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Artemisia Gentileschi, o génio esquecido da pintura barroca

Está representada em museus como o Prado, a National Gallery ou os Uffizi, mas, ainda hoje, Artemisia Gentileschi é mais conhecida pela violação de que foi vítima na juventude, do que pela qualidade da sua obra. Disponível na plataforma de streaming Filmin, o documentário de Jordan River, Artemisia, pintora guerreira, propõe-se mostrar que a artista italiana foi muito mais do que uma vítima.

Auto-retrato como Alegoria da Pintura, cerca de 1638-39
Auto-retrato como Alegoria da Pintura, cerca de 1638-39 Foto: Artemisia Gentileschi/Royal Collection Trust / HM The Queen
17 de março de 2021 | Maria João Martins

 "O nome de uma mulher levanta dúvidas até que o seu trabalho fale por si", escreveu, em meados do século XVII, Artemisia Gentileschi, quando, ao serviço dos grandes mecenas da Europa de então, já pintara alguns dos seus quadros mais impressionantes. Contemporânea de Caravaggio (com quem os historiadores de arte a equiparam frequentemente, quer pela escolha dos temas, quer pela proximidade das técnicas), trabalhou às ordens do Grão-Duque da Toscânia, dos reis Filipe IV de Espanha e Carlos I de Inglaterra, mas a posterioridade conhece-a mais pela violação de que foi vítima aos 18 anos, e pelo processo judicial que se seguiu ao crime, do que pela importância da sua obra pictórica.

Essa é a premissa do documentário (disponível na plataforma de streaming Filmin), Artemisia Gentileschi, Pintora Guerreira, dirigido por Jordan River: representar a artista como nome maior da Pintura Barroca, e ícone feminista, afastando-se dos rótulos de "vítima" e "pintora violada" a partir dos quais a sua pintura tende a ser lida em filmes, ensaios e até em exposições, como a que ocorreu em Milão, em 2012, onde uma cama revolta, colocada à entrada, precedia a mostra dos quadros. 

A mulher para que confluem todos estes olhares nasceu em Roma a 8 de julho de 1593, filha do pintor Orazio Gentileschi, que não só a iniciou na sua arte, como constatando que a jovem era muito mais dotada do que os irmãos, a levou a frequentar os círculos de outros pintores e marchands tanto em Itália, como fora dela. Mas esse era ainda um mundo exclusivamente masculino, demasiado perigoso para uma mulher.  Muito jovem, Artemisia foi violada pelo pintor Agostino Tassi, com quem Orazio trabalhava na decoração dos cofres do Casino delle Muse, no Palazzo Pallavicini-Rospigliosi, em Roma. Numa época em que a perda da virgindade fora do casamento significava a ruína para a mulher e para a família, a jovem continuou a relacionar-se com Tassi, na esperança, segundo a própria relatou aos juízes, de que um casamento com ele viesse a restaurar a sua reputação diante da sociedade, mas tal nunca aconteceu. Nove meses após a violação, quando soube que Tassi não tinha qualquer intenção de casar com Artemisia, Orazio apresentou queixa contra o agressor. O que se seguiu foi um longo processo judicial em que a devassa da intimidade, sobretudo a da jovem sujeita a um exame ginecológico e até a um interrogatório sob tortura, foi uma constante. No final, Tassi foi condenado à pena de prisão de um ano, mas nunca a cumpriria, pois o caso foi revisto e a sentença anulada.

