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"O diabo pode vestir-se de teletrabalho e afetar a nossa saúde física e mental”

Sente-se constantemente cansada por mais que durma? Não tem conseguido enfrentar o dia sem uma dose imponente de café? Estes são sinais de fadiga crónica causada pelo “novo normal” em casa. Saiba como contorná-la.

Audrey Hepburn no filme "Férias em Roma", 1953
Audrey Hepburn no filme "Férias em Roma", 1953
19 de abril de 2021 | Vitória Amaral

Não precisamos de reiterar o quão desafiante tem sido o dia a dia de todos nós durante este último ano. Entre os confinamentos que nos têm sido impostos e a tentativa de encontrar um equilíbrio no nosso quotidiano (ainda relativamente) recente, tendo de trabalhar ou simplesmente ficar em casa, discutir a saúde mental tornou-se mais relevante do que nunca. Numa altura em que dependemos tanto de nós próprios, a rotina do teletrabalho conciliada com a vida doméstica pode facilmente perturbar os nossos níveis energéticos, dando a sensação de nos sentirmos mais cansados e mentalmente esgotados do que nunca, mesmo tirando as deslocações casa-trabalho ou as idas ao ginásio da equação. Conversámos com Cristina Sousa Ferreira, psicóloga e sócia gerente da Oficina da Psicologia, sobre este mal silencioso, mas comum, e o que podemos fazer para o combater.

Que repercussões considera que o confinamento tem tido nos portugueses?

Os portugueses em geral são de diferentes faixas etárias e estão em diferentes fases de vida, de diferentes áreas geográficas, urbanas ou rurais, do interior ou do litoral… Uns vivem sozinhos, outros em família, em casal com filhos… A umas crianças impediu o crescimento provocado pela reduzida estimulação dos jogos com os colegas, os desafios da partilha dos brinquedos, as experiências de socialização, de aprendizagem das relações, a uns jovens dificultou a  descoberta da sexualidade, as experiências de grupo, a afirmação de uma escolha e área profissional, os  rituais de entrada para a faculdade, de experiências de viagens e contextos multiculturais, de entrada na vida ativa,  da adrenalina dos primeiros projetos, a  muitos idosos trouxe a solidão… a todos nós trouxe uma vida suspensa de muitas atividades, afetos, proximidades,  de muito stress e imensa incerteza.

Que papel tem aqui a liberdade (ou a ausência dela)?

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Incomoda-nos não poder decidir, não poder escolher se ficamos ou se vamos, não poder sair, não poder ser livres. Enfrentamos ainda um perigo que não vemos e que não sabemos quando se vai embora. A liberdade é algo que nunca esperámos que nos fosse retirada desde que a conquistámos de forma mais plena na idade adulta. Já faz algum tempo que muitos ganharam o direito ao seu tempo fora da "gaiola". E agora… este direito foi retirado. Segurança e liberdade completam-se uma à outra e, idealmente, precisamos das duas para nos contentarmos. Muitas vezes arriscamos e atrevemo-nos por caminhos menos seguros ou fora da nossa zona de conforto, mas habitualmente damos prioridade à segurança em detrimento da liberdade. Foi o que fizemos e ficámos em casa. E não tem sido nada fácil! A sensação de segurança vem ancestralmente da ligação com os outros e está na natureza do nosso cérebro sincronizar com outras pessoas. Este distanciamento social não nos sossega e o desconforto e a ansiedade instalaram-se. O relógio continuou a andar, mas as vidas foram interrompidas!

Concorda que nestes tempos de pandemia a saúde mental nunca esteve tão mal?

Esta é uma altura de grande incerteza, de "não sabemos" e em que ansiamos por recuperar o controlo. Navegar na incerteza não tem assim muita graça! Mas a vida nem sempre tem graça, como sabemos. Mas isso não tem ajudado! O stress, burnout, ansiedade e depressão instalaram-se em muitas casas, muitas pessoas. Nesta pandemia quantas vezes já demos por nós com desânimo, falta de motivação, dificuldade em concentrarmo-nos no trabalho e sem a energia que precisamos para lidar com os filhos, as tarefas domésticas, o trabalho e reparamos que nem mesmo aquilo que adoramos fazer nos apetece.

