e se eu tivesse um filho doente? Teria capacidades para isso?". Inês acrescenta que, mais importante de tudo, é ser-se uma pessoa descomplicada e muito prática. "O dia a dia às vezes é difícil… Eu sempre geri a minha vida com o Luca em função do que era melhor para mim. Um bocado egoísta, sim, mas tendo em conta que eu estava sozinha — e estou sozinha — eu tenho de facilitar a minha vida. Assim, por exemplo, só dei de mamar um mês — para já custava-me imenso dar de mamar —, ele estava a beber fórmula ao mesmo tempo e eu percebia que com a fórmula ele dormia muito mais tempo. Ser uma pessoa fácil é um requisito quase obrigatório para uma aventura destas", arremata.

Retomando a questão do pai, e da figura central que este ocupa no modelo imposto pela sociedade, Inês considera que há ainda um longo caminho a percorrer: "Na escola do Luca não existe essa educação para a diversidade, inclusividade e para os diferentes tipos de família. No ano passado, no Dia do Pai, puseram o Luca a fazer um postal a dizer ‘Pai, adoro-te daqui até à Lua’. O que não faz sentido nenhum já que elas sabem desde o primeiro dia que ele não tem pai e as razões pelas quais ele não tem pai. Prova que não só não estão preparadas, como também não querem seguir esse caminho."

Filipa Santos considera que essa é uma questão que preocupa as mulheres e as famílias de uma forma geral. "Sabemos que o mais importante não é o formato da família, mas sim a forma como a família cuida e se organiza para ir ao encontro das necessidades da criança. Na maternidade independente, a base da família é a mãe e a decisão é uma decisão de amor, não se trata de desvalorizar o papel do pai (que neste caso não existe), mas sim de dar a possibilidade a uma história de amor. É uma decisão que deve ser bem refletida, sobretudo pelo peso da responsabilidade cair sobre uma pessoa única e não haver esse apoio ou alternância de papéis que nas famílias com dois adultos mãe / pai, mãe / mãe ou pai / pai existe. Processos de identificação e desidentificação vão acontecer naturalmente em qualquer modelo familiar".

Inês Fontoura não tem hoje qualquer dúvida ou arrependimento. E garante não ter medos no que respeita a educação do Luca: "Tento fazer o meu melhor, sei que nem sempre consigo, mas eu acho que isso é uma dor comum a todos os pais. Tenho tanta certeza daquilo que fiz que tinha feito tudo outra vez. Eu escolhi isto, não foi uma consequência. Eu não engravidei de um namorico ou de uma one night stand… Foi uma escolha que fiz mesmo não sabendo o que é que significava ser mãe, e menos ainda ser mãe independente". 

Na sinopse do livro citado acima, O Álbum das Famílias: Todas Diferentes e Especiaispode-se ler que todas as famílias são muito diferentes, mas que em comum partilham algo: (…) "São um espaço de afetos, onde o amor que as une é mais importante do que qualquer outra das suas características". Que seja, pois, amor.

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