Susana e os Anciãos, 1622
Susana e os Anciãos, 1622 Foto: Artemisia Gentileschi/© The Burghley House Collection
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Sem dúvida marcante, esta provação não pode, ao contrário do que tem acontecido com demasiada frequência, ser a única chave para ler a expressividade e a força que irradiam da obra de Artemisia, uma vez que já as encontramos na que é considerada a sua primeira grande obra, Susana e os Anciãos, anterior ao trágico encontro com Tassi. Tal como Caravaggio, com quem parece ter contactado na juventude, Artemisia evidencia grande mestria na escolha das cores, no tratamento de luzes e sombras e no recurso a modelos vivos de homens e mulheres, o que lhe permite ser mais intensa e realista na representação dos corpos. Numa época em que os mecenas, fossem religiosos ou não, tinham grande apetência pela representação de temas bíblicos, ela pintou vários episódios e personagens retirados das Escrituras, Cristo e a Samaritana no Poço; Lot e as Suas Filhas; Cristo Abençoando as Crianças ou Madalena Penitente, mas é sobretudo diante de cenas mais violentas como as representadas em Salomé com a Cabeça de São João Baptista ou Judite decapitando Holofernes que muitos críticos mostram a sua perturbação. Que só algo de terrível poderia justificar que ela representasse, com tamanha expressividade, a cena em que um homem é brutalmente executado por um grupo de mulheres, sugere-se. O que é feito dos temas delicados, como crianças e flores, tidos como preferidos pelas artistas do sexo feminino? Como se não bastasse para desinquietar os espíritos, Artemisia também não hesitou na sensualidade e realismo com que pintou o corpo feminino em obras como Cleópatra ou Maria Madalena.

O Nascimento de São João Batista, cerca de 1635
O Nascimento de São João Batista, cerca de 1635 Foto: Artemisia Gentileschi/© Museo Nacional del Prado, Madrid

 

O que o documentário de Jordan River agora nos vem mostrar é que esta ousadia de temas e formas é coerente com a vida de uma mulher que jamais se submeteu ao estatuto de vítima, como, aliás, demonstram os auto-retratos que dela conhecemos. Apesar dos piores receios do pai, Artemisia casaria com um artista de Florença, Pierantonio di Vincenzo Stiattesi de seu nome, e juntos tiveram 5 filhos, ao mesmo tempo que bem conceituada nos meios artísticos, se tornaria a primeira mulher aceite na Academia de Artes do Desenho de Florença, em 1616, com apenas 23 anos. Estes são os anos em que circula entre os grandes centros da arte em Itália (Florença, Roma, Veneza, Nápoles), ampliando um círculo de amizades que chegou a incluir Galileu Galilei. Aos 34 anos, em 1627, pinta a que será uma das suas obras mais importantes, Aurora, um autorretrato de grandes dimensões em que uma figura feminina seminua, lírica e teatral, chama a si a tarefa de despertar o mundo do seu noturno torpor. Em 1638, acede a deslocar-se a Londres a convite do rei Carlos I. Ali pinta David e Golias, um quadro incorretamente atribuído a um dos discípulos do seu pai (Giovanni Guerrieri) até 2020, quando o restauro da obra revelou finalmente a assinatura da pintora.

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O esquecimento que, sobre ela, recaiu seria, pois, posterior à sua morte, cuja data precisa é desconhecida, embora se considere que terá ocorrido em Nápoles por volta de 1653. O interesse contemporâneo pela vida e obra de Artemisia Gentileschi foi desencadeado na década de 1970, quando a historiadora de arte feminista Linda Nochlin publicou um artigo intitulado "Why Have There Been No Great Women Artists?" (Por que não houve grandes artistas mulheres?) em que, pela primeira vez, a sua obra foi equiparada a outros grandes nomes do Barroco italiano. O artigo explorou a definição de "grandes artistas" e estabeleceu que foram instituições opressivas, e não a falta de talento ou de trabalho, a impedir as mulheres de atingir o mesmo nível de reconhecimento que os homens receberam na arte e em outros ramos de atividade.

Depois de, em 1997, Agnès Morel, ter realizado um filme em torno do processo que opôs Gentileschi a Tassi, Jordan River propôs-se retratar, como afirmou durante o Los Angeles Film Festival, "não uma vítima nem uma mulher indestrutível, mas alguém determinado a defender e desenvolver o seu talento." Artemisia, pintora guerreira chega agora à plataforma de streaming Filmin recomendada por vários prémios internacionais, como o de melhor fotografia do Festival de Cinema de Los Angeles ou de Melhor Documentário do Tierra di Siena Film Festival.

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