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A Flor do Cacto

As mãos, em vez do pénis de Napoleão

'A Batalha de Austerlitz' (1960)
'A Batalha de Austerlitz' (1960) Foto: D.R
03 de agosto de 2023 Cláudia Lucas Chéu

Ser mulher foi durante muitos séculos uma invenção dos homens. Disseram-nos como devíamos ser e nós cumprimos. Só algumas, poucas, se deixaram ser como realmente eram, às escondidas, quando ninguém as estava a ver. Embora sentissem que estavam a fazer algo de errado porque lhes diziam para serem coisas que não queriam ou pressentiam. Ainda assim hoje o é em muitos pontos do mundo. Pegar num livro, por exemplo, só fazia sentido se fosse de determinados autores tidos como menores, romances ligeiros de amor para as donzelas confirmarem que tinham sido fadadas para o sofrimento amoroso. Só a partir do século XIX é que as mulheres começaram a ter acesso aos livros e, mesmo assim, as que liam com regularidade eram apelidadas pelos homens de histéricas e neuróticas. Não sei se os homens sabiam que ler nos daria uma consciência do mundo e se isso os atemorizava de forma competitiva, ou se apenas achavam impróprio e desinteressante que a mulher ganhasse densidade. Por isso acredito que ser mulher ainda é uma descoberta, uma construção em aberto, na realidade como é todo e qualquer ser. É fácil perceber que será sempre uma obra em aberto mas cujas coordenadas começam a ganhar uma forma mais diversa e livre.

Não sei o que é ser mulher, nem sei bem o que é ser eu (será que alguém sabe?), contudo, ter outras balizas para visualizar o futuro, que não foram criadas exclusivamente por homens, é importante para conseguir um dia marcar golos. E uso a metáfora futebolística propositadamente: mais uma coisa que nos foi interditada durante imenso tempo, o desporto. Sem modelos femininos de referência, como se espera que as meninas cresçam livremente como os rapazes? São precisamente esses modelos, no desporto ou em qualquer área, que contribuem ativamente para uma nova construção daquilo que é ser mulher. E não passa por termos atividades iguais às dos homens, ou dignificarmos apenas as mulheres que fazem esse tipo de atividades.

Por que motivo se consideram menos nobres as atividades consideradas tipicamente femininas, como bordar ou costurar? Apenas porque sempre vimos pessoas sem poder fazê-lo, neste caso as mulheres. Porque se Napoleão, por exemplo, bordasse publicamente, se com isso mostrasse o seu poder, estou certa de que seria uma atividade transformada mais tarde em doutoramento e proibida às mulheres, que seriam tidas como fracas de mão para bordados. Ter-se-iam guardado as mãos de Napoleão, que sabiamente tinham bordado e assinado tratados, em vez do pénis que pouco mais deve ter feito do que urinar e ter prazer? Não podemos saber. À partida, Napoleão não bordava mas sabe-se publicamente que foi autopsiado e que o seu pénis, e não as mãos, lhe foi retirado e permanece guardado ainda hoje nos Estados Unidos. Não é por demais significativo que se guarde o pénis de Napoleão como modelo da testosterona que regulou e regula o mundo?

Como podemos nós, mulheres, saber quem somos hoje quando a História ainda trata o pénis como uma relíquia?

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

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