Que fatores acha que são decisivos para a nossa saúde?

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O nosso estilo de vida, assim como uma má gestão do stress e uma má alimentação, desempenham um papel importante no nosso equilíbrio e na nossa saúde psicológica. Trazer mais bem-estar, motivação, capacidade de aprendizagem e relaxamento ao nosso dia a dia tem sido um dos enormes desafios do confinamento porque o desequilíbrio pode levar a problemas de humor, de memória, de energia, a vícios, e perturbações do sono. O nosso estilo de vida molda de muitas maneiras a forma como vivemos a vida e quem nós somos. Em tempos de incerteza parece que alguma coisa ainda está nas nossas mãos. É uma boa notícia, não? Trabalhar a partir de casa é uma das mudanças que de repente nos foi imposta e um enorme desafio à "normalidade". Precisámos de acertar agulhas e definir estratégias para assegurar o tempo de sono necessário, o relaxamento, alívio de tensão e teledescanso cruciais. Precisámos ainda de garantir o mindset de produtividade, a competência e os resultados. Assegurar energia e motivação para evitar a procrastinação e afastar os pensamentos críticos e de desvalorização e depreciação do nosso trabalho.

Especialmente para quem está em teletrabalho, como vê esta passagem do físico para o digital?

Se nos perguntassem se queríamos optar por trabalhar a partir de casa muitos diríamos "é para já" outros "só alguns dias" e ainda outros "nem pensar". Muitos já traziam o trabalho para casa e nunca desligavam verdadeiramente, mas também outros levavam a casa para o trabalho, muitas vezes o almoço, as fotografias da família e às vezes até os filhos. Só que, sem que ninguém nos tivesse perguntado nada vimo-nos forçados, de um dia para o outro a trabalhar à distância do nosso sofá! Cá estamos, felizmente para a maior parte de nós (porque protegidos de um vírus), a trabalhar a partir de casa. Uma coisa é poder escolher e haver flexibilidade outra é a rigidez e a imposição. E não, não nos damos bem com isto! Deixámos de trabalhar a partir das nossas casas para viver nos nossos trabalhos. Pessoal e profissional misturam-se e confundem-se. Perdemo-nos nos dias da semana e parece que é sempre fim de semana, mas nunca é fim de semana. Precisámos de nos ajustar, adaptar e fizemos o melhor que podíamos. E já estamos nisto há mais de um ano!

Em que medida é que o teletrabalho pode interferir de forma negativa com o nosso bem-estar físico e mental?

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Trabalhar a partir de casa não é assim tão deslumbrante quanto se apregoa, nomeadamente se estamos num espaço que não é adequado, se somos interrompidos pelos filhos e as suas necessidades, pelo gato ou cão a quem invadimos o espaço, ou pela solidão de não ter com quem fazer um intervalo. Já fizemos alguns ajustes, testes e descobertas. Tivemos que acertar agulhas. De repente o espaço de lazer, de experiências e vivências pessoais torna-se também o nosso gabinete, o nosso posto de trabalho. Que condições, que espaço, que rotinas? Como faço a gestão dos meus tempos pessoais e profissionais? Como e quando integro as minhas necessidades de descanso, de silêncio e defino limites a colegas, chefes e família? Como faço uma limpeza a fundo e asseguro o tempo de sono necessário, os exercícios de relaxamento e alívio de tensão e o teledescanso? No meio de toda esta trapalhada temos, no entanto, que manter a produtividade, o foco e garantir a competência e os resultados. Não queremos um emprego em risco, como tantas outras pessoas. E como evitamos a procrastinação? Como afastamos os pensamentos críticos, a desvalorização e depreciação do nosso trabalho? Como asseguramos a concentração e foco? Como decidimos e controlamos as distrações? Sim porque o diabo pode vestir-se de teletrabalho e afetar a nossa saúde física e mental!

Acha que a trabalhar de casa podemos de facto sentir-nos mais cansados?

Neste momento não há tréguas e damos por nós exaustos depois de um dia de videoconferências. Sim, a exaustão do online é real. A nossa atenção tem exigências diferentes quando estamos online. Focamos intensamente o nosso olhar e atenção nos pequenos estímulos cinzentos que vemos no écran quando habitualmente tínhamos uma palete completa com as cores da linguagem corporal e, muito mais facilmente nos distraímos com emails ou notificações. Precisamos de mais concentração. E quando estamos com várias pessoas online ao mesmo tempo, as pistas visuais multiplicam-se, a que ainda acrescem as crianças que aparecem sem aviso, ou o gato que passeia pela mesa de trabalho de um nosso colega ou o cão que ladra na casa de outro, como sempre lhes foi reconhecido direito. Isto não era vida real! Agora é! E isto não é só o teletrabalho. É o teletrabalho em contexto de pandemia, de estado de emergência, de confinamento.

Há algumas ocasiões em que talvez não nos ajudemos a nós próprios?

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Quantas vezes já deu por si a avançar com o seu trabalho almoço dentro? "Vou só acabar isto que assim retiro da minha cabeça e posso despois relaxar" e assim salta o almoço por que tem depois uma reunião com um colega. E ao fim do dia que é só mais isto e mais aquilo.... Pare! O trabalho estará à nossa espera no dia seguinte, não foge. Temos que ser bons para nós próprios. O computador na mesa de jantar, a cadeira de madeira ou o banco da cozinha. A internet sobrecarregada com a utilização de dois filhos mais um casal que fica instável… quatro pessoas, 24h num espaço que partilhavam habitualmente não mais do que 10/12h. Uf, há atropelos, conflitos, mau estar que se descarrega em quem está mais próximo… mas também momentos de criatividade e cumplicidade partilhadas. É importante saber gerir o tempo de proximidade e de afastamento, as necessidades individuais de cada elemento na família. É uma montanha-russa de emoções que também cansa.

Que maus hábitos julga que causam a fadiga ou mal estar contínuos, quando estamos em casa?

O mau hábito de não se parar, de não se descansar. Os estudos demonstram que nos concentramos melhor e sentimo-nos menos stressados quando aproveitamos pausas para nos desligarmos do trabalho. Quanto vezes nos sentimos culpados ou frustrados no final do dia por não termos feito o que se esperava de nós? Não estamos sozinhos! No entanto, a culpa e a frustração não são úteis para nos ajudar a continuar. O que podemos fazer? Praticar a autocompaixão. As pessoas autocompassivas reconhecem quando estão sofrendo e são gentis consigo mesmas nesses momentos, diminuindo assim seus próprios níveis de ansiedade e depressão relacionadas.

Que conselho deixaria, ainda?

É ainda importante reconhecer que fatores nos impedem de realizar as tarefas como gostaríamos e reconhecer que muitas vezes nem tudo está nas nossas mãos. Ser realista com o conjunto de atividades que nos propomos realizar durante o dia, com tarefas domésticas e profissionais que se misturam e espaços que se confundem é um passo fundamental. Se aceitamos que é sempre possível fazer mais e melhor é expectável que a culpa diminua. Pensar que sem uma autocrítica rigorosa nos podemos tornar mais fracos ou desleixados é um erro pois os estudos demonstram o contrário. Uma das importantes conclusões é que a aceitação de um erro ou mau comportamento (e não o perdão) faz com que as pessoas abracem o arrependimento e, assim, possam descobrir novos caminhos para seu desenvolvimento pessoal.

Saiba mais Cristina Sousa Ferreira, Diabo, Oficina da Psicologia, saúde, Saúde mental, Confinamento, Covid-19